domingo, 17 de dezembro de 2017

Cultura, política, ciência e espiritualidade são tema de debate na Primeira Conferência Indígena da Ayahuasca

Na mesa, a ayahuasca está literalmente presente, na forma de dois filtros. O vidro translúcido permite ver o seu interior. Na ponta esquerda da mesa está o líquido cor de terra, o Nixi Pãe trazido pela comitiva Huni Kuin. Na ponta direita está um de tom mais escuro: é o Hêu servido pelos anfitriões do encontro, o povo puyanawa.

Biraci Brasil - Nixiwaká: respeito ás religiões ayahuasqueiras, mas necessidade de que as vozes indígenas sejam ouvidas 

“Essa reflexão é para saber o que queremos deixar de herança e futuro para um povo”, resume José Luís Puwe, uma das lideranças espirituais do povo Puyanawa.   
Puwe serve o hêu para Biraci Jr Iskukuá durante a mesa que debateu os intercâmbios entre indígenas e não-indígenas através da ayahuasca

O encontro trouxe lideranças políticas e espirituais dos povos do Acre. Huni Kuin, Ashaninka, Yawanawá, Nuke Koi (katukina), Shawadawa, Kuntanawa, Manchineri, Jaminawa e Shanenawa, além dos anfitriões Puyanawa, que por dois dias debateram sobre o uso da ayahuasca.
Camarampi para os ashaninka, nixi pãe para os huni kuin e uni para os Yawanawá - e mais uma dezena de nomes tão diversos quanto os povos que habitam a floresta amazônica – são usados para designar a mesma bebida, universalmente conhecida pelo seu nome Kíchwa: a ayahuasca. É ainda o Daime e o Vegetal ou Hoasca para as religiões ayahuasqueiras brasileiras.

A ideia de promover um encontro indígena da ayahuasca ganhou força ao final da Segunda Conferência Mundial da Ayahuasca – a Aya, realizada em Rio Branco-AC em 2016. A primeira edição da Aya aconteceu em Ibiza, na Espanha, em 2014.

Longe da sua origem amazônica, do outro lado do Oceano Atlântico e separada por milênios de conhecimento dos povos originários, não foi difícil que o debate sobre a ayahuasca conduzido por pesquisadores, na antiga metrópole da América, soasse como mais uma etapa do secular colonialismo.

Talvez por essa razão seus organizadores tenham decidido trazê-la, em 2016 para Rio Branco-AC: berço das chamadas religiões ayahuasqueiras - um fenômeno típico da Amazônia brasileira que urbanizou o uso da bebida nas grandes cidades e facilitou a sua entrada nos EUA e Europa.
Mesmo no seio da floresta, a participação indígena na Aya Conference foi exígua. “Nos deram cinco minutos para falar sobre a importância da ayahuasca para nosso povo”, disse - já na conferência indígena da ayahuasca - Biraci Jr Iskukuá – jovem aprendiz das tradições espirituais do povo Yawanawá. A insatisfação dos indígenas com relação à sua pequena participação e decisão nos caminhos tomados pela internacionalização da bebida ancestral, foi materializada na forma de uma carta*, amplamente divulgada pelos meios de comunicação.  
Os debates, até então conduzido por pesquisadores e cientistas, foi preenchido pelas vozes de pajés e aprendizes de diferentes povos e gerações. A ayahuasca na mesa é sobretudo um recado: para falar da ayahuasca é preciso comungá-la: uma clara recusa ao paradigma do saber científico ocidental, e uma reafirmação dos valores dos saberes tradicionais dos povos originários. A ayahuasca aqui não é objeto de estudo e sim, sujeito de saberes; uma professora.        

Intercâmbio Cultural

A mesa formada pelo cacique, e pajé, Biraci Brasil – Nixiwaká, seu filho, o jovem aprendiz Iskukuá e Benky Pianko tratou do tema da interculturalidade da ayahuasca, ou seja, seu uso conduzido por indígenas no meio não-indígena. Biraci fez questão de deixar claro seu respeito e admiração pelas chamadas religiões ayahuasqueiras e de como muitas igrejas daimistas têm possibilitado a abertura para que seu povo apresente sua cultura em um contexto sagrado.
“Essa discussão que todos nós indígenas que nascemos com o conhecimento dessa bebida tem saído um pouco fora do nosso controle e nós não estávamos conseguindo discutir isso, e ao mesmo tempo está abrindo as portas para o mundo, porque através dessa bebida muitos povos indígenas do Acre, da Amazônia começamos a ser convidados a participar e compartilhar com outras pessoas até mesmo fora do Brasil. O uni chegou a praticamente todos lugares do mundo. Mas estava começando a sair do uso original, da qual nós mantemos há milhares de anos. Essa conferência nos possibilita a nos reencontrar e discutir coletivamente e a tirar um direcionamento para que a gente possa compartilhar ela, ao mesmo tempo, mantendo a sua essência. É um começo de muitas discussões que vão acontecer. Fiquei muito satisfeito. Desperta para discutir como contribuir da melhor forma que essa medicina se expanda com o respeito que nós povos indígenas preservamos a milhares de anos. E também estreitar nossa relação com as igrejas, as doutrinas que usam essa medicina de uma maneira parceira, de respeito e de entendimento mútuo entre nós. Essa conferência da ayahuasca nos desperta a ter mais cuidado e chegar a um entendimento que a gente possa se sentir seguro e que continue sendo preservado e valorizado como nós ancestrais valorizaram e cuidaram durante milhares de anos. Entendo que hoje estamos em outros tempos, mas que ela não saia de sua essência.”

Ciência sem consciência

Benky Pianko: por uma ciência com consciência
O ashaninka Benky Pianko centrou sua fala na importância da ayahuasca em um conjunto de saberes que possibilitam a vida em harmonia com a natureza, e de como, segundo ele, ‘a ciência sem consciência’ tem resultado, entre outras coisas em uma relação destrutiva do homem com a natureza, traduzida em termos da crise ambiental e climática vivida no planeta.
“Queira ou não, 100% da resistência da nossa vida, é a terra, é a floresta, as águas que nos sustentam. Todos esse desequilíbrio criado pelos povos do mundo, e a civilização do ocidente a gente não tem para onde correr. Nossa única expectativa é poder mostrar quem nós somos através de uma união de humanidade. A floresta é um filtro. As águas são abençoadas, são divinas, são espíritos para nossa resistência. A gente não defende a floresta por defender. A gente defende a nossa vida. Estamos defendendo a nossa vida. Então hoje esse desequilíbrio climático é consequência dessa ciência que possibilita destruir para se consumir. O ensino acadêmico tem uma importância grande, mas se você tem uma ciência e não tem uma consciência de como você vai usar essa ciência para um bem para que sustente aquilo que você tem no espirito, não adianta estudar o mundo para matar o seu próprio mundo. Hoje a gente vê que o mundo está sendo morto por essa ciência sem consciência. Estamos nos reunindo para colocar nossa posição, a nossa presença, a nossa resistência com sabedoria, inteligência, amor, paz porque é através dela que vamos provando que nós temos um mundo diferente mas que todos também são beneficiados nessa terra, não é só nós indígenas.
Por isso estamos falando nessa conferência desse conhecimento que é tão amplo que hoje através dessas plantas que em muitos lugares, muitas igrejas estão curando as pessoas, tirando as pessoas de seus sofrimentos para se reerguer se reativar novamente.
A ayahuasca é um canal, é um despertador mental, é um trabalho psicológico e o físico para que a gente se reconecte novamente com nosso mundo.
Esse conhecimento que a gente tem que não trabalha só beber a ayahuasca. A gente trabalha o espirito de como se penetrar para acionar as linhas que existem dentro da sabedoria de identificar cada planta, de para que serve cada planta.
Por isso é um instrumento muito difícil de se provar. Não é um mundo que é provado, que é escrito no papel. Mas é uma ciência que tem que ser reconhecida porque o dia em que a terra se descontrolar ainda tem povo que ainda mantém sua raiz, que ainda tem sua essência, que ainda vive nessa floresta que defende esses conhecimentos para curar a humanidade renascer e reativar novamente o mundo.”

Livre Circulação de Pajés, aprendizes e suas medicinas

Um tema de grande interesse durante o encontro foi sobre a livre circulação dos indígenas com suas medicinas. Foram trazidos casos de constrangimentos e ameaças de prisão por narcotráfico pela Polícia Federal de indígenas que tentavam embarcar suas medicinas a partir de aeroportos. Para essa mesa foram convidadas a defensora pública Cláudia Aguirre e o pesquisador Juarez Duarte Bonfim.

A defensora Cláudia Aguirre: povos indígenas devem se apropriar de instrumentos legais ao seu favor como afim de garantir a livre circulação  
A defensora fez uma explanação sobre os diversos meandros na legislação que passam pela lista de substância proibidas nas Convenções da ONU sobre Entorpecentes (1961) e sobre Substâncias Psicotrópicas (1971), das quais o Brasil é signatário. A lista da ONU prevê a proibição do DMT – Dimetiltriptamina, substância contida em uma das plantas da ayahuasca (a chacrona ou rainha - psychotria viridis). Contudo, a própria ONU, quando questionada sobre a ayahuasca, respondeu que plantas contendo DMT não estão proibidas. Ainda assim, a legislação tem sido interpretada de maneira diferentes pelos países, com distintos rigores e penalizações para o transporte.
“Essas convenções foram feitas sem serem ouvidas as comunidades indígenas, essa dimensão não foi tratada com a devida participação dessas comunidades. Isso é contradição em relação a convenção 169 da OIT que é o marco normativo internacional que trata do direito dos povos indígenas. A primeira estratégia básica acredito que seja os indígenas se empoderarem da leitura e da prática da Convenção 169. Penso as medicinas fazem parte de um modo de ser e aí a gente tem que trazer a constituição federal de 88 que foi pioneira em reconhecer os direitos dos povos indígenas e de suas culturas. As medicinas como parte de um modo de ser que compõe o nossos país e neste sentido, a priori não haveria o problema do transporte e circulação desde que contextualizado no modo de ser de um povo, seja dentro da aldeia ou fora da  aldeia. Comento isso no perigo de uma certa ‘guetização’ –  aquele discurso de que dentro da aldeia pode tudo, e fora não. Quer dizer o que esse discurso? A aldeia é um gueto? É nisso que querem transformar os povos? O intercâmbio intercultural, interpovos e interraças existe desde que o mundo é mundo. Então porque criminalizar? Temos que fazer o contraste. Há por um lado o panorama das drogas como um problema e de que seu uso descontextualizado é de fato uma patologia mas esse panorama difere absolutamente do contexto indígena que as medicinas estão no contexto espiritual do sagrado,  que estão no modo de ser e viver de povos. A consequência é que isso traz uma grande responsabilidade às comunidades, para que exerçam o controle social do uso para que não se banalize, dentro de um princípio de pluralismo jurídico, os usos adequados aos seus contextos, têm de ser respeitado pelos governos e estados.”
Além das estratégias imediatas de assegurar a livre circulação, o debate incita também a uma luta mais ampla, que possa ressignificar as medicinas no contexto das normais internacionais.
“Dei o exemplo do (presidente da Bolívia) Evo Morales mascando folha de coca na assembleia da ONU sendo que a coca é uma planta proscrita essas convenções, o que é um absurdo pois viola o direito de comunidades e povos inteiros da América Latina que fazem uso da coca. Essa discussão também tem que ser feita, ainda que seja um panorama mais lento, também deve estar em vista das comunidades.

No Brasil, o transporte da ayahuasca é definido pela resolução 01/2010 do CONAD (Conselho nacional anti-Drogas) que vincula a liberação do transporte a partir de documentações que assegurem o uso religioso da bebida. A resolução do CONAD foi escrita a partir de um Grupo Multidisciplinar de Trabalho que ouviu, entre os anos de 2006 a 2010, representantes das principais religiões ayahuasqueiras, mas sem consultar as comunidades indígenas.
Para o pesquisador Juarez Duarte Bonfim: resolução do CONAD não prejudicaria os indígenas 
Para Juarez Bonfim, apesar dessa omissão do GMT, os indígenas não seriam prejudicados, já que as normas asseguram o uso religioso, na qual os índios estariam incluídos. Contudo, por não haver entre eles a mesma organização documental na qual as igrejas vem trabalhando há décadas, estariam mais sujeitos a constrangimentos e em casos extremos, prisões.
“Entendo que os indígenas estariam contemplados na resolução do CONAD uma vez que nas cosmologias indígenas não há separação entre ciência, medicina, religião e filosofia como no nosso mundo. É um todo holístico. Então o uso para acessar a espiritualidade a coloca no campo religioso”, explica. “A lei não prevê restrições ao uso tradicional que não é estritamente religioso como feito por indígenas e ribeirinhos, por exemplo. Se não é proibido, é permitido, o que existe é intolerância por parte de algumas pessoas imbuídas de autoridade que agindo de maneira ilegal e irresponsável que não respeitam a decisão do CONAD e se põe a perseguir a ayahuasca. As comunidades indígenas e ayahuasqueiras tem de criar seus mecanismos de defesa jurídica e também social para enfrentar esses que se colocam como inimigos do uso da ayahuasca”.

Cantos Tradicionais, Novas Canções e a Juventude Indígena Ayahuasqueira

Ninawá, Pai da Mata na mesa com Joaquim Maná e.. 

Isaká: Tradição e renovação um uma dinâmica cultural
A mesa composta pelo professor e doutor em linguística Joaquim Maná, Isaka Huni Kuin e Ninawa Pai da Mata tratou sobre o tema das canções ayahuasqueiras, ou mais propriamente das canções do nixi pãe dentro da cultura Huni Kuin. Como pesquisador, Joaquim Maná expôs as diferentes formas e melodias dessas canções que foram categorizadas em cinco grupos, com melodia e rítmica próprias.
Ninawá explicou que existem canções específicas para ‘chamar a pressão’, para diminuir a intensidade da força do nixi pãe, para cura, para trazer entendimento das diferentes forças e presenças da natureza, para colorir a miração e para fazer presentes os perfumes da floresta.
Isaká falou das novas canções que vem sendo recebidas pela juventude Huni Kuin, normalmente acompanhada por violão. Isaká destacou que apesar de este ser um contexto novo, diferente do tradicional, tem sido um importante meio para que a juventude participe do cerimonial da ayahuasca, ocupando um espaço que antes vinha sendo ocupado pelas músicas e cultura do branco.
Na mesa composta exclusivamente pelos Huni Kuin, ficaram evidentes diferentes perspectivas de uso da ayahuasca: uma mais tradicional, reservada aos pajés e seus cantos tradicionais, e outra nova, onde a celebração da alegria é o elemento de cura.
Ao que parece, as duas formas são praticadas entre os Huni Kuin com igual vitalidade.

Patrimonialização dos Usos da Ayahuasca

IPHAN na mesa sobre patrimonialização dos usos e práticas da ayahuasca 
Tema de grande interesse dos indígenas, o processo de patrimonialização dos usos da ayahuasca foi debatido na mesa composta por Deivisson Gusmão e Danielli Jatobá, do IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico Nacional . O pedido entregue pelas religiões ayahuasqueiras em 2008 ao então Ministro da Cultura Gilberto Gil por ocasião de sua vinda a Rio Branco e desde então vem sendo estudado pelo IPHAN.
O pedido feito pelas igrejas visa sobretudo obter a salvaguarda do estado brasileiro de tais práticas, e ao menos em tese, não afetaria o uso indígena tradicional. Contudo, segundo Deivisson – coordenador geral de identificação e registro do departamento de patrimônio imaterial do IPHAN, o próprio conselho do IPHAN teria percebido a necessidade de olhar para as práticas do uso indígena da bebida, já que são os povos originalmente detentores deste conhecimento.
Daiara Tukano: a lembrança de que os Tukano, no Alto rio Negro, também fazem uso tradicional da ayahuasca. A palavra caapi que designa o cipó na nomenclatura científica é original do povo Tukano

A princípio, algumas lideranças expuseram suas dúvidas sobre possíveis riscos com a patrimonialização, muitas vezes confundido com o registro de patente.
“A realização da conferência foi um pontapé inicial para a realização desse esclarecimento. É preciso que se diga que trata-se da patrimonialização não exatamente da ayahuasca. Não é para patrimonializar a bebida e sim rituais, celebrações, canções e conhecimentos relacionados a esse universo da ayahuasca, seus usos e práticas e não a ayahuasca em si.
Todo bem cultural registrado faz jus a medidas que são planos de salvaguarda que tem como finalidade a ampla divulgação desse bem cultural como patrimônio cultural brasileiro e para garantir a permanência desse bem cultural ao longo dos anos.”, explica Deivisson.

Um Caminho para a auto-regulação

Após os extensos debates, a deliberação da conferência foi a confecção de uma carta, endereçada inicialmente às comunidades, conclamando cada povo a realizar antes, um debate interno para amadurecer suas posições para um segundo momento de discussões. Somente a partir daí é que os coletivos deverão apresentar suas posições.

Em linhas gerais, a proposta aponta para a criação de instrumentos de auto-regulação dos usos e práticas da ayahuasca dentro e principalmente fora das aldeias, com vista a garantir o respeito à bebida, aos saberes envolvidos e aos povos indígenas detentores destes conhecimentos.      

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Canto Tradicional do povo Puyanawa

Terra Indígena Puyanawa sedia 1° Conferência das Organizações Regionais Indígenas e 1° Conferência Indígena da Ayahuasca

Representantes de diferentes comunidades e povos indígenas do Acre estão reunidos desde o dia 10 na Terra Indígena Puyanawa em Mâncio Lima-AC, no extremo noroeste da Amazônia brasileira. O objetivo é debater sobre a política indígena no estado e também sobre o uso da ayahuasca pelos povos indígenas.
O primeiro encontro reuniu as organizações regionais, OPIRJ (Juruá), OPITAR (Tarauacá), OPIRE (Envira) e ASKARJ - Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão, também a Federação Huni Kuin, além de instituições como FUNAI, SESAI, IFAC, EMBRAPA, IPHAN, representantes do Governo do Estado e secretaria de educação e Exército Brasileiro.







Povos Isolados e de recente contato 

Apesar de não permanecerem até o fim do evento, pela primeira vez estiveram presentes representantes do povo denominados provisoriamente como Sapanawas (povo do cipó), de contato recente na região do Xinane (afluente do rio Envira). O planejamento estratégico das organizações contemplou aspectos específicos para isolados e povos de recente contato.

Retrocessos

Perguntado sobre a preocupação do movimento indígena em relação aos retrocessos nos direitos dos povos indígenas promovidos pelo Congresso Nacional e a fragilização da FUNAI pelo atual governo, Francisco Pianko, coordenador da OPIRJ responde que o encontro reflete a necessidade de uma visão estratégica dos povos indígenas para o enfrentamento a esse novo momento.    
“Não adianta ficar isolado, temos que estar por dentro de uma situação que vem lá de cima. Estamos fazendo um esforço para que nossa voz chegue lá. Vamos tirar desse encontro um manifesto dizendo daquilo que está nos preocupando e sobre o que a gente quer.”, explica.

Facções Criminosas

Além das já costumeiras preocupações com saúde, educação e produção, surgiu também neste encontro uma preocupação com a questão da segurança.
Relatos de algumas comunidades já falam do aumento da influência das facções criminosas também dentro de algumas terras indígenas, especialmente aquelas mais próximas da cidade e de rodovias. A ideia é ampliar a relação institucional com os órgãos de segurança pública e Exército, mas sempre a partir do fortalecimento das bases de auto-organização.
“Todas comunidades precisa saber o que são estas organizações criminosas para a gente colocar isso no nosso radar para começar a discutir estratégias para se defender”, disse Francisco Pianko.
O documento preparado pelas organizações em breve estará disponível.

Ayahuasca

O encerramento do encontro das organizações já serviu como abertura para o próximo encontro: a 1° Conferência Indígena da Ayahuasca. O encontro pretende fornecer um contra-ponto indígena às discussões que vem ocorrendo no Brasil e no mundo acerca do uso ritual da bebida e que em alguns momentos negligenciaram a participação indígena.
Nas falas de abertura de Mário Huni Kuin (OPIRE) e Manoel Kaxinawá (OPITAR) ambos falaram sobre respeito e convivência com os usos não indígenas da bebida já consagrados pelas religiões ayahuasqueiras, mas também da necessidade do protagonismo das vozes indígenas nessa construção. “Não estamos brigando com ninguém, estamos falando que conhecemos a realidade espiritual, como vem sendo comprovado pelo trabalho dos pajés dentro e fora das aldeias”, disse Manoel. “Temos respeito ás diferentes formas de uso, mas essa deve ser uma discussão indígena”, disse Francisco Pianko (OPIRJ)
Entre os temas a serem debatidos estão: a ayahuasca como base da cultura indígena, as experiências de intercâmbio entre indígenas e não-indígenas, as canções cerimoniais, a sustentabilidade e plantio do cipó e folha e a patrimonialização da ayahuasca, entre outros.
Entre os debatedores elencados estão Biraci Brasil e Benky Pianko, Ninawá e Joaqueim Maná, Luis Puwe Puyanawa, os pesquisadores Juarez Bonfim  e Danielli Jatobá (IPHAN), entre outros.

De espírito presente

Os debates terão início nesta sexta-feira e devem se prolongar até sábado. Estão previstas cerimônias durante as três noites do encontro. A ideia é que a bebida seja servida mesmo de dia, durante as discussões. Uma forma de garantir que não se torne um debate vazio, abstrato e sim que o próprio espírito da ayahuasca, e das muitas ancestralidades, estejam presentes durante o encontro.

Assista vídeo com a canção puyanawa entoada para marcar a abertura da Primeira Conferência Indígena da Ayahuasca

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Será mesmo doce a rapadura?

Dando seguimento ao bate-papo iniciado pelo pesquisador Juarez Bonfim em sua coluna no Jornal da Bahia e continuado por Jairo Lima no seu blog Crônicas Indigenistas a respeito da Primeira Conferência Indígena, começo com essa provocação: será mesmo doce a rapadura?

Juarez usa a metáfora da rapadura para falar sobre a ayahuasca, mais especificamente sobre os pesquisadores que sem provar da sua doçura, elaboram verdadeiros tratados sobre sua origem, significado cultural, expansão geográfica e etc.

A objetividade científica pressupõe a separação entre sujeito e objeto, ao menos é claro, no paradigma tradicional. Outras possibilidades epistemológicas estão a ser experimentadas.

A chave parece ser portando, a experimentação. O fenômeno vivenciado seria o suficiente para explicar tudo o que e necessário se saber. É uma possibilidade. Quantas pessoas após uma cerimônia trazem como explicação ‘a ayahuasca (ou o daime, ou o vegetal) me disse’. É certo que para questões íntimas, um mergulho no nosso universo emocional - constantemente anestesiado das mais diferentes maneiras - pode ser suficientemente revelador. Mas até que ponto ‘a ayahuasca me disse’ não são projeções do eu – superficial ou profundo? E até que ponto não se tratam de reproduções de um mesmo sistema religioso, científico, filosófico, político, social, cultural, etc...

A questão é que se tratando da ayahuasca, mesmo prová-la, não dá garantias de que a experiência traduza uma realidade ‘objetiva’. Aliás, o que é realidade objetiva? Não estamos lidando com uma planta-ser capaz de criar realidades? Que realidades queremos/podemos cocriar com ela?
São questões para além do objeto desta conferência, mas que estão subjacentes ao uso da ayahuasca.

Podemos falar da domesticação de uma planta, e de uma técnica/arte/ciência milenar, desenvolvida pelos povos originários em torno de alguns objetivos entre os quais poderia elencar: Cura, Guerra, Amor, e ... Investigação. Saber o que está à volta, assenhorar-se das propriedades da natureza; esta parece ter sido uma das linhas de desenvolvimento de uso da ayahuasca.

Penso que os primeiros pajés tenham sido exatamente isso: pesquisadores, cientistas, investigadores.  

Admitir a possibilidade da ayahuasca como 'instrumento' de investigação significa aceitar duas 'heresias' epistemológicas: a primeira, de que uma planta possa ser um sujeito de conhecimento, e a segunda, que um 'pesquisador' nesses termos é a um só tempo sujeito, objeto e laboratório de sua pesquisa. 

O fato é que todo ayahuasqueiro ao seu modo é um pesquisador. Ao menos um pesquisador de si mesmo. É uma das possibilidades da ayahuasca. O pensamento ocidental fundamenta-se na ideia de que os sentidos são ilusórios e que a verdadeira razão deve se sobrepor a eles. A possibilidade de conhecimento através da ayahuasca é o oposto dessa premissa. Trata-se de ampliar os sentidos para enxergar mais adiante.

Tomar a ayahuasca é sobre ir além da aparente ‘doçura da rapadura’.

Sobre a Conferência

Acredito que estas questões não devam ainda estar presentes nessa primeira conferência, que tem outras bem mais práticas para serem discutidas e que, espero, sejam bem pautadas: a sustentabilidade das plantas (especialmente o cipó, que está severamente ameaçado em partes da amazônia), a livre circulação dos pajés e aprendizes com suas medicinas, a representatividade adequada de pajés e aprendizes nos centros urbanos, entre outras.

Contudo, não deixo de vislumbrar, nesse movimento que alguns enxergam como 'bizarrismo exotérico', uma incrível oportunidade, especialmente para os indígenas, mas na verdade, para todos os envolvidos. 

Há uma oportunidade nova, surgida a partir da possibilidade de contato entre estes dois grupos humanos tão diversos: índios da amazônia e brancos de classe média das grandes cidades brasileiras. 

Primeiro, porque significa uma possibilidade de criação de laços de empatia - um raro tesouro em nossos dias - empatia que, se bem dirigida, pode trazer benefícios concretos para comunidades indígenas na amazônia. Em verdade, já estão trazendo, das mais diversas formas. 

Segundo, porque os indígenas no Brasil, estão sempre estão sob constante ameaça. Tais ligações podem concretamente trazer aliados, que embora não sejam numerosos, estarão em postos-chave na sociedade. 

Em tempos de lutas identitárias, a ayahuasca, aliás, apresenta mais essa 'heresia': identidades permeáveis ao outro. 

Vejamos, portanto, o que seguirá desta conferência. 

Já considero bastante satisfatório que os povos indígenas estejam promovendo um encontro para debater algo que é seu por origem. 



  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O ‘Guia’ Teologicamente Incorreto

Estes dias conversando com uma amiga - revisora ortográfica com mais de vinte anos de profissão – a mesma recordou uma história no mínimo curiosa. Uma sociedade beneficente evangélica solicitou a correção ortográfica do relatório anual da instituição. A sociedade era responsável por controlar instituições como escolas, faculdades e hospitais. O relatório tinha mais de sessenta páginas – nada demais para uma revisora experiente e acostumada a trabalhar por horas a fio para entregar o serviço nos prazos pré-estabelecidos.
Lá pelas Altas Horas, com o trabalho de revisão já iniciado, a revisora recebe a visita de um dos diretores da instituição. O objetivo do diretor era fazer algumas exigências específicas aquela revisão.
- Algumas palavras não podem estar no relatório...
- Sim, e quais são?
- Por exemplo... Entidade
Lá no texto... a entidade sem fins lucrativos... deveria ser substituída, para evitar que a ‘entidade sem fins lucrativos’ viesse a ser confundida com um caboclo ou preto velho que não pede nada além de um charuto ou cachaça.
A revisora, pacientemente, continuou ouvindo as exigências.
- Sim, e o que mais?
- Incorporação...
Bem, com isso o trecho: ‘novas normas foram INCORPORADAS ao estatuto’ deveriam passar por mudança. E enquanto ela me conta a história imagino o novo o ‘estatuto’ dando tremeliques e pulinhos, girando freneticamente sobre si mesmo, como nos terreiros de umbanda, ou mais comum ainda, nas próprias igrejas pentecostais.
- Outra: Guia. Guia não pode.
No relatório estava lá: ‘o guia de bolso criado para facilitar o acesso à informação...’. Por instante, minha imaginação me leva à ideia de que no futuro, talvez possamos levar nossos diferentes ‘guias’: caboclos, preto-velhos, nossas onças, águias e jiboias, nos nossos bolsos, como smartfones, acionados a um simples toque na tela ‘touch screen’.
- Espírito, alma. Não pode.
Lá se vai aquela velha expressão tal coisa é a ‘alma do negócio’... e vi nisso talvez certa vantagem, já que talvez fosse melhor, para o português e para a noção geral da realidade, apresentar o ‘negócio’, do jeito que ele é: sem alma.   
E depois de me contar essa conversa, a amiga revisora vaticina:

-Oxalá, meus clientes nunca leiam isso...     

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Juruá sedia Primeira Conferência Indígena da Ayahuasca

Cena da animação 'Aware Nanê Putani', mito que conta a história do uso da ayahuasca entre os povos pano
Entre os dias 13 e 17 de dezembro, acontece a 1° Conferência Indígena da Ayahuasca. O encontro será na Terra Indígena Puyanawa, em Mâncio Lima –AC, extremo oeste da Amazônia Brasileira.
A conferência recebe o nome Yubaka Hayra, que em Hatxa Kuin (língua do povo Huni Kuin, grupo indígena mais numeroso do Acre) significa aproximadamente ‘Conversando sobre o que é certo’.
A proposta da realização de uma conferência indígena da ayahuasca ganhou força após a realização da Segunda Aya Conference, em Rio Branco-AC, em outubro de 2016. Na ocasião, os povos indígenas manifestaram por meio de uma carta, suas preocupações com o processo de expansão do uso da bebida e a patrimonialização da mesma.  
A intenção é de que representantes dos 14 povos indígenas do Acre, participem do evento, além de representantes do Chile e Equador e pesquisadores da ayahuasca.

Regulamentação

Uma das possíveis discussões será sobre a busca por caminhos que garantam a livre circulação dos pajés com a ayahuasca. No Brasil, a regulamentação de uso e transporte da bebida está vinculado ao seu uso religioso, difundido pelas chamadas religiões ayahuasqueiras.
No caso das comunidades indígenas o aspecto religioso/espiritual está integrado ao uso cultural tradicional e autônomo da ayahuasca. Contudo, com o crescente interesse do meio urbano pela ritualística indígena tradicional, cresce também a importância e a necessidade de regulamentar e normatizar a circulação da bebida e seus facilitadores.

Luis Nukini, coord. regional da FUNAI no Juruá. 'Ayahuasca está presente na base organização social e política dos povos indígenas da região'
"A ayahuasca está na base da organização social e comunitária de muitos povos indígenas. Sem essa relação com a espiritualidade através da ayahuasca, percebemos que há uma fragilização da organização social", explica Luis Nukini, coordenador regional da FUNAI  - Alto Juruá.

Hoje, o transporte de pequenas quantidade de ayahuasca por indígenas é apenas tolerado a partir de um entendimento informal da Polícia Federal.  
Além da ayahuasca, o kambô, ou vacina do sapo, também será tema dos debates.

Organizadores

O encontro é organizado pela OPIRJ, OPIRE e OPITAR (Organizações que presentam respectivamente os Povos Indígenas do Juruá, Envira e Tarauacá) e recebe o apoio institucional da FUNAI, IFAC (Instituto Técnico Federal do Acre) e SESAI (Secretaria de Saúde Indígena). 

domingo, 15 de outubro de 2017

O Vôo do Condor

Por Eloel Neves Aguiar

Foto:pabless/instagram via Marca Chile
"La luz de la veladora estaba apenas encendida, la copa fue repartida y el hombre sopló fuertemente lanzándola bien lejos de ahí. La oscuridad tomó cuenta de cada parte del local, en seguida Don Oscar me dijo: "hermano, hoy vas a conocer el Cóndor Pájaro", luego empezó a soplar icaros batiendo fuertemente su pie en la tierra y abanicando la chacapa lo que generó un sonido de alas al levantar vuelo. Luego vino el frío, el sueño sin sueño, la chusma llego a mí sin piedad. “Ya estoy mareado”, pensé. Sin mas miré a la derecha y lo vi, el Gran Pájaro. Era inmenso, medía como un metro y medio. Vi que me medía con su mirada solemne, como un rey. Cerré los ojos por el asombro bonito que sentía. En seguida vi el Río Amazonas, que allá abajo tranquilo seguía su rumbo. Observé mis alas abiertas, miré para los dos lados como si estuviera acostumbrado a volar, admiré las plumas blancas junto a las alas negras, no sentí miedo, respiré profundamente el aire frío y perfumado, sentí mis ojos al lado de las orejas, sentí el cuello curvado, miré el río y sentí paz. Pude ver el infinito comiéndose la selva verde, me deslicé en el aire siendo el Pájaro Cóndor. Entonces escuché el Ícaro y abrí los ojos, miré a mi derecha y vi en la oscuridad los dientes de mi amigo quien me preguntó, "¿lo viste hermano?". Le contesté que si. “Vamos para adelante” dijo él mientras siguió con los icaros afuera en medio de la noche…"

O presente texto foi oferecido por Eloel Neves Aguiar e retrata uma experiência ayahuasqueira no Amazonas Peruano, próximo à localidade histórica em que Che Guevara clinicou como médico em uma colônia de hansenianos, antes de seu ingresso na guerrilha.

A experiência ocorreu há 14 anos atrás, e a imagem do Condor, trouxe-a de volta a memória . A intensão de publicá-la reflete o desejo de registro do texto por sua força poética e simbólica.

Vicente Yawarani: uma singela homenagem a um professor da floresta

Uma escola que gira

No centro da roda do mariri está Vicente Yawarani, ou simplesmente, Yawá. Crianças, jovens e adultos, homens e mulheres giram ao seu redor.
Yawá entoa os versos de um saiti – músicas tradicionais que são entoadas em celebrações. São como o ‘cancioneiro popular’ do povo Yawánawá. Os versos cantados por Yawá são repetidos pela roda. Yawá parece repeti-los a quantidade de vezes suficientes para que os que estão à sua volta os cantem com perfeição.
A madrugada já vai longe, o sereno cai sobre o terreiro, os corpos já estão cansados de um dia de brincadeiras de mais um festival cultural. Mas ainda assim, Yawá, o mais velho está lá, lançando seu desafio aos mais jovens para que o acompanhem.  
É quando me dou conta: trata-se uma escola. Só que ao invés das carteiras escolares dispostas uma atrás da outra, com o professor na frente, temos uma sala de aula que gira em volta do professor. É quando me dou conta também, da ‘pedagogia’ de Yawá: ele não se cansa de repetir, para diferentes gerações, o mesmo ensinamento.
Certamente que, como em nossa cultura, há níveis e também degraus, mas aqui  eles giram, como círculos em uma espiral onde os saberes primários estão sempre a serem repetidos.
Aquilo é o maternal, o ensino fundamental, mas é também o médio e o superior, porque todos estão na roda. E Yawá, o maior professor vivo do povo Yawanawá é quem conduz o mariri: o primeiro grau da escola da pedagogia Yawanawá.

Sábio e Erudito


Com seus cerca de cem anos, Yawarani encarna com perfeição a figura de um sábio. Um sábio da floresta que assistiu ao contato de seu povo com o homem branco. Que viu a transformação de seu povo em seringueiros, agricultores, mateiros, tudo para fornecer os itens de que o patrão necessitava para manter o sistema seringalista funcionando.
Yawá assistiu à chegada dos missionários evangélicos. Suas pregações. O apogeu, declínio e queda de um modo de pensar que acreditou um dia poder substituir o pensamento Yawanawá por outro.
Plantio, colheitas, caçadas, pescarias. Casamentos, mortes, nascimentos. Guerras e Alianças. Isso tudo, e com certeza ainda mais foi visto, pelos olhos de quem viu já um século passar diante de sua vida. A vida, o pensar a vida, o viver a vida, o sobreviver e ainda fazer sobrar  alegria diante destes mesmos olhos é o que se pode chamar SABEDORIA.
Não resta dúvida: Yawá é um sábio. Quem duvida, que o veja sorrir. Em sua língua, sheni.
Mas Yawá não é APENAS um sábio.
Yawá é também um ERUDITO.
Em nossa cultura, valorizamos o conhecimento daqueles que se debruçam sobre os textos dos antigos, de Sócrates e Aristóteles, de Camões e de Cervantes e de tantos e inumeráveis outros que fazem a grandeza de nossa civilização.
Ocorre que Yawá é também  ele um guardião do conhecimento dos antigos. Que não está em textos de uma biblioteca, mas em canções, em orações, em histórias que formam o arcabouço do conhecimento cultural do povo Yawanawá, que certamente, dialoga com um contexto mais amplos dos povos Pano, que por sua vez dialoga com toda história do povoamento da Amazônia e dos vizinhos Andes, enfim, do continente sulamericano.   
As orações do shuintya Yawá são enunciadas em uma forma culta do Yawanawá, diferente da língua usada no cotidiano. Shuintya é rezador. A forma própria da oração diz que não basta saber enunciá-las à perfeição, é preciso ter o poder, a autoridade de dizê-las com efeito. Conhecimento e poder andam juntos, mas não são a mesma coisa.
Mas Yawá diz ainda sobre tais orações: ‘elas não são minhas, pertencem aos antigos.’  Ou seja, Yawá refere-se a um conhecimento cultural de seu povo, fruto da elaboração de gerações.

Um mestre além de si mesmo

Acredito que um mestre de verdade seja alguém que nos faça olhar à nossa volta, olhar em nós mesmos e descobrir por si só aquilo que realmente importa.
Nesse sentido, é certo dizer que a escola de Yawá, é um mestre ainda maior. Ela está na Floresta, eterna fonte de aprendizagem, nas plantas, nos animais. Isso pode parecer poético e impreciso, mas é assim que é.
Andar na Floresta, por exemplo, exige uma série de habilidades: motoras, sensitivas e cognitivas. É educação física e também geografia. É biologia, mas é também história e literatura, já que animais e plantas não fazem parte apenas de um mundo ‘natural’. São parte integrante da cultura, já que há histórias, músicas e pinturas que lhes fazem referência.
Buscar compreender a pedagogia (e a epistemologia) presente no cotidiano Yawanawá seria  tarefa de especialistas, impossível de abarcar num breve texto desta natureza. Mas cumpre ainda apontar o papel das plantas enquanto professoras, e ainda dos sonhos por elas engendrados. Talvez aí, como em poucos lugares, vejamos explícito o conceito de a educação e o aprendizado, mais do que tudo, como uma postura diante da vida.

E ainda assim, em meio a uma Floresta repleta de saberes, onde animais falam e cantam e as plantas ensinam a SER, sobressai-se a figura de Vicente Yawarani, o sábio erudito do Alto Rio Gregório.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Uma perseguição de mais de 500 anos

* por Alan Montoya

Tenho notado uma imensa quantidade de ‘fake news’ rodando pela internet envolvendo diversos assuntos, desde política, conceitos históricos e também o movimento do Xamanismo Brasileiro, são pessoas que utilizam a internet (blogs, sites pessoais, etc.) criados estrategicamente por pessoas de diferentes seguimentos (grilheiros de terras, fazendeiros, políticos, polícia e também movimentos religiosos de evangelização) com um objetivo em comum, a criminalização dos rituais e das medicinas nativas. O ETNOCÍDIO (genocídio cultural) dos povos nativos.

Vira e mexe o assunto é Ayahuasca ou Rapé nessas “imprensas paralelas", tudo miticulosamente planejado. O meio de propagação dessas ‘falsas notícias’ é sempre pelas mesmas pessoas (ou de perfis parecidos), creio que pela projeção de suas sombras/demônios/vícios... uma forma de diminuir a sua culpa. Esse tipo de atitude NÃO SOMA nada ao movimento, muito pelo contrário...

Não entrarei no mérito da última notícia em questão, pois para entender a profundidade do problema precisamos ESTUDAR A HISTÓRIA. O Brasil e as Américas não foram descobertos como contam os livros da escola, a coisa foi bem mais feia, os europeus chegaram com a cruz e a espada aqui, quem não aceitava a cruz recebia a espada. MUITOS povos indígenas foram levados à beira da extinção, na maioria dos casos, tribos inteiras foram CRUELMENTE ASSASSINADAS. Estamos falando do MAIOR GENOCÍDIO DA HISTÓRIA MODERNA.

Também não entrarei no mérito se ainda existe “Pajé” na Amazônia servindo a Mãe Natureza juntos as sagradas plantas que curam. O fato de termos diversos falastrões que se auto intitulam “Xamas” ou “Mestres” por aí (sejam ou não nativos) não exclui toda a beleza, poder e magia do caminho trilhado pelos(as) Txanas, Yuvehus, Xinayas, Mukayas , Tsimuyas, etc. Todo o meu respeito, gratidão e apoio!

Também não irei abordar a questão do ALTO POTENCIAL DE CURA das plantas de poder – Ayahuasca e Rapé – pois já existem décadas e mais décadas de estudos comprovando a eficácia das mesmas. Uma rápida pesquisa pela internet, com a mente aberta, é suficiente mesmo para aqueles que não tenham nenhum conhecimento a respeito.

O que gostaria de tratar é a delicada questão que está ocorrendo nesse exato momento dentro e fora das tribos, estão usando os próprios nativos agora evangelizados contra os próprios nativos, contra a própria cultura dos mesmos – como sempre foi – conforme relato de alguns txais que temos contato, existem no momento diversos grupos evangelizadores atuando dentro dessas tribos, vai lá saber o que estão aprontando...

Muito além disso existe a exclusão histórica dada aos nativos pelo próprio pessoal do movimento Ayahuasqueiro, conforme a antropóloga Bia Labate, durante os anos 80 e 90, durante o processo de regulamentação do uso da ayahuasca o debate público se deu unicamente em torno da ideia de que as religiões ayahuasqueiras (Santo Daime, UDV e Barquinha) tinham raízes amazônicas e representavam uma tradição de uso da ayahuasca no país. Com a imagem do indígena TOTALMENTE vaga, difusa ou apagada. Ambas as manifestações eram tidas como expressões autênticas, práticas que “deitavam raízes profundas”, ou pelo menos possuíam continuidade muito próxima com aquele que teria descoberto esta bebida sagrada de origem supostamente milenar. Isso permanece até hoje, porém inicia-se uma mudança no movimento...

Pra se ter uma ideia segundo pesquisas que andei realizando, a primeira cerimônia nos centros urbanos (fora das aldeias) que se tem notícia data de 2002 (desde as famosas CORRERIAS de 1900, onde os nativos foram proibidos de falar sua língua e praticar seus costumes), mas só por volta de 2010 a saída de alguns nativos começou a se tornar mais comum. Trata-se de um movimento que ainda está crescendo com o FORTE APOIO de diversos grupos NeoAyahuasqueiros (dissidências do Santo Daime, UDV e Barquinha), pois o propósito passa a estar fortemente ligado a experienciar a planta de poder (Ayahuasca/Rapé) dentro de um contexto natural/tradicional, ou melhor, “sem as influências judaico-cristãs”. A ênfase genérica recai sobre a ideia de que a cura é obtida a partir tão somente do consumo mágico-ritualístico da ayahuasca ou rapé (pajelança). É claro que existem muitas pessoas contra esse movimento, muito além de todos citados nesse texto, temos também algumas lideranças dos povos nativos que consideram que estão vendendo a tradição e/ou sendo vítimas da bio-pirataria, ou mesmo, por divergências políticas com outras tribos.

A mágica de tudo isso é que estamos vivendo um momento histórico do movimento das plantas de poder, da divulgação do conhecimento nativo, do poder de cura da Mãe Natureza. Não existe mais esse papo de estar em cima do muro, ou você está de um lado ou está do outro, ou você é parte da construção do movimento ou é parte da destruição do mesmo.

Fica a reflexão, de que lado você realmente está?


* Alan Montoya é músico e terapeuta neoxamânico

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sobre a crise civilizatória e os espelhinhos

Em uma provocação nas redes sociais, o pensador político e social, Moysés Pinto Neto questiona à sua rede sobre o que deveríamos fazer para evitar o avanço do nazi-fascismo na política. A provocação, obviamente, é muito bem vinda pois ocorre quase que imediatamente após a marcha dos supremacistas na Virgínia e o anuncio de que o candidato proto-fascista brazuca Jair Messias, já obtém 25% das intenções de voto.

De nodo um tanto jocoso, sugeri que fossem distribuídos ‘espelhinhos’ aos brasileiros, como no início da colonização. A esperança era de que, quem sabe, olhando-se no espelho, o brasileiro talvez pudesse se reconhecer como exatamente o oposto do que se propõe um marcha pela ‘supremacia branca’.

Somos um povo tão mestiço, que o simples ‘olhar no espelho’ deveria ser suficiente para afastar o fantasma do nazi-fascismo. Na ‘melhor das hipóteses’ um branco brasileiro descendente ‘puro’ dos portugueses já chega aqui como um amálgama de dezenas de diferentes povos: iberos, celtas, latinos, germânicos, alanos (iranianos), berberes (mouros), ciganos e judeus estão na formação étnica de Portugal. Se você se olhar no espelho e ver um louro, branco de olhos azuis, a partir de uma concepção racial, o mais provável é que você que esteja na latitude ‘errada’.

Mas isso é só o preâmbulo. O Brasil só faz sentido enquanto nação, se for capaz de abraçar a diversidade étnico-racial que o compõe. Por isso nada mais contraditório do que uma ‘defesa da civilização brasileira’ que se baseie em uma concepção restrita do que é essa civilização e do que pode significar essa identidade brasileira.

Segundo o IBGE de 2010 temos 47,51% da população que se declara como branca, enquanto a outra parte maior se divide entre pardos (43,42%), pretos (7,52%), indígenas (0,43%) e amarelos (1,11%).
Entre os povos indígenas, o mesmo IBGE nos fala de 305 diferentes povos e 264 diferentes línguas no Brasil.

Temos diferenças regionais que distanciam os olhares e perspectivas de um brasileiro morador de uma área ribeirinha do Pará ou de uma capital como Curitiba. Cada um tem uma ideia diferente do que é ser brasileiro, ainda assim, os dois o são.

Esses apontamentos trazem obviedades que, espero, sejam conhecidas pela maioria das pessoas. O ponto é: somente faz sentido uma defesa da civilização que abarque todas as possibilidades civilizatórias em nosso território. Qualquer tentativa ou iniciativa de padronização ou de redução a um molde, ainda que se apresente como ‘defesa da civilização’, será justamente o contrário disso: a destruição do enorme conjunto de possibilidades civilizatórias em nosso país.

Nos EUA, os grupos que se opõe à concepção supremacista branca, o fazem a partir de uma defesa da diversidade cosmopolita que passou a identificar metrópoles como Nova Yorque ou ainda, a cooperação entre gente de tantas partes diferentes do mundo que proporciona os avanços tecnológicos do vale do silício. A questão é que se para eles: uma nação branca, anglo-saxônica e protestante, a defesa da diversidade tem importância, imagine-o para nós, brasileiros. A diversidade é a espinha dorsal de nossa identidade.

Realmente não consigo levar com seriedade ‘supremacistas brancos’ brasileiros.
Para os supremacistas do norte, não somos brancos, jamais seremos. Somos latinos, ibéricos, hispano-americanos. Ser mestiço é parte de nossa identidade.

Ainda assim, ouço as vozes de Charoltesville ecoando por aqui. Claro que seremos incapazes de promover algo como uma ‘homogenização da raça’. É infactível. Mas talvez caminhemos para algo como um auto-etnocídio enquanto nação e enquanto possibilidade civilizatória.

A crise política, econômica e civilizatória, é sobretudo, uma crise de identidade. Precisamos aprender a nos olhar no espelho e afastar a repulsa de quem não vê um ‘branco, anglo-saxão, protestante’. Precisamos olhar no espelho e aprender a amar quem de fato somos, ou quem sabe, melhor ainda: amar aquilo que ainda poderemos ser, se não matarmos antes todas as possibilidades civilizatórias contidas em nosso território.

Eu como brasileiro, não posso aceitar um país menor do que o que ele é. Nenhum brasileiro deveria.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas em nosso mundo, o que não é?

Faço esse texto estimulado sobretudo pelo irrepreensível artigo do Dr. Jacques Mabit, publicado originalmente na ‘Revues Synodies “Le transpersonnel?” e traduzido do francês para o português por José Pimenta. (1)

O artigo trata essencialmente de como os brancos vem idealizando seus ‘gurus indígenas’, e de como, entre outras coisas, trata-se de um grande equívoco comparar pajés, xamãs e curandeiros com os mestres transcendentais das tradições orientais. De fato, há uma grande confusão na tentativa de fazer encaixar o xamanismo ayahuasqueiro amazônico dentro das expectativas de transcendência das classes médias urbanas. Por isso, recomendo muito a leitura do artigo: O MAL-ENTENDIDO NEOXAMÂNICO PODE SER GIGANTESCO, publicado no blog Crônicas Indigenistas.
Esta breve postagem, não se trata portanto exatamente de uma crítica ao artigo. Apenas o tomo como ponto de partida para prosseguir na reflexão.

Pois sim, voltando ao título-pergunta: O equívoco Neoxamânico é gigantesco. Mas o que em nosso mundo, não é?

Afinal, corremos o risco de achar que o mal-entendido esteja delimitado ao universo do ‘neoxamanismo’. Ah! Se sêsse! Diria o poeta nordestino.
Poderia começar apontando os equívocos a um dos pilares do pensamento ocidental: a concepção aristotélica que divide homem e animal, natureza e cultura. Aristóteles nos fez crer que os animais não possuiam linguagem e com base nessa concepção EQUIVOCADA construiu a base do pensamento ocidental.  Contudo, quanto mais evoluem os métodos de observação científica, mas difícil fica determinar uma linha exata que nos separe dos animais. Animais tem linguagem. Animais produzem ferramentas. Animais têm organizações sociais mais complexas do que supunham nossos preconceitos. Animais transmitem conhecimentos adquiridos. Um equívoco bem maior e de consequências bem mais nefastas. E que no entanto, está nas bases do pensamento ocidental.

Outra base de nosso pensamento ocidental se dá pelo paradigma judaico-cristão. Noções de céu e inferno, pecado e perdão, Deus e o Diabo permanecem vivas em nossa sociedade e continuam a influenciar nosso modo de pensar. Mesmo àqueles que se dizem ateus. Trata-se pois, de ideias que formam a base de nossa civilização, que podem não passar de um grande equívoco, ou uma coleção de concepções equivocadas, forjadas ao longo do tempo para melhor acomodar os conceitos sociais de cada época.

Poderia ainda passar dias debatendo sobre as linhas filosóficas e suas refutações e contra-refutações que tão brilhantemente ocupam a vida acadêmica. Aliás, o que seria da vida acadêmica sem os equívocos.

Digo isso, quase como uma forma de ‘aliviar’ a turma do neoxamanismo. Não haveria como jovens de classe média urbana ‘acertarem’ de primeira quais os ‘valores’ que movem o ‘xamanismo de raiz’.

Quem está em uma busca, nunca sabe ao certo o que vai encontrar. Colombo, por exemplo, encontrou a América, mas buscava a Índia. Mais um equívoco histórico.

‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’

E por falar em ‘valores’, mais um equívoco: a ideia de que a cobrança em valores monetários seja uma ‘deturpação’ dos ‘valores espirituais’ do xamanismo. Um concepção equivocada. Sobre isso, recomendo muito a leitura do texto ‘As raízes do Xamanismo Moderno’, de Gayle Highpine.(2). É dela a frase neste subtítulo: ‘A sociedade de consumo faz florescer esta forma de xamanismo’
Em seu artigo, a etnobotânica esclarece que já era comum antes mesmo da chegada do homem branco, nas comunidades do Alto rio Napo, que seus xamãs cobrassem algum tipo de ressarcimento quando realizavam trabalhos fora de suas comunidades. A autora explica que o pajé ou xamã está obrigado por laços de parentesco, a cuidar de sua comunidade. Em troca, recebe o cuidado da sua comunidade para consigo. Para além destes limites, não há obrigação e portanto, há que se buscar novas formas de compensação. A autora ainda discorre que, foi justamente esta fluidez que possibilitou no passado o surgimento de uma rica cultura ayahuasqueira, espalhada pela Amazônia ocidental entre as bacias dos rios Napo, Ucaially e Putumayo - com as trocas de informações entre as diferentes comunidades. Segundo a autora, esse movimento seria responsável pelo florescimento HOJE desta cultura ayahuasqueira.
Se olharmos para o passado, de povos indígenas que viviam, não isolados, mas como uma intrínseca rede de cooperação e colaboração (e às vezes conflitos também, que ninguém é de ferro!), talvez não nos surpreendamos tanto, com a reprodução destas redes na sociedade pós-industrial.
Essa é uma das razões pela qual não vejo com maus olhos, todo esse movimento em torno do rapé, ou mesmo da ayahuasca por exemplo. Significa um aporte financeiro a estas comunidades, cujas necessidades não irão cessar caso este fluxo seja interrompido. Quem já visitou uma comunidade no Acre, por exemplo, sabe da grande necessidade de combustível e peças de reposição para embarcações. Além é claro de necessidades individuais que surgem a partir do contato. Não serão nossas utopias de ‘pureza transcendental’ que irão melhorar suas condições de vida.
Um dos resultados práticos desse movimento, é o maior interesse dos jovens indígenas, pela forma de fazeres e reprodução cultural. A possibilidade de algum ganho material, reforça esse interesse.  

O Xamã como ‘aquele que sai’   

Outro aspecto que merece ser destacado é sobre as idas e vindas de pajés e aprendizes. Diz o preconceito comum de que ‘índio deve ficar na aldeia’. Mas não é assim que era no passado, quando os povos indígenas podiam andar livremente pelo continente. Estão suficientemente documentadas as relações de comércio que ocorriam na América antes da chegada do homem branco. É certo que estas relações não se limitavam apenas ao comércio tal qual como concebemos hoje. É possível que ocorressem de modo mais ou menos cerimonial e ritualístico, já que boa parte destes objetos de troca possuíam valor simbólico, afetivo, espiritual, ou mágico, como por exemplo: conchas e penas. Talvez nos surpreendêssemos ao descobrir que alguns dos itens do chamado ‘comércio do sagrado’ já eram negociados antes mesmo de Colombo. De maneira análoga, podemos pensar nas feiras medievais e o comércio associado de imagens e relíquias. Ou seja, nada de novo sob o Sol.
Eduardo Luna vai mais além: ‘O Xamã é aquele que transcende os limites da sociedade e vai para fora, onde há poder’. (3)
É possível pensar que os xamãs que alcançam mundos distantes através dos sonhos e das plantas maestras, aprenderam também a viajar pelas mesmas ‘Veias abertas da América Latina’ de onde foi retirado ouro, prata, diamantes, madeira... E quem irá poder condená-los por isso?

‘Equivocação controlada’

A antropóloga da USP Aline Ferreira Oliveira, em seu artigo (4), cita a expressão cunhada por Viveiros de Castro de ‘equivocação controlada’, para explicar o uso e adaptação da linguagem dos pajés amazônicos ao contexto urbano.
Diria que não há outro caminho para o encontro entre jovens de classe média urbana e pajés (ou aprendizes) amazônicos que não passe pelo equívoco. Para entender-se e fazer-se entender é preciso minimamente ‘equivocar-se’, mas trata-se de uma ‘equivocação controlada’ sem o que, afinal, não haveria linguagem possível.  
É ainda a mesma autora que nos fala sobre a ‘produção dos corpos para circulação do conhecimento’ por meio das dietas, tal qual vem ocorrendo especialmente entre os Yawanawá e Huni Kuin.
Os indígenas tem tratado portanto, de ‘capacitar os brancos a fazer bem feito’, em um processo que podemos compreender como a continuidade, ou uma nova etapa daquilo que os indígenas do Acre denominam ‘amansar os brancos’.

Viva o vazio da Classe Média!

Por fim, queria aqui dar um viva ao vazio da classe média! Dizem as filosofias orientais que somente um copo vazio pode receber um novo conteúdo. Aliás, eu próprio venho há anos tentando esvaziar o meu, e olha... Que difícil!
Estes jovens de classe média urbana que não veem mais motivação em trocar de carro todo ano, frequentar o clube da moda, ou assistir à UFC estão se voltando, de um jeito de outro, às culturas antigas, porém vivas de povos milenares e que, ainda que equivocadamente, certamente tem muito a nos ensinar.
Se tivesse algo a lamentar sobre todo este processo, não seria pelas viagens dos pajés ou a comercialização em torno do sagrado, mas principalmente pela carência de uma maior organização formal que pudesse melhor interpretar, reinterpretar, debater, discutir, explicar a rica epistemologia que envolve este aprendizado. Lamento não haver algo semelhante a uma universidade em que tudo isso pudesse ser ensinado de maneira mais ou menos sistematizada e que houvessem até quem sabe, bolsas de estudo. Lamento sobretudo saber que sábios da floresta como, Tatá, falecido no ano passado, se vão sem deixar rastro (ainda que deixem sim, muitos discípulos, graças em parte a todo esse movimento) ou como o centenário Yawarani, cuja profundidade do entendimento da cultura Yawanawá o faz um erudito, sem contudo obter o reconhecimento que deveria da sociedade.
Os processos que ocorrem hoje, dentro daquilo que alguns denominam como sendo o ‘circuito do exotismo no Brasil’ ainda que ‘mal enjambrada’ se apresenta como a melhor saída possível para a permanência e reprodução de uma forma de conhecimento. 

Empatia e Alianças

É preciso que se diga também que nestas trocas há ainda um subproduto muito valioso: a empatia. São tempos duros para os indígenas no Brasil (sempre foram, mas ultimamente a ofensiva parece ainda maior). Angariar a empatia no meio urbano e tratar de estreitar laços com potenciais aliados me parece ser parte de uma estratégia política ainda mais ampla e quem vem sendo alcançada com relativo sucesso. Alianças proporcionam uma troca de maior valor que pode beneficiar a um indígena específico, um grupo, ou a toda comunidade. Cada povo tem uma dinâmica diferente em relação a construção destas alianças mas quão bom seria se todos pudessem contar com uma rede de apoiadores no meio urbano.

Auto Regulação

Me soa meio distópica a ideia de órgãos federais regulando o livre trânsito das medicinas, itens do ‘sagrado’ (em alguns casos acho justificável, quando por exemplo, trata-se material proveniente de animais silvestres) e mesmo do conhecimento.

Por isso penso que o melhor seria a auto-regulação.
Não se pode debitar na conta do neoxamanismo a existência de falsos pajés. Falsos médicos, falsos advogados e falsos jornalistas estão aí aos montes, mesmo sendo estas profissões regulamentadas (exceto jornalismo, graças a Gilmar Mendes). Em suas respectivas aldeias, contudo, todos sabem quem é e quem não é pajé e o ‘processo de certificação’ posso garantir que é bem mais rigoroso que o exame da OAB, por exemplo.

Mais interessante que termos um órgão oficial emitindo ‘carteirinhas de pajé’, seria se estas próprias comunidades fossem capazes de definir isso. Nos países vizinhos, Equador, Colômbia e Peru existem formas de federações que dão algum respaldo a isso, apesar que no final das contas o que vale mesmo é a reputação construída na própria comunidade. Ainda assim, parece ser uma alternativa interessante que daria algum respaldo oficial aos indígenas em viagem e quem sabe, responder quando algum órgão de governo, empresa, ONG ou meio de comunicação meter os pés pelas mãos, como aconteceu com a Folha de São Paulo na reportagem sobre ‘Rapé na Balada’.

Se observarmos com atenção, talvez vejamos que há muito menos de exótico nessas trocas entre indígenas e brancos de classe média do que se imagina.

O exotismo aliás, é como o sagrado: está nos olhos de quem vê.


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1. MARBIT, Jacques. Traduzido por José Pimenta. O Mal-Entedido Xamânico pode ser Gigantesco. 2. HIGHPINE, Gayle. 'As Raízes do Xamanismo Ayahuasqueiro Moderno' fragmento de 'Unraveling the Misteries of the ayahuasca origins'
3. LUNA, Luis Eduardo. 'Ayahuasca e o Conceito de Realidade'
4. OLIVEIRA, Aline Ferreira.Plantas, dietas, éticas yawanawa: iniciações xamânicas contemporâneas.(FFLCH/USP/Universidade de São Paulo).

Imagem: Al Vivero

IMDr. Jacques Mabit

terça-feira, 25 de julho de 2017

‘Rapé na Balada’ ou a desonestidade intelectual da Folha de São Paulo

Com o título ‘Rapé da Amazônia conquista adeptos em bares e baladas’ a matéria publicada no impresso AGORA da FSP e reproduzido no caderno de cotidiano da Folha de S. Paulo On Line, não passa de um produto barato de profundo desconhecimento e desonestidade intelectual.

No primeiro parágrafo, a matéria refere-se ao ‘pó alucinógeno no limite da legalidade’, e daí partem os mais flagrantes engodos destinados a ludibriar o leitor, causando de modo artificial, indignação, medo e preocupações.

A suposta ‘ilegalidade’ seria por conter o rapé DMT – Dimetil Triptamina, um alcaloide de uso proibido pela ANVISA. É totalmente inverídica a informação de quer o rapé tradicional da Amazônia leva DMT. A matéria se refere especificamente ao povo Huni Kuin. As plantas usadas pelos Huni Kuin estão catalogadas no livro Una Isi Kayawá – o Livro da Cura, feita em parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Informação disponível que o repórter ignorou. Muitas plantas podem conter DMT, em doses variadas, mas a proibição da ANVISA só pode regular de fato o DMT isolado ou sintetizado.

A primeira desonestidade é chamar de ‘Rapé da Amazônia’ um rapé supostamente adulterado com DMT isolado ou sintetizado por razões e métodos que a matéria não esclarece, mas que fogem totalmente das capacidades de produção do rapé nas aldeias.

Rapé tradicional 


Tampouco há qualquer registro de que o 'rapé da amazônia' seja alucinógeno. Chamá-lo de 'Pó Alucinógeno' é ultrapassar o limite da responsabilidade.

Desenho feito a partir da imagem do pajé Agostinho 'Iká Muru', autor do livro Una Isi Kayawá
O que teria embasado o repórter a chamá-lo de 'pó alucinógeno'? Por acaso experimentou? Entrevistou especialistas? Meus caros, nem com muita vontade e força de expressão o rapé explicitado na matéria seria 'alucinógeno'. 

Há também na escolha do título; ‘Ganha adeptos nas Baladas’. A leitura do próprio conteúdo da matéria, nos mostra algo totalmente diferente do que é sugerido. A matéria descreve antes, uma cerimônia própria para o uso de rapé conduzida por um Huni Kuin, em que segundo a matéria ‘são entoados cânticos’. Ora, a reportagem se refere ao um ritual próprio e não a uma balada. É o oposto do que diz o título.

Em nenhum momento, há a descrição de uso indiscriminado do rapé em baladas. De concreto, o que existe é a afirmação de um único entrevistado: “O advogado Glauco Paone, 52 anos, diz usar rapé esporadicamente, em bares na Vila Madalena... “Gosto de usar na balada, dá uma boa acalmada, mas prefiro usar em casa”. Esta foi em toda reportagem a única referência explícita à ‘balada’. Outra entrevistada, a advogada Letícia Krueger...  “Curto usar na noite...”, podemos supor que ‘na noite’ tenha significado de ‘balada’, por aqui no Acre, e nas aldeias, a gente também usa ‘na noite’.

Enfim, a reportagem mais uma vez comete uma série de ‘pecados’ comuns ao meninos da Vila Madalena ao se referirem a contextos culturais amazônicos e brasileiros que não cabem nas suas pobres descrições colonizadas do mundo.

Não há muito mais o que se esperar da Folha de São Paulo. Seu diretor-presidente, Otávio Frias Filho, quando visitou a comunidade Céu do Mapiá do Santo Daime recorreu como ‘referência’ ao livro ‘O Coração das Trevas’ de Joseph Conrad, que mais tarde inspirou o filme ‘Apocalipse Now’ de Francis Ford Copola. Ou seja, Otávio Frias Filho, proprietário da Folha de São Paulo e provável inspirador de seus pupilos da ‘vila madá’ acreditava estar indo para um lugar semelhante ao Congo do tempo do rei Leopoldo ou ao Vietnã em guerra. Isso nos dá uma amostra de como esses rapazes estão despreparados para tratar de assuntos que estejam além do reino mágico situado entre as marginais pinheiro e tietê.

A conclusão possível é que o 'Rapé da Amazônia' não é capaz de trazer danos comparáveis à reportagem, veiculada sem qualquer compromisso com a verdade.   


quarta-feira, 26 de abril de 2017

As Raízes do Xamanismo Ayahuasqueiro Moderno

Imagem: "Essencial Love" por Anderson Debernardi
Artigo da Etnobotânica Gayle Higpine * 
Quando conheci a história pré-européia da região do Napo, comecei a entender algo que, no início, me fora estranho e perturbador, como um índio norte-americano: a abordagem do xamanismo como um negócio pelo qual as taxas são cobradas, E a competitividade e auto-engrandecimento dos xamãs. Na cultura indígena norte-americana, as pessoas de medicina são pessoas profundamente humildes que não consideram cobrar dinheiro, mas que, nos velhos tempos, seria cuidada por toda a comunidade. Mas a pré-conquista Napo era uma sociedade com muito intercâmbio entre grupos não relacionados. Ao contrário de uma verdadeira comunidade tribal, que é governada por obrigações de parentesco e em que os parentes são obrigados a cuidar uns dos outros, na sociedade multi-étnica e cosmopolita da bacia do rio Napo, as pessoas rotineiramente interagiram com estranhos a quem não tinham obrigações de parentesco, pelo que é necessária uma remuneração. De cima a baixo, os curandeiros foram chamados a fazer cerimônias para estranhos que não eram seus próprios parentes. De fato, há uma opinião entre os Runa de Napo que um xamã não pode fazer um bom trabalho de tratar seus próprios parentes, assim mesmo um O xamã procurará outro xamã, de preferência um não-parente, se sua própria família ficar doente.
Esse estilo de xamanismo tornou-se o estilo "clássico" do xamanismo ayahuasca. Não está enraizada em nenhuma cultura tribal específica, e pode ser transferida através de culturas de um indivíduo para outro. Na minha opinião, é por isso que esta forma de xamanismo Ayahuasca tem sobrevivido, e talvez até se espalhou e floresceu, enquanto famílias e comunidades de culturas tradicionais estavam sendo rasgadas. Esse estilo de xamanismo - que se concentra no praticante individual independente de laços de comunidade ou de parentesco, e que pode ser praticado com estranhos não-relacionados - foi facilmente assimilado na sociedade atomizada dos mestiços e se adapta facilmente à cultura ocidental de consumo. Na verdade, o contato com a sociedade consumista ocidental está fazendo com que esse estilo de xamanismo floresça.

O xamanismo ayahuasca mestiço de Iquitos é derivado principalmente de Napo. Ele extrai de outras raízes culturais indígenas, como o Kukama, mas mesmo aqueles já foram influenciados pelo estilo de Napo. No entanto, essa influência tem sido em uma única direção. A influência mestiça no xamanismo napo é quase inexistente. Na verdade, no Equador, o xamanismo mestiço é literalmente inédito. As circunstâncias históricas únicas que criaram o xamanismo mestiço Ayahuasca no Peru não existiam no Equador ou na Colômbia. Na Colômbia, porque muitos índios fugiram para as cidades devido à guerra civil, brancos e mestiços podem superar os participantes indígenas nas cerimônias Yagé, mas liderar as cerimônias é inteiramente do trabalho dos índios. No Equador, os mestiços não se interessam pela Ayahuasca. Os mestiços da Amazônia equatoriana são colonos recentemente chegados; Desde a década de 1960, a maioria deles chegou em estradas construídas para as empresas petrolíferas, encorajadas pelas promessas governamentais das "terras vazias" da Amazônia a qualquer pessoa que pudesse limpá-la e criar gado ou cana-de-açúcar. Ao contrário dos seringueiros mestiços no Peru há cem anos, os colonos mestiços da Amazônia equatoriana não precisam recorrer aos curandeiros indianos com suas crises de saúde. Eles não têm interesse na cultura indiana ou nos direitos indianos.

Missionários e Resistência

Gow (1996) sugere que o xamanismo Ayahuasca se originou em reduções missionárias, mas a evidência oferecida para isso é extremamente fraca, principalmente baseada no fato de que os espanhóis usaram quechua para administrar as reduções e na influência católica no xamanismo Ayahuasca no Peru Mestiço e indígenas. Não há influência católica discernível sobre o xamanismo ayahuasca no Equador. Creio que no Peru, os ayahuasqueros indígenas absorveram a influência católica não por causa dos missionários, mas porque testemunharam xamãs mestiços que misturavam o catolicismo com o xamanismo de maneira amigável. Os xamãs mestiços demonstraram que o catolicismo poderia acrescentar a uma prática xamânica, de fato, poderia fortalecer essa prática, com novas e poderosas entidades espirituais, sem renunciar às formas nativas.
No Equador, onde não há xamanismo mestiço, não há mistura de xamanismo Ayahuasca indígena e catolicismo. No Equador, os missionários e os xamãs são inimigos históricos. Gravando Napo Runa história oral, ouvi muitas histórias descrevendo os xamãs como os líderes subversivos de resistência secreta aos missionários espanhóis. Os missionários podiam impor o uso de roupas, chicoteando qualquer pessoa que encontrassem nua, e pudessem impor a freqüência à missa chicoteando qualquer pessoa que estivesse ausente da missa, mas eles não podiam monitorar o que as pessoas estavam fazendo no fundo da selva à noite. (Eu ouvi dicas de que, uma vez, nem todas as cerimônias de Ayahuasca foram feitas em completa escuridão como são hoje.)
A inconspicuidade é uma virtude tradicional para o Napo Runa, porque ser despercebido significa que não se está molestando o próximo. O bicho-preguiça representa o caráter humano ideal, em parte porque ele vive despercebido. Mas a capacidade de esconder também é um trunfo do Trickster, que para o Napo Runa é Coelho. Os Napo Runa são estereotipados no Equador como mansos e dóceis, em contraste com os ferozes Shuar e Waorani, mas sua própria auto-imagem enfatiza sua resistência e sobrevivência, e a Ayahuasca é creditada com um papel nisso. O chefe Jumandi supostamente usou a Ayahuasca antes de liderar a rebelião de 1578-9, e os Napo Runa creditam sua própria resistência aos xamãs pela expulsão dos missionários jesuítas do Equador em 1767, embora os livros de história dêem um relato diferente. 

Formas de Ayahuasca 

Conhecido como "xamanismo Ayahuasca" é apenas uma orientação para a prática Ayahuasca. Esta é a orientação que se concentra no xamã como um indivíduo, como uma espécie de profissional. Normalmente, o xamã será a única pessoa na cerimônia que bebe. Quando a população local veio para cerimônias de cura, o xamã encorajá-los a beber, mas geralmente eles não iriam. A maioria das pessoas considera a experiência desagradável. A cura é basicamente uma forma de adivinhação: Ayahuasca permite que o xamã para ver e trabalhar com o problema. Ayahuasca é uma ferramenta divinatória usada por indivíduos qualificados. Quando eu perguntei a pessoas que não eram membros da família de um xamã sobre sua experiência e uso de Ayahuasca, a maioria das pessoas disse que a experimentaram pelo menos uma vez. Qualquer curioso sobre Ayahuasca terá a oportunidade de satisfazer sua curiosidade mais cedo ou mais tarde, quando alguém em sua família, ou mesmo um vizinho, desenvolve uma doença para a qual um curandero será convocado. Ou sua família pode tentar sua própria sessão de cura Ayahuasca, muito na maneira que as pessoas da cidade podem tentar auto-tratamento para uma doença com remédios caseiros antes de ir a um médico. Qualquer pessoa presente em uma cerimônia é incentivada a participar da bebida, mas a maioria das pessoas me disse que, uma vez satisfeita sua curiosidade sobre Ayahuasca, eles não se importavam de repetir a experiência. Algumas pessoas nunca haviam experimentado a Ayahuasca, porque tinham ouvido que era tão desagradável. A Ayahuasca é uma presença sentida, mas a maioria das pessoas parecia satisfeita em deixar o dever desagradável de bebê-lo para os especialistas xamã. Há outro tipo de cerimônia de cura, da qual eu tive uma experiência muito breve e limitada perto de Tarapoto, no Peru. Nesta cerimônia, todo mundo bebe, e purgar através de vômitos é a intenção. Na verdade, o medicamento é até referido como La Purga, como foi a cerimônia. Em Napo, a purga não é enfatizada, porque é o beber do xamã que é importante, e ele presumivelmente fez todas as suas purgas durante o seu aprendizado. Portanto, geralmente não há muita purga nas cerimônias Napo Runa. (Eu não tive meu primeiro purge até que eu tinha bebido por mais de um ano.) A maioria de quem veio para cerimónias em Napo declinou o convite para beber porque consideraram o Ayahuasca desagradável. Os participantes na cerimônia purga, pelo contrário, consideraram-no altamente prazeroso. As pessoas queriam beber, esperavam beber e esperavam purgar. A purga está longe de ser automática com a Ayahuasca, mas o corpo pode ser treinado para responder com segurança à Ayahuasca com uma purga. Uma purga de Ayahuasca pode ser poderosa e extática, limpa e cura, por isso não foi surpreendente saber que algumas pessoas olhavam para a frente a uma purga semanal. Acredito que este estilo de cerimônia, bem como o estilo Napo, influencia a cultura mesaiense Ayahuasca de Iquitos. Há também cerimônias de laços grupais. Siskind (1973) descreve o consumo comunal de Ayahuasca entre os Sharanahua (geralmente em todos os grupos masculinos, mas eles não a desencorajam de participar) eo xamanismo individualista de Ayahuasca também. Os tucanoanos na Colômbia têm danças cerimoniais com Yajé. O uso da Ayahuasca para habilidades de caça e visões de jogo é generalizado e aparentemente antigo. Miller-Weisberger (2000) descreve uma prática única entre os Waorani de melhorar as habilidades de caça com Banisteriopsis e um "jejum" de dois anos. Estas formas variadas de prática de Ayahuasca, e mais, são centradas na videira. O Napo Runa considera a videira a fonte de toda a sabedoria. Na cerimônia de purga, se a cerveja continha alguma folha, era apenas discernível. Para o Sharanahua, a mistura é de importância secundária.22 Os Tukano usam a videira sozinhos; Assim como os waorani.23 Um ancião Waorani, Mengahue, diz sobre o poder da videira: Miiyabu é uma planta atrativadora e seu espírito é muito forte. Muitas pessoas não são fortes o suficiente ou sábio o suficiente para usá-lo em benefício do povo ... É por isso que sempre que você tocar esta planta você deve estar ciente do que você está pensando, porque tudo o que você está pensando é o que você vai atrair para a sua vida quando Você toca nessa planta. (Miller-Weisberger 2000: 44)

Antiguidade da Ayahuasca 

"Durante os Tempos Antigos, o conhecimento pleno dos espíritos de huandu e ayahuasca existia" (Whitten 1972: 47). "Afirmamos que ayahuasca é nossa planta sagrada ... Ela sempre foi guardada por Nossos avós e ancestrais "(Yajé é cultivado a partir de estacas e, portanto, é pensado para ser uma videira contínua que remonta ao início dos tempos ... yajé em si é comparado a um cordão umbilical que liga seres humanos ... para o Passado mítico "(Hugh-Jones, citado em Schultes e Raffauf, 1992: 24). Os Runa no Equador dizem que sua relação com Ayahuasca vai para o início dos tempos. A antiga presença de Bisteristeriopsis caapi, também conhecido como Ayahuasca, em toda a Amazônia superior é atestada pelas práticas difundidas e variadas em torno dele e as classificações finas de subvariedades de videira. Acredito que estudos genéticos poderiam ajudar a confirmar a antiguidade de seu uso. Se, como com praticamente todas as plantas de uso humano generalizado na Amazônia, o B. caapi foi propagado por seres humanos a partir de um único local de origem, então o grau de diferença genética entre as plantas em um local e outro daria pistas sobre quanto tempo Eles estavam separados. Embora Banisteriopsis caapi seja propagado por clonagem, até plantas clonadas mostram mudanças genéticas ao longo do tempo. A genética também pode dar uma visão das variedades reconhecidas pelos povos indígenas.

Conclusões

 "Banisteriopsis pode muito bem ser antigo ... [mas] parece que a ayahuasca como a conhecemos não é tão antiga" (Brabec de Mori 2011: 26). Os historiadores da Ayahuasca fariam bem em olhar além da "ayahuasca como a conhecemos" e reexaminar o papel psicoativo de B. caapi, como tem sido bem documentado ao longo da literatura. Minhas conclusões são: A forma mainstream do xamanismo Ayahuasca originado no rio Napo , Originou-se como uma prática só de videira; As misturas foram descobertas devido à prática de misturar outros medicamentos vegetais com B. caapi; E a história da Ayahuasca de uso por seres humanos é muito mais antiga do que a cerveja. 

Artigo Original: Unraveling the Mystery of the Origin of Ayahuasca

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lembrete para esse dia 19 de Abril e para todos os outros: descolonizar-me

descolonização
substantivo feminino
  1. 1.
    ato, processo ou efeito de descolonizar, retirando a característica de colônia a.
  2. 2.
    aquisição gradual de independência política, econômica e cultural por parte de antigas colônias.

Detalhe do mural de Cuzco que retrata a colonização da América Andina.Pintor: Juan Bravo
E se de repente, nesse dia 19 de abril, ao invés de fazer as costumeiras homenagens ao indígenas que tanto admiro em meu país e continente, eu resolvesse olhar para mim mesmo, de modo crítico, franco e sincero?

Pois para mim está bastante claro que há muito mais em mim de Aguirre e Anhanguera do que de Atahualpa e de Sepé.

Aproveito a calmaria dessa crise econômica que paralisa a todos, e quanto mais a nós, nessa ponta de mundo que é o Acre para navegar nas páginas de livros que tratam, sob diferentes aspectos, da colonização-ocupação da Amazônia.

Um deles trata-se de ‘Árvore de Rios’ de John Hemming. Folheando seus meandros, vou me reconhecendo. Não nos indígenas ora hospitaleiros, ora arredios, ora valentes e determinados, ora desesperados suicidas, ora dizimados.
Coube aos índios cuja pecha de preguiçosos perdura até hoje, praticamente todo o trabalho braçal empregado no empreendimento colonial.  

Reconheço-me sobretudo na façanha aventureira dos primeiros exploradores, no cristianismo utópico dos jesuítas, na ganância cobiçosa dos colonos.

É que mesmo hoje, século XXI, os paradigmas que conduziram o projeto colonial nas Américas, permanece vivo e atuante. E quando digo tal coisa, não estou excluindo nem a mim mesmo e nem a todos aqueles que com boa vontade muitas vezes abraçam, de variados modos, a causa indígena.

Para quantos de nós esse índio não foi idealizado na figura de um ser-espiritual superior? De outro modo quem irá nos salvar de nosso desencanto? 

Confesso. Eu também. E quando o índio não se encaixa em nossas expectativas de branco sobre o que é ser índio, é porque não é ‘índio o bastante’, ou ‘não é mais índio’, ou ainda ‘não é índio de verdade’. Talvez esse seja afinal o golpe de misericórdia: povos que foram escravizados, evangelizados, ‘aculturados’ ao bel prazer do projeto colonial vigente, ainda podem ter sua identidade definida pelo olhar do outro.

Biraci Jr: Apenas um susto e histórias para contar
Um caso dessa semana chamou a atenção. Biraci Jr, filho do cacique Biraci Brasil do povo yawanawá, juntamente com outros dois companheiros, durante uma caçada, perderam-se por três dias na mata. Não faltou gente a comentar o fato, aparentemente inusitado de que um índio pudesse se perder na mata. Para o senso comum do acreano, índio e mata seriam praticamente uma coisa só. Até aí tudo bem, o problema começa a transparecer quando um apresentador de TV, do alto de sua mais alta ignorância sobre o tema, promove seu preconceito e desinformação ao grau de verdade televisionada. Já apresentei TV e sei que isso acontece, muitas vezes sem maiores intenções de prejudicar, por pura vontade fazer ‘show’. Só que não dá para deixar passar batido. E cumpre o papel de dizer que sim, índio se perde na mata. São fartas as narrativas sobre isso. A novidade, nesse caso específico, é que a velocidade dos meios de comunicação transformou em notícia algo que, em outras circunstâncias, ficaria restrito à aldeia para ser contado ao pé da fogueira, quem sabe em uma rodada de rapé.

Do mesmo modo, posso contar de minhas inúmeras decepções ao idealizar o índio como ‘ser espiritual’, e depois vê-lo, por exemplo, xingando a mãe do adversário em uma partida de futebol, ou tomando umas no bebôdromo da cidade, jogando baralho, comendo linguiça ou apostando dinheiro na roleta do Cassino.

É quando meu alter ego jesuíta diz: ‘Malditos índios que não são o que eu idealizei! Desse jeito vou ser obrigado a olhar para mim mesmo’.

Sete anos atrás, no terreiro sagrado do povo yawanawá, o Muká me deu um Sonho.

Nele, um ser meio homem-meio máquina super-poderoso armado até os dentes com as mais avançadas tecnologias dominava o espaço sideral com uma potente nave.

O ser, que entre outras coisas, tinha domínio sobre a vida e a morte de seus súditos e sobre a estreita passagem entre o céu a terra, terminava por desmontar-se numa infinidade de minúsculas peças, revelando ao fim, seu caráter binário de zero ou um.

Compreendi o recado e desde então tenho aceitado, voluntariosamente a tarefa de ‘desmonte’ de meus padrões de comportamento e de pensamento, que trazem sobretudo, o DNA dos colonizadores desta terra.

Monumento às Bandeiras, no Parque do Ibirapuera
Lembro-me agora da ironia de um velho amigo paulista, ao passar no 'Monumento às Bandeiras': -“E lá vão os bandeirantes, estes bravos desbravadores”,  “-Opa, mas se eles são bravos desbravadores, porque não desbravam a si mesmos”.


A frase tem ecoado em meu, como um desafio para aventurar-me pelas minhas próprias entranhas, e descobrir em cada curva, um pouco daquele tirano tão bem traduzido no sonho do Muká.