segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Estado laico e pluralista e as Igrejas


6/11/2010 17:44, Por Leonardo Boff - do Rio de Janeiro

A descriminalização do aborto e a união civil de homosexuais, temas suscitados na campanha eleitoral, ensejam uma reflexão sobre a laicidade do Estado brasileiro, expressão do amadurecimento de nossa democracia. Laico é um Estado que não é confessional, como ocorre ainda em vários países que estabelecem uma religião, a majoritária, como oficial. Laico é o Estado que não impõe nenhuma religião mas que respeita a todas, mantendo-se imparcial diante de cada uma delas. Essa imparcialidade não significa desconhecer o valor espiritual e ético de uma confissão religiosa. Mas por causa do respeito à consciência, o Estado é o garante do pluralismo religioso.

Por causa dessa imparcialidade não é permitido ao Estado laico impôr, em matéria controversa de ética, comportamentos derivados de ditames ou dogmas de uma religião, mesmo dominante. Ao entrar no campo político e ao assumir cargos no aparelho de Estado, não se pede aos cidadãos religiosos que renunciem a suas convicções religiosas. O único que se cobra deles é que não pretendam impôr a sua visão a todos os demais nem traduzir em leis gerais seus próprios pontos de vista particulares. A laicidade obriga a todos a exercer a razão comunicativa, a superar os dogmatismos em favor de uma convivência pacífica e diante dos conflitos buscar pontos de convergência comuns. Nesse sentido, a laicidade é um princípio da organização jurídica e social do Estado moderno.

Subjacente à laicidade há uma filosofia humanística, base da democracia sem fim: o respeito incondicional ao ser humano e o valor da consciência individual, independente de seus condicionamentos. Trata-se de uma crença, não em Deus como nas religiões que melhor chamaríamos de fé, mas de crença no ser humano em si mesmo, como valor. Ela se expressa pelo reconhecimento do pluralismo e pela convivência entre todos.

Não será fácil. Quem está convencido da verdade de sua posição, será tentado a divulgá-la e ganhar adeptos para ela. Mas está impedido de usar meios massivos para fazer valê-la aos outros. Isso seria proselitismo e fundamentalismo.

Laicidade não se confunde com laicismo. Este configura uma atitude que visa a erradicar da sociedade as religiões, como ocorreu com o socialismo de versão soviética ou por qualquer motivo que se aduza, para dar espaço apenas a valores seculares e racionais. Este comportamento é religioso ao avesso e desrespeita as pessoas religiosas.

Setores de Igreja ferem a laicidade quando, como ocorreu entre nós, aconselharam a seus membros a não votarem em certa candidata por apoiar a discriminalização do aborto por razões de saúde pública ou aceitar as uniões civis de homosexuais. Essa atitude é inaceitável dentro do regime laico e democrático que é o convívio legítimo das diferenças.

A ação política visa a realização do bem comum concretamente possível nos limites de uma determinada situação e de um certo estado de consciência coletivo. Pode ocorrer que, devido às muitas polêmicas, não se consiga alcançar o melhor bem comum concretamente possível. Neste caso é razoável, também para as Igrejas, acolher um bem menor ou tolerar um mal menor para evitar um mal maior.

A laicidade eleva a todos os cidadãos religiosos a um mesmo patamar de dignidade. Essa igualdade não invalida os particularismos próprios de cada religião, apenas cobra dela o reconhecimento desta mesma igualdade às outras religiões.

Mas não há apenas a laicidade jurídica. Há ainda uma laicidade cultural e política que, entre nós, é geralmente desrespeitada. A maioria das sociedades atuais laicas são hegemonizadas pela cultura do capital. Nesta prevalecem valores materiais questionáveis como o individualismo, a exaltação da propriedade privada, a laxidão dos costumes e a magnificação do erotismo. Utilizam-se os meios de comunicação de massa, a maioria deles propriedade privada de algumas famílias poderosas que impõem a sua visão das coisas.

Tal prática atenta contra o estatuto laico da sociedade. Esta deve manter distância e submeter à crítica os “novos deuses”. Estes são ídolos de uma “religião laica” montada sobre o culto do progresso ilimitado, da tecnificação de toda vida e do hedonismo, sabendo-se que este culto é política e ecologicamente falso porque implica a continuada exploração da natureza já degradada e a exclusão social de muita gente.

Mesmo assim não se invalida a laicidade como valor social.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Publicado originalmente no Jornal Correio do Brasil

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os perigos da soberba

Mauro Santayana


Se o homem é a sua circunstância, a circunstância de José Serra é São Paulo. É conhecido o orgulho do grande estado, com desenvolvimento econômico que supera o de numerosos países europeus, sua cultura cosmopolita, e a oportunidade de realização pessoal de muitos dos que procuram ali a sua sorte. Todas essas qualidades do povo de São Paulo distanciam o estado do resto do país. Talvez por isso mesmo, as suas elites, ressalvadas as exceções, não saibam exatamente o que é o Brasil. Para isso, teriam que aceitá-lo. Da Avenida Paulista se vê melhor a City e a Place de la Bourse; seus telefones chamam mais Hong Kong e Shangai do que Aracaju e São Gabriel da Cachoeira. É provável que não seja exatamente assim, mas muitos paulistas dão ao resto do Brasil a impressão de que se sentem incomodados com a companhia dos demais estados.


Ainda agora estamos assistindo a uma dolorosa e inusitada campanha racista na internet, a partir de São Paulo, contra os nordestinos, a propósito da grande vitória de Dilma na região, embora os resultados eleitorais demonstrem que ela teria sido vitoriosa, mesmo que as eleições só ocorressem fora do Nordeste. A campanha ressuscita os fantasmas de 32, ao pregar, criminosamente, o separatismo. Esqueçamos, a fim de não turbar o raciocínio, a verdade de que São Paulo não se fez só: a inteligência, o trabalho e mesmo o capital dos demais brasileiros e dos imigrantes europeus ajudaram a erguer a sua economia.


Como a circunstância de José Serra é a que apontamos, temos a explicação para o desastrado pronunciamento que fez, diante da derrota. Faltou-lhe, naquele momento, a elegância que se espera dos grandes homens. Ele desdenhou o esforço feito – e reconhecido em todo o país – por Aécio, simplesmente ignorando-o. Agora, os mineiros se sentem outra vez afrontados.


Como Jânio, Serra falou em “forças terríveis”, anunciou, com suas metáforas, que continua candidato, falou em trincheiras, afirmou que o povo “não quis que fosse agora” e despediu-se com um “até breve”.


Alguns estão atribuindo a Aécio a derrota de Serra, embora o ex-governador de Minas tenha constrangido grande parte dos mineiros, ao solicitar votos a favor de quem os desdenhara, ao recusar a disputa democrática com Aécio junto às bases do PSDB. Aécio pode ter perdoado a Serra a aleivosia, mas os mineiros, não. E não se esqueça que Dilma nasceu em Belo Horizonte.


Espera-se que, passados os dias mais amargos do malogro eleitoral, José Serra recobrará a serenidade e entenderá que a sua biografia pode encerrar-se, sem nenhum desdouro, mesmo que não chegue à Presidência. Ele prestou assinalados serviços ao país, como líder estudantil, parlamentar e ministro da Saúde, e particularmente a São Paulo, como prefeito e governador, não obstante sua cumplicidade nas privatizações e na abertura do mercado financeiro. Para que volte a candidatar-se, é preciso que se dedique a conhecer realmente o Brasil. Conhecer não é visitar uma cidade ou outra, por algumas horas. É aceitar sua humanidade, ler os seus escritores, assimilar a fantástica sabedoria do povo, enfim, participar de seus sonhos, solidarizar-se e comover-se com seus sofrimentos – enfim, integrar-se em sua realidade.


Terminada a campanha, à vencedora cabe tomar a iniciativa de cicatrizar divergências sem a necessidade de compor interesses rasteiros por baixo de uma retórica elevada. Se São Paulo se orgulha em destacar-se do Brasil pela sua pujança econômica, Minas integra o todo brasileiro com alegria e sem qualquer constrangimento. Minas é o centro-oeste na margem esquerda do São Francisco; é o Nordeste nas duas margens do Jequitinhonha e na fronteira setentrional com a Bahia; é quase atlântica na Zona da Mata e no baixo Rio Doce. O conflito é entre a parcela mais soberba das elites paulistas e o resto do país.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Imprensa Livre


Vocês notaram que a "imprensa livre" (leia-se PIG) não mostrou as comemorações na rua pela vitória de Dilma?

Isto é que é "imparcialidade"!

Dia de Finados




Ou seriam "mortos-vivos"?



















Última cena: Enquanto se fecha a tampa do caixão, Serra anuncia tetricamente:
-"Eu voltarei!"


Minas Gerais vive situação política análoga ao Acre


Leandro Altheman

Apesar de eleger um governador e dois senadores do bloco político liderado pelo PSDB, em Minas Gerais, José Serra acabou sendo derrotado nas urnas pela candidata Dilma Roussef, por cerca de 2 milhões de votos.

De muito pouco adiantou a entrada em cena de Aécio Neves, retratado na capa da revista Veja, como aquele capaz de “mover a montanha”. Agora, tucanos mineiros e paulistas trocam acusações sobre a derrota. De um lado os tucanos mineiros ainda que não assumam abertamente, sugerem que se Aécio tivesse sido o candidato, teria tido maiores chances de vitória. Já o tucanato paulista vê em Aécio um aliado que não teria se dedicado com o afinco suficiente pela eleição de José Serra. A primeira bicada partiu do ninho paulista, a partir do coordenador de campanha de José Serra, Xico Graziano que em seu Twiter questionou a derrota sofrida em Minas Gerais. O troco do lado mineiro veio do presidente do PSDB, Nárcio Rodrigues: “se alguém estiver insatisfeito que vá se queixar ao bispo.”

Mas as analogias não param por aí. Hoje Acre e Minas contam com os mais fortes presidenciáveis para 2014. Dentro do PSDB todos sabem que Aécio seria o nome mais forte para a próxima disputa, mas o anúncio de José Serra que deseja continuar concorrendo à presidência pode corroer ainda mais as relações internas do PSDB.

O Acre tem a sua filha mais ilustre. Marina Silva foi até hoje aquela que em terceiro lugar em uma disputa, obteve o maior número de votos superando nomes de expressão nacional, como Ciro Gomes e Brizola, por exemplo. Um feito ainda mais notável se levarmos em conta o diminuto espaço do PV no horário eleitoral.

Nos dois casos, Acre e Minas, a questão partidária pode ser nó na provável candidatura de quaisquer um dos presidenciáveis. Como ficará o PV acreano na composição do novo governo da FPA? Como Aécio e os tucanos mineiros vão se viabilizar dentro do PSDB comandado pelos paulistas? Há sempre a porta aberta do PMBD, que poderia cair nas graças da nova presidenta, mudando completamente o cenário.

Mas talvez nos dois estados a resposta para o enigma esteja além das configurações políticas mais imediatas. Parte do resultado, tanto no Acre, quanto em Minas Gerais se explica também pela própria configuração política do eleitorado. Ou seja, apesar de aprovar o PT pelo quarto mandato consecutivo, ainda é um eleitorado conservador, que teme mudanças e que por isso mesmo continua referendando a FPA. Não adianta também o PSDB acreano achar que estes votos foram para o seu “projeto” político. Projeto que aliás, nem ficou claro durante a campanha (desmatamento zero?) É mais um voto contra o que representa o PT do que um voto em favor José Serra.

Em Minas, talvez muito possa ser explicado também pela velha disputa da “República do Café com Leite” quando São Paulo e Minas Gerais se alternavam no poder. Quando a oligarquia paulista se sentiu forte o bastante para tocar sozinha a política nacional, romperam-se as alianças a “República do Café-com Leite” chegou ao fim, dando início a uma nova era na política nacional. Uma história que se repete até hoje dentro do ninho tucano.

Que a comparação possa talvez servir de consolo, mas não de acomodação. É urgente a necessidade de uma auto-avaliação dentro da FPA, e para que de fato sejam estes os líderes que venham a conduzir o Acre para a era de grande transformação que se anuncia para todo país, com a eleição de Dilma Roussef.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Diretor do voz Populi avalia vitória de Dilma


Três mitos sobre a eleição de Dilma

Marcos Coimbra 31 de outubro de 2010 às 19:25h

Enquanto o País vai se acostumando à vitória de Dilma Rousseff, uma nova batalha começa. Nem é preciso sublinhar quão relevante, objetivamente, é o fato de ela ter vencido a eleição, nas condições em que aconteceu. Ela é a presidente do Brasil e, contra este fato, não há argumentos.

Sim e não. Porque, na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem. E as coisas que se dizem a respeito deles nos levam a percebê-los de maneiras muito diferentes.

Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência, a reduzir seu significado e lhe diminuir a importância. É nesse sentido que cabe falar em nova batalha, que se trava em torno dos porquês e de como chegamos a ele.

Para entender a eleição de Dilma, é preciso evitar três erros, muito comuns na versão que as oposições (seja por meio de suas lideranças políticas, seja por seus jornalistas ou intelectuais) formularam a respeito da candidatura do PT desde quando foi lançada. E é voltando a usá-los que se começa a construir uma versão a respeito do resultado, como estamos vendo na reação da mídia e dos “especialistas” desde a noite de domingo.

O “economicismo” – O primeiro erro a respeito da eleição de Dilma é o mais singelo.

Consiste em explicá-la pelo velho bordão “é a economia, estúpido!”
É impressionante o curso que tem, no Brasil, a expressão cunhada por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, quando quis deixar clara a ênfase que propunha para o discurso de seu cliente nas eleições norte-americanas de 1992. Como o país estava mal e o eleitorado andava insatisfeito com a economia, parecia evidente que nela deveria estar o foco do candidato da oposição.

Era uma frase boa naquele momento, mas só naquele. Na sucessão de Clinton, por exemplo, a economia estava bem, mas Al Gore, o candidato democrata, perdeu, prejudicado pelo desgaste do presidente que saía. Ou seja, nem sempre “é a economia, estúpido!”

Aqui, as pessoas costumam citar a frase como se fosse uma verdade absoluta e a raciocinar com ela a todo momento. Como nas eleições que concluímos, ao discutir a candidatura Dilma.

É outra maneira de dizer que os eleitores votaram nela “com o bolso”.
Como se nada mais importasse. Satisfeitos com a economia, não pensaram em mais nada. Foi o bolso que mandou.

Esse reducionismo está equivocado. Quem acompanhou o processo de decisão do eleitorado viu que o voto não foi unidimensional. As pessoas, na sua imensa maioria, votaram com a cabeça, o coração e, sim, o bolso, mas este apenas como um elemento complementar da decisão. Nunca como o único critério (ou o mais importante).

A “segmentação” – O segundo erro está na suposição de que as eleições mostraram que o eleitorado brasileiro está segmentado por clivagens regionais e de classe. Tipicamente, a tese é de que os pobres, analfabetos, moradores de cidades pequenas, de estados atrasados, votaram em Dilma, enquanto ricos, educados, moradores de cidades grandes e de estados modernos, em Serra.

Ainda não temos o mapa exato da votação, com detalhe suficiente para testar a hipótese. Mas há um vasto acervo de pesquisas de intenção de voto que ajuda.

Por mais que se tenha tentado, no começo do processo eleitoral, sugerir que a eleição seria travada entre “dois Brasis”, opondo, grosso modo, Sul e Sudeste contra Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os dados nunca disseram isso. Salvo no Nordeste, as distâncias entre eles, nas demais regiões, nunca foram grandes.

Também não é verdade que Dilma foi “eleita pelos pobres”. Ou afirmar que Serra era o “candidato dos ricos”. Ambos tinham eleitores em todos os segmentos socioeconômicos, embora pudessem ter presenças maiores em alguns do que em outros.

As diferenças no comportamento eleitoral dos brasileiros dependem mais de segmentações de opinião que de determinações materiais. Em outras palavras, há tucanos pobres e ricos, no Norte e no Sul, com alta e com baixa escolaridade. Assim como há petistas em todas as faixas e nichos de nossa sociedade.

Dilma venceu porque ganhou no conjunto do Brasil e não em razão de um segmento.

O “paternalismo” – O terceiro erro é interpretar a vitória de Dilma como decorrência do “paternalismo” e do “assistencialismo”. Tipicamente, como pensam alguns, como fruto do Bolsa Família.

Contrariando todas as evidências, há muita gente que acha isso na imprensa oposicionista e na classe média antilulista. São os que creem que Lula comprou o povo com meia dúzia de benefícios.

As pesquisas sempre mostraram que esse argumento não se sustenta. Dilma tinha, proporcionalmente, mais votos que Serra entre os beneficiários do programa, mas apenas um pouco mais que seu oponente. Ou seja: as pessoas que tinham direito a ele escolheram em quem votar de maneira muito parecida à dos demais eleitores. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os candidatos do PSDB aos governos estaduais foram eleitos com o voto delas.

Os três erros têm o mesmo fundamento: uma profunda desconfiança na capacidade do povo. É o velho preconceito de que o “povo não sabe votar” que está por trás do reducionismo de quem acha que foi a barriga cheia que elegeu Dilma. Ou do argumento de que foram o atraso e a ignorância da maioria que fizeram com que ela vencesse. Ou de quem supõe que a pessoa que recebe o benefício de um programa público se escraviza.

É preciso enfrentar essa nova batalha. Se não, ficaremos com a versão dos perdedores.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fundação denuncia esquema golpista patrocinado pela CIA no Brasil




20/10/2010 13:10, Por Redação, do Rio de Janeiro, Brasília e Washington

Não bastasse o governador eleito do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Justiça, Tarso Genro, denunciar "uma campanha de golpismo político só semelhante aos eventos que ocorreram em 1964 para preparar as ofensivas"
contra o então governo estabelecido, o jornal da /Strategic Culture Foundation/ - a partir de sua seção norte-americana, especializada em geopolítica - publicou, nesta semana, reflexão na qual avalia o esforço dos setores mais conservadores dos EUA para denegrir as "imaturas" democracias da América Latina e do Caribe.

No artigo intitulado "/Elections in Brazil and the US Intelligence Community/" (/Eleições no Brasil e a comunidade de inteligência dos EUA/), assinado pelo analista Nil Nikandrov, a instituição lembra que "o Brasil nunca pediu permissão para afirmar o seu direito à soberania e à posição de independência na política internacional em causa ao longo dos oito anos da presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, e era amplamente esperado que G. Bush acabaria por perder a paciência e tentar domar o líder brasileiro. Nada disso aconteceu, embora, evidentemente, porque os EUA se sentiram sobrecarregados demais com problemas com a Venezuela para ficar trancado em um conflito adicional na América Latina".

A Estrategic Cultural Foundation aborda a questão geopolítica mundial

Leia os principais trechos do artigo:

"Falando aos diplomatas e agentes de inteligência na Embaixada dos EUA no Brasil em março de 2010, a Secretária de Estado, Hillary Clinton
enfatizou: 'na administração Obama, estamos tentando aprofundar e alargar as nossas relações com um certo número de países estratégicos e o Brasil está no topo da lista. Este é um país que realmente importa. E é um país que está tentando muito duro para cumprir a sua promessa ao seu povo de um futuro melhor. E assim, juntos, os Estados Unidos e o Brasil tem que liderar o caminho para os povos deste hemisfério".

"Vale ressaltar que H. Clinton credita ao Brasil nada menos do que o direito de mostrar o caminho para outras nações, embora de mãos dadas com Washington. Para este último, o caminho é o de suprimir as iniciativas socialistas em todo o continente, de se abster de juntar projetos de integração regional a menos que sejam patrocinados pelos EUA, para se opor aos esforços dos populistas que visam formar um bloco latino-americano de defesa, e para impedir a crescente expansão econômica chinesa.

"Os EUA nomeou o ex-chefe do Departamento de Estado de Assuntos do Hemisfério Ocidental e um passaporte diplomático, com uma reputação dúbia Thomas A. Shannon como novo embaixador para o Brasil às vésperas das eleições no país. Ele se esforçou para convencer o presidente do Brasil para alinhar o país com os EUA e a adotar políticas internacionais menos independentes. Washington ofereceu vantagens ao Brasil como maior cooperação na produção de combustíveis renováveis, consentiram em que estabelece uma divisão da Boeing no país, e assinou uma série de acordos com as indústrias de defesa brasileira, incluindo a comissão de 200 aviões Tucano para a Força Aérea dos EUA.

"O presidente Lula não aceitou. Ele teimosamente manteve a parceria com a H. Chavez e Morales J. esteve em Havana e Teerã, condenou o golpe pró-EUA em Honduras, e até mesmo se comprometeu a desenvolver um setor nacional de energia nuclear. Ele propôs Dilma Rousseff - uma candidata séria, para esperar para orientar um curso da mesma forma independente - como seu sucessor. É alarmante para Washington, Dilma era membro do Partido Comunista e integrou a Vanguarda Armada Revolucionária - nomeadamente, com o pseudônimo de Joana d'Arc, na década de 1970. Ela foi traída por um agente do governo, depois presa, torturada sob os métodos que a CIA ensinou na Escola das Américas, e teve que passar três anos na cadeia. Por isso, mesmo décadas depois Rousseff não é a pessoa da qual se possa esperar que seja um grande fã dos EUA.

"A campanha de Dilma ganhou força gradualmente e as sondagens começaram a dar-lhe um lugar na corrida à frente do candidato de direita, José Serra. Jornalistas 'amigos-da-américa (do norte)' e agentes da CIA sondaram a sua disponibilidade para forjar um acordo secreto com Washington e então descobriu-se que o plano não teve chance porque Rousseff firmemente prometera fidelidade ao curso do presidente Lula. A CIA reagiu a tentativa de manchar Rousseff, e os meios de comunicação de imediato lançaram o mito sobre o seu extremismo. Encontraram informantes da polícia, que posaram como "testemunhas" de seu envolvimento em assaltos a bancos para os quais pretendia pegar o dinheiro para apoiar o terrorismo no Brasil. A mídia conservadora travara uma guerra de classificações e elogios em coro pró-EUA, José Serra como o incontestado favorito e Dilma - como um rival puramente nominal. Estabilizada a situação, no entanto, Dilma Rousseff finalmente emergiu como a líder da campanha, graças a um apoio pessoal do presidente Lula.

"Ainda assim, a pontuação de Rousseff caiu de 3% a 4%, tirando a chance de vencer ainda no primeiro turno das eleições. O resultado do segundo turno dependerá em grande parte os defensores de Marina da Silva Vaz de Lima, do Partido Verde, que ocupou o terceiro lugar nas eleições, com 19% dos votos. A guerra entre os militantes do PV está declarada e Shannon irá tentar de todos os meios para quebrar uma aliança entre Serra e Silva.

"O time de Dilma visivelmente perdeu o tom triunfalista inicial - o segundo turno é um jogo difícil, e o adversário de seu candidato está implicitamente apoiado por um império poderoso e cheio de recursos que é conhecido por ter impulsionado rotineiramente candidatos à esperança para a vitória. A mídia no Brasil - /O Globo/, as editoras /Abril/, como /Folha de S. Paulo/ e a revista /Veja/ - estão ocupados em lavagem lavagem cerebral do eleitorado do país.

"A equipe de Shannon está enfrentando a missão de ajudar 'novas forças'
menos propensas a desafiar Washington e ajudar a obter um controle sobre o poder no Brasil. A CIA emprega ex-policiais brasileiros demitidos de seus cargos por várias razões, para fazer o trabalho de campo como a vigilância, as invasões a apartamentos, roubos de dados de computador, e chantagem. Na maioria dos casos, estes são os indivíduos com tendências ultradireitistas que consideram Serra como seu candidato. Ministérios do Brasil, comunidades de inteligência e complexo militar-industrial estão fortemente infiltradas por agentes dos EUA. A embaixada dos EUA e do pessoal do consulado no Brasil inclui cerca de 40 dentre a CIA, DEA, FBI, agentes de inteligência e do exército, e têm planos para abrir dez novos consulados nas principais cidades do Brasil, como Manaus, na Amazônia.

"Embora o Departamento de Estado dos EUA esteja empenhado em reduzir o tamanho da representação diplomática no mundo, em um esforço para cortar despesas orçamentais, o Brasil continua sendo uma exceção à regra. O país tem um potencial para se estabelecer como uma força contrária na geopolítica para os EUA no Hemisfério Ocidental dentro dos próximos 15 a 20 anos e as administrações dos EUA - tanto republicanos quanto democratas - estão preocupados com a tarefa de impedi-la de assumir o papel".

Tradução: *CdB*

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Líder tucano desmente José Serra


O comentário de José Serra durante o último debate na rede Record de que iria promover o “desmatamento zero” na Amazônia provocou a reação de setores ligados à produção no vale do Juruá (Acre- Extremo Oeste da Amazônia Brasileira). “Se tivermos desmatamento zero, do que vamos sobreviver, o que vamos plantar”, disse o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, João Ferreira. “Logo se vê que um candidato destes só esta preocupado mesmo com São Paulo e Minas Gerais”.
Durante a campanha para governador, o candidato Tião Bocalon, do PSDB, bateu duramente contra a legislação ambiental e a atual política de governo de promover o desenvolvimento sustentável, a que os tucanos do Acre a qualificam de “proteger árvore, macaco e acabar com o ser humano”.
A declaração de José Serra pegou de surpresa os líderes do PSDB acreano que defendem uma maior flexibilização nas leis de proteção ao meio ambiente. A saída foi desmentir o candidato à presidência: “Essa é uma idéia das pessoas que não conhecem a Amazônia”, disse o presidente do diretório municipal do PSDB de Cruzeiro do Sul, Romário Tavares.
“José Serra sendo eleito quem vai comandar os órgãos ambientais do estado será Tião Bocalon ( PSDB) e seus aliados políticos”.”Então não há como cumprir esta promessa no Acre”, pergunta o entrevistador. “De maneira nenhuma!” responde taxativo Romário Tavares. “essa proposta é para que daqui a dez anos, não haja mais desmatamento, mas nós, do PSDB do Acre, somos contra esta proposta e não vamos abrir um milímetro para defender o ser humano ao invés do bicho, da árvore e do macaco. “, finaliza.

A lição política que vem do Amazonas




Leandro Altheman

Para quem está acostumado à velha dicotomia entre Frente Popular e a oposição no Acre (que um dia já se chamou MDA - Movimento Democrático Acreano), certamente se surpreende com a dinâmica totalmente diferente da política amazonense. Afinal é surpreendente ver PMDB, PMN e PCdoB marchando juntos para defender a candidatura de Dilma Roussef do PT. É mais surpreendente ainda saber que este grupo obteve mais sucesso na transferência de votos para Dilma, do que por exemplo, o PT acreano, que apesar de todas as glórias, é obrigado a amargar uma no mínimo estranha derrota para José Serra, enquanto até mesmo a acreana Marina Silva não consegue fazer milagre em casa e não passa do terceiro lugar. Começo a achar que é melhor decifrar esta esfinge antes que ela nos devore.

O primeiro fator que destaco é de ordem social. A existência da Zona Franca de Manaus cria uma classe de trabalhadores industriários capazes de erguer bem alto, mesmo na floresta, a temida foice do socialismo. Operários de fábrica são aguerridos por natureza, e não tão apegados a valores tradicionais, como normalmente o são os trabalhadores rurais. Infelizmente para nós acreanos, a falta de informação ainda faz da zona rural um terreno propício ao boato, à mentira e ao preconceito, o que acaba por determinar o rumo das eleições.

No Acre a economia na zona urbana é eminentemente formada pelo funcionalismo público o que cria uma intrigante dicotomia na política. Enquanto os funcionários públicos empregados pelo governo tendem a defendê-lo por razões pragmáticas (e não ideológicas), aqueles que não estão empregados, tendem a atacá-lo pelas mesmas razões, na esperança de que na mudança, consigam, quem sabe, uma “boquinha” no novo governo. Salvo raras e honrosas excessões, a lealdade acaba sendo para muitos, proporcional ao seu salário. Talvez por esta razão tenho encontrado em Cruzeiro do Sul tantos ex-petistas, que por perderem o seu DAS agora são "Serra desde criancinha".

Portanto a única saída para o Acre é “subverter” a atual ordem social promovendo mesmo a industrialização do Acre.

O outro fator é de ordem política mesmo. Eduardo Braga, Osmar Aziz e Vanessa Grazziotin caminham entre o povo. Nada de novo para políticos em tempo de campanha. Mas o fato é que a campanha deles já terminou. Converso com um ajudante de ordem, espécie de secretrário direto do governador Eduardo Braga. Ele me diz que as pessoas conseguem chegar facilmente até o governador e que o gabinete dispõe de um serviço que faz com que todas as cartas enviadas pelo público sejam respondidas. O secretário fala das obras e ações do governo. Nada de mais, afinal ele é pago para isso. Mas a diferença está no tom de seu entusiasmo. Alguém que realmente acredita naquilo que está fazendo. Mesmo que o político não consiga trazer soluções concretas de imediato para todos os problemas, o povo reconhece quando um político vive na pele estes problemas. É esta mesma filosofia que está fazendo crescer a popularidade do prefeito Wagner Sales em Cruzeiro do Sul. O povo gosta quando alguém sai de seu gabinete e suja os pés na mesma lama que seus filhos atravessam todos os dias para irem à escola. Mesmo que passem mais 4 anos na lama.

Outra coisa é que o velho discurso em que o candidato pede para votar em todos de um único grupo político, por que só assim, “o Acre vai pra frente”, não funciona mais. Como todo remédio em superdosagem se transforma em veneno, este discurso, repetido à exaustão começa a dar munição para que a oposição diga “com toda essa gente e ainda não deram jeito na BR, na produção, na saúde...”. Mas isso ainda não é o pior. Pior é o sentimento do povo que que está sendo coagido a votar sob pena de não ver as obras concluídas. O juruaense é sobretudo opinioso, prefere sair perdendo do que dar a mão a palmatória. Além disso o resultado pífio obtido no Acre pelo governo de maior popularidade de todos os tempos (me refiro ao Lula) parece também ser resultado deste discurso que pode levar a seguinte interpretação: “ eles só ajudam o Acre por causa do PT, não do povo”. Some a tudo isso aquele “lenga-lenga” da Companhia de Selva, que trata ao povo como uma cartilha de analfabetos e você explica por que está tão difícil de fazer a Dilma ganhar no Acre.

Depois de terminarem o jantar oferecido pelo empresariado local, o trio agora concede entrevistas, não sem antes dar a ordem aos Policiais Militares (do Acre) que faziam a escolta de que também se servissem do jantar.

Um gesto pequeno que pode até estar confundindo um neófito em política amazonense, mas qualquer gesto, por menor que seja, pode servir de indicativo para explicar a grande vitória do atual grupo político amazonense e aprovação recordista de Lula e Dilma, do lado de lá da linha Cunha Gomes.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Que Imparcialidade?


Leandro Altheman
Pelo menos duas pessoas já me criticaram por aquilo que classificam de "parcialidade". Bem, acredito que meu papel como jornalista seja esclarecer os fatos e se o JN ocupa 7 minutos para provar um ataque que não existiu, eu posso usar três para ridicularizar o fato.
Se a turma que trabalha para o Serra com listas de emails mentindo sobre o aborto, eu posso usar o espaço de que disponho, para esclarecer que aborto é questão de congresso e não de presidente.
Sou tão imparcial quando o Jornal Nacional.

Capa da Veja


terça-feira, 19 de outubro de 2010

Serra causa tumulto em missa no Ceará


Padre que celebrava a missa, condenou os panfletos contra Dilma.

Escute aqui o áudio que a Globo não mostrou

Terminou em tumulto a visita do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, a uma missa na festa de São Francisco, em Canindé, interior do Ceará, na tarde deste sábado. A festa é o maior evento religioso da cidade.
Havia militantes com bandeiras do PT e de Serra. No final da missa, houve corre-corre e o tucano chegou a ser empurrado, mas não se feriu.
Os ânimos foram inflamados por declarações do frade que celebrou a missa, cujo nome não foi informado.
Ele reclamou da chegada de Serra quando a cerimônia já estava em andamento e declarou, na presença do tucano, que a igreja não autoriza a divulgação de panfletos associando a presidenciável petista Dilma Rousseff à defesa do aborto.
Quando chegou ao local da festa, Serra foi vaiado por cerca de cem militantes petistas que, segundo a Guarda Municipal, faziam um bandeiraço em frente à catedral.
Ao entrar na missa, em um galpão atrás da catedral, Serra e comitiva sentaram nas primeiras fileiras, provocando uma pequena confusão, o que irritou o frade.
"Gostaria que a missa não fosse tumultuada com os políticos que aqui chegaram, por favor", disse ele.
Durante a missa, o frade disse que não se referia a "A" ou a "B", mas àqueles que estavam conversando. "Se vieram com outra intenção, peço que saiam assim como entraram", disse. "Isso é uma profanação", afirmou.
Perto do fim da missa, o frade exibiu um panfleto que, segundo ele, atacava Dilma. "Acusam a candidata do PT em nome da igreja. Não é verdade", disse o frade.
A plateia aplaudiu. "Não está autorizada essa coisa. A igreja não está autorizando essas coisas", repetiu ele.
No final da missa começaram a chegar ao local militantes com bandeiras de Serra _e foi quando houve o tumulto com a militância petista. Serra não quis comentar as declarações do frade.
Seguranças da igreja não permitiram que a imprensa se aproximasse do religioso.

domingo, 17 de outubro de 2010

A psicologia de massa do fascismo à brasileira



Por


Luís Nasssif






Há tempos alerto para a campanha de ódio que o pacto mídia-FHC estava plantando no jogo político brasileiro.

O momento é dos mais delicados. O país passa por profundos processos de transformação, com a entrada de milhões de pessoas no mercado de consumo e político. Pela primeira vez na história, abre-se espaço para um mercado de consumo de massa capaz de lançar o país na primeira divisão da economia mundial

Esses movimentos foram essenciais na construção de outras nações, mas sempre vieram acompanhados de tensões, conflitos, entre os que emergem buscando espaço, e os já estabelecidos impondo resistências.

Em outros países, essas tensões descambaram para guerras, como a da Secessão norte-americana, ou para movimentos totalitários, como o fascismo nos anos 20 na Europa.

Nos últimos anos, parecia que Lula completaria a travessia para o novo modelo reduzindo substancialmente os atritos. O reconhecimento do exterior ajudou a aplainar o pesado preconceito da classe média acuada. A estratégia política de juntar todas as peças – de multinacionais a pequenas empresas, do agronegócio à agricultura familiar, do mercado aos movimentos sociais – permitiu uma síntese admirável do novo país. O terrorismo midiático, levantando fantasmas com o MST, Bolívia, Venezuela, Cuba e outras bobagens, não passava de jogo de cena, no qual nem a própria mídia acreditava.

À falta de um projeto de país, esgotado o modelo no qual se escudou, FHC – seguido por seu discípulo José Serra – passou a apostar tudo na radicalização. Ajudou a referendar a idéia da república sindicalista, a espalhar rumores sobre tendências totalitárias de Lula, mesmo sabendo que tais temores eram infundados.

Em ambientes mais sérios do que nas entrevistas políticas aos jornais, o sociólogo FHC não endossava as afirmações irresponsáveis do político FHC.

Mas as sementes do ódio frutificaram. E agora explodem em sua plenitude, misturando a exploração dos preconceitos da classe média com o da religiosidade das classes mais simples de um candidato que, por muitos anos, parecia ser a encarnação do Brasil moderno e hoje representa o oportunismo mais deslavado da moderna história política brasileira.

O fascismo à brasileira

Se alguém pretende desenvolver alguma tese nova sobre a psicologia de massa do fascismo, no Brasil, aproveite. Nessas eleições, o clima que envolve algumas camadas da sociedade é o laboratório mais completo – e com acompanhamento online - de como é possível inculcar ódio, superstição e intolerância em classes sociais das mais variadas no Brasil urbano – supostamente o lado moderno da sociedade.

Dia desses, um pai relatou um caso de bullying com a filha, quando se declarou a favor de Dilma.

Em São Paulo esse clima está generalizado. Nos contatos com familiares, nesses feriados, recebi relatos de um sentimento difuso de ódio no ar como há muito tempo não se via, provavelmente nem na campanha do impeachment de Collor, talvez apenas em 1964, período em que amigos dedavam amigos e os piores sentimentos vinham à tona, da pequena cidade do interior à grande metrópole.

Agora, esse ódio não está poupando nenhum setor. É figadal, ostensivo, irracional, não se curvando a argumentos ou ponderações.

Minhas filhas menores freqüentam uma escola liberal, que estimula a tolerância em todos os níveis. Os relatos que me trazem é que qualquer opinião que não seja contra Dilma provoca o isolamento da colega. Outro pai de aluna do Vera Cruz me diz que as coleguinhas afirmam no recreio que Dilma é assassina.

Na empresa em que trabalha outra filha, toda a média gerência é furiosamente anti-Dilma. No primeiro turno, ela anunciou seu voto em Marina e foi cercada por colegas indignados. O mesmo ocorre no ambiente de trabalho de outra filha.

No domingo fui visitar uma tia na Vila Maria. O mesmo sentimento dos antidilmistas, virulento, agressivo, intimidador. Um amigo banqueiro ficou surpreso ao entrar no seu banco, na segunda, é captar as reações dos funcionários ao debate da Band.

A construção do ódio

Na base do ódio um trabalho da mídia de massa de martelar diariamente a história das duas caras, a guerrilha, o terrorismo, a ameaça de que sem Lula ela entregaria o país ao demonizado José Dirceu. Depois, o episódio da Erenice abrindo as comportas do que foi plantado.

Os desdobramentos são imprevisíveis e transcendem o processo eleitoral. A irresponsabilidade da mídia de massa e de um candidato de uma ambição sem limites conseguiu introjetar na sociedade brasileira uma intolerância que, em outros tempos, se resolvia com golpes de Estado. Agora, não, mas será um veneno violento que afetará o jogo político posterior, seja quem for o vencedor.

Que país sairá dessas eleições?, até desanima imaginar.

Mas demonstra cabalmente as dificuldades embutidas em qualquer espasmo de modernização brasileira, explica as raízes do subdesenvolvimento, a resistência história a qualquer processo de modernização. Não é a herança portuguesa. É a escassez de homens públicos de fôlego com responsabilidade institucional sobre o país. É a comprovação de porque o país sempre ficou para trás, abortou seus melhores momentos de modernização, apequenou-se nos momentos cruciais, cedendo a um vale-tudo sem projeto, uma guerra sem honra.

Seria interessante que o maior especialista da era da Internet, o espanhol Manuel Castells, em uma próxima vinda ao Brasil, convidado por seu amigo Fernando Henrique Cardoso, possa escapar da programação do Instituto FHC para entender um pouco melhor a irresponsabilidade, o egocentrismo absurdo que levou um ex-presidente a abrir mão da biografia por um último espasmo de poder. Sem se importar com o preço que o país poderia pagar.