quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um relato de caça e trabalho entre os Yawanawá

Infelizmente, o preconceito sobre a relação dos povos indígenas com o trabalho, continua se perpetuando, por meio da desinformação e de gente mal intencionada, que somente consegue ver o outro como mercadoria a ser explorada.  

Neste Abril Indígena, quero dar essa singela contribuição para dirimir esse preconceito, publicando um trecho de meu livro Muká, a Raiz dos Sonhos que relata um período de intenso trabalho em que convivi com o povo Yawanawá, no Alto Rio Gregório.

Junto com Nixiwaká e seu grupo de caçadores, subimos o rio Gregório até o Caxinauá.

Lá está o acampamento de caça, a aldeia e o terreiro sagrado dos ancestrais.

Durante a subida, chamou-me a atenção o alto grau de organização dos yawanawá em suas tarefas. Numa operacionalidade impressionante as funções são rapidamente preenchidas por cada pessoa. 

Enquanto um grupo subia o rio de barco, um grupo menor ia por terra, colhendo frutos e obtendo informações sobre o rastro de animais que poderiam ser, posteriormente, caçados.
Cinco ou seis taperas feitas de paxiúba e cobertas de palha de cocão formavam o acampamento de caça. Os yawanawá mostravam-se bastante à vontade naquelas habitações precárias. Não havia paredes. As taperas eram apenas uma pequena área coberta de palha, elevada do solo por palafitas. O assoalho de paxiubão recebia apenas um ou outro prego ou então era amarrado com cipós.

Durante o dia as infestações de piuns tornavam qualquer passeio pela praia do rio praticamente insuportável. Só na floresta densa havia algum refúgio para os terríveis piuns. Depois do almoço, ao meio dia, éramos obrigados a nos cobrir com lençóis mesmo diante de todo calor.

Mas havia fartura de alimento. Carne de paca, queixada, macaco ou jacaré, ou às vezes, peixes do rio chegavam ao acampamento a todo o momento.  

Acompanhei uma destas caçadas noturnas. Dois grupos se dividiram. Um grupo de caçadores foi para a floresta, enquanto, um grupo menor subiu o rio Gregório. Nixiwaká achou mais prudente que eu acompanhasse o grupo do rio.
Nixiwaká ia à frente com uma lanterna, enquanto um jovem yawanawá, apelidado de ‘Abdão’ varejava lentamente o bote rio acima. Obviamente não se usa motor, para não afugentar a caça. No lugar disso, usava-se um ‘varejão’ - pau cumprido com a qual o piloto toca o fundo do rio e literalmente ‘empurra’ a canoa de maneira semelhante às gôndolas de Veneza.

A princípio acreditei que subiríamos o rio para dar início à caçada a partir de certo ponto em terra firme, mas o fato é que a caçada já havia começado desde quando saímos do porto.

O objetivo era com a lanterna, avistar os olhos de algum animal noturno, em especial as pacas que vêem às praias e barrancos e ficam ‘encandeadas’ com o brilho da lanterna, ‘se esquecendo’ de fugir. Na foz de um pequeno igarapé que despejava suas águas no Gregório, Nixiwaká focou sua lanterna sobre um balseiro de paus e folhas, fazendo refletir a luz nos olhos de um jacaré.
Fazendo o mínimo de barulho possível, ‘Abdão’ aproximou a canoa do barranco. Ele e Nixiwaká não trocaram um apalavra, mas adivinhavam as intenções um do outro. Sem tirar o foco da lanterna dos olhos do jacaré, Nixiwaká mirou sua espingarda e disparou.

Abdão arrastou o animal para dentro da canoa, ainda com vida, conforme iriam comprovar seus roncos guturais durante o restante da noite.

Seguimos rio acima com o novo passageiro. À noite era possível apreciar a natureza sem ter que se esconder dos piuns. Paramos nossa canoa em uma bela praia de areia branca. O céu estava completamente estrelado naquela madrugada. Tomamos um rapé naquele lugar.

A madrugada já ia longe e todos, sem exceção estavam bastante cansados.

Durante a decida, já próximos ao acampamento, encontramos mais uma paca. Estava em um barranco baixo. Desta vez o tiro foi certeiro e Nixiwaká acertou já no primeiro disparo. O “quebra-jejum”do dia seguinte estava garantido.

Os caçadores do grupo que entrara na mata trouxera dois tipos de macaco. Os ‘Isu’- macacos-preto e os ‘Ru’- capelões ou guaribas.

Meninas com mais de dez anos ajudavam na faina de ‘tratar’ (limpar) os animais. Um trabalho que certamente traria horror a uma menina de família de classe média era feita sem nenhum problema por estas pequenas. Vi macacos inteiros serem mergulhados na água quente para lhe retirar os pêlos do corpo, e com a mesma destreza suas mães manejavam as afiadas facas de cozinha para retirar os ‘fatos’ (tripas) dos animais.

Enquanto as mulheres ‘tratavam’ os peixes e animais, os homens, exaustos da caçada noturna, ou iam dormir, ou iam antes retirar os carrapatos acumulados durante a noite na floresta.
Pela noite o jantar era servido pelas mulheres e havia uma grande animação.

Os homens não mexiam nas panelas. Não vi nenhum homem sequer olhar dentro da panela. Isto pareceria falta de educação ou grosseria. Somente as mulheres dos chefes de família eram quem serviam o alimento. Entre eles havia também o mesmo costume do seringal de servir antes o caldo, para que somente depois de acrescida a farinha e feito o pirão fosse servido o ‘nami’ (carne) ou peixe.

Estas mulheres faziam todos os dias o milagre da multiplicação. Talvez se deixassem para que cada um se servisse conforme o seu apetite é certo que alguns ficariam sem comer. Elas exerciam com maestria o seu papel de matriarcas que cuidam do grupo todo. Em sua perfeita matemática faziam com que todos ficassem satisfeitos. Jamais passei fome em nenhum momento, tampouco senti aquela desconfortável sensação comum e desprezível que se tem quando se sai de um restaurante ou uma churrascaria de se estar ‘empachado’ (empanturrado).

Havia também um delicioso suco que era preparado com uma fruta da mata conhecido na região como abiorana.

Algo que me impressionava entre os yawanawá era a sua capacidade de se adaptar ao chamado “mundo do branco”. Itens produzidos por nossa sociedade são por eles utilizados com grande habilidade, maior até, diria do que muitas vezes os brancos que os produzem.
Facas, terçados e machados, por exemplo, haviam tornado-se itens indispensáveis ao seu modo de vida. Seus instrumentos são amolados diariamente, utilizando para isso, limas e esmeris. Com madeira e couro de animais produzem bainhas e cabos para eles.

O fascínio, a admiração e o reconhecimento da utilidade destes objetos em suas vidas faz com que às vezes eles denominem o homem branco como sendo os “Ruwe Nawá” – cuja tradução aproximada seria ‘povo da pedra colorida’ - uma alusão aos metais que em contato com o fogo mudam de cor e emitem o brilho da fundição. Um exemplo foi o de uma faca que fora dada de presente que após algum tempo de uso teve o seu cabo quebrado. Seu dono, um caçador yawanawá, produziu a partir de madeira e restos de sandálias velhas, um cabo tão eficiente e ergonômico quanto o original.

As espingardas recebem um tratamento especial como se fossem ‘animais de estimação’ ou quase ‘membros da família’. Elas são carinhosamente lubrificadas com óleo todos os dias. Algumas ganham adaptações feitas de madeira, para torná-las mais anatômicas, ou então pinturas de kenês (desenhos tradicionais) em preto e vermelho, lembrando as cores do jenipapo e do urucum.
Cada caçador possui um instrumental que é mantido em uma pequena sacola plástica a fim de poupá-los da chuva e da forte umidade amazônica. O material consiste em cartuchos vazios, pólvora, chumbo e espoletas, bem como um pequeno molde em madeira feito por eles mesmos que servem tanto para socar a pólvora nos cartuchos, quanto para moldar o chumbo, quando estes querem um projétil maior, destinado ao abate de caças grandes como queixadas e antas.

A pólvora é socada dentro dos cartuchos juntamente com a raspa de determinadas madeiras, que servem para dar pressão à pólvora e ajudar na explosão.
Não há o mínimo desperdício de nenhum material, principalmente por conta da escassez. Das caçadas em que presenciei a sua preparação, vi que cada caçador não partia com mais do que meia-dúzia de cartuchos cada um. Por esta razão sua pontaria tinha de ser boa e um tiro perdido, sempre era motivo para uma breve lamentação. Pelas mesmas razões, por maior que seja a abundância de animais, a caça é limitada pela escassez de munição.

Todos homens são em algum momento, caçadores, pescadores e eventualmente, coletores (principalmente de açaí, bacaba, patoá e buriti).

A caça é dividida entre os grupos familiares, seguindo a critérios culturais de parentesco e afinidade, o que faz com que a retribuição mantenha as famílias sempre abastecidas, sem que seja necessário o caçador se ausentar todos os dias de sua casa.

Quando acampados em grande número, a caça ganha um caráter de atividade coletiva, ainda que nos momentos chaves, o ato de abater o animal seja de fato, individualizado, ganhando por assim dizer, uma ‘autoria’ que mais tarde será festejada nas narrativas do acampamento.

Caças menores, como aves e pequenos roedores, são denominados embiaras e em ocasiões como esta são sistematicamente desprezadas, pois seu abate significa gasto de munição para uma caça que vai alimentar apenas poucas pessoas. A busca voltava-se para as caças maiores seguindo exatamente esta ordem: anta, veado, queixada, catitu, pacas e macacos em geral.

Barcos e motores também já haviam sido totalmente incorporados ao modo de vida dos yawanawá. Entre eles há exímios pilotos, hábeis em manejar canoas com ‘motor de rabeta’ entre obstáculos proporcionados por paus e balseiros no raso rio Gregório.

O uso intenso de botes e motores sob condições adversas causa um desgaste excessivo e constantes danos nos componentes dos motores. No entanto, os yawanawá provavam ser capazes de promover os consertos necessários, com o mínimo de ferramentas e materiais, prolongando a vida útil dos equipamentos e diminuindo a dependência externa para estes reparos.

A raiz destas adaptações dos yawanawá a um novo modo de vida que dialoga com as tradições é sempre apontada na direção de uma figura histórica quase lendária: Iva Istihu.
Ao seu comando, os yawanawá tornaram-se indispensáveis para a manutenção do Seringal, provendo inicialmente desde caçadores e mateiros, para posteriormente converterem-se em produtores de milho, banana, macaxeira, mel de cana e animais de criação como galinhas, patos, porcos, carneiros e bois.

Rayá

A caça não era, contudo, a única atividade desenvolvida naqueles dias pelo grupo de vanguarda yawanawá. Havia muito trabalho, afinal de contas, pois objetiva-se construção de pequenas casas de paxiúba para a formação espiritual no terreiro do muká e um alojamento para os professores, no alto do barranco.

- Rayá. É como a gente chama trabalho na nossa língua. Engloba uma série de atividades, mas não a caça e a pesca por exemplo. Isso que agente esta fazendo é rayá waki- trabalhar. Desde o plantio e a colheita de mandioca, à construção de casas, ou o artesanato de cocares, brincos, pulseiras e colares, tudo é rayá. Também é rayá o trabalho dos professores, agentes de saúde, e o seu. Tudo é rayá, exceto caça e pesca. Assim explicava-me Nixiwaká.

Um grupo, dos homens mais fortes e mais acostumados aos trabalhos pesados, empenhou-se em localizar, derrubar e trazer as toras de Utxá (paxiúbinha) e Tau (paxiubão) até o Caxinauá. Um grupo maior envolveu-se em uma atividade que embora aparentemente mais leve, exigia ainda mais trabalho: retirar as palhas de jarina para a cobertura das casas. Entramos na sombra refrescante da floresta em busca das jarinas. Com meia hora de caminhada chegamos a um verdadeiro ‘jarinal’. Por uma extensão de uns cem metros quadrados, as jarinas eram a planta que dominava o local, embora houvesse outras espécies de árvores, elas eram incontestavelmente a presença mais importante.

Epe – é como os yawanawá denominam a jarina. A palheira tem grande importância em toda região desde muito antes da chegada do homem branco. Sua palha pode ser usada para a cobertura de casas. 

Os yawanawá e outros povos também usam a fumaça de sua palha queimada, para curar determinados tipos de coceiras

Para este rayá, os yawanáwa não levavam água. A própria jarina que fornece as palhas, dá também um pequeno coco, cujo conteúdo é uma saborosa água adocicada. Os cocos um pouco mais maduros apresentam em seu interior uma geleia saborosa. Quando completamente maduros, o interior do coco torna-se rígido e é comparado ao marfim, podendo ser utilizado para artesanato.

Passamos parte da manhã cortando as palhas de jarina e as arrumando no local, para à tarde, transportá-las. Uma envira atava as palhas em feixe e cada qual levava de cem a duzentas unidades. 

Não me pareceu nada fácil carregar aquela ruma de palhas nas costas pela floresta. Fizemos mais cerca de três a quatro viagens cada um, o que deve tornar próximo de quatro mil palhas transportadas naquele dia. Ao final da tarde fomos ‘virar’ as palhas, que consiste em quebrar cada rama de um lado da palha e invertê-la para o outro lado, tornando-se assim, uma ‘telha’ para a cobertura.

Era muito trabalho de fato, mas a maneira como era desenvolvida, não o tornava estafante. Tudo era executado como uma grande brincadeira, com cada pessoa disputando com a outra quem levava mais, quem era mais rápido, quem fazia melhor. Uma disputa saudável e alegre que tornava o trabalho mais leve.

Não havia nem de longe o menor resquício da proverbial “preguiça” naquelas atividades, tampouco havia a pressa em apresentar resultados ou a pressão de um ‘patrão’, ‘gerente’ ou ‘capataz’, mas tudo transcorria dentro de uma ordem e harmonia.

Pensei que talvez nossa sociedade devesse a aprender com os índios, como trabalhar, sem tornar nossa vida, uma escravidão.

No dia seguinte começaram a chegar toras de paxiubinha e de paxiubão que haviam sido transportadas pelo rio. Com grandes machados, os yawanawá mais fortes, rachavam as toras no meio e com um enxadeco retiravam de dentro a polpa esponjosa, cujo odor, semelhante ao de melancia, logo atraia centenas de besouros e fazia os bois a atravessarem o rio para comê-la.

Depois de ‘esvaziadas’, as toras eram então quebradas e achatadas com marretas, transformando-se em rústicas táboas. O paxiubão, mais pesado e resistente destina-se ao chão, enquanto a paxiubinha, mais leve, era destinada às paredes.

Mais um dia de rayá teve início quando Zé Domigo, um dos filhos mais velhos de Yawá, começou a montar a casa. Sua técnica não era muito diferente dos carpinteiros brancos, embora utilizasse menos pregos e mais cipós e enviras nas amarrações.

Os barrotes de madeira nobre foram assentados formando o alicerce da pequena casa.
Sobre eles foram encaixadas e pregadas peças que dariam sustentação ao assoalho de paxiubão. Feito isso, sobem as linhas que começam a dar estrutura à casa. Acrescidas as paredes de paxiubinha, por último é feita a cobertura, trabalho que exigiu a participação de todos, entregando as palhas de jarina para seis trabalhadores que iam colocando e amarrando as palhas até elas formarem o telhado da casa.

Toda esta etapa de trabalho consumira dez dias.

Durante o dia, os trabalhadores extraiam da mata o material, o ‘beneficiavam’, construíam a casa. À noite e pela madrugada estes mesmos trabalhadores convertiam-se em caçadores e pescadores para garantir a sua alimentação e a de seus familiares.

Assim foi a vida destes “preguiçosos” durante os dias em que vivi entre eles.

*Dedico este texto ao trabalhador yawanawá Zé Domingo.

** Este excerto faz parte do livro:

Muká, a Raiz dos Sonhos. Autor: Leandro Altheman Lopes.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sob a bandeira de Israel, Messias comete crime de racismo

É difícil tratar determinados assuntos quando a pessoa em questão aproveita-se sobretudo da indignação de setores da sociedade para alavancar seu nome.
Sem propostas concretas, sem conhecimento de macro-economia, com uma atuação pífia no congresso, o marketing do ‘Messias’ vive de causar polêmica a partir de suas declarações quase sempre, racistas, machistas e homofóbicas, que acabam por agradar, obviamente, outros setores. E lá vai ele, já na casa dos 10% de intenções de voto, o nosso ‘sargentão sem compostura’ desfilar seus preconceitos de caserna, desta vez agora, sob a ‘proteção’ da bandeira de Israel.

Muita gente questionou como poderiam os judeus, um povo historicamente, massacrado, oprimido e perseguido, fazer um convite a um palestrante, sabidamente racista. Sim, porque o convite partiu da própria Hebraica.

Há ainda ate quem alegue a proximidade de Messias com Israel, uma 'prova' de que o mesmo não seria 'nazista'. Errado. O nazismo do século XXI não tem a cara de Hitler, mas de Netanyahu. A bandeira carrega não a suástica, mas a Estrela de Davi. O 'Espaço Vital', que  Hitler justificou para atacar a Europa Oriental, hoje justificam a criação de colônias de judeus nos territórios ocupados da Palestina. A 'superioridade ariana' deu a vez para 'o povo escolhido'.

Messias é apenas mais uma voz do nazi-sionismo. Afirmar tais coisas não é anti-semitismo, assim como condenar o nazismo, não é condenar o povo alemão.

Em que pese as manifestações de repúdio de muitos judeus (em São Paulo, o repúdio foi suficiente para que o convite fosse cancelado, mas não no RJ), Messias, como aliás, boa parte dos evangélicos neopentecostais, acreditam piamente fazer parte do 'povo escolhido' e por esta razão estão totalmente alinhado com o pensamento nazi-sionista que determina a política de estado em Israel. Inclusive no que diz respeito à política militarizada de segurança e uso e venda de armamentos.
O mesmo esteve lá para ser batizado ‘nas águas do Jordão’. Há um alinhamento perfeito entre a ideologia de uma parte significativa do segmento evangélico brasileiro, com o ideário (nazi)sionista. Se puxar pelo fio da meada, todos se encontram na concepção de um deus etnocêntrico, que abençoa ‘escolhidos’ enquanto justifica atrocidades contra os ‘incircuncisos’. Da mesma cepa parte a concepção do ‘destino manifesto’ com que os EUA justificaram o massacre e extermínio dos povos indígenas.

No cerne disso tudo está a não-aceitação do outro, resquício de um pensamento de quando a ideia de um deus-protetor de um povo, passou a ser adotado como universal.
Claro que há outras concepções possíveis, seja no judaísmo ou no cristianismo. Poderia discorrer sobre o papel de Salomão me realizar a paz com os povos vizinhos e aceitar suas próprias visões de mundo (e de como isso foi posteriormente condenado pelos patriarcas). Ou mais ainda, da visão do Cristo, que em mais de um momento em sua vida, universaliza a benção para além da ideia de um ‘povo escolhido’.

Mas o fato e que essa ideia está profundamente enraizada no pensamento de gente como Messias e vira e mexe, vem à tona. É a negação do outro, tão bem explicitada na frase proferida na Hebraica.

"Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais.”

Contudo, mais importante do que discutir teologia, talvez fosse simplesmente aplicar a lei. Messias cometeu crime de racismo contra um segmento da população brasileira e deveria responder por isso. Se o crime foi sob a bandeira de Israel, é só mais um detalhe. Um detalhe revelador, diga-se. Mas ainda assim, um detalhe.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Não é ‘nacionalismo’ defender setores que nos mantém na condição de colônia

Fato curioso tem sido o ‘súbito nacionalismo’ que tomou de assalto setores da esquerda brasileira. Não foram poucos os que partiram em defesa do “ogronegócio” após a operação da PF + MPF + JF, com o argumento de que a operação traria prejuízos ao setor.

Bem, a verdade é que trará mesmo, e que bom. Assim talvez falte dinheiro para financiar o desmatamento da Amazônia e o Genocídio Indígena. Ainda que isso possa ser compensado sempre, com trabalho escravo no campo ou mais carne estragada (e maquiada) na mesa. 
Engana-se quem pensa que esses senhores percam alguma coisa. O consumidor está aí para isso: absorver os prejuízos.

O que parece chocante, ainda que nem tanto, é que setores da esquerda, especialmente do PT e do PCdoB têm assumido a defesa do ‘ogronegócio’ como parte de um estratégia de defesa da economia nacional em um cenário globalizado. E aí começam nossas diferenças.
O sistema agro-exportador brasileiro, cantado em verso e prosa em uníssono pela grande imprensa nacional (e também  por setores da esquerda) nada mais é que a continuidade da relação de colônia iniciada no Brasil desde o ciclo da cana. É ‘Plantation’ – Monocultural, 
Escravocrata e Exportador.

Tenho dito que a defesa de setores que nos mantém na condição de colônia não é ‘nacionalismo’ de verdade. Isso porque o ‘plantation’ agroexportador não é e nem nunca foi, um projeto de nação. É apenas um projeto de colônia, defendido com unhas e dentes, por quem deveria almejar a sua superação.

Ouso dizer que se quisermos de fato um dia, nos tornarmos uma nação, digna desse nome, teremos de olhar para além de um projeto engendrado pela coroa portuguesa. Teremos que olhar primeiro para as nações que já existiam antes nessa terra, e que sobrevivem após reiterados apocalipses. Se ‘nosso’ projeto de nação não inclui também ‘eles’,  já nasce aleijado.

A Imprensa Subserviente e a política travestida de anti-política

Dizer isso não equivale a tecer louvores à operação da PF (+MPF + JF). Trata-se de mais uma operação midiática, que tem por objetivo ‘manter a opinião pública em estado de permanente exasperação e mobilização rancorosa’, para tomar palavras emprestadas de Reinaldo Azevedo.

Aliás, não custa perguntar: se a PF tinha conhecimento das denúncias há sete anos atrás, porque não tomou atitude antes? O que ficou fazendo esse tempo? Enchendo linguiça?

Nunca imaginei que viveria um dia para concordar com Reinaldo Azevedo. Mas em seu mais recente artigo, o colunista apenas confirma antigas suspeitas:
  • Setores do Judiciário, MPF e PF, a pretexto de 'punir a política 'corrupta' do país', não fazem outra coisa senão POLÍTICA. Ou seja fazem política travestida de anti-política.
  • Ao contrário do que transparece ao senso comum, o esquema de delações premiadas promove na verdade, a IMPUNIDADE que diz combater, afinal, qual é o que da delação se não a impunidade do delator?
  • Setores da imprensa tem agido de forma SUBORDINADA a estes órgãos - aquilo que em meus textos tenho chamado de 'agir como assessoria de imprensa de PF, MPF e JF'
Azevedo toma essa posição em defesa de seus próprios interesses, agora tão claramente contra os órgãos que antes louvava quando voltavam-se contra seus adversários, é justamente porque tem amigos e aliados no setor hora ameaçado.

A PF (+MPF + JF) deseja ardentemente que a sociedade se coloque sob sua égide protetora, e a imprensa parece aplaudir o protagonismo que é incapaz de exercer.

Mas, passada a ‘febre’, a mesma grande imprensa que com facilidade se curvou à narrativa da PF, agora curva-se aos seus maiores anunciantes: o ‘ogronegócio’.

Questionar a atuação desses órgãos cada vez mais ‘fora da casinha’, é facilmente confundido com ‘defesa do orgronegócio’. Pode ser para muitos, mas para outros tantos trata-se do necessário resguardo de quem não deseja criar os corvos do autoritarismo.

Fosse uma partida de futebol com um time representado pela PF e outro pelo ‘Ogronegócio’, o melhor resultado possível seria que ambos quebrassem as pernas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninguém Liga ...

... para os animais que morrem atropelados na BR 364 

Meu fim de semana foi marcado por um incrível vai e vem entre Cruzeiro do Sul e o Rio Cigana, onde o afundamento da cabeceira da ponte, causou uma interdição temporária na BR 364. Foram umas oitos viagens ao todo. Não reclamo, até gosto, principalmente por passar por aquele trecho incrivelmente bonito coberto de mata nativa entre o rio Juruá que se estende até o Croa e termina pelo Lagoinha. A parte triste é se deparar com animais silvestres mortos na pista por atropelamento.

Em geral são as cobras, especialmente jiboias e sucuris, que são atropeladas naquela área, na maioria das vezes, propositalmente por motoristas que acham ‘estar fazendo um bem’, ao tirar a vida de uma cobra.

Sempre há também as mucuras. Mas quem se importa com aquele bicho feio e fedido, ladrão de galinhas? O marsupial que é considerado um fóssil vivo dos primeiros mamíferos pode ter sobrevivido ao meteoro que dizimou os dinossauros. Mas será páreo para as rodas? Também já vi mambiras (um tipo de tamanduá, para quem não conhece) e bichos preguiça, para citar outros mamíferos. Em tempos de alagação, jacarés cruzam a pista em busca de abrigo e muitas vezes acabam esmagados pelas rodas de carros e caminhões oferecendo um triste espetáculo para quem passa em seguida.

Se as pessoas não param sequer para gatos e cachorros, animais com que a raça humana compartilha experiências há milênios, o que se dirá cobras, lagartos, mucuras e preguiças?
Mas com tanta coisa para se preocupar, como as mercadorias que poderiam estragar na estrada, causando alta dos preços, porque esse jornalista(zinho, segundo alguns), vai se preocupar logo com os bichos.

O problema é que minha empatia não se encerra na humanidade. É claro que as agruras dos humanos me comovem. Mas os bichos também contam com a minha empatia. Deve ser porque sou de Oxóssi que sinto o pulsar do coração de um enorme lagarto jacaré que agoniza na estrada. Inteiro ele deve ter algo perto de um metro e meio, mas sua cauda está separada do corpo. E ainda se mexe. Não deixo de me admirar da beleza de suas cores que vão do verde ao vermelho em escamas que fazem lembrar os lendários dragões. Sua cabeça triangular traz uma boca larga. Parece até esboçar um sorriso que me leva a entender o que João Ubaldo Ribeiro quis dizer com ‘O Sorriso do Lagarto’.   

Vão passar décadas falando sobre a BR, sua trafegabilidade e sua importância, recursos investidos, aplicados e segundo alguns, desviados. Vão falar sobre a dificuldade de fazer uma rodovia em solo amazônico, das chuvas que não deixam as máquinas trabalharem, dos rios e igarapés que transbordam e acabam com a pista, da necessidade de se importar pedra e que a mesma pedra trazida para fazê-la, ajuda a destruir o que já foi feito. Vão falar sobre substiuí-la por uma ferrovia e apontar dedos um na direção do outro sobre porque ela está do jeito que está.

Mas os bichos não falam e então eu falo por eles. Falo que a rodovia foi embargada porque passa em uma região amazônica de alta biodiversidade, e que foi liberada mediante o compromisso de que haveriam passagens para os bichos, mas as passagens não foram feitas porque custariam caro, mas a rodovia custou caro mesmo assim. E mesmo assim, quem liga?

Já que não posso salvá-lo, decido que vou ao menos retirar seu corpo da pista. Colocá-lo na terra. Da terra à terra. Não quero ver aquela beleza esmagada continuamente pelas rodas dos carros e caminhões. Quisera eu poder retirar todos os bichos da estrada. Quisera eu que nenhum sequer morresse assim.   

Levo alguns minutos observando aquelas escamas perfeitas que parecem ter saído de um filme de ficção, mas obra nenhuma feita pela mão do homem terá a perfeição das escamas do rei lagarto.

...

Vestindo a roupa de gente de novo, digo: já que a rodovia será reconstruída que tal fazer as passagens para os bichos agora? Já que Cruzeiro do Sul almeja tornar-se polo turístico, tais passagens ajudarão a preservar o valor biológico de nossa região. Quanto dinheiro um gringo estaria disposto a pagar para ter uma fotografia como daquele lagarto morto na estrada.  

*Fotos retiradas da internet. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apu Auzangate e a dimensão material do sagrado

Auzangate: 6384 mts de altitude
É a segunda vez que cruzo os Andes naquela altura. Na primeira em 2009, realizei a façanha em uma moto 125 cilindradas. Acima de 4 mil metros de altura ela mais fazia barulho do que andava. Poderia ter escrito um artigo sobre como cruzar os andes em um barbeador elétrico, já que era o que sugeria o som do motor: um barbeador elétrico. O pouco oxigênio das alturas afeta drasticamente o rendimento dos motores. 
Aliás, não apenas os motores, mas de toda a vida. Naquela ocasião tive de fazer a subida em duas etapas. Uma parada em Marcapata, onde me assombrei com a história de condores atados nas costas de touros: costume andino que desconhecia e que estava representado em uma estátua de bronze de bronze na praça da cidade.

Recordo-me do clima aconchegante de uma pensão, onde moradores locais conversam animadamente em quétchua. Um deles, um jovem médico, tenta me fazer entender a formação das cadeias de montanha. É inútil. Meus conhecimentos geográficos não são suficientes para compreender as cadeias de montanhas, seus meandros e sobretudo, o significado para aquela gente.

Mas eles também ficam surpresos e estupefatos quando lhes digo que tanto o Madre de Dios, que corre pela face ocidental da montanha, inicialmente com o nome de Iñambari, quanto o Vilcambamba, que nasce na mesma cadeira de montanhas e corre no sentido contrário pela face oriental, unem-se novamente a quilômetros dali, quando o rio Madeira encontra o Amazonas. Olham-me com uma certa perplexidade. Era como se para aquele povo a proeza das águas contornarem o incontornável Auzangate fosse impossível. Ali a geografia era uma questão de sentir na pele da face, nos músculos das pernas e no ar dos pulmões, e em seus corpos eram marcados pela grandeza do Auzangate. Os rios serpenteantes das infindáveis planícies da Amazônia não fazem parte desta realidade.

A vantagem de subir em duas etapas, foi o tempo necessário para uma adaptação à altitude. Quando cheguei à Abra Piurani, a 4237 mts, não senti absolutamente nada além do frio, com a proverbial ajuda, é claro, das folhas de coca.

À minha frente, este ele, o Auzangate: um trono celestial que se ergue em direção ao firmamento, impondo à geografia, sua condição divina. Talvez por isso, haja tantas oferendas na margem da estrada. A maioria são montículos de pedra em que são depositadas folhas de coca, mas há também algumas de bebida e retalhos de lã colorida.

Intuitivamente, faço o mesmo, e oferto ao Auzangate um punhado de folhas de coca, arrumadas em um montículo de pedras. Uma singela homenagem ao gigante cujo olhar das alturas, é inescapável.

Desta vez estou com um equipamento melhor. Minha moto tem 250 cc e injeção eletrônica, o que significa uma capacidade de auto regulagem. Com isso, a moto perde pouca potência e a subida acontece de uma única vez. Mas, desta vez quem sentiu fui eu. Faltando alguns quilômetros para o ‘abra’, sou tomado de uma vertigem, como quem olha para baixo do alto de um arranha céu. 
Concentro-me, e depois de serpentear cuidadosamente, e sem nenhuma pressa pela estrada, finalmente consigo chegar ao ‘abra’, já totalmente consciente que é o poder do Auzangate que rege minha sorte.

Desço da moto e apesar da belíssima paisagem, nem sequer penso em selfie. Quero mesmo é me por de joelhos aos pés do Auzangate, agradecer por ter chegado até ali, e pedir proteção para o seguimento da viagem. Me vem a memória um velho amigo, o acreano de origem libanesa Gamal Murad. Tão apaixonado quanto eu por aquela montanhas, Gamal sofreu um acidente fatal naquelas altitudes, no final do último ano. A lembrança de que era um responsável motorista e experiente naquelas estradas, somente reforça meu temor de percorrê-las.

Dou poucos passos e a vertigem me domina por completo. Faço uma pequena oferenda de folhas de coca, pedindo ao Auzangate que me permita ir e voltar daquela viagem. Substituo a coca já mascada por um novo chumaço e quando vou subir na moto, sinto um quase desmaio. Aí para frente vem a descida, o que torna este trecho especialmente mais perigoso. A moto morre e não consigo dar na partida novamente. Sou obrigado a deixar que pegue um embalo na descida.

Olho par os lados. Nenhum caminhão. E deixo que a montanha faça o trabalho que minhas pernas, naquelas condições, jamais poderiam. Felizmente, não é preciso muita descida e ela logo pega no tranco.

Vou serpenteando montanha abaixo com atenção redobrada. Se a face ocidental dos andes estava relativamente quente e seca, a face oriental incrivelmente está fria. O degelo dos andes parecem acentuar a sensação térmica do frio. Mas o frio intenso também permite sentir a radiação solar das paredes das montanhas. Aquele SENTIR me traz algo de devoção, análogo talvez ao que um fiel sinta durante um culto em sua igreja. Ali está a maior de todas as catedrais, com paredes de rochas, vitrais de gelo e fontes de cristalina, aquecidas e iluminadas pelo Sol no firmamento.

Penso que estou tendo ali, um vislumbre do que possa ser a cosmovisão andina: um sentido de devoção não voltado ao abstrato, mas às coisas materiais e concretas que determinam nossas vidas. Por isso talvez, o epíteto APU Auzangate – Senhor Auzangate. São senhores absolutos da vida ali afinal, a montanha, e o Sol.

E como vivem afinal, naquelas altitudes, aquele povo de face rosada, queimada pelo Sol, pastoreando suas lhamas, em casas feitas de rocha e adobe. Sabem melhor que ninguém quem são os senhores que ensinam a viver em condições tão extremas.

A indicação de uma pequena parada ‘caldo de cordeiro’, parece promissora. E de fato é. O caldo e um chá de coca e um pouco de maca me põem de pé novamente. Mas eu, o garoto tropical, cometo a burrice de deixar o capacete no espelho da moto. Ao vesti-lo novamente me dou conta da burrada: havia se convertido em um bloco de gelo. O resultado do frio agudo sobre as têmporas é uma persistente dor de cabeça. Mais à frente vem chuva. ‘É só um sereno’, penso eu, mas o ‘sereno’ ainda que não se compare com as chuvas torrenciais com que me acostumei na Amazônia, traz um frio que penetra até os ossos. As luvas já não adiantam de muita coisa e minhas mãos estão dormentes. Nas pernas, anuncio de câimbras. E na alma o medo de que a falta de sensibilidade me leve a um acidente.

Paro a moto e urino sobre minhas mãos: um jeito estranho, mas eficaz de trazer de volta a sensibilidade perdida com o frio.

Serpenteio a estrada até o seu fim em Urcos e depois em uma quase reta até Cuzco.
Já depois de um banho e aquecido sob cobertores, as redes sociais trazem notícias sobre minha cidade, Cruzeiro do Sul, enfrentando uma alagação sem precedentes históricos.

“O Juruá é nosso APU’, penso eu, em uma improvável adaptação amazônica da cosmovisão andina. 
rio Juruá


Mas aqui é ele afinal, quem determina nossa vida. Suas infindáveis curvas, serpenteando amazônia adentro é que dizem como devemos viver por estas bandas. Se há terra para habitar, é por que o rio assim permite. Se a serpente se mexe -e ela se mexe - águas e terras cambiam seus lugares e somos nós, e não Ele, o APU Juruá, que tem de se adaptar.

“Não faz sentido essa divisão entre material e espiritual. Essa é uma divisão da mente do homem branco, do europeu, do dito civilizado, que precisa voltar sua devoção ao abstrato, para se livrar do sentimento de culpa de quem profana o mundo que habita”.


Tais palavras me foram ditas por um ‘Amauta’ (sábio) andino, anos atrás e encontram eco, nas palavras de Ailton Krenak: “O sagrado está no olhar de quem vê, e quem vê uma montanha apenas como uma pilha de minérios a serem transformados em quinquilharias, certamente não pode, ou não consegue, ver a dimensão sagrada de tudo que nos cerca.”  

domingo, 12 de fevereiro de 2017

‘Ah, Kambô Kambô Ho!’: Uma cerimônia de ayahuasca me mostrou os possíveis riscos da medicina

Há anos era a mesma coisa: durante as cerimônias de ayahuasca, sentia uma forte impaciência, que me levava a cantar, balançar o maracá, ou me agitar de qualquer maneira, antes mesmo da manifestação plena da miração.

No dia-a-dia, uma coisa me perturbava imensamente: ao por exemplo procurar uma chave, um isqueiro ou um documento que fosse, meu coração começava a se agitar e era tomado de um desconforto muito grande. ‘Bem, isso sou eu, mas é também algo mais’, pensava.

Minha intuição me levou a buscar, do outro lado da fronteira, o conhecimento do povo Shipibo. Com população estimada em mais 20 mil pessoas (alguns relatórios falam em até 35 mil), em cerca de 140 comunidades é o grupo Pano mais numeroso. Em muito sua cultura se assemelha com os grupos pano do Acre, mas por terem se estabelecidos nas margens de um grande rio como o Ucayalli, ao invés de zonas interfluviais como os grupos Pano no Acre, sua cultura ganhou os contornos de uma cultura difundida por uma extensa zona.

Na verdade, ao visitar os Shipibo, tenho a sensação de que deve ter havido no passado algo como uma civilização Pano a qual pertenceram povos dos lados da fronteira, criada séculos depois, pelo homem branco. Inclusive consta em um mapa etnográfico do padre Tastevin a identificação de grupos Shipibo na região do Juruá no século XIX. Com diferenças mas também muitos elementos culturais em comum, esses povos por vezes tiveram também seus conflitos, talvez de modo análogo com que guerreavam as cidade-estados da Grécia Antiga, mas ainda assim, compartilhando suas crenças e visões de mundo, mitologias e sistemas de conhecimento.

Acredito ser por conta de sua predominância numérica ou talvez mais ainda pelo intenso contato com outros povos, que o sistema de conhecimentos tradicionais dos Shipibo tenha se desenvolvido a um nível prático ao ponto de seus curandeiros não serem vistos pela população local apenas como um exotismo. Trata-se de medicina popular, a qual recorrem pessoas de Pucallpa, Lima e Cusco, por exemplo. Quiçá os curandeiros Chipináguas, descritos pelos cronistas incaicos, já não percorriam as altitudes realizando atendimentos ainda durante o Império Inca. Se do lado brasileiro, a colonização branca forçou os povos indígenas a um isolamento entre si, o fluxo de conhecimento entre diferentes culturas e pisos ecológicos parece ter sido uma constante dentro da lógica do Tawantinsuyo.

Esses sistema utiliza um sem-número de plantas medicinais. Mas o kambô, medicina de origem animal, não é uma delas.

Meu contato foi com um jovem Xamã, ou nas palavras dele, Curandeiro. Diego tem apenas 31 anos, mas nasceu imerso dentro da cultura do curandeirismo vegetalista, e tem se dedicado ao aprendizado há doze anos.

Diego dizia-me que eu não necessitava de longas dietas, que eu já as tinha e que seria apenas caso de ‘arreglar-las’ e ‘endereçá-las’, pois estavam como que emaranhadas em um ‘bolão’.
Sendo assim, dirigi-me à comunidade Vista Alegre no rio Paichitea, afluente do Ucaially, para uma curta dieta de dez dias.

Deu início ao tratamento com o ‘Chumpá’ (não confundir com o chumpê – floripôndio). Trata-se  um cipó de odor semelhante ao cravo . Nos dias subsequentes, foi administrado o ‘Ajo Sacha’ (‘Alho em folha’, em uma tradução aproximada) e a Guayusa (também uma folha perfumada, de limpeza). A cada dieta, na noite seguinte, Diego conduzia uma cerimônia de ayahuasca, onde as plantas são ‘icaradas’, ou seja, canta-se para que suas propriedades manifestem-se como medicina no corpo do paciente.

Na terceira cerimônia, senti muito fortemente, uma palpitação no coração que foi se intensificando até o ponto em que mal conseguia respirar. Foi quando me dei conta, de que aquele efeito não era da ayahuasca que havia tomado, mas reproduzia ou emulava o efeito do kambô.

Aquilo deveras me surpreendeu. A última vez que tomara Kambô fora há cerca de três anos, com um pajé katukina. Contudo, a miração não me conduzia a esta ocasião, mas há cerca de 18 anos atrás, tempo de minha chegada à Amazônia, quando fiz um uso bastante frequente da medicina, por cerca de um ano. A miração mostrava-me que o uso continuado, sem as adequadas dietas e resguardos, resultaram em um efeito descontrolado, que permanecia em níveis muito internos do corpo.

Tive a sensação de que alguma das válvulas de meu coração estava dilatada em relação às demais, o que causava uma sensação de coração inchado e trazia uma sufocamento. Em alguns momentos parecia que o coração iria explodir. O que assustava era que aquele efeito não se dava durante uma aplicação de kambô, mas em uma cerimônia de ayahuasca, muitos anos depois. Ou seja, havia um efeito residual, que permanecia no corpo.   

Comuniquei a sensação a Diego que passou a ‘icarar’ o kambô. Dizia-me que estava como veneno, e que estava a convertendo para medicina.

Na mesma hora, me veio aquele velho postulado de que a diferença entre um veneno e o remédio é a dose. Mais do que apenas a dosagem, as dietas e resguardos subsequentes são essenciais para que uma substância possa ter efeito positivo e não negativo, no corpo. Mais ainda quando se trata de uma substância da potência do kambô. Dentro de sistema de conhecimento Shipibo, uma substância só torna-se medicina quando ‘icarada’, ou seja, quando se canta para essa medicina, e simultaneamente também para o corpo do paciente. Dentro dessa visão somente assim é desperto seu potencial curativo e pode trazer benefício. 

Não por acaso, o pajé katukina que me aplicou a medicina cantou o equivalente 'ícaro' do Kambô: 'Ah!, Kambô, Kambô Ho...' 

Pensei também, ser muito improvável que a própria substância em si, pudesse ainda estar em meu corpo 18 anos depois. Ou mesmo três. Mas isso somente testes poderiam identificar. O que a miração mostrava-me era se tratar muito mais de uma memória específica do efeito, guardado em receptores neurais no corpo, que sob condições específicas poderiam ser acionados e se manifestar, ainda que em níveis internos estivesse sempre presente. Pensei também que nem tudo poderia ser atribuído ao kambô, mas à minha própria estrutura psíquica, com o kambô atuando sobre ela.

Não quero com esse texto contribuir para uma ‘negativação‘ do kambô. Centenas de pessoas relatam melhoras em suas condições de saúde que variam desde gastrites até dores crônicas.

Destaco também que o que foi apontado pela miração foi que minha própria imprudência, por ter tomado kambô seguidamente e segundo minha própria vontade por pessoas talvez tenha sido a causa desse efeito. Tampouco cumpri resguardos que considero necessários. Isento de qualquer responsabilidade as pessoas que me aplicaram o kambô nesse período e a assumo completamente.

Outro ponto que vale mencionar também é que a vida de um índio na floresta já é, em si, uma ‘formação’. Longas caminhadas na mata, sol e atividades físicas intensas desde a mais tenra idade, mudanças bruscas de temperatura e mais uma série de outras especificidades da vida indígena que suponho, tenham efeito sobre questões como pressão sanguínea, pulsação e a ‘calibragem’ das veias.

Vejo-me compelido a escrever este relato pessoal, movido principalmente pelo senso de responsabilidade. Meu TCC de graduação em jornalismo foi sobre a expansão do uso do kambô nos centros urbanos do país, que naquele tempo vinha começando a ser popularizado  entre a população não-indígena. Então de certo modo, fui também um dos responsáveis pela sua difusão. Somente por esta razão que considero meu dever compartilhar essa experiência pessoal como forma de alerta.

Hoje, com a medicina difundida não apenas no Brasil, mas já em todo continente, EUA e Europa, e com o relato de pelo menos duas mortes por efeito direto ou indireto do uso de kambô, acho prudente, e necessário, apontar possíveis riscos para o seu uso indiscriminado.

Pesquisas científicas sugerem a eficácia do kambô para o fortalecimento do sistema imunológico, entre outras coisas, o que significa que vale a pena continuar os estudos. Para quem busca a medicina em sua forma tradicional, vale também saber de possíveis resguardos e restrições, quantidade, frequência e etc. Sobretudo, respeitar os próprios limites do corpo, muitas vezes acostumado à vida mais ou menos sedentária das cidades.

O Kambô, é uma medicina forte e sagrada que pode inclusive, sem dúvida, salvar vidas, e justamente por essa razão deve ser tratada com o respeito que merece.

PS: Quanto ao trabalho dentro do conhecimento Shipibo com a ayahuasca, deu resultado: na cerimônia seguinte, não tive mais aquele efeito, e posteriormente não senti mais a impaciência e palpitação descontrolada de antes.


Imagem: site Herpetofauna

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Agronegócio não sobreviveria sem produtos de origem indígena

Contextualizando: a apresentadora do programa ‘Sucesso no Campo’, Fabélia Oliveira afirma que se os índios querem preservar sua cultura deveriam parar de usar geladeira e morrerem de malária e tétano. A declaração polêmica faz parte de uma série de reações do setor do agronegócio ao samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense  que neste ano, homenageia a resistência dos xinguanos à usina de Belo Monte e ao agronegócio.
Se a opinião externada pela apresentadora fosse algo restrito ao setor do agronegócio, não seria tão preocupante, mas essa é certamente a opinião de boa parte da sociedade brasileira, que infelizmente, desconhece os processos históricos que levaram a sua própria formação.

Remédio da Malária: descoberta indígena

A tese da apresentadora é de que o remédio para a malária seria uma descoberta ‘do homem branco’ e portanto de uso exclusivo destes e daqueles que, não sendo brancos, submetem-se  às vontades e desejos do colonizador para ter direito a tais benefícios. Aos demais estaria reservada uma honrosa morte.
Nada mais equivocado. A malária não existia nas Américas.Foi introduzida pelos colonizadores. Credita-se ao povo Napo Runa e aos seus métodos tradicionais de diagnósticoe profilaxia de doenças a descoberta do uso do quinino presente em cascas e cipós como a quina-quina para o tratamento da malária.

O Napo Runa descobriram mais de mil plantas medicinais, algumas em combinações complexas, e descobriram a maioria deles em um tempo muito curto, em apenas um século ou mais de a introdução de doenças europeias. Na verdade, embora o mundo já tenha conhecido a malária há milhares de anos (foi descrito na China em 2700 aC), e não tinha remédio para ele, dentro de 25 anos da introdução da malária na Amazônia, o primeiro medicamento para a malária, o quinino, extraído de uma planta, foi descoberto pelos povos indígenas no Equador.’ Gayle Higpine, etnobotânica
O atual tratamento: cloroquina, primaquina, mefloquina, foi um aperfeiçoamento de laboratório de um tratamento tradicional. Também não são poucos os medicamentos que hoje fazem parte da farmacopéia  ocidental que tiveram origem no conhecimento tradicional.
Dito isso, vamos agora aos produtos utilizados pelo agronegócio que foram antes domesticados pelos povos indígenas das américas.

Milho, Batata, Tomate e Cacau

A lista de plantas conhecidas e domesticadas por povos indígenas e que hoje fazem parte de nossa alimentação diária é tão grande, que sobraria pouca coisa se fossemos aplicar a ‘regra de ouro’ da apresentadora.

O milho, tão importante para o agronegócio certamente encabeçaria a lista. Presente em centenas de produtos industrializados, o milho cuja safra supera as 200 mil toneladas é um produto de origem 100% indígena, cultivado em dezenas de diferentes espécies nas três Américas.
Segue na lista, a batata. Cultivada nos Andes por milênios, salvou milhões de europeus de crises famélicas e é hoje importante produto não apenas para o agronegócio, mas para a alimentação praticamente no mundo todo.

Podemos lembrar ainda da brasileiríssima mandioca, domesticada pelos povos indígenas e presente seja in natura ou através dos derivados: farinha e a goma (fécula), com que se fazem biscoitos e tapioca.

Do mesmo modo, o tomate, outro importante produto do nosso dia-a-dia, é também um produto de origem ameríndia. Ou seja, para fazer valer sua regra, Fabíola pode dar adeus ao molho de tomate na pizza e na macarronada.

O chocolate foi uma invenção europeia ao acrescentar leite à massa de cacau, que já era cultivado, processado e consumido milenarmente por povos indígenas da Amazônia e da América central.
À essa lista acrescentaria ainda o mate, tão utilizado pelo ‘homem do campo’ do Brasil Central como estimulante seja na forma de tereré gelado ou do chimarrão quente. O mate é indígena também.  
Entre as frutas temos o abacaxi, o maracujá, o cupuaçu, o açaí, a goiaba e outras dezenas de produtos que importantes ao setor agrícola nacional.

Há ainda o guaraná, estimulante conhecido originalmente dos índios da amazônia, e poderíamos acrescentar na lista até a coca-cola, já que que a coca é de origem ameríndia. E o pequi, fruto símbolo de Goiás, terra do agronegócio, advinha quem já o conhecia a ensinou aos recém-chegados na terra?

Até mesmo o adoçante Stevia, presente em refrigerantes diet, é também um legado do conhecimento indígena sobre a terra que ocupam, habitam, vivem e produzem há pelo menos cinco mil anos.  

sábado, 17 de dezembro de 2016

Multiculturalismo é civilizatório, Etnocentrismo é tribal

Somos híbridos. E isso é um fato. Ao tentar delimitar as fronteiras do que seria a ‘civilização ocidental’ nos deparamos com inúmeros e insolventes problemas. Podemos começar traçando a origem de nossa civilização ocidental na Grécia Antiga. Mas como negar nesta, por exemplo, a influência da primordial, e africana, civilização egípcia?
Quantos amálgamas foram necessários, para que os antigos gregos, absorvessem, via mediterrâneo, influências egípcias, cretenses, fenícias, mesopotâmicas?
Imaginem nosso ‘civilização ocidental’ sem os números indo-arábicos? Teríamos avançado tanto no campo da engenharia, sem a contribuição dos árabes? Que mais? Medicina. O que seria da medicina sem Avicena. O que seria da filosofia ‘ocidental’, sem Averróis e os tradutores moçárabes?
Como ibéricos, deveríamos compreender melhor do que ninguém o sentido de sermos híbridos: celtas, ibéricos, romanos, germânicos (visigodos e suevos), iranianos (alanos), moçárabes do norte da África, judeus, ciganos. A mais ocidental das penínsulas europeias é também a mais mestiça. Já chegamos à América bastante misturados, e continuamos nos misturando. Seria possível definir a cultura, ou a ‘civilização’ em que estamos inseridos descartando estas contribuições?
Somos uma civilização ocidental fundamentada em cima de uma religião oriental. O Cristianismo é sobretudo oriental, latinizou-se, é verdade, mas é possível pensar o cristianismo sem a influência decisiva do Zoroastrismo. A antiga religião persa foi quem nos legou o maniqueísmo de um mundo dividido entre bem e mal. Ainda que se questione se tal legado é antes benção, ou maldição, o fato é que a concepção surgiu na Pérsia, atual Irã. Antes a ética era fundamentalmente tribal e as noções de bem e mal estavam associadas ao ethos local.
O Judaísmo, esse sim, o supra-sumo do etnocentrismo elevado à condição divina. Ocidental? Talvez. Mas esse sem dúvida é um traço excludente que permeia nossa civilização. Nós, e os outros.
Judaíco-Cristã, greco-romano. É o que define ‘civilização ocidental’, ainda que seus pilares tenham surgido no oriente, próximo, médio ou até distante. Há quem alegue a influência do budismo, por exemplo, em concepções filosóficas ‘ocidentais’ posteriores.
Mas quem somos ‘nós’ e quem são os ‘outros’? A divisão parece ser muito mais fruto de nossa própria vontade de nos diferenciar do que de algum dado real ou concreto. O expediente vem de longa data. Os gregos se diferenciavam dos ‘bárbaros’: todos aqueles que não falam grego (os romanos eram a princípio ‘bárbaros’ para os gregos). Os judeus falam dos ‘gentios’, a ‘gentalha’ que não foi escolhida para ser salva.
Recentemente, li no face, uma postagem que juntava índios, negros e islâmicos numa mesma panela. Eram os ‘outros’, capazes de aberrações inomináveis como por exemplo, a mutilação genital. Contra eles, deveríamos estar vigilantes, a fim de manter nossa civilização a salvo.
A mutilação genital acontece em mulheres em algumas tribos da África, e definitivamente, não é um ‘valor’ que parece ter a capacidade de ser absorvido, ou adquirido, pela nossa civilização.
O apelo de vigilância contra o multiculturalismo parte de Olavo de Carvalho, o mesmo que tem procurado relativizar as torturas e mortes da inquisição. Para Olavo, teria sido apenas um ‘complô’ dos protestantes a fim de desacreditar a igreja católica. Segundo Olavo, as mortes na fogueira foram bem menos cruéis do que se imagina, já que as vítimas morriam asfixiadas e não queimadas. Que alivio!
O que será que Olavo diria das teses do antropólogo mexicano Frank Díaz, de que na verdade, os relatos de sacrifícios humanos na América seriam apenas invenções da igreja católica para justificar a tomada de terras?
O que pode ser mais etnocêntrico do que justificar as atrocidades de sua própria ‘civilização’? Um comportamento bastante ‘tribal’ eu diria.
Ao fim, o que define ‘nós’ dos ‘outros’, parece muito mais ser explicável em termos de medos irracionais do que por parâmetros objetivos.

Somos híbridos, e quando for pensar no assunto das chamadas ‘trocas culturais’ que tanto assustam a Olavo e seus seguidores, prefiro pensar não nas mutilações genitais, mas por exemplo, em uma técnica ancestral de tecidos de povos andinos na Bolívia que estão sendo utilizadas para reparar danos cardíacos.

domingo, 23 de outubro de 2016

A Ayahuasca e o Dia de Ação de Graças

Todos nós estamos de certo modo familiarizados, com a comemoração protestante do Dia de Ação de Graças. Mesmo em terras brasileiras, onde a comemoração faz pouco, ou nenhum sentido, os ventos do norte nos trazem a ideia de uma comemoração onde todos familiares se reúnem ao redor de uma mesa farta, e em um gesto de reconciliação e agradecimento, comem o famoso peru, juntamente com outras iguarias.

A data é tão importante para a o espírito nacional dos EUA que igrejas protestantes a eles ligadas, buscam implantar a data por aqui também.

Oficialmente, comemora-se o dia em que um grupo de colonos famélicos teve seu pedido de oração atendido, trazendo uma colheita farta e permitindo assim, a sua subsistência. Um sinal de que ‘deus’ estaria a favor dos cristãos, intervindo para que esta terra viesse a ser evangelizada.

Nas igrejas batistas, não há uma linha sequer para contar a história da índia Pocahontas, que enamorada de um dos colonos, persuadiu parte de sua tribo, a suprir os colonos com alimento nativo em abundância. Entre os alimentos, estava o peru, ate então desconhecido dos colonos.

A história termina, é claro, com os índios assassinados, Pocahontas convertida ao cristianismo e morta em um navio a caminho da Inglaterra, e é claro: os colonos cristãos agradecendo ao seu deus estrangeiro por tamanha benevolência.

E continuamos, é claro, a comer peru, milho, tomate, feijão, batata, chocolate, guaraná, maracujá, tabaco e mais uma extensa lista de produtos oriundos não apenas da Terra América, mas efetivamente domesticados pelos povos nativos durante gerações.

Nesse sentido, fica mais fácil perceber que o processo de apropriação da ayahuasca pela sociedade e religião do homem branco, não é caso isolado, mas apenas mais uma na lista de tantas outras plantas e conhecimentos apropriados desde o início da colonização.

Por diferentes meios, as religiões declaram por meio de revelação que mais uma vez, ‘deus’ lega o conhecimento aos brancos. E para quem tem ‘deus’, que importância teriam os ‘índios’?
Felizmente para muitos adeptos das religiões ayahuasqueiras não é assim. Não é raro que sejam retratados como guardiões deste conhecimento milenar. Afinal se foi a vontade de ‘deus’ que tenha trazido a medicina para a terra, ele a fez na Amazônia e colocou nas mãos dos povos originários. Menosprezar esse fato HISTÓRICO, além de desrespeito, é uma negação da própria realidade.
Antes de seguir adiante explico o porque de grafar ‘deus’, com minúsculo e entre aspas. Afinal, de que ‘deus’ estamos falando? Estamos falando do deus judaico-cristão bíblico? Aquele do Oriente Médio não deixou uma linha sobre a ayahuasca. Estamos falando de um conceito de bondade universal? Do sentido de uma supra-consciência? O que é afinal, ‘deus’, para os povos que comungam a ayahuasca desde tempos imemoriais?


Se não formos capazes de responder a essas perguntas, a ayahuasca talvez seja retratada no futuro como mais um ‘peru de natal’: um presente ‘divino’, sem relação com os povos guardiões deste conhecimento.

Carta aberta dos Povos indígenas do Acre sobre Conferência Mundial da Ayahuasca

22 de Outubro de 2016

CARTA ABERTA DOS POVOS INDÍGENAS DO ACRE – BRASIL À CONFERÊNCIA MUNDIAL DA AYAHUASCA (nixi pae, huni pae, uni pae, kamarãbi, kamalanbi, shuri, yajé, kaapi…)

Nós, abaixo-assinados, presentes nesta Conferência, pertencentes aos povos indígenas Yawanawa, Shanenawa, Jaminawa, Huni kui, Apurinã, Manchinery, Katukina, Nukini, Puyanawa, Ashaninka, Madja, Jamamadi, Nawa, Shawãdawa, Apolima-Arara, Jaminawa-Arara e Kuntawa, presentes no Estado do Acre e Sul do Amazonas desde nossas ancestralidades, somos 17 povos indígenas de 36 terras indígenas reconhecidas pelo governo federal, falantes das línguas Pano, Aruak e Arawa, perfazendo uma população estimada em 23.000 indígenas, os quais estão distribuídos em aproximadamente 230 aldeias. Vale lembrar que tais terras estão situadas em 11 dos 22 municípios acrianos.


A II WORLD AYAHUASCA CONFERENCE foi realizada na cidade de Rio Branco-AC entre os dias 17 a 21 de outubro de 2016, tendo como objetivo maior: “promover um espaço de diálogo, partilha e aprendizagem, sinergia e colaboração, no respeito pela diversidade cultural das tradições da ayahuasca”.

Isso ficou evidente a partir do momento em que se constituiu a primeira Mesa, na qual já ficou perceptível qual seria o tom geral do Evento. Nesse primeiro momento, já se verificou que não seria dada condição de amplo debate e participação dos indígenas, tanto dos palestrantes, como da plenária, e percebeu-se que seria este o tom geral da Conferência.

Assim sendo, vimos manifestar nossa insatisfação para com as questões a seguir:

A I Conferência Internacional, que aconteceu em Ibiza, na Espanha, não contou com a participação ampla dos povos indígenas que são os verdadeiros detentores desse conhecimento, posto que na mesma estiveram presentes apenas dois Huni Kui.
Não foi repassado aos povos indígenas nenhuma informação oficial das discussões realizadas nesta primeira Conferência, nem dos encaminhamentos procedidos na ocasião.
Acreditamos ser questionável o próprio nome dado ao evento, “Conferência da Ayahuasca”, uma vez que ele é genérico, e não contempla as diferentes designações dadas por cada povo. Note-se que, um nome, não é apenas “o nome”, uma vez que a ele estão atrelados conceitos simbólicos de suma importância cultural e espiritual para cada um dos povos que faz uso dessa bebida. E bom lembrar também que não estamos conferindo nada acordado anteriormente com qualquer povo indígena.
Ainda que este evento conte com maior número de participantes indígenas, não estamos nos sentindo realmente parte de sua criação e organização.
O formato das mesas também não nos contempla, uma vez que a duração dessas mesas não dá espaço para o debate necessário. Não houve tempo para os palestrantes expressar o que haviam se preparado para dizer, nem houve tempo para debater. Entendemos que o formato do evento é ‘acadêmico’, mas acreditamos que o evento deveria ter compreendido que a maior parte dos participantes não são oriundos do meio acadêmico, e, sequer o assunto da conferência é acadêmico, visto que a Ayahuasca não se restringe a um tema científico, mas fala de identidade, saber, ritual, sacralidade, cultura, vivências e práticas milenares. E entendemos que a Academia deveria considerar e contemplar essas especificidades, e não impor o seu formato.
Nós indígenas não fomos convidados a participar de muitas das mesas, a despeito do fato de que os temas debatidos eram de interesse dos indígenas.
As mesas estão acontecendo de maneira simultânea, o que impede a participação ampla das pessoas, que precisam escolher qual das palestras assistir.
Encaminhamentos

Por meio de um diálogo majoritariamente indígena, nós participantes desta Conferência não tomaremos nenhuma decisão relacionado aos assuntos abordados neste evento, sobretudo, aqueles de caráter mais relevante, sem antes de:

a) promover a realização de encontros indígenas em que se faça presente todos os detentores do conhecimento das plantas (cipó e a folha) com as quais se prepara a bebida sagrada que está sendo chamada de Ayahuasca, com a presença das instituições responsáveis e envolvidas na discussão de patrimonialização.


b) discutir melhor o assunto sobre patrimonialização, pois durante sua abordagem fragmentada ocorrida na conferência, não ficou claro para os povos indígenas o que significa isso na sua essência.


c) fazer um Grupo Técnico (GT) sob a coordenação e orientação dos indígenas para a realização de consultas em respeito aos detentores do conhecimento sobre a Ayahuasca e ao Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004, que diz que o Brasil deve respeitar a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT, e consultar as comunidades indígenas antes das obras (prévia), da forma que as próprias comunidades escolherem para ser consultadas (livre) e ainda tem que levar todas as informações que existem sobre o empreendimento (informada).


d) constituir um conselho ético para discutir o assunto da origem e definir critérios sobre o uso e a patrimonialização da Ayahuasca, e a partir dessa perspectiva e entendimento, realizar reuniões com as igrejas e demais segmentos que utilizam essa bebida sagrada, diante disso, poderemos apresentar nossa posição sobre os assuntos.


e) Requeremos a garantia de participação dos povos indígenas dos demais estados brasileiros que fazem uso da bebida sagrada na discussão sobre a patrimonialização;


f) Requeremos, ainda, o direito de deliberação, participação e planejamento do que acontecerá nas próximas Conferências Mundiais da Ayahuasca, a partir da próxima que está previsto a realizar-se em Tóquio no Japão. Requeremos também a participação igualitária em todas as mesas de debate no âmbito do evento;


g) Requeremos, por fim, que as Conferências Mundiais da Ayahuasca e os órgãos públicos e privados que discutem o tema reconheçam as tradições de uso, de cura e de preparo dos líderes espirituais dos povos indígenas.


Por fim, reafirmamos que estamos dispostos a colaborar em todos os processos para os avanços das discussões para o uso e o Direito da consagração da bebida por toda a humanidade.

Rio Branco, Acre, 21 de outubro de 2016.

O Acre não é Ibiza

Em Cruzeiro do Sul chegam notícias da II Conferência Internacional da Ayahuasca que acontece em Rio Branco-AC entre os dias 17 e 22 de outubro.
O primeiro encontro foi há dois anos em Ibiza na Espanha, quando então os organizadores chegaram a declarar que Ibiza teria se tornado a ‘capital mundial da ayahuasca’. Naquela ocasião, o caráter do encontro parece ter assumido uma forma ‘new age’, na turística ilha dos prazeres, das praias de nudismo e das boates embaladas ao som tecno.
Desde aquela ocasião, já percebeu-se a necessidade de realizar este encontro em terras amazônicas, região de origem da medicina.
O encontro no Acre, contempla a terra de origem das chamadas religiões ayahuasqueiras. Ao menos duas delas tem sua origem na capital acreana: o Santo Daime, em sua diferentes vertentes, e a Barquinha. Já a UDV tem sua origem em Porto Velho-RO.
Mas a maior surpresa, ou talvez, não tão surpresa assim, esteja sendo a participação das lideranças indígenas do Acre.
É justamente aí que surge a maior divergência dos pontos de vista entre os povos indígenas e as religiões ayahuasqueiras. As religiões buscam legitimar o seu uso urbano e a expansão para locais tão distantes no planeta quanto a fria Noruega ou o desértico Israel e com isso, a compreendem como patrimônio da humanidade.
Os povos indígenas, ao seu turno, entendem a declaração como uma apropriação de um conhecimento que é seu por origem e que portanto, tratando-se de patrimônio dos povos originários.
É a esse respeito que pretendo tecer considerações nesse artigo.
A expansão do uso da ayahuasca
Pesquisas apontam como a origem do uso da ayahuasca o vale do rio Napo, afluente do Marañon, entre povos de língua Kichua – uma língua aparentada do quéchua falado na montanha- em território hoje pertencente ao Equador.
Desde então, o uso da ayahuasca, aqui compreendido como o cipó Banisteriopsis caapi, passou por um processo de expansão e assimilação pelos povos nativos da Amazônia sub-andina.
Seria mais recente, portanto, o uso da ayahuasca nos vales do Putumayo, associado à chaliponga, e mais recente ainda no Ucayalli (Peru), já associado à chacrona (Psicitrya viridis).
A expansão teria continuado, até adentrar em terras hoje brasileiras e ser gradualmente assimilado pelas populações de seringueiros que com sua própria conotação religiosa deram origem às chamadas religiões ayahuasqueiras. A partir da institucionalização religiosa, o uso da ayahuasca encontrou seu caminho junto aos grandes centros urbanos do Brasil e a partir daí, ganhou o mundo.
Medicina ou religião
Pode-se dizer que a tendência mais forte dentro do contexto de uso da ayahuasca é afirma-la cada vez mais como uma ‘religião’. O suporte legal dado pela constituição brasileira à liberdade religiosa, já seria justificativa pragmática suficiente para enquadrá-la como ‘uso religioso’.
Mas, como seria o uso tradicional da ayahuasca entre os povos nativos? É possível enquadrá-la como ‘religião’?
O mais apropriado entre os povos nativos tem sido declará-la como ‘medicina’, que em alguns locais é quase um sinônimo para a ayahuasca. Parece mesmo que o uso mais corrente da ayahuasca tenha sido realmente para a cura e obtenção de saúde entre os povos nativos.
Abro aqui um parêntese para lembrar que em muitas culturas, não necessariamente os ‘pacientes’ façam uso da bebida, mas sim os ‘pajés’, que a usam como meio de prospecção da doença. A ‘cura’ efetivamente acontece a partir do tratamento, normalmente sob a forma de uma ‘dieta’ com a(s) planta(s), indicada(s) pela ayahuasca.
Há ainda o papel desempenhado pelas canções/orações como parte do processo de cura. Ou seja, esse tratamento está diretamente vinculado ao um sistema de conhecimento e/ou um conjunto de crenças místicas- uma cosmovisão- compartilhados por paciente e curador. Ou seja, em certa medida, é também um ato de fé.
Pensando ainda no contexto místico/religioso, é razoável supor que na medida em que houve a expansão deste conhecimento, seu uso fosse sendo adequado aos costumes e conjunto de crenças de cada povo, em uma dinâmica cultural própria dos povos indígenas antes da chegada do homem branco.
Nesse sentido, o uso religioso pelo homem branco, parece ser, de certo modo, a continuidade desse processo de expansão e adequação a essas novas realidades.
Legitimidade do uso
O enquadramento parece ser uma necessidade das religiões institucionalizadas, que compreensivelmente, querem assim evitar a banalização do uso da ayahuasca.
Ocorre que, se esse enquadramento carece de legitimidade se nele estiverem excluídos os direitos dos povos originários.
Para uma das religiões ayahuasqueiras isso pode ser um problema, já que um de seus fundamentos doutrinários pressupõe a negação da origem nativa da ayahuasca. Refiro-me especificamente à UDV, onde o uso da bebida é fundamentado por meio do mito de que o conhecimento do uso da ayahuasca tenha sido legado pelo lendário rei Salomão. A interpretação fundamentalista do mito da UDV leva à conclusão de que os povos indígenas não possuem legitimidade para o uso da ayahuasca. Seriam, em suas próprias palavras, apenas ‘curiosos’: sem conhecimento verdadeiro.
A afirmação tem colocado algumas lideranças em ‘pé de guerra’ denunciando a apropriação de seus conhecimentos tradicionais.
Já no Santo Daime, essa problemática parece ser mais diluída. Mestre Irineu teria recebido a Santa Doutrina de Nossa senhora da Conceição, mas não há referência clara sobre o uso nativo. Na prática, o Santo Daime tem sido mais permeável à presença indígena em suas igrejas, inclusive como convidados a entoarem seus cantos tradicionais.
Novos Aprendizes
Há ainda um novo contexto que surge como complicador dos enquadramentos propostos para o uso da ayahuasca. Ocorre que, um número cada vez maior de pessoas, tem buscado fazer o uso da ayahuasca fora do contexto das religiões institucionalizadas, mas dentro do uso chamado ‘tradicional’ dos povos indígenas.
Pode-se questionar quanto de ‘tradicional’ efetivamente existe dentro do uso indígena, já que ao menos no Acre, estes povos tem sido também influenciados pelas religiões, especialmente o Santo Daime, no uso que fazem da medicina das aldeias.
Surgem os jovens com violões, maracás e tambores, onde antes havia somente a voz do pajé. Músicas tradicionais recebem melodias que a fazem se assemelhar aos hinos do daime, ou mesmo aos pontos da umbanda.
Mas e esse não-índio, que participa das cerimônias na aldeia, que aprende cantos tradicionais e que possivelmente, irá também levar o formato de cerimônia das aldeias para outros centros urbanos?
Hoje, não podendo enquadrá-lo em outra categoria, esse aprendiz recebe o pejorativo rótulo de ’turista’.
Tampouco os povos indígenas parecem estar preparados (ou interessados) para fazer deste ‘aprendiz’, um reprodutor fidedigno daquilo que são os conhecimentos tradicionais de seu povo e dos ensinamentos dos seus mestres.
A dinâmica cultural, contudo, é viva, e não se prende a rótulos e enquadramentos. O processo de expansão de uso da ayahuasca irá continuar independente do que decidam os congressos. A ayahuasca irá sempre despertar o interesse de pessoas em locais tão longínquos como a Rússia ou o Japão. Para estas pessoas, ao menos uma vez em suas vidas, talvez seja necessário uma imersão na Floresta, em busca de conhecer nas raízes, a planta que a essa altura, já terá transformado suas vidas e suas percepções sobre a realidade.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Embiaras, a batalha dos séculos, tracajás em desova e outras historietas

Embiaras

Para quem já acompanha o blog Terranáuas há algum tempo, também já deve estar acostumado às suas ‘embiaras’.
Acontece que o blog foi criado especialmente para tratar de temas mais ligados às questões indígenas, ambientais e espiritualidade. Mas como realmente não há como fugir temas políticos, acabei criando a coluna ‘embiaras’. O próprio nome reflete um preconceito meu de que a política seria um tema menor, algo de menor importância e que não enche barriga. Isso porque embiara, para quem não sabe, significa caça pequena.
Minha própria concepção sobre a política ser algo menor, mudou, mas resolvi manter o nome porque gosto dele: embiara.
Isso porque já passei décadas de minha vida dizendo ‘OM’ pra tudo e se isso, por um lado me ajudou a não perder o eixo, por outro, não mudou nada a realidade à minha volta. Não há como fazer belos vasos de cerâmica sem sujar as mãos de barro, e o barro meus caros, é a realidade. Em seu livro, Tawantinsuyu, o Xamã Alonso Del Rio, explica, que na cosmovisão andina, não há como professar uma espiritualidade verdadeira sem antes desenvolver um profundo senso de amor pela realidade.
Assim sendo, a ‘isenção’ só existe como condição ideal, porém nunca real do ser humano. Sempre estaremos em maior ou menor grau, envolvidos nas questões que nos cercam, como sujeitos políticos. Há aquela velha máxima de que mesmo quando escolhemos ser apolíticos, esta escolha é política.
Portanto, vou deixar os falsos pudores de lado e ‘sujar as mãos de barro’ na realidade. Quem sabe ainda faço uns vasos bonitos.

Caçadores, à caça!

A batalha dos séculos

Não senhores. Esta não será uma disputa entre esquerda e direita, ou entre pobres e ricos. A eleição municipal deste ano em Cruzeiro do Sul será para escolher se a cidade entra para o século XXI ou permanece presa a mesmo coronelismo de tonalidades feudais do século XIX.

Carla não restringe seu eleitorado somente entre os tradicionais apoiadores da FPA no Juruá. Tanto que tem igualmente admiradores no campo da direita, em setores que sempre foram críticos ao PT e à FPA.

Primeiro, porque Carla transmite a segurança de quem, se for dada a oportunidade, irá gerir a coisa pública com a responsabilidade e transparência que tanto fazem falta na administração municipal.

Segundo, porque a delegada está muito, mas muito longe dos estereótipos dos militantes de esquerda, com suas frases feitas, seus bordões ultrapassados, e seu sectarismo.

Ainda assim, um olhar atento vê nela sim, uma política identificada com a esquerda. Não numa camisa vermelha, ou num punho cerrado, mas no olhar atencioso, no sentimento da importância da dignidade humana.


Escolher Carla Brito significa que escolher o novo, a modernidade. Significa escolher dizer que a política deve ser gerida por interesses públicos e não familiares. Escolher o mérito e não o nome.  A coisa pública, e não a ‘cosa nostra’.

Não sou guru ou vidente, para fazer previsões astrológicas sobre o resultado das eleições. Baseado nas conjecturas políticas de pretensos 'especialistas' o mais acertado seria dizer que o povo vai quer sempre 'mais do mesmo'. 

Quero pensar que não, e que o desejo de mudança possa ser traduzido na forma do voto em Carla Brito.

O meu voto, está definido em Carla Brito e nunca antes, em uma eleição municipal, terei dado um voto com tamanha convicção.

Fica o leitor portanto sabedor de minha própria posição política, o que considero mais honesto do que escamotear minha opinião por trás de uma falsa isenção.

Dito isso, vamos portanto à análise

Esta será minha quarta eleição municipal da qual participo em Cruzeiro do Sul. Cheguei na cidade do ano de 2000, as vésperas da eleição que deu a César Messias a prefeitura da cidade. Depois disso tivemos: Henrique (PT) X  Zila (PTB). Zinho (PP) X Vagner (PMDB) e novamente Henrique (PV) X Vagner. 

Como todos sabemos, em nenhuma dessas ocasiões a FPA conseguiu eleger o seu candidato. Ainda que sempre mantivesse uma pequena margem de diferença em relação ao vitorioso. Um destaque para Henrique Afonso em 2012, que definitivamente, venceu Vagner Sales na área urbana da cidade.

Henrique crê, e com acertada dose de razão, que é um bom nome para a disputa da prefeitura de Cruzeiro do Sul, mas que sua aproximação com a FPA foi o fator decisivo para sua derrota. Nunca faltou gente para dizer 'gosto do Henrique, mas ele é do PT' (mesmo quando ele disputou pelo PV), assim como não faltará gente para dizer 'gosto da Carla, mas ela é do PT, mesmo que ela seja do PSB, partido que fez oposição à Dilma e faz parte da base de apoio ao governo Temer.

Esse tipo de eleitor, que 'gosta do candidato fulano, mas não vota porque ele é do PT' é um 'brincante': sempre vai votar nos candidatos indicados dentro da mesma estrutura patriarcal-coronelista que domina a cidade. 

Há um eleitor 'cativo' que vota na FPA, ou por afinidade com o modelo, ou por rejeição às figuras políticas locais, normalmente pactuadas com feudos familiares e aos setores a quem mais interessa o atraso social e a dependência econômica da população.

De modo antagônico, outra parcela da população, sempre viu no voto dos candidatos de oposição ao governo, uma forma silenciosa de resistência, seja às vontades da corte riobranquense seja ao vermelho do PT. Por essa lógica, os candidatos de oposição ao governo, depois de eleitos, nunca precisaram fazer muita coisa para viabilizar-se politicamente. Bastava, é claro, continuar na oposição ao governo. Quanto mais xucra e anedótica possível essa oposição, melhor, mesmo que isso custe um atraso de mais de uma década no desenvolvimento da cidade. 

E o que há de diferente nessa eleição, ou mais especificamente, na candidatura de Carla Brito?

Tracajás

A ironia é que a 'forasteira' Carla Brito é justamente a mais 'cruzeirense' das candidaturas. Carla está totalmente apoiada em um trabalho realizado em Cruzeiro do Sul. Não em Brasília ou Rio Branco. Por aqui o que não faltam são os 'cruzeirenses' que passam anos fora, montam suas vidas em outras cidades e como os tracajás que não moram na praia, voltam nela na época de 'botar os ovos'.

Pela primeira vez, temos uma candidatura que se articula por afinidades de princípios e não por determinações de caciques. É por isso que não estranha, por exemplo, que Carla, 'uma mulher da lei' possa encontrar apoios tanto entre militantes de esquerda, quanto entre aqueles normalmente mais conservadores e identificados com a direita. O primeiro anseio é de que o candidato seja comprometido com a transparência, com a ética na política. Carla satisfaz esse anseio do eleitor e por isso tem sido capaz de agregar pessoas para além dos 33%, 'cativos' da FPA. 

Carla já é um fenômeno e a pesquisa fajuta do PMDB que a coloca com 11%, antes mesmo de ser lançada, é somente mais uma prova disso. 

O que mais impressiona é a capacidade de Carla agregar pessoas das mais diversas, de trazer de volta o interesse político para um tipo de eleitor que sempre via nas eleições, 'mais do mesmo'.

Química

Nas próximas semanas, Carla deverá iniciar o processo de consulta pública para o Plano de Governo. 

Sim, isso mesmo, Carla, a 'forasteira' respeita a vontade dos cruzeirenses e vai ouvir a nós todos, antes de registrar o seu plano de governo. Você foi ouvido no plano dos demais candidatos?    

Nesse processo, poderemos mensurar como será a química Carla + Povo. 

Sendo também eu um 'forasteiro' com dezesseis anos de Juruá, eu aposto, que a Pernambucana de Petrolina consegue se identificar, falar e sobretudo, ouvir a linguagem do povo, bem mais do que alguns tracajás que desovam nessas praias a cada quatro anos.

Digo isso imitando para mim mesmo um sotaque pernambucano e ouço, lá no Cais do Porto, uma resposta em alto e bom 'acreanês':


- Má vai mermo!