segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Descubra um novo mundo: o seu




Leandro Altheman

Avatar:

Definição hindu para a encarnação de Deus na Terra. Segundo os hindus, Krishna seria o oitavo Avatar ou seja, a oitava vez em que Deus veio à Terra. Para muitos, Jesus Cristo se encaixa perfeitamente na definição de Avatar.

O mundo virtual da Internet trouxe uma nova definição para Avatar: uma segunda vida, ou segunda identidade. Trata-se de criar um personagem, dar ele uma identidade e viver com este personagem em um outro universo, virtual. Idéia semelhante se utilizam nos jogos de RPG.
Contudo, o conceito é mais antigo. Buscando nas fontes do xamanismo, encontramos a definição de duplo, ou segundo. Para os xamãs, a realidade presente nos sonhos ou em estados alterados de consciência possuem existência real e como tal devem ser tratados.
Parte do treinamento do xamã consiste em adquirir cada vez mais consciência durante os sonhos. Com isso, seu duplo ganha cada vez mais forma e corporeidade. Os sonhos tornam-se então, lúcidos e pode-se atuar neste novo universo, tão real quanto o nosso mas com suas com regras próprias e particulares.

Pandora

O nome dado ao planeta no filme foi inspirado no mito grego de Pandora. A Deusa imortal, cujo significado do nome é “aquela que possui todos os dons”. Seu mito conta a história de uma famosa caixa. Dentro dela estariam ao mesmo tempo os dons e as os males Foi destinado aos homens como “presente” de Zeus, na verdade, uma punição ao roubo do fogo por Prometeu.
Segundo a Wikipedia: “A mentalidade politeísta vê Pandora como a que deu ao homem a possibilidade de se aperfeiçoar através das provas e da adversidade. Ela lhe dá assim a força de enfrentar estas provas com a Esperança. Na filosofia pagã, Pandora não é a fonte do mal; ela é a fonte da força, da dignidade e da beleza, portanto, sem adversidade o ser humano não poderia melhorar.
No filme o paralelismo entre Pandora=Amazônia é óbvia e clara. Possuidora de todos os dons, mas que pode trazer muitas adversidades também.
Mas as metáforas não param por aí.

Árvore dos Espíritos

A metáfora também é clara: a árvore dos espíritos é o cipó dos espíritos, significado da palavra quétchua ayahuasca. Mas o autor foi ainda mais longe: Em uma das cenas é possível se perceber dois cipós enrodilhados como duas serpentes, símbolo que serve para descrever o caduceu e que também é a forma do DNA, a molécula da vida. Recomendo a leitura do texto "Inteligência Natural" do antrópologo Jeremy Narby. Em seu livro “ A Serpente Cósmica” Narby traça o paralelismo entre os estados proporcionados pela ayahuasca e a relação que ela proporciona com a Natureza. Quem já sentiu, sabe que é totalmente real o vínculo ou “conexão” entre o ser humano e cada ser deste universo.

“A biologia agora tremúla o duplo helix como sua bandeira, o símbolo de novas curas. Mas este mote é o mais antigo símbolo da vida e cura no mundo. A escada transada, duas serpentes entrelaçadas, o axis mundi, o símbolo dos xamãs nos cinco continentes por milênios.”

Jeremy Narby em “Inteligência Natural"

Esta é uma das duas idéias fundamentais na qual gira o filme Avatar : a possibilidade de uma existencia plena, compartilhada com os seres que nos cercam.
Para mim, ayahuasqueiro há 12 anos, tal possibilidade é muito mais de que um simples “conceito”, é a mais pura realidade. Uma realidade da qual não apreciamos justamente por nosso “elo” com a Natureza ter se tornado cada vez mais débil.

Lembro-me claramente do dia seguinte a uma sessão de ayahuasca em que ao ver uma árvore "sangrando" o seu leite, após ter sido tombada, que foi inevitável sentir como seu meu próprio sangue estivesse sendo derramado.

Depois desses 12 anos tenho a plena convicção de que a ayahuasca é capaz de reavivar este vínculo e assim como ela há plantas mestras em cada um dos cinco continentes.

O segundo conceito central do filme é a transferência de consciência, a começar do humano para o Avatar. Basicamente a preocupação de todas as religiões tem sido assegurar a permanência da conciência após a morte. Para os “Nativos” de “Pandora”, esta tranferência ocorre naturalmente com a morte, uma vez que pertencemos a um mesmo todo.

Eewa

O conceito usado no filme para explicar uma conciência superior que abarca a tudo está intimanete ligado a idéia de uma Divindade Feminina, uma Mãe Arquetípica, primordial. Contudo não se trata de uma divindidade distante, mas de uma mãe de todos os seres, uma coinsciência presente em tudo que nos rodeia. A mesma idéia está presente no conceito de Gaia, a Terra que para os antigos Gregos, era uma Deusa. Recentemente, alguns cientistas chegaram a propor que a nossa Terra seria um imenso organismo vivo, uma conciencia complexa composta de todas as conciências que a compõe. Fascinante, não acham?
Ewá na África é uma das Yabás, ou seja, Orixá Feminino ao lado de Yemanjá (O Mar) e Nanã (A Terra). Ewá é a Divindade correspondente ao mesmo tempo à chuva e às estrelas. Exatamente o “verbo de ligação” entre o Céu e a Terra. Uma das traduções possíveis é que Ewá é: aquela cujas lágrimas refletem na Terra, o brilho das Estrelas.


Um diálogo interessante é que quando o protagonista faz uma oração a Eewa pedindo sua ajuda na batalha, sua parceira lhe explica que Eewa é responsável pelo equilíbrio da vida e que portanto, não toma parte em um dos lados da batalha.


Extamente o oposto do conceito contido no Velho Testamento em que o “Senhor dos Exércitos” destrói os “inimigos’ do povo “escolhido”. Com esta chave é bem fácil entender aonde nos tem levado tal arrogância. Basta dar uma olhada como está hoje o Oriente Médio, de onde sairam as três doutrinas que mais matam em nome de Deus: judaísmo, cristianismo e islamismo.

No entanto, o recado é que atentar contra este equilíbrio é atrair para sí, todo tipo de infortúnio contido na "Caixa de Pandora", a mesma que contém todos os dons.

Conclusão

Para quem esperava somente uma diversão no domingo, assitir ao filme Avatar foi bem mais do que uma grata surpresa. Foi um daqueles raros momentos em que me ajudam a não perder de todo a esperança na humanidade e de acreditar que existe sim, um despertar de conciência.
Mesmo tendo sido realizado nos estúdios de Hollywood com toda a sua tradição de chauvinismo estadunidense sobre os demais povos, o filme é feito sob medida para nós, juruaenses.

Talvez assim possamos acordar para descobrir a biodiversidade deste mundo de que somos, ou pelo menos deveríamos ser, agradecidos, dedicados e vigilantes guardiões.

sábado, 23 de janeiro de 2010

O Fim do Mundo segundo Hollywood

Leandro Altheman

Na década de 60 eram os marcianos (A Guerra dos Mundos, Invasores de Marte), depois os comunistas e “amarelos” (007, Rambo, etc).
Na década de 80, saiu o filme “The Day After”(O Dia Seguinte). O filme fez um tremendo sucesso. Em plena Guerra Fria, o temor mais presente era de um conflito nuclear que inviabilizasse a vida no planeta. Para mim, com cerca de 12 anos, parecia um perigo real e palpável.
Depois, com o fim da guerra fria, nada mais justificava o medo de um conflito nuclear. Afinal, nem a União soviética existia mais. Algo tinha que preencher a vaga do medo, que perigosamente ficou desocupada. Logo vieram os meteoros: dezenas deles que atingiam a Terra, provocando os maiores desastres e até o fim da humanidade. Nestes filmes dava-se um novo uso para as ogivas nucleares, que passavam a ser a única alternativa contra os malvados meteoros. Também apareceram terroristas que conseguiam clandestinamente parte do arsenal bélico da antiga URSS para detonar Israel e os EUA. E assim os EUAS respiram aliviados, pois afinal se não tiverem nada para temer, como justificar os crescentes gastos em armamentos?
A partir do ano 2000, o aquecimento global e sua conseqüências passaram a ser a bola da vez. No “Dia Depois de Amanhã”, A Biblioteca do Congresso é o único lugar a salvo em um mundo destruído por uma nova Era Glacial. Depois O mestre dos filmes de suspense, Nigth Shyamalan lançou o “Fim do Mundo”, onde um as plantas exalavam um estranho ferormônio capaz de fazer as pessoas se matarem. Na verdade uma comédia disfarçada de filme de terror. A lista inclui também o estúpido filme "Presságio" em que a Terra é varrida por uma explosão solar enquanto anjos mal encarados vestindo sobretudos vão recolhendo criancinhas escolhidas pela Terra.
Agora, há dois anos para 2012, Hollywood faz um interpretação absurda do calendário maia, para justificar o próximo fim do mundo. Interessante é que os Maias falavam apenas em uma mudança de Era, uma passagem e não no “Fim do Mundo”. Enfim, quando passar 2012, vão ter que encontrar outro motivo para botar medo nas pessoas.
O próprio N. Shyamalan (que é indiano e não estadunidense) nos fornece uma pista interessante no filme “A Vila”. Nele uma pequena comunidade aparentemente “perfeita” mantém a sua unidade e coesão de valores a partir do medo imaginário, reforçado pela ocasional aparição de um “mostro”, na verdade apena uma “máscara” que atemorizava os moradores o suficiente para que fossem reforçados os seus vínculos religiosos, suas obrigações, etc.
A metáfora é óbvia: “A Vila” é na verdade a sociedade de qualquer país, em especial, os EUA que vivem de explorar o medo de seus cidadãos para alcançarem seus objetivos. O intrigante é que no filme, uma cega consegue a façanha de realziar o que todos achavam impossível: vencer o medo e sair da "Vila".

O Medo é ventável




Vamos dar uma olhada nas prateleiras das vídeo locadoras: aranhas, morcegos, cobras, crocodilos e até formigas e vermes ajudam a que todos aprendam desde cedo a ter medo da Natureza. Por outro lado “Fantasmas, Espíritos, Amuletos, Extraterrestres, e etc, ensinam a ter medo do Mistério. Por fim os filmes de ação com Stalone, Swarzeneger, Chuck Noirris, Van Dame tratam de ensinar a ter medo do Outro: o árabe, o latino, o “comuna”, o “amarelo”, do mesmo modo que o faroeste ensinou a ter medo do índio (“Rastros do Ódio”, com John Wayne).
É através do cinema que o estadunidense médio conseguem fantasiar a coragem que de fato não possuem.
Contra isso tudo, melhor do que continuar a fazer o jogo do medo e transformar os estadunidenses nos nossos algozes, prefiro mesmo uma boa dose de bom humor, que é muito mais eficiente para nos livrar dos nossos medos.
Prefiro imaginar as donas de casa do nosso interior e como elas corajosamente lidam com este tipo de ameaça: nas aranhas, e formigas um chinelada ou uma vassoura resolve, para morcegos, basta pendurar um pouco de capim-navalha (tiririca) no beiral. Cobra é com pau e jacaré, a gente come o rabo... É bem expressiva do povo brasileiro a caricatura da "Dona Jurema" que com um só pau de macarrão consegue manter "na linha" o Obama e o Osama.
É por essas e outras que acredito cada vez mais no nosso país e no nosso povo. Ainda que a doutrina do medo tenha seus adeptos por aqui, ela não têm longa sobrevivência na nossa cultura. Nosso gingado de negro, nossa espreita de índio, nos faz desconfiados, mas não medrosos. A realidade, bastante dura para a maioria do povo, nos coloca diante de situações suficientemente reais para que não necessitemos criar medos imaginários para exercitar uma coragem à lá fantasia. Aqui, somos corajosos de fato, embora na maioria das vezes nem nos damos conta disto.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Autonomia Ontem, Hoje e Sempre (Parte 2)



Leandro Altheman



O desejo de autonomia é algo onipresente na população do Juruá. É preciso se ter clareza de que não se trata apenas de um “bairrismo” qualquer. No entanto,
este desejo, como já afirmei no post anterior, não exclui a identidade acreana. Como resolver isto então?
O Brasil não possui uma figura jurídica intermediária entre estado e município. No Peru é diferente. Temos os Departamentos, equivalentes aos nossos Estados e dentro destes, Províncias, na qual estão as cidades. Notem que o Peru é muito menor que o Brasil, mas soube dividir melhor o seu território. Na pratica contudo, o centralismo em relação a Lima (capital federal) é muito maior do que na nossa República.
No caso do desejo de criação de um Estado do Juruá é preciso se levar em conta alguns fatores. O primeiro é de ordem econômica: nossa economia é pífia, insignificante, perante o restante do Brasil. Somos totalmente dependentes de verbas federais, o que não justificaria a criação de um estado.O segundo é a população pequena, cerca de 120 mil habitantes, é muito menos do que os menores bairros de São Paulo. Mesmo somados os municípios do Amazonas esta população ainda seria de pouco peso. E aí, há ainda mais um problema: os municípios do Amazonas praticamente “nadam em dinheiro”cem relação ao Acre, graças ao FPM proveniente de uma das cidades de maior crescimento econômico do país, Manaus.
Um terceiro fator que deve ser levado em conta é a questão política. Teríamos que ter uma maioria para defender uma proposta como esta. Não há clima político para isto. É preciso lembrar também que isto traria um retrocesso político. É só imaginar os nossos “coronéis de barranco” com poder estadual, um verdadeiro desastre. Imaginem os nossos atuais vereadores, como deputados estaduais e federais do nascente estado. Que pesadelo!Minha opinião (e aí deixo claro que se trata de opinião) é de que no momento seja mais vantajoso para o Juruá, estar aliado ao modelo político da capital. Isto poderá nos dar o aporte de infra-estrutura para que no futuro possamos reivindicar de fato e direito, o status de uma capital (aeroporto, hospital, estrada, ponte, etc). Enquanto isso é bom demarcar bem o nosso terriotório no jogo político. Sem atrazo, sem rancor, apenas cobrando o que é de direito do Juruá!

Se for para escolher um déspota, melhor o os esclarecidos. Muito pior do que isso é a estupidez que acompanha as escolhas baseadas em rancor, o que tem embasado as decisões populares nas duas últimas eleições municipais.
A favor desta proposta, temos por enquanto a luta dos autonomistas, a nossa história, que espero, não seja deturpada por por aqueles, que insistem a reescrevê-la a em nome de seus interesses. (Vale a pena um olhar mais crítico em relação ao Museu de CZS e na Estátua do Marechal!)
Aliado à historia temos ao nosso favor ainda a Geografia, pois não haverá obra de engenharia capaz de mudar o curso do rio.
O Juruá nasce, cresce e livre segue seu curso, sem depender das águas do rio Acre para chegar ao seu destino no Amazonas. Que assim cumpramos a nossa história, ainda que demos voltas e mais voltas, cheguemos ao nosso destino enquanto povo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Autonomia Ontem, Hoje e Sempre (Parte 1)




Leandro Altheman

Em parte (re)motivado pelos textos do meu amigo e dirigente da UJS Francisco Borges,o “Pancho” (prefiro a grafia em castelhano), resolvi escrever um pequeno texto a respeito da tão sonhada e cantada em verso e prosa “autonomia”.
Afinal, os textos corajosos, simples e diretos de Pancho, identificam algo que todos já sabemos: a diferença no tratamento entre os Vales do Acre e do Juruá. Há uma discrepância muito grande, em todos os setores, embora seja necessário dizer, por uma questão de justiça, que muita gente, tanto do lado de cá, quanto do lado de lá, tem se esforçado em mudar este quadro. Por outro lado também tem gente que se esforça em manter o Juruá como uma espécie de “quintal” político de Rio Branco, ou então pior, tentam nos infligir uma espécie de “colonização mental” como se fossemos pobres idiotas que precisam ser “educados” nos seus termos. E tome peia nas eleições. O Povo do Juruá pode não ter a pretensa inteligência de certos enxadristas do jogo político, mas percebe, quase que intuitivamente, quando estão o querendo lhe engabelar. E nada mais ofensivo do que a sensação de que alguém se pretende colocar na posição de um “doutor” que vai lhe ensinar o B-A-Bá.
Quem de fato precisa de instrução são estes senhores da “capital” que teimam em chamar e a tratar o Juruá como “interior”. Demonstram com isso o mais profundo desconhecimento do básico da História do Acre. Afinal, ao contrario do que poderia sugerir a estátua do Marechal (com a bandeira do Acre nas mãos) não veio ninguém de Rio Branco fundar Cruzeiro do Sul. Nossa cidade foi fundada a partir de uma missão do Governo Federal e ao contrario de Rio Branco, um antigo seringal transformado em cidade pelas contingências históricas, Cruzeiro do Sul, já foi fundada como cidade em 1904. Criada para ser a capital do Departamento do Alto Juruá, que existiu durante a primeira fase do Território Federal do Acre.
Também é muito impreciso creditar ao “PT” ou ao governo da Frente Popular, esta discrepância entre os vales, algo que surgiu lá nos primórdios do território.
Por esta razão, fiz uma singela, mas creio, esclarecedora pesquisa em dois livros, que deveriam ser obrigatórios para todos. Um deles é “A presença do Capitão Rego Barros no Alto Juruá”, de Glimedes Regos Barros e o outro é a Conquista do Deserto Ocidental, de Craveiro Costa (ambos podem ser encontrados na Biblioteca Padre Trindade).
Nestes dois livros é possível conhecer e reconhecer os fatos históricos que culminaram em situações que nos assombram até hoje.
O primeiro fato que deve-se conhecer é de que com a assinatura do Tratado de Petrópolis, foi criado o Território Federal do Acre, já com seus três departamentos: Acre, Purus e Juruá, e suas respectivas capitais. A fundação de Cruzeiro do Sul, vem, portanto a cumprir o que determinava o tratado.
A segunda é de que diante da impossibilidade de comunicação entre as três capitais (Sena Madureira no Purus), criou-se a Comissão de Obras Federais, em 1907 para construir uma estrada de rodagem (olha a BR 364 aí, gente!).
A terceira é que na mesma medida em que diminuíam os lucros da borracha, diminuía também o interesse do governo federal em manter uma estrutura de autonomia para os três departamentos. O primeiro golpe na autonomia que o Juruá gozava de fato e de direito no início do século XX veio com o fechamento dos tribunais de Cruzeiro do Sul e de Sena Madureira. O golpe final veio quando o então Presidente da República, Epitácio Pessoa decretou o fim da divisão por departamento, acabando de direito, com uma autonomia que de fato já não existia mais.
E assim, teve início o fenômeno que conhecemos até hoje, tão bem descrito por Craveiro Costa “... Com isso os recursos destinados aos departamentos, concentravam-se na capital, onde lá mesmo se extinguiam.”
Portanto, uma situação que tem início lá no início do século XX e não na atual política do estado. Outro fato que nos faz pensar também é que ainda que a identidade do “Juruá” seja forte, e o desejo de autonomia historicamente amparado, esta identidade particular parece não excluir a identidade de “acreanos” a que cultuam também os juruaenses. Fruto, é claro, de uma organização onde o Departamento do Juruá, incluía-se dentro do Território Federal do Acre.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Cadê a vergonha, Boris?

Depois da "ratada" de ano novo em que Boris Casoy desdenha dos garis, leiam agora o comentário do Jornalista Marco Antônio Araújo. Peço a atenção especial dos estudantes de jornalismo e colegas da imprensa, para que não cometamos semelhantes erros. O sempre "arauto da moralidade" Boris Casoy foi de uma grosseria sem limites, e com o episódio revela sua verdadeira face.

http://www.youtube.com/watch?v=f_E4j7vi3js

Boris Casoy é a elite branca com pó-de-arroz

Marco Antonio Araujo*

Você sabe qual é a diferença entre Boris Casoy, a elite branca brasileira e uma lata de lixo? Um gari responderia bem: a lata.
Como não afundaram o âncora, vamos descer mais lenha. Ele já está estendido no chão. Não há como recuperar a credibilidade que um dia teve. Mas, pelo visto, não é cachorro morto. Sobrevive com a ajuda de aparelhos.
Se o Boris fosse chefe do Boris, ele já teria sido mandado embora. Mesmo concordando com as opiniões dele mesmo. Porque o Boris foi sempre um chefe implacável com erros alheios. Fez carreira assim, literalmente, na linha dura.
Agora, o Brasil inteiro é testemunha de sua arrogância e preconceito. Seu vídeo humilhando quem trabalha honestamente jamais será esquecido.
É um documento que demonstra com perfeição a forma como a elite branca deste país sempre foi cínica, hipócrita. E cruel. Em público, se inflama, esbraveja, dá lição de moral. Tudo de mentirinha.
Quando acha que os microfones estão desligados, quando desce de seus palanques, tripudia dos humildes. De verdade. Pega em flagrante, balbucia desculpas burocráticas, dá o caso por encerrado e parte para novos discursos indignados. Não sente vergonha. Nunca sentiu.
O desprezo do Sr. Boris Casoy pelos garis é o mesmo que os poderosos sentem pelo metalúrgico sem diploma que insiste em se comunicar muito bem com os que estão na "mais baixa escala do trabalho".
Um jornalista não pode fiscalizar o poder público sem ter idoneidade ética para isso. A elite não pode voltar a governar este país sentindo asco por gente decente.
As urnas cuidam de alguns. Demora, mas vai dar certo. De outros, é mais fácil se livrar. Basta desligar seus aparelhos. De TV. Assim, não sobrevivem.

texto publicado originalmente no blog: www.blogs.r7.com/o-provocador

Marco Antonio Araujo* é jornalista desde 1987, quando escreveu crítica de teatro para o extinto jornal A Voz da Unidade, do PCB. Ajudou a fechar outro veículo, A Gazeta Esportiva, onde foi diretor de redação. Pra compensar, criou as revistas Educação, Língua Portuguesa, Fera! e Ensino Superior. Foi professor e coordenador de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero de 1992 a 2002, período em que o curso foi considerado o melhor do país.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Quem pode ficar feliz com um edital desses?


Francisco Panthio*

Falar em concursos é sempre bom, nos acende um esperança e nos faz acreditar que o mercado de trabalho está bem ao nosso alcance. Nesses dias, o Governo do Estado do Acre lançou o edital para provimento de vagas em várias áreas da administração pública.
É bom saber que quase 300 pessoas terão uma oportunidade, mas uma coisa mostra a grande diferença no tratamento que é dado a região do Juruá em algumas coisas. Veja a distribuição de vagas:
Nível Superior:139 vagas de nível superior para o Vale do Acre10 para o vale do JuruáNível Médio:92 para o vale do Acre5 para o Juruá
A região do Baixo Acre tem 72 vagas para Técnico em Gestão Pública. Sabe quantas vagas sobraram para o Juruá inteiro? Nenhuma! Uma pena, pois muitos jovens sonham com uma oportunidade como essa para tentar fazer carreira profissional, mas sem uma vaga sequer para nível médio, a solução é torcer para que surjam mais oportunidades. Entedemos que a região do Vale do Acre é, sim, mais populosa que a do Vale do Juruá, mas a diferença nas vagas é muito desproporcional. Isso justifica o sentimento de algumas pessoas, que sonham com autonomia do Vale do Juruá.

* Francisco Panthio é dirigente da UJS de Cruzeiro do Sul.

Publicado Originalmente no site http://www.juruaonline.com.br/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

2010: Ano de Copa do Mundo e Eleição

















Leandro Altheman








Enquanto a África do sul se prepara para sediar a primeira Copa do Mundo do continente, no Brasil nos preparamos para as eleições que vão, pelo menos em tese, definir os rumos dos próximos anos no país.
Sobre a seleção brasileira, digo que só volto a acreditar nela, depois que conseguirem vencer a França. Depois das últimas vergonhosas apresentações em que nossos habilidosos e excessivamente confiantes jogadores foram vencidos pelo talento francês, me reservo ao direito de ser um descrente do futebol brasileiro, até que provem o contrario e consigam vencer a França em uma partida limpa, por um placar razoável. É meu direito como torcedor brasileiro.




Nas eleições, já não são poucos os prognósticos, como não são poucos também os malabarismos da imprensa e órgãos de pesquisa, para dar como certa a vitória de José Serra. Uma “certeza” que se dissolve na realidade, a medida em que São Paulo vai se refazendo do susto de seguidas e permanentes e enchentes, e o moral do Brasil, e seu presidente, Lula, vão alcançando patamares inimagináveis a poucos anos atrás. Não vou aqui discutir os méritos de seu governo, mas o fato é que sua moral e popularidade, hoje, o habilitariam para eleger até um cavalo como sucessor. Por tudo isso, acho melhor começar a plantar “gramalote” no planalto.
No nosso querido Estado do Acre, não vejo a hora de começarem as campanhas e pesquisas, e o incrível material que vai fornecer para as charges: Por exemplo: “Nas primeiras pesquisas, Pinto não aparece” ou ainda “Pinto cresceu”, “Pinto caiu” e por aí vai. Nestas horas queria ser chargista.
Em uma postagem anterior critiquei o fato de que parte da imprensa da capital pinta um cenário idealizado de Cruzeiro do Sul, em especial, da administração Wagner Sales.
Para ser justo, é necessário dizer que há realizações sim, nesta administração. Isso contudo, não chega a ser surpresa. Surpreendente seria sim, se o atual prefeito conseguisse a façanha de uma administração pior que a de Zila Bezerra. Nada pessoal, prefeita, mas o fato é que Cruzeiro do Sul ficou praticamente abandonado nos últimos dois anos. Um desastre que se anunciou já nas primeiras semanas da administração, com a briga com o vice Ilderlei.
Por tudo isso, é quase impossível não fazer uma administração melhor. E ainda bem que seja assim. Sou cidadão e quero o melhor para minha cidade. No entanto, o cenário pintado em Rio Branco é uma total obra de ficção científica.
É fácil peceber o que quer a imprensa ligada ao PMBD: tentar viabilizar uma candidatura fraca (Pinto), através de uma cortina de fumaça, ao passar a imagem de que o Juruá poderia estar”fechado” com o novo candidato deles, que por aqui é um total desconhecido.
Nada mais ilusório: uma coisa é reconhecer méritos na atual administração, a outra é induzir o povo do Juruá a votar em um desconhecido, quando se tem à frente um nome totalmente respeitado na região como é o caso de Tião Viana.
Mesmo a jogada do fuso horário pode parecer um “tiro no pé”. Ainda que muitos (como eu) ainda pensem que o melhor mesmo é respeitar o horário natural do Sol, nem por isso, vão deixar de reconhecer os méritos de um mandato a serviço do Acre. Outro fato é que muita gente já se adaptou a novo horário que hoje tem seus fiéis defensores (patrões, estudantes do período noturno e esportistas, principalmente).






Há ainda um fator decisivo que é a aproximação entre os antes aparentemente irreconciliáveis PMDB e o PT no Acre. Embalados pela aliança nacional entre os dois partidos, PMDB e PT ensaiam uma aproximação que pode mudar radicalmente o atual quadro de forças no estado.



Bem, vamos assistir ao andar da carruagem.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

As Revelações do Irmão José


Procurando imagens na internet sobre o Irmão José para minha postagem anterior, deparei com a quase total ausência de informações sobre este religioso. A excessão foi este texto que encontrei no blog Karipuna(http://www.karipuna.blogspot.com/), contendo inclusive dados biograficos deste religioso (o que é ainda mais raro). Como o interesse da população do Juruá sobre este tema ainda é muito presente, achei legal publicar.
A foto é de 1980 de Wolf Grauer. Irmão José da Cruz está entre os índios Ticuna.

O texto abaixo é de responsabilidade de seu autor, citado ao final.
“No princípio da década de 70, chegou à selva peruana um pregador brasileiro chamado José Francisco da Cruz. Durante três anos percorreu mais de 500 cidades, aldeias, povoados, pregando a devoção à cruz, como meio de salvar-se do castigo iminente de Deus. Desencadeou uma mobilização religiosa, em todos os lugares que visitou. Plantou grandes cruzes de madeira nas aldeias e deixou nomeadas pessoas para coordenar o culto; logo regressou ao Brasil. Desde então muitos perderam o entusiasmo apesar de guardarem simpatia ao movimento. Entretanto um reduzido número de seguidores vieram formando uma igreja que se chama Cruzada Católica Apostólica Evangélica do Peru, a base de elementos tomados do catolicismo, do protestantismo e das religiões autóctones.(...) Algumas regiões do Brasil são conhecidas pela grande quantidade de profetas e movimentos messiânicos que foram surgindo ao longo de sua história. José Nogueira se formou nesse ambiente. Nasceu às 11 da noite de 3 de setembro de 1913 em Cristina, no sul do estado de Minas Gerais, a milhares de quilômetros portanto, dos rios e florestas do Peru e fora da bacia amazônica. Sua mãe no sexto mês de sua gravidez, adoeceu e estava a ponto de morrer. Um de seus tios a fez prometer perante o Sagrado Coração de Jesus que, se fosse curada, o filho seria servo de Deus. O menino nasceu e foi batizado pelo Padre José Augusto Leite. (...) Cresceu, e ainda jovem levantou uma capela a que deu o nome de Sagrada Família José e Maria. Se casou e foi pai de sete filhos. Depois de alguns anos se enfermou de hanseníase e queriam interná-lo em um leprosário, mas fugiu para um lugar afastado levando uma Bíblia. Prometeu que, se fosse curado, semearia cruzes por onde passasse e trabalharia pelo bem dos que o quisessem seguir.Segundo algumas versões, o irmão José teve importantes revelações de Deus em 1934, 1951 e 1962.Em 1944 teve três revelações. Na primeira viu uma grande cruz iluminada. Na segunda uma cruz pequena de cor verde e amarela. Em 13 de setembro debaixo de uma árvore lhe apareceu o Sagrado Coração de Jesus em forma de um homem com um manto vermelho, lhe mostrou uma bíblia grande, viu uma cruz grande de cor marrom e na mão uma pequena da mesma cor. Jesus lhe ordenou ir a pregar para as pessoas de toda parte. Tomou o nome religioso de José Francisco da Cruz, missionário do Sagrado Coração de Jesus, apóstolo dos últimos tempos. Percorreu Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai, difundindo sua mensagem de salvação. Em sua peregrinação foi expulso da Colômbia em 1969. Entrou no Peru e percorreu o Huallaga, Ucayali, Marañón e Amazonas. Se vestia de hábito franciscano e para a missa do amanhecer de branco. Pregava a palavra de Deus, curava aos doentes com orações, dava receitas de farmácia e organizava o pessoal de cada comunidade para levantar uma cruz grande feita da árvore Palo Sangre, deixando uma junta diretiva para o culto e um estatuto para reger seu comportamento. No final de novembro de 1971 chegou a Iquitos, e plantou a cruz em Morona Cocha a 3 de dezembro.Ao regressar ao Brasil em 1972 o fundador formou um povoado, Vila Santa, que chegou a ser a sede de sua Igreja. Está localizado no rio Içá, afluente do rio Putumayo. É o centro de seu projeto para o desenvolvimento dos povoados da região quanto à produção agropecuária, a saúde e a educação. Como projeto especial estão dedicados à evangelização e desenvolvimento material dos indígenas tikuna.Durante a vida do irmão José, no Brasil, a maioria dos diretores que incentivaram a pregação da Igreja Cruzada eram comerciantes ou patrões que estavam perdendo sua influência política e econômica devido a conflitos com a FUNAI, os comandos militares e a Igreja. Não questionava a situação de dependência dos indígenas e caboclos com relação aos patrões, mas sim os subordinava ainda mais, entregando-os aos patrões que chegavam mesmo a ser diretores, exercendo uma dupla liderança, religiosa e econômica.O sucessor, escolhido pelo próprio irmão José antes de sua morte que aconteceu a 23 de junho de 1982, é Walter Neves, descendente de Omaguas (chamados Kambevas no Brasil) por parte de seu pai. Seu irmão é casado com uma Tikuna. Neves reorganizou a hierarquia e deu mais postos a indígenas. Vários dos ex-dirigentes se retiraram ou estão na oposição. Esta mudança também significou uma maior independência frente aos patrões e comerciantes.Walter Neves visitou o Peru em fevereiro de 1990 para animar aos irmãos na reafirmação de suas crenças. (...) No Brasil são uns 20 mil membros, a metade tikunas e a metade brancos, e no Peru uns 4 mil. Na cidade de Iquitos têm 3 templos com cerca de 150 membros.No começo de sua visita ao Peru, em Pucallpa, o irmão José Francisco não fez muito impacto na população, mas à medida que ia descendo pelos rios, corria a notícia de que fazia milagres e o pessoal acudia em grande número e com entusiasmo e devoção. Falava em português e muitos mal lhe entendiam, mas lhe presenteavam galinhas, mandioca e outros alimentos que costumava utilizar para alimentar a multidão. O acompanhavam intérpretes, ajudantes e cozinheiras. Apesar do fervor religioso, alguns dos ajudantes se aproveitavam da situação e vendiam parte das oferendas populares.A opinião sobre a personalidade do irmão José varia desde os que acreditam que é um santo até os que pensam que é um alienado mental. Muitos asseguram que era um missionário ou enviado de Deus, mas as pessoas de condição mais humilde, camponeses de ascendência indígena, diziam que era Jesus Cristo que havia voltado para anunciar o fim do mundo. Ele afirmava não ser Deus, mas as pessoas acreditavam que só estava tratando de humilhar-se. Os não-crentes não notavam nenhum comportamento milagroso, mas os outros contavam e recontavam as façanhas do irmão. Segundo os testemunhos crentes, caminhava sobre o barro sem se afundar e fez o milagre da multiplicação dos frangos e da farinha para dar de comer à multidão; sua mão tinha ficado encolhida pela lepra, mas as pessoas diziam que tinha em seu corpo as feridas de Jesus Cristo.(...) A maioria dos membros das Cruzadas são descendentes de diversos grupos indígenas da selva, que perderam sua identidade étnica específica e Cocamas, cuja língua é da família Tupi-Guarani; analfabetos ou pessoas que não passaram do terceiro ano de educação primária; agricultores, desocupados, chaucheros (peões do porto), vendedores ambulantes e do mercado, operários eventuais e domésticas pobres. Quase todos vivem marginalizados da sociedade nacional econômica, social e culturalmente.”

Fonte: Regan, Jaime. “Hacia la Tierra sin Mal – La Religión del Pueblo en la Amazonía”. Iquitos, 1993, CETA – Centro de Estudios Teológicos de La Amazonía. 484 p. Páginas 337 a 344. Imagem: ISA - Ticunas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Papai Noel Brasileiro

Leandro Altheman

Já passei por todas as fases sobre o Natal. Não me lembro de algum dia ter fato acreditado no Papai Noel, mas lembro-me de simplesmente me deixar envolver por esta magia este “espírito do natal” que sempre rende aquelas películas açucaradas de sessão da tarde.

Meus natais eram sempre comemorados na casa de meus avós, na baixada santista, litoral de São Paulo. Natais eram sempre sinônimo de muito calor, noites estreladas e aquele maravilhoso cheiro de maresia. Dormíamos com os ventiladores ligados, quase sempre com aquele ardor de quem passou o dia na praia.
Por esta razão, logo comecei a pensar: por que o “nosso” Papai Noel tem que vir sentado naquele trenó, com aquelas roupas polares, quando a primeira coisa que minha avó fazia quando chegava na sua casa na praia era me obrigar a trocar as calças jeans de “paulista”, por confortáveis bermudas e sandálias?
Por que nós, os brasileiros, um povo conhecido por sua criatividade, ainda não “abrasileiramos” o Papai Noel?Ao invés disso, os “Shoping Centers” preferem gastar toneladas de material para criar uma neve artificial. Por que não lhe damos sandálias, camisas regatas, bermudas, para que possa se deslocar mais confortavelmente pelas terras brasileiras enquanto entrega os seus presentes. Infelizmente, algumas coisas ainda são “transplantadas” de uma cultura a outra criando certas “anomalias”.


De certa forma, me senti um pouco realizado ao ver um senhor de barba branca, anunciar num linguajar bem popular, o crescimento de nosso país e o salário mínimo de 510 reais.

No Juruá

Hoje, vivendo no Juruá, pensei em um pequeno roteiro de um curta metragem, tipo sessão da tarde, mas com as cores dos nossos rios, florestas e gentes.

Cena 1

Papai Noel sobrevoa de trenó o Juruá, se encanta com suas lindas florestas. Vê um lindo lago e decide parar para suas renas descansarem.
Um caçador avistas as renas: - Essas “bicha” vão dá uma boa de uma ceia...
Com alguns disparos de espingarda, abate a montaria de Noel. O bom velhinho, desolado se vê numa “pindaíba”. Tira os presentes do saco e dorme dentro dele, ainda assim é ferrado por levas de carapanãs.

Cena 2

Finalmente Papai Noel é resgatado e consegue carona em um bote com motor de rabeta. Depois de contar a sua historia para o piloto da canoa, este conclui: - Este gringo deve ser meio doido. Vir pro Juruá em um carrinho puxado por veados...

Cena 3






Em meio de viagem começa a sentir os efeitos da malária, em poucos dias está magrinho e amarelo. Finalmente chega em sua primeira casa. – Ho, ho, ho, vocês sabem quem chegou ?
Lá dentro respondem, com as mãos em prece: - Irmão José, quanta graça, ainda guardamos até hoje, aquela água que o senhor benzeu. Bem que minha avó dizia que o senhor iria voltar...

Cena 4

Depois de horas explicando que focinho de porco não é tomada, finalmente Papai Noel convence a família de que não é o Irmão José, mas conhece um pouco da historia e da religiosidade tão rica daquelas pessoas tão simples.
Na segunda casa: - ho, ho, ho vocês sabem quem chegou?
Lá de dentro respondem:
-Padrinho Sebastião, quanta honra! Ainda temos aquele daime do último feitio que senhor dirigiu, lá no Mapiá.
Bem, depois dessa, o Papai Noel se detém por mais tempo, tentando se interar das coisas típicas da região e descobre uma riqueza que sequer imaginava. Resolve tomar o Daime e reconhece uma riqueza e um universo mágico além de suas expectativas.

Cena 5

Por último, passa pela aldeia, onde os índios o chamam simplesmente de Shani Ruapá Tshambichá (Bom Velhinho) . Lá ele toma uma rapé e de manhãzinha, um Kambô, que o livra da malária.
Neste momento já não tem mais nada que o caracterize como o Papai Noel, suas roupas de frio já foram deixadas para trás, seu trenó, ficou atolado em algum ramal, as renas, viraram janta na casa de algum ribeirinho. Finalmente chega a hora de ir embora e ele, depois de deixar todos os seus presentes, pega o seu saco vazio e diz:


- Dei muitos presentes, a maioria deles, inúteis, mas volto para o Pólo Norte com uma bagagem maior do que a que deixei. É uma pena que o mundo ainda desconheça esta magia, tão real, que faz as pessoas daqui viverem felizes mesmo em meio a tanta adversidade... Vocês não precisam de nada, nem de neve, nem de presentes de mentirinha, precisam apenas enxergar com mais amor a si próprios e à riqueza de seu próprio universo ao seu redor...
Epílogo
De volta para o Polo Norte, em meio a rota pelos EUA, Noel, magro e com o passaporte carimbado no Brasil, tem problemas no Aeroporto de Nova Iorque, onde é confundido, com Osama Bin Laden. No entanto, um telefonema de Lula para Obama resolve o mal entendido (afinal, ele é o cara!). Noel segue sem maiores problemas para seu repouso no Polo Norte.

Nota do Autor: Os personagens aqui citados, ainda que de forma bem humorada são dignos de todo respeito. O texto é na verdade uma forma de demonstrar que temos perosnalidades reais que assim como "Papai Noel" despertam um sentido de profunda magia em nosso povo.

Críticos :
...É meio açucaradinho mais serve para enxer linguiça na sessão da tarde...

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Kambô: a criminalização de um conhecimento



Leandro Altheman

Tomei minha primeira “vacina” em 1998. Foi em São Paulo, aplicado por um ex-seringueiro do rio Liberdade (afluente do Juruá): Francisco Gomes Muniz. Foi uma verdadeira benção. Livrei-me de uma gastrite que já me incomodava há pelo menos uns três anos. Foi como se tivesse dado um “refresh” na minha memória corporal. Nunca me esqueço de quando abri os olhos depois desta aplicação: foi como se os estivesse abrindo pela primeira vez.
Na época, cursava a Faculdade de Jornalismo e um dos assuntos em pauta era a biopirataria. Vi ali naquele caso, um exemplo vivo de um conhecimento indígena com potencial terapêutico e que poderia ser alvo dos “biopiratas”. Acompanhei o trabalho de “seu” Chico em diversas capitais brasileiras. Seus “pacientes” relatavam melhoras em problemas de circulação, respiração, digestão, etc.
Nos anos seguintes vi o Kambô virar uma espécie de “febre”. Nas grandes cidades, todo mundo queria tomar e aqui no Juruá, onde falta quase tudo, inclusive emprego, vi o kambô se tornar uma espécie de promessa na vida de muita gente. Gente que não teria a mínima chance na vida a não ser carregar sacos na cabeça em alguns dos comércios de nossa cidade, mas que com o kambô, pôde desenvolver um trabalho próprio e dignamente pagar o sustento de seus filhos.
Vi também muito excesso. Gente que se iludiu e passou a iludir os outros. Sem o conhecimento adequado, a oferecendo esta medicina em São Paulo, Manaus, Espanha. Era uma espécie de “galinha dos ovos de ouro”.
Enquanto isso a ONG Amazon Link com sede em Rio Branco, denunciou que laboratórios dos EUA e Japão haviam patenteado pelo menos duas substâncias encontradas na secreção do Kambô: A deltorfina e a dermorfina. Uma delas, capaz de reduzir os efeitos da má circulação e outra capaz de imitar o comportamento das endorfinas e auxiliar no tratamento da depressão.


Em 2002, colaborei com os Katukinas em uma chamada ao Ministério do Meio Ambiente. Por um lado, eles estavam preocupados com a rápida popularização deste conhecimento. Por outro, queriam desenvolver seu próprio estudo e o reconhecimento desta sabedoria.

A partir daí foi criada uma comissão no MMA para o estudo deste conhecimento tradicional.

Infelizmente, as coisas fugiram totalmente ao controle. Onde as “leis de mercado” falam mais alto, não há tempo para se regularizar uma prática que ainda que milenar, não possuiu nenhum tipo de histórico nos grandes centros.
Sendo assim, o mais fácil, é proibir. Proibir algo que ainda nem sequer se conhece direito. E assim, o Kambô vira caso de polícia.
Cria-se então um novo tipo de “criminoso”: o aplicador de Kambô. São novos criminosos também as pessoas que coletam a substância na floresta e os que promovem as sessões de terapia nos grandes centros. Tudo resolvido com “carimbaço” de “biopirata” do IBAMA e da ANVISA. E enquanto isso, os grandes laboratórios desenvolvem uma nova linha de medicamentos que em breve estarão nas prateleiras das farmácias pelo mesmo valor absurdo que hoje eu e você pagamos por exemplo pelo “Legalon”, desenvolvido a partir de uma planta medicinal de uso popular, o “Cardo Santo”. E a promessa de se viver a partir da Floresta sem destruí-la, soa cada vez mais distante, uma ilusão bonita que um dia tolos como eu, acreditaram.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Viva a força do Juruá!


Francisco Panthio


Nesses dias, acompanhando toda uma movimentação da imprensa local acerca da viagem dos empresários e políticos acreanos ao Peru, fiquei analisando. E dá pra se perceber que a muralha entre o Juruá e o Vale do Acre é algo que ainda está longe de ser derrubada. Isso é tão histórico que virou cultural. O povo do Juruá é bairrista ao extremo. Se não fosse tanta burocracia constitucional já teria se desmembrado do restante do estado. Tem horas que chegamos a concordar que esse povo está certo.E grande parte da imprensa e dos jornalistas acreanos fazem com que essa barreira cultural se estenda mais ainda. Veja só. O Acre está tendo uma grande oportunidade agora, com a boa vontade dos dois governos, de selar de vez essa integração comercial, e todos sabem que seria uma grande vitória para um povo tão isolados e distantes do resto do país.
Os comerciantes e a população toda de Tarauacá, Feijo, Jordão, Thaumaturgo, Porto Walter, Rodrigues Alves, Mâncio Lima, Guajará no Amazonas e Cruzeiro do Sul com certeza apoiarão essa iniciativa, pois é esse povo que vai sentir a melhoria de perto.
Mas, claro, alguns jornalistas da capital fazem pouco caso, por conta do que falei a pouco: o Juruá será o mais beneficiado com isso. Parece que não aceitam ver essa região se desenvolver e crescer economicamente. Podem também estar analisando pelo lado político, e não querem reconhecer o esforço pessoal do Presidente da Assembléia Legislativa e o apoio de todos os demais. Temos que parabenizar, sim, o Edvaldo, pois não são os críticos e pessimistas lá de Rio Branco que compram tomate de R$ 8,00 e que só podem comer coisa boa durante três meses do ano, nesse curto verão em que se reabre a BR-364. Não são eles que vivem em um isolamento comercial que teima em não ter fim.Esse colunista e blogueiro, que atira sem rumo, dando palpites diariamente sobre a política do estado, e especialmente do Juruá, dizendo quem é o melhor vereador, falando da aceitação de prefeito A e Deputado Z, sem conhecer a realidade aqui do Juruá, deveria entender que queremos sim a integração, e que é uma das maneiras de mostrar nosso potencial, econômico e turístico.Muito se falou e se criticou a quantidade de pessoas e o porque de se gastarem milhares de reais. Sim, é nescessário, pois como é que o Presidente Lula e o presidente peruano, assinarão um acordo histórico e importante para nós, sem que os acreanos estejam la presentes, fazendo uma festa e dando uma demonstração de que queremos de verdade?Olha, tem mesmo é interesses pessoais por trás dessas críticas. Esperem ao menos a coisa se concretizar, e depois façam suas análises. Ou querem que além da abertura, a ALEAC traga e venda os produtos? Já fizeram a parte que tinha que ser feita, agora é com os empresários. Se não for um bom negócio, nós mesmo estaremos aqui reconhecendo e ajudando vocês.
Panhio é dirigente da UJS em Cruzeiro do Sul

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O que nos faz falta são os horizontes



Leandro Altheman

Podem acreditar. Não são as frutas verduras e legumes o que mais nos fazem falta. Tampouco é a pedra para asfaltar as estradas. Nem a própria estrada nos faz tanta falta assim.
Depois desta viagem, decidi que o que realmente nos faz falta, são os horizontes.
Isto por que a falta de horizonte atulha nossa visão. Nos faz mais limitados do que realmente somos. Vemos apenas dificuldades e obstáculos, onde na verdade existem possibilidades quase que ilimitadas.
A visão limitada e a pequenez de pensamento deveriam ser eleitos como nossos verdadeiros inimigos. São eles quem fazem de nós estúpidos e ignorantes seres. Destruidores em potencial de tudo que está a sua volta. Destruímos a Terra em busca de tesouros que jamais encontraremos aí, pois o buscamos no lugar errado. Destruímos aos nossos semelhantes, ao supor-los menores do que são. Ou maiores também. Ao colocarmos alguém acima de nós, lhe tiramos a possibilidade de ser o que é: humano.
Se enxergássemos as coisas simples como são, também nos maravilharíamos diante de tudo. Não precisaríamos nem mesmo de cinema, circo ou televisão. Se olhássemos verdadeiramente para quem está próximo, não precisaríamos de novelas para nos emocionar.
Por isso que digo que o que nos falta são os horizontes. Perspectiva. Enquanto tivermos um olhar “viciado” nada será possível, a não ser a repetição monótona do que todos já sabemos: um mundo velho, cansado, violento e impessoal.
Olhar com o olhar inocente de uma criança, que descobre a cada segundo, a magia da vida. Este deveria ser o nosso desafio diário. Despertar seria então um ato de bravura, e dormiríamos cientes de que a próxima alvorada trará principalmente surpresas. Assim seríamos impelidos a acreditar em nós mesmos e nos daríamos conta de que o vínculo sagrado e invisível que une eu, você e todas as coisas é tão real quanto o Sol que brilha todas as manhãs no horizonte.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Pucallpa, Solidão e Rock N´Roll


Sou impelido a escrever por nada mais do que o entra e sai de putas deste hotel. Fim de viagem , e quase já não me sobre a “plata” para pagar este pulgueiro.

Elas, apesar de contarem com o meu total e irrestrito respeito, não me deixam dormir todavía. Gozam tão alto e bonito que me fizeram olhar nos bolsos. Nada.

Pucallpa é uma grande farra: madeira, ouro e outras cositas más fazem a plata circular em suas veias. E para fazer jus às contradições, é também a cidade ayahuasqueira por excelência, verdadeira referencia nacional e internacional. Mas, meus caminhos, com seus pneus e carburador me levaram aos motoqueiros e estes curtem rock e cerveja. Tudo bem aceito o destino, desta vez. Com minha moto parada na oficina há uma semana, estou sem mobilidade. Dinheiro, nem para o Ceviche. Por bem que ainda se pode tomar uma “massato” por apenas 50 céntimos.

Pela primeira vez, sinto o “hueco” (buraco) da solidão a me perturbar.

Não fora assim durante toda a viagem. Percorri satisfeito altitudes, selvas e desertos. O Sol, o Céu e as Montanhas me bastaram imensamente. Não havia solidão, nem mesmo solito na noite silente da montanha sob as estrelas em Taray.

Havia antes um transbordamento de felicidade, de contentamento, e se senti a falta de alguém do meu lado, não foi para tapar algum “buraco” deixado pela solidão, senão, para compartir a beleza de cada lugar por onde passei.

Que belo mergulho no inferno, Pucallpa. Jamais me olvidarei! Tuas ruas entupidas de “motocars”, teus tratores selvagens, tuas esquinas, teus faróis.

Jamais esquecerei da acolhida dos hermanos “Charapa´s Rally Club” , aventureiros do Peru Selvático.Um mundo tão diverso do meu. Não tanto pela pátria, mas pelas escolhas. Mas se são fronteiras que nos separam, por que não cruzá-las?

Nunca em toda minha viagem tive tantos amigos. E porque então, me sinto tão só?

¿Serão as ilusões que entopem os sentidos?
¿Serão as luzes, as ofertas, os desejos?

Alimentos que não me servem mais.
Prazeres que apontam em uma única direção possível: o vazio.

Vazio que encontro em minha alma. Tao fácil é recheá-lo com fantasias doces, quão amargo é descobri-lo ainda assim, oco.

Mas assim o é. Tampouco encontrei a verdade em salões estéreis de adoração.

Ainda que imersos em ilusões, estas são pessoas reais. Gente com a mão suja de graxa que comparte "una cerveza" com seus amigos na porta da oficina.

Talvez seja melhor que o prazer mesquinho de contar as notas ao fim do dia. ¿Quem saberá?

Não entendo mais nada. Mas aos poucos aceito a verdade de que não há mesmo nada para entender.

A vida, essa sim, nos dá razoes de sobra para enlouquecer. ¿E o fazemos?

Exatamente isso: enlouquecemos, para poder viver.

Diferente disso, é a distância, o veto gélido em minha cara, a infinita geografia. Montanhas e Vales, frio e calor, isso para mim é real. O mais é questionável.

A montanha está ali e temos que subir-la. A cada curva a respiração nos falta. Realidade pura despertando os sentidos.

Um paredão de pedras estrangulando a visão e o caminho. Ouço apenas o eco de meus passos.
A claustrofobia apertando a garganta. E ao final, se abre, desvelando-se quem sempre esteve ali: o infinito Céu azul, cobrido verdes vales e montanhas.

A lição que aprendi no Tawantinsuyo é de amar a Realidade. Bela ou feia, não há como separá-la nem de Deus, nem de nós.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A Ayahuasca no Tawantinsuyo

Leandro Altheman

Entre as religioes ayahuasqueiras do Brasil sao muitas as expeculacoes sobre como poderia ter sido o uso da ayahuasca durante o Império dos Antigos Incas, que em seu tempo foi chamado de Tawantinsuyu, termo que significa "Império das 4 Direçoes."
Durante a minha primeira visita a Cuzco e Machu Pichu em 1999, questionei sobre esta possibilidade, e a resposta foi de que os Incas nao deveriam utilizuar a ayahuasca simplesmente porque ela nao existe nos Andes.

No entanto, durante esta viagem, com a possibilidade de andar mais, investigar mais e conhecer um pouco mais sobre o uso atual da ayahuasca nos Andes, recebi novas informaçoes que lançaram uma luz sobre este assunto.

O primeiro é que sendo o Tawantinsuyu composto de 4 regioes (Chinchaysuyo, Contisuyo, Collasuyo, Antisuyo), o uso da ayahuasca já era milenar, e portanto anterior aos próprios Incas, no chamado Antinsuyu, extremo ocidental da regiao amazonica. É mais do que provável que os povos que vivem hoje no atual Estado do Acre devem ter tido algum tipo de contato com o Império Inca. O fato é que uso da ayahuasca já exitia antes do Incas nesta grande regiao e continua até hoje. Nós, acreanos, bem como nossos vizinhos peruanos de Madre de Dios e Ucayally compartilhamos a "pátria" da Ayahuasca- o Antisuyu.

Segundo ponto: é fato também que nem o cipó, e muito menos a “chacronita” se adaptam ao clima frio e seco da regiao de Cuzco, umbigo do Império das 4 direçoes e portanto, capital dos Incas. Apesar disso grande parte do sucesso do Império Inca deve-se a sua grande capacidade de comunicar pessoas e mercadorias por milhares de quilometros, levando produtos exóticos de uma parte a outra deste grande império. Sao muitas as estradas construídas para ligar selva, andes, desetro e litoral em um império que se estendia da Colômbia ao norte do Chile. Portanto é mais do que provável que a Ayahuasca tenha sido utilizada, nao pelo conjunto da populaçao andina, mas por uma elite sacerdotal que tinha acesso a bebida. Uma prova que atesta isto é o próprio nome "ayahuasca", palavra de origem quétchua ("vinho dos espíritos").

Chacana



A segunda expeculaçao é sobre como poderiam ter sido estes rituais. Neste ponto, ainda que nos seja impossível saber detalhes, uma coisa é certa: seu uso estava contextualizado dentro do que hoje se conhece como “cosmovisao andina”. E muito embora, o uso da ayahuasca tenha desaparecido nos Andes como resultado de 500 anos de perseguiçao religiosa, a cosmovisao andina permanece viva até hoje. Trata-se de um modo particular de ver e compreender o universo. Uma forma que sintetiza esta visao é a “Chacana” ou "Cruz Andina".
A Chacana é a resultante de dois conceitos. O primeiro é a divisao do Universo em tres mundos: o mundo subteraneo, o mundo médio, em que vivemos, e o mundo superior. O segundo conceito é o o mesmo do Tawantinsuyu, ou seja, as quatro direçoes.
Com três degraus para cada uma das quatro direçoes a chacana forma um desenho de 12 degraus, que sobem e descem e podem ter simbolizado de maneira simples, as quatro estaçoes, os doze meses do ano, os ciclos da natureza, as etapas de evolucao do homem, e etc.

O Criador e os Apus

Apesar de terem sido chamados de politeístas, panteistas e idólatras, esta na verdade é apenas uma visao superficial do que teria sido a religiao incaica. É verdade que os Incas, bem como seus antecessores, viam na natureza, reflexos do divino. No entanto, hoje, embora existam visoes diferentes, há uma concordância de que os Incas acreditavam em um único principio criador universal, além do universo visível. Este princípio, segundo algumas versoes seria Wiracocha, palavra que em quétchua significa aproximadamente “lago de luz”. A partir de Wiracocha, principio unico e indivisível teriam surgido Tempo e Espaco representados respectivamente como Pachacamac e Pachamama e a partir destes, surgiram entao os desemembramentos seguintes dando origem ao movimento e aos diferentes universos dimensionais, inclusive a Terra. Para eles nao havia o conceito de paraíso perdido, e a Terra bem como toda a própria realidade eram parte inseparáveis do principio universal criador, devendo por isso serem objeto de louvor.

Neste sentido surgem os Apus, forças da natureza divinizadas cujo culto eram parte do grande culto à natureza e à realidade que prestavam os antigos Incas.


A Ayahuasca hoje

O uso da ayahusca volta a surgir nos Andes, impulsionado por pessoas visionárias que buscam restaurar nao apenas o uso da bebida, mas o proprio Tawantinsuyu. Desta vez com um conceito ampliado, ou seja, um espaço de respeito, paz, prosperidade e liberdade na America do Sul.
Em Pisac, Vale Sagrado dos Incas, tive a oportunidade de participar de dois rituais com a ayahuasca, e nos dois estavam totalmente presentes os elementos da “cosmovisao andina”, ou seja, de uma maneira de pensar, sentir, ser e viver, que remonta a mais de 5 mil anos atrás, fruto da interaçao entre povos que atingiram um surpreendente grau de evoluçao em suas sociedades. De certa forma, o uso da ayahuasca nos Andes também ajuda a reestabelecer a ligaçao entre o antigo "umbigo" do império, com as regioes selváticas do "Antisuyu".

Este ensaio é uma pequena resposta às algumas indagaçoes das quais parti em busca de respostas. O assunto é longo, extenso, complexo, inesgotável, e principalmente, apaixonante.


OBS: "Chacana" é também como o povo desta regiao chama até hoje a constelacao do Cruzeiro do Sul.



Bibliografia consultada: Tawantinsuyu 5.0 – Alonso Del Rio