sábado, 10 de janeiro de 2015

O show não pode parar

Na última sexta-feira, sirenes, buzinas e gritos pedindo "justiça" alteraram a rotina da nossa pacata "smallville' cruzeirense.

Um prato cheio para uma imprensa quase sempre carente de pautas. Com tanta coisa acontecendo "aí pra fora", muitas vezes não é fácil convencer o telespectador a permanecer na frente da TV para assistir ao noticiário local.

Talvez por isso haja um sentimento tão forte de gratidão entre a imprensa e  polícia.

A chegada dos prisioneiros (em carro aberto) suspeitos do assalto que resultou na morte do sargento M.Araújo foi de fato um espetáculo orquestrado com maestral regência. Os familiares emocionados, os pano pretos desfraldados tremulando ao movimento de motocicletas, convertidas agora em porta-estandartes da indignação de toda uma cidade. Em seguida vieram o choro e os gritos de "assassino", logo após acompanhados das sirenes trazendo som e luz à nossa rotina. um verdadeiro espetáculo.

Tivemos ainda uma tentativa de linchamento (oba, isso dá mais uma pauta!) e após uma espera não muito longa, a "cereja do bolo": em um auditório climatizado e confortável são apresentados à imprensa os suspeitos: algemados e com suas caras inchadas e vermelhas. As confissões na ponta da língua não deixavam dúvidas sobre a participação dos mesmos no crime (exceto dois cruzeirenses: "Tati" e sua mãe, Luiza, que negaram qualquer participação, mas isso é piaba para outro caldo).

Suspeitos do assalto. imagem: Juruá on Line


Basta um olhar minimamente equidistante para perceber que a ação todo foi conduzida como um espetáculo a ser oferecido à população.

Estaria eu com isso condenando a ação-espetáculo?

De forma alguma. Afinal, não basta ser eficiente, é preciso mostrar-se eficiente. e As polícias civil e militar (em uma parceria difícil de se ver) neste caso souberam fazer as duas coisas muito bem.

A menos que provas e confissões venham a ser desmontadas diante do tribunal do juri (o que eu não creio), as polícias cumpriram o objetivo de capturar os criminosos em cerca de uma semana, sem um único tiro disparado. Rápido, limpo e preciso.

Não dar a esta ação o merecido destaque a esta ação, seria um crime imperdoável.

Principalmente em uma semana em que houveram seguidas denúncias de abuso de autoridade.

Durante a coletiva, Major Emílio que responde pela PM e toda região (incluindo Tarauacá e Feijó) defendeu a ação da PM e disse que não houveram arbitrariedades, que todas as prisões e abordagens tinham um motivo, ainda que nem todos estivessem ligados diretamente ao assassinato do sargento.

Ainda que compreenda perfeitamente o papel do comando em fazer esta afirmação, mais uma vez sou obrigado a respeitosamente discordar, desta vez com base no que vi e ouvi na ruas de Cruzeiro do Sul nesta semana.

A afirmação de que a intensificação destas ações não tinham relação com o crime que vitimou o sargento não corresponde ao que alguns policiais falaram nas ruas durante as abordagens. Da boca de um saiu: "mataram um dos nossos, 'tamo muito mansinho mesmo"

Não é preciso ser profissional de imprensa para perceber que as ações da polícia recrudesceram no período. Quem anda nas ruas percebeu isso e sentiu esse clima.

Rotina?

Francamente duvido. Especialmente para uma polícia que muitas vezes mal consegue responder aos inúmeros chamados da população. Salta aos desta mesma população olhos o súbito rompante de eficiência dos últimos dias. Foi como se o Popeye tivesse comido espinafre.



É muita "vontade de combater o crime", para uma polícia que há menos de dois meses se recusou a atender um chamado de assalto no momento que ele acontecia em um residência. Segundo a vítima, a  primeira reação do atendente da PM  foi dizer que assalto era um caso para a Polícia Civil.

Ao ligar na delegacia, a vítima foi informada que precisaria esperar o dia seguinte par registrar a ocorrência, do assalto que acontecia naquele momento.

O marido da vítima chegou à residência a tempo de coibir o assalto e novamente ligou para a polícia desta vez para apenas conduzir o suspeito preso em flagrante para delegacia. Mas aí faltou viatura, combustível e principalmente boa vontade e quem teve que levar o preso para a delegacia foi a própria vítima em seu carro particular.

O que mudou em menos de dois meses?

Acho que estas são perguntas e questionamentos que devem ser feitos nos momentos certos e não apenas se deixar conduzir pelo espetáculo que entretém e satisfaz muito, mas que informa pouco e transforma menos ainda.

Sem estar atento a estas contradições do discurso, a imprensa poderá se deixar conduzir para uma "assessoria de imprensa da polícia", apenas reproduzindo B.Os e mais do que isso, reforçando lugares-comuns e esteriótipos que resultam no recrudescimento da violência.

Este já tem sido o papel de alguns meios de comunicação já há algumas décadas no Brasil. O fenômeno "Cidade em Alerta" começou no rádio, na década de 80 com o sujeito chamado Gil Gomes, aterrorizando a vida das donas-de-casa pela manhã bem cedo com histórias das mais escabrosas possíveis.

Trinta e cinco ao depois pergunto o que Gil Gomes e seus sucessores contribuíram para a diminuição da violência? Nada. pelo contrário, só fizeram crescer o medo e o filho do medo: o ódio.

Muita gente pode questionar afirmando que é apenas o retrato da nossa realidade. Diria que é apenas um recorte da nossa realidade. No momento que este recorte é transformado em notícia pode ganhar uma conotação a mais, um tom vermelho a mais de sangue, pode transformar-se em espetáculo e aí, meus caros colegas, se preparem para alimentar um telespectador cada dia mais sedento de sangue.

O gosto do populacho pelo sangue é atávico, ancestral. Não fosse assim não teríamos tido arenas lotadas para ver cair o sangue dos gladiadores.



E assim seguimos até hoje. Mudam os meios, mas o sangue, é o mesmo.

Afinal, o show não pode parar.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Economizam no dinheiro, mas não no sangue



Familiares de policial assassinado têm direito à indenização por parte de empresário, afirma Major da PM

Em meio a bandeiras negras, comoção popular e uma ação espetacular das Polícias Civil e Militar, é de se esperar que passem despercebido aspectos digamos “secundários” da notícia em si, mas que de fato, podem estar na raiz dos problemas noticiados.
Tentativa de linchamento na chegada dos suspeitos. Imagens: Juruá On Line

O primeiro é a questão dos “bicos” realizados por policiais como segurança privada.

Durante a coletiva desta quarta-feira (08), tive a oportunidade de questionar o comando regional da PM sobre a prática, que além de ilegal, coloca em risco a vida de pessoas.
Meu primeiro questionamento foi sobre o recebimento de benefícios a que a família do policial assassinado teria direito em caso de morte em serviço.
Major Moura, Comandante da PM em Cruzeiro do Sul e região
O Comandante regional da PM no Juruá, Major Moura respondeu que os familiares receberiam os benefícios assegurados por lei.
Mas o fato é que a lei não assegura tais benefícios no caso de o policial ter morrido fora de serviço, ou nesse caso pior: prestando um serviço que é ilegal.
Major Negreiros complementou a informação, afirmando que os familiares têm direito a pedir na justiça, indenização ao empresário pela morte do PM.
Major Negreiros comanda as operações aéreas da PM no Acre
O segundo questionamento é com relação à própria exposição ao risco de morte durante o serviço de segurança privada pelos PMs, sem as devidas garantias.
Na opinião de Major Moura, a atuação dos PMs como seguranças privados, ainda que ilegal, seria um fator de segurança a mais, pois reforçaria a presença policial nas ruas da cidade.
Sobre este ponto, sou obrigado a respeitosamente discordar do comandante, e apresento meus argumentos, não com a autoridade de um especialista na área de segurança pública, mas como um ex-morador de uma das cidades mais violentas do mundo.
A atuação dos policiais como seguranças privados, tal qual está acontecendo em nossa cidade, tão somente os irá expor a um risco extremo de serem mortos.
No caso específico do Major M.Araújo, por ocasião do assalto, o mesmo encontrava-se na função de motorista. Armado e sozinho tornou-se um alvo com poucas chances de reação e menos ainda de evitar o assalto.
Sargento M.Araújo. Imagem: Ecos da Notícia
Não é segredo que em Cruzeiro do Sul, policiais militares sejam vistos em supermercados, às vezes atuando como guardadores de capacetes ou empacotadores de mercadoria.
Sua presença pode ter a eficácia de afastar algum “bêbado” ou “noiado” que deseje furtar uma lata de leite, mas não significa absolutamente nada para criminosos minimamente organizados. É apenas o primeiro alvo a ser eliminado ou neutralizado.
Em setembro de 2013, o sargento Cleiton Aquino morreu na função de segurança privado após ser baleado durante uma tentativa de assalto à loja City Lar em Rio Branco.
Por vezes, a mistura de funções como segurança pública e privada, ganha contornos ainda mais obscuros, como o caso recentemente noticiado na imprensa da capital em que policiais teriam praticado a extorsão o proprietário do Auto Posto Correntão, em Rio Branco , afirmando que o “serviço de inteligência” teria descoberto um assalto planejado para o estabelecimento. Após pagar durante meses o serviço de segurança privada a uma equipe formada exclusivamente por PMs, o empresário resolveu cancelar o serviço e denunciar a extorsão.  
É fato que nossa região não possuiu ainda um histórico de violência que suscite tais questionamentos, mas este histórico começa a mudar, e antes que mais vidas se percam, é importante atentar para estes fatos.
Cruzeiro do Sul dispõe hoje de pelo menos quatro empresas de segurança privada. Em conversa com um empresário do setor, o mesmo me confidenciou que o preparo de um policial militar, é de fato melhor que o de um segurança privado, mas que o PM não tem garantias legais no caso de ser baleado, ou se por ventura, matar o assaltante.
Podemos dizer que por trás de um crime, há pelo menos outros dois: o exercício ilegal da profissão de segurança privado, com evidentes riscos à vida humana e a complacência do comando da PM com a prática ilegal.
Da parte do empresariado percebe-se também uma prática que apesar de não poder ser classificada como ilegal, é pelo menos, imoral: colocar pessoas em situação de risco de morte em defesa de seu patrimônio privado, sem as garantias legais que tal exercício exigiria.
Em poucas palavras: economizam no dinheiro, mas não no sangue. Do outro, é claro.

* O segundo aspecto "secundário" diz respeito justamente ao trabalho da imprensa, e farei um post sobre isso mais adiante

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O resgate do "Vinte e Um"

As fotos presentes nesta postagem são parte do legado material deixado por Genildo dos Santos Muniz.

Genildo foi um dos principais herdeiros da tradição de aplicação do kambô que teve em seu avô, Francisco Gomes, um dos pioneiros da aplicação da "vacina do sapo" nos não-índios.

Genildo continuou o trabalho de seu avô, levando a medicina para os grandes centros do país.

Uma parte dos recursos foi utilizada para a criação e manutenção de dois espaços de cura e de preparação das medicinas: A AJUREMA, localizada na periferia da cidade de Cruzeiro do Sul, e o "Vinte e Um", localizado no projeto de assentamento Santa Luzia, zona rural de Cruzeiro do Sul.

A casa do "Vinte e Um"















Genildo
O espaço conhecido como "Vinte e Um" destinava-se à preparação e toma da ayahuasca, uso e coleta do kambô, e para estudos que demandem um período de maior isolamento na floresta.

No local encontra-se uma casa com cobertura de palha, além de alguns pés de chacrona e cipó plantados por Genildo.

A mata do local é do tipo de terra firme, situada em área de reserva legal destinado ao uso sustentável.


Chacrona plantada por Genildo às margens do Igarapé




















Por que "Vinte e Um" ?

A história do "Vinte e um" começa com Genildo conduzindo o alemão Guido Stiehle e o eslovaco Juraj Penciak que andavam na floresta das redondezas em busca do "lugar ideal" para uma cerimônia de ayahuasca.

Guido então ficou encantado com o canto de um pássaro e decidiu seguir aquele som. Por algumas horas  os três andaram na floresta até que chegaram a um local onde havia um bando desses pássaros.

Genlido explicou que aquela ave era chamado de "Vinte e Um" devido ao som que faz parecer que ele está dizendo, "vinte e um", e também porque segundo a lenda, onde canta um, cantam vinte e um. Aquele local, portanto, seria o local onde estariam os "vinte um" pássaros.

O "Vinte e Um" (Lipaugus vociferans) também é conhecido como pássaro do seringueiro, capitão da mata, fri-frió ou cri-crió, entre outros. Produz um som alto e estridente, bastante característico.

O "Vinte e um", capitão da mata ou pássaro de seringueiro
Clique aqui para ouvir o canto do "vinte e um"

Genildo lembrou também que seu avô Francisco, atribuía uma característica especial ao número 21.
Este era o número máximo que ele fazia de aplicações de kambô.
O pássaro do seringueiro é assim chamado por ser um companheiro na solidão da floresta para o seringueiro, como fora para o seu avô durante as lidas na mata.


O resgate

Após o trágico falecimento de Genildo, em uma acidente automobilístico no ano de 2007, o local ficou praticamente abandonado.

O "Vinte e um" - restauração e reabertura do acesso
Passados mais de sete anos, Elias, o irmão mais novo de Genildo, agora com 23 anos, pretende retomar o trabalho.


A ideia não é aplicar o kambô como quem faz uso de uma substância apenas. Mas sim, transmitir através da aplicação, a força e a pureza da floresta, a natureza dos instintos, a potência da selva amazônica.

Trata-se de manter viva a tradição e a ancestralidade e de possibilitar que esta troca com as pessoas das cidades possibilite aos povos da floresta viver dignamente, com o mínimo de impacto sobre a floresta.

Para isso é necessário preparar as medicinas na floresta, e se preparar com elas também na floresta: fonte de conhecimento e energia de cura e equilíbrio.


Cipó plantado por Genildo

Reativar o "vinte e um" significa reabrir o trabalho iniciado por Genildo e antes, pelos seu pai e avô. Significa um local de estudo e aprofundamento, um local para beber da fonte da floresta e que poderá ser compartilhado com os aliados da cidade.

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cerca de 4 mil estudantes estão sem rematrícula no Juruá

Aproximadamente 4 mil estudantes da rede estadual de ensino estão até o momento sem suas matrículas e rematrículas efetivadas.

O problema ocorre com as escolas da Diocese de Cruzeiro do Sul conveniadas com o Estado. Segundo informações da própria diocese, o convênio foi substituído por uma subvenção o que resultou em dois anos sem receber recursos para reformas na estrutura das escolas.

As escolas afetadas são: Instituto São José, Divina Providência e Padre Damião em Cruzeiro do Sul, além do Instituto São Francisco de Mâncio Lima e Instituto São José de Tarauacá.

Desde maio, a procuradoria da diocese solicita uma reunião com a SEE sem sucesso.

A preocupação é que com o desgaste das estruturas, possam ocorrer acidentes, como o que resultou em um princípio de incêndio na escola Divina Providência, em outubro. Felizmente não havia ninguém em sala.

A Diocese informa que até o presente momento não houve resposta da SEE para a proposta que foi encaminhada.

Segundo informações da coordenação estadual da SEE, a questão já estaria encaminhada na capital e espera-se uma solução até sexta-feira desta semana.

* Na Foto, João Vitor. Nove anos, estudante do terceiro ano da Escola São José. É um dos 4 mil alunos que ainda não efetuou rematrícula.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Banco do Brasil quer transformar praça em estacionamento



A direção da agência do Banco do Brasil está pressionando a prefeitura de Cruzeiro do Sul para demolir a praça e parte da ciclovia em frente à agência na Avenida Mâncio Lima e transformá-la em estacionamento para os veículos dos clientes.
As informações partiram de um funcionário do departamento de trânsito. 
Instalada em uma das principais vias da cidade, os clientes da nova agência tem se deparado com o problema de falta de estacionamento, o que resulta muitas vezes em multas por parar em local proibido.
Ao contrário do que acontece na maioria dos municípios brasileiros, Cruzeiro do Sul não dispõe de uma legislação municipal que obrigue os novos empreendimentos a dimensionar em suas obras a questão do estacionamento.

Como resultado, quem paga a conta é a sociedade: falta de vagas para estacionar, trânsito caótico, perda de espaços para pedestres e de áreas de lazer para os automóveis.
Nem mesmo o fundador da cidade escapou.

O primeiro ato de Vagner Sales como prefeito de Cruzeiro do Sul foi a retirada da estátua de Marechal Thaumaturgo. O espaço foi transformado em estacionamento.
Em seguida, a “gamela” do centro cultural foi também convertida em estacionamento, resultando, entre outras coisas na destruição do piso e das calçadas que passaram a servir de acesso aos veículos.

Outro exemplo do resultado da falta de uma legislação municipal para disciplinar os empreendimentos foi o que aconteceu avenida Rodrigues Alves onde o prédio do Super Econômico, acabou transformando vias públicas e calçadas em estacionamento.

A calçada cedeu espaço para um estacionamento improvisado, prejudicando a circulação dos pedestres. Como não é suficiente, o “coqueiro central” (espaço entre os postes, entre as vias) também transformou-se em estacionamento. Os problemas de circulação são agravados durante os horários de maior movimento.

A “avenida do governo”

O mais irônico de tudo é que a prefeitura se recusa a recuperar ou menos manter um serviço regular de limpeza no local. As razões são políticas. A rua é “do governo” e portanto quanto em pior estado estiver, melhor para a imagem dos opositores.

O descaso tem obrigado o governo a manter ele próprio um serviço terceirizado de limpeza e a utilizar o Deracre para fazer a constante recuperação da avenida, tanto no que diz respeito ao asfalto quanto na manutenção da ciclovia, praças, aparelhos de ginástica e de lazer.
Apesar disso, a prefeitura têm a prerrogativa legal de determinara  demolição da praça para transformá-la em estacionamento.

Com uma provável aprovação na Câmara de Vereadores, restaria apenas uma mobilização popular para evitar que um dos poucos espaços de lazer de Cruzeiro do Sul venha a dar lugar a um estacionamento.

sábado, 15 de novembro de 2014

Imparcial é a minha cafeteira


Tenho vontade de dizer um palavrão toda vez que ouço alguém fazer pregação sobre de "imparcialidade". Pior ainda se este alguém for um jornalista.
Fico pensando o que andam ensinando nas escolas de jornalismo. Na que eu frequentei, aprendi que imparcialidade é algo que simplesmente não existe.

O mais honesto que um jornalista pode ser consigo mesmo e com seu público é admitir a sua parcialidade.

Imparcialidade significa ser capaz de produzir notícia e informação de maneira totalmente objetiva, sem qualquer traço de subjetividade.

Ora, e como é possível, sendo o jornalista ele próprio um "sujeito" abstrair totalmente a sua própria "subjetividade" ? O próprio ato de "apropriar-se" da realidade é um processo subjetivo e desconhecer isso é o primeiro passo para que o jornalista inadvertidamente imponha a sua própria interpretação da realidade como "verdadeira".

O comunicador que ainda aja desta maneira, das duas uma: não possuiu formação adequada, ou está usando de má fé.

Estamos fartos de exemplos ao nosso redor. Do Jornal Nacional à Revista Veja, todos gostam de alegar uma pretensiosa imparcialidade que nunca possuíram. Sua opiniões estão, implícita ou explicitamente, eivadas de uma visão de mundo próprias de uma classe social. Negar que haja uma posição política por trás disso, não é apenas desonestidade: é exercício de estelionato intelectual.

Assédio Moral

No entanto é com base na falácia da imparcialidade que alguns meios de comunicação passam a exigir de jornalistas, desfiliação partidária, de quem por ventura possuir.

Só uma estupidez sem tamanho pode justificar tal coisa.

Primeiro, porque a não-filiação partidária não é garantia de que o jornalista ou comunicador não possua sua própria visão política.

Segundo, porque o exercício de participação política é garantia constitucional. Exigir desfiliação partidária além de representar uma marcha-ré para a democracia, configura assédio moral, incompatível com qualquer empresa, muito mais se tratando de uma empresa de comunicação de rádio e tele-difusão, que administra na verdade não apenas um simples negócio, mas uma concessão pública.

"Formatar" e empregar jornalistas incapazes (ou proibidos) de pensar e agir politicamente equivale uma castração, já que a visão política é uma daquelas partes que tem grande importância na vida do jornalista.

É muito parecida com a ideia de castrar eunucos para tomar conta de um harém. Ou talvez, como os famosos "castratti" da renascença: jovenzinhos que tinham seus testículos retirados. Sem nunca alcançar a maturidade, os "castradinhos" podiam sempre cantar com o mesmo tom de voz que agradava aos seus patrões.

O "harém" neste caso representa os próprios interesses políticos e econômicos da emissora. Enquanto se exige dos seus "eunucos castrados" total obediência ao seu próprio projeto político-econômico, ainda comete o estelionato moral de dizer ao seu público que é "imparcial".

Imparcial é a minha cafeteira!

Ela faz café forte ou fraco, de acordo com a medida de pó e água que eu coloco nela.

Jornalistas não são cafeteiras e jornais tampouco são fábricas  onde se enfia um porco de um lado e se retira a salsicha do outro.

O estelionato moral, consiste em se colocar para o público como mero transmissor de informações, sem qualquer cunho ideológico, sem qualquer interesse político. Que meigo!

Mas no frigir dos ovos, um público cada dia mais antenado, percebe claramente as tendências políticas e eleitorais daquele meio, e o que é pior tratando de modo desonesto as diferenças políticas sem a qual, não haveria democracia.

Em se tratando de concessões públicas, o mínimo de respeito com o público, e com os profissionais,   é tratar da questão política de maneira honesta e não  com o obscurantismo de quem guarda cartas escondidas na manga, para no momento propício usar como um trunfo em benefício de seus próprios interesses.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"É pouco" - afirma Vagner Sales sobre desconto em folha de pagamento

"- Vocês não tem mais o que fazer? Isso é falta de assunto? Vocês estão tomando meu precioso (sic) tempo"

Essa foi a recepção calorosa com que o coronel de barranco Vagner Sales recebeu a imprensa de Cruzeiro do Sul, não na prefeitura, mas na sua "Casa do Povo".

Enquanto as equipes aguardavam a sua chegada, um dos repórteres recebeu uma ligação, proibindo-o de cobrir a pauta. Constrangido, foi obrigado a deixar o recinto, impedido de cumprir a sua função.

Vomitando a sua proverbial arrogância a cada sílaba, Vagner teve o descaramento de dizer que a cobrança além de normal, ainda era "pouco".

Em uma comparação esdrúxula, fez menção aos senadores, deputados e vereadores eleitos que recolhem parte dos vencimentos para os partidos pela qual se elegeram.

Só mesmo muito descaramento para fazer esta comparação.

O denunciante N.S.O. não é mais do que um operador de máquinas. Nem sequer é filiado ao PMDB

Durante a coletiva, Vagner afirmou que as pessoas "concordaram" com o desconto, mediante a assinatura de um termo. E ainda disse: "O PMDB cobra é pouco".

O "Leão" correu

Contudo, apesar da explícita prepotência de quem se acha "dono" da cidade, as equipes de jornalismo fizeram o "leão" correr da sala quando perguntaram porque a prefeitura não estava recolhendo os direitos trabalhistas do funcionário.

O coronel simplesmente levantou-se e foi embora.

Imoral e Ilegal

O promotor Wendy Takao, do MP Acre afirmou que uma investigação sobre o desconto ilegal em folha corre desde de junho deste ano e que já houveram outros denunciantes. O promotor afirma que já foi solicitado um documento da prefeitura com os nomes dos funcionários que tem descontos em folha, e que os documentos enviados pela prefeitura estão incompletos.

Para o promotor, o MP vislumbra no desconto em folha uma ação que fere o princípio constitucional da moralidade administrativa, incorrendo em crime contra a lei de improbidade administrativa

Sobre o não pagamento dos direitos trabalhistas, Wendy Takao disse que deveria ser objeto de investigação pela PF.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Reforma da Praça nega o verdadeiro autor da obra, afirma César Messias

O deputado federal eleito pelo PSB, César Messias fez críticas contundentes à reforma da praça  realizada pelo prefeito Vagner Sales.

"É de um mau gosto extraordinário", dispara.

Mas as críticas não se limitam ao aspecto burlesco da obra. Para César Messias, por trás da aparente "homenagem" à Orleir Cameli, há uma tentativa deliberada de apagar e reescrever a história de Cruzeiro do Sul.

"O verdadeiro autor daquela obra, é Orleir Cameli. Orleir teve muito trabalho em drenar aquela área, que era um chavascal enorme. O atual prefeito fez uma maquiagem mal feita, retirou a placa de inauguração e colocou a sua própria, dando a entender que quem fez foi ele. Vagner nega a autoria da obra do maior prefeito da cidade".

A praça que custou 3 milhões e meio de reais e demorou seis meses para ser construída tem sido objeto de polêmica e ironia entre a população.

Apelidos jocosos como: "Praça do Posto Ipiranga" (devido ao formato quadrado, lembrando de fato um posto de gasolina) ou "Praça Patati Patata" (pelas cores escolhidas à esmo) já se popularizaram através das redes sociais.

Mesmo funcionários de confiança do prefeito já admitem, às escondidas, que a praça "poderia ter ficado melhor"

"Durante meu mandato como prefeito, também houve uma revitalização. Mas a placa e o aspecto original da praça foram mantidos. Tampouco se sabe o que foi feito com o obelisco (também chamado "marco zero"). O obelisco homenageava os imigrantes nordestinos, sírio-libaneses e alemães que ajudaram a construir em Cruzeiro do Sul.

O homem que briga com estátuas

Vagner Sales tem sido pródigo em brigar com o próprio passado da cidade. Sua primeira ação como prefeito de Cruzeiro do Sul foi a retirada da estátua de Marechal Thaumaturgo, comemorativa dos 100 anos da cidade. No local, foi feito um estacionamento.

O Posto de Saúde Manoel Bezerra da Cunha também teve seu nome apagado do letreiro central e passou a se chamar apenas "Centro de Atendimento da 25 de Agosto". O nome original do posto aparece hoje apenas nas laterais, em uma pintura antiga. O posto é considerado uma das príncipais marcas da administração de Aluísio Bezerra, na época, do mesmo PMDB de Sales.




domingo, 12 de outubro de 2014

Marina “El Cid” Silva

Todo espanhol que se preze conhece a história de El Cid.

O cavaleiro que liderou as tropas cristãs contra os sarracenos teve uma biografia conturbada.

Conta-se que “El Cid” mudou de lado algumas vezes e teria lutado também ao lado dos sarracenos contra os cristãos. As razões que o levaram a isto são até hoje são motivos de controvérsias entre os historiadores.

Dizem, por exemplo que “El Cid” não recebeu dos reis de “La Mancha” aquilo que achava que era o seu merecido valor em batalha.

Outros afirmam que “El Cid” almejava mais do que dinheiro e que pretendia tornar-se senhor de uma parte da Península Ibérica ou quem sabe, mesmo Rei.

Há até quem imagine que “El Cid” sonhava criar um reino onde cristão e sarracenos pudessem conviver, na magnífica civilização criada pelos Almorávidas.

O fato é que as últimas batalhas de “El Cid” foram travadas ao lado dos cristãos. O respeito que inspirava nas tropas, bem como o temor que causava nos inimigos, o tornaram uma figura lendária.

Conta a história que travou sua última batalha, morto. E Venceu.

Sabendo o significado de ter “El Cid” montado em seu cavalo, os cristãos teriam atado seu corpo morto de tal modo que pudesse segurar o estandarte que defendia.

Resultado: vitória dos cristãos!

Encontro paralelo entre a trajetória de Marina com a de “El Cid” motivos.

Primeiro, a óbvia polarização entre tucanos e petistas, que já vem arrastando o país numa interminável guerra de valores, onde “bons” e “maus” encontram-se dos dois lados da trincheira.

Segundo, por ter um projeto próprio de país, que não é o dos “sarracenos” nem o dos “cristãos”, mas de um país que possa existir para todos, independente de suas diferenças.

Por último, por perceber que Marina, mesmo depois de “morta” na disputa eleitoral continua portando o estandarte das causas indígenas e ambientais com a mesma galhardia.

E ainda é capaz de decidir uma batalha.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A jornalista presa e o "barbosismo"

Há alguns dias venho tentando decifrar o episódio ocorrido com a colega jornalista Jaqueline Teles.

Detida no domingo de eleição sob a acusação de "transporte ilegal de eleitores", a jornalista foi encaminhada à unidade prisional feminina, onde passou a noite em uma cela, e liberada somente após apresentação de alvará de soltura, no dia seguinte, pela manhã.

Ainda que tudo tenha transcorrido "dentro da lei", uma análise dos fatos transcorridos neste dia, me levam a crer que houve excessos de um lado e tolerância demais, de outro.

Jaqueline é comunista. Milita no PCdoB deste a adolescência, trabalha em uma secretaria de governo cuja cota pertence ao PCdoB, exatamente como prevêem as regras do jogo democrático.

No dia "Jackie", como é chamada pelos colegas, de fato transportava uma amiga sua de infância, igualmente comunista, e com dificuldade de locomoção, e mais três vizinhos, que segundo a mesma votariam na mesma sessão eleitoral.

Segundo um dirigente da UJS, os três vizinhos também fariam parte da entidade jovem, ou seja, não se encaixavam de modo algum no perfil de eleitores que pudessem ser aliciados no dia da eleição. Eram votos seguros de militantes.

Este me parece que seja o objetivo principal da lei que proíbe o transporte de eleitores: evitar o aliciamento.

Pelas regras específicas vigentes no dia das eleições Jackie errou. Não questiono o fato de ela ter sido detida e nem que ela pague pelo seu erro. Contudo, a maneira como tudo transcorreu nesse dia, é no mínimo, suspeitoso.

Primeiro

Por que, em meio a tantos outros detidos que foram liberados antes do final do dia, outros que foram liberados após as eleições, alguns inclusive por compra de voto, Jaqueline Teles, a comunista, foi encaminhada a unidade prisional feminina? O recado era claro: fazer a prisão da jornalista "vermelha"um exemplo de combate à "corrupção" e ao "aparelhamento do estado".

Segundo

Por que neste mesmo dia, internautas publicaram nas redes sociais, fotos do prefeito acompanhado da primeira-dama candidata, igualmente adesivados passeando livremente entre eleitores nas sessões?

Terceiro

Na noite anterior à eleição, carros de campanha lançaram nas portas das sessões eleitorais, milhares de "santinhos", em flagrante desrespeito à legislação eleitoral. É óbvio que a volumosa presença deste material de campanha pode sim, influenciar a decisão do eleitor, em especial aqueles menos esclarecidos, ou que simplesmente ainda não tenham decidido seu voto.

O "lixo eleitoral" permaneceu intocável durante todo o dia das eleições. Quando tive a oportunidade de questionar a juíza responsável pela 4 Zona Eleitoral sobre o derrame ilegal de material de campanha, a mesma afirmou, durante entrevista que já havia pactuado com o chefe de gabinete do prefeito que o mesmo providenciaria a retirada do material na segunda feira pela manhã.

Aparentemente, à juíza importava apenas o aspecto "lixo"da questão e menos o aspecto "eleitoral". Na sua avaliação, o material derramado não seria capaz de influenciar na decisão do eleitor.

Ocorre que, horas antes, nos minutos que antecediam o início da votação, quase que no exato momento em que a repórter pelo rádio aponta o problema do "lixo eleitoral", surge uma mensagem no celular do colega ao lado do mesmo chefe de gabinete da prefeitura com quem a juíza pactou a retirada do material somente para o dia seguinte.
A mensagem do chefe de gabinete do prefeito, pressionava o colega para que o mesmo não deixasse eu me pronunciar sobre o "lixo eleitoral".

O sentimento geral é de que para uns foram aplicados os "rigores da lei", enquanto para outros, "os favores da lei".  A escolha de dar maior ou menor importância às denúncias, é totalmente subjetivo, e é justamente aí que se revela o chamado "barbosismo".

"Barbosismo"

Diante destes fatos sobra ainda a mais ululante obviedade de que não é fácil fazer uma desconhecida em sua própria terra receber votos até em Santa Rosa do Purus e Jordão.

Some a isso, uma obra inacabada de custo exarcebado (3,5 milhões), onde faltou a decência de instalar mictórios por ocasião da inauguração. Enquanto isso, o material de campanha da candidata "oficial"da prefeitura ganha um tom onipresente nas ruas da cidade.

Circunstâncias destas bastariam para que qualquer autoridade interessada em promover eleições limpas, ficasse de "orelha em pé".

Mas, por alguma razão, nada disso despertou a subjetividade adormecida da juíza.

A desconfiança, que deveria ter sido distribuída em igual medida para pelo menos dois dos três campos políticos (o grupo de Bocalom não tinha dinheiro, e foi, na minha avaliação, o maior prejudicado), concentrou-se em apenas um.

Não creio, como muitos afirmaram no dia, que tenha havido a "compra" do TRE. Acredito mais na hipótese do "barbosismo" nas instituições brasileiras.

Explico

A passagem de Joaquim Barbosa pelo Supremo tornou-o um bastião da luta contra a corrupção para milhões.
O símbolo de um "Batman" lutando contra a corrupção é extremanente poderosa e catalizadora dos anseios dos brasileiros.
Contudo, o "mito" em torno de Joaquim Barbosa esconde uma falácia extremamente danosa à democracia: a idéia de que a corrupção em nosso país, é obra de um partido, especificamente o PT.

A desconfiança de que esta ideia tenha sido disseminada deliberadamente, é plausível, já que o mesmo "Barbosão" que foi inclemente com os supostos mensaleiros, arredou o pé do Supremo antes de julgar o crime análogo cometido pelos tucanos.

Em todo Brasil generalizou-se o sentimento de que ao se combater o PT, estaria-se imediatamente combatendo a corrupção no país.

Entre os eleitores, consolidou-se a ideia que para combater a corrupção, bastaria se votar nos partidos adversários ao PT.

Entre as instituições, há evidências de que por vezes são cometidos excessos em nome do "combate à corrupção", transformado agora em perseguição partidária, muito útil aos adversários do partido, mas como já falei, danosa à democracia.

No Estado do Acre não há exemplo maior de "barbosismo" que a famigerada "Operação G7". A operação deflagrada pela Polícia Federal lançou sombras de dúvidas sobre dezenas de gestores, inclusive sobre o mandatário do executivo, mas não foi capaz de responder nenhuma das dúvidas que levantou antes do período eleitoral.

Isso significa dizer que a PF, com a sua estriônica "Operação G7", até o momento não conseguiu nada além de municiar a oposição com "suspeitas" não respondidas que apenas servirão de base para material panfletário.

Das duas uma: ou a PF age de modo irresponsável em suas açoes midiáticas, ou é deliberadamente golpista (ou "barbosista").

Acredito que este mesmo sentimento de que "combater o PT (e todos os "vermelhos") é combater a corrupção" tenha se enraizado principalmente entre a jovem magistratura brasileira, tomada de um sincero anseio de livrar o país de um de seus maiores males, a corrpução, mas ao mesmo tempo, vítima de uma concepção equivocada: a de que a corrupção seja um fenômeno partidário.

No mais recente episódio de golpe da América Latina, movido contra o presidente de Honduras, houve uma articulação jurídico-militar que sob a acusação de corrupção, depôs o presidente Zelaya.

É mais do que evidente que atores semelhantes tentaram mover algo neste sentido durante as manifestações de junho. Felizmente, os brasileiros não embarcaram na onda. Contudo, agora em plenas eleições, há movimento nos tabuleiros, e multiplicado em milhares, o arquétipo do "batman togado" parece novamente se lançar contra o "perigo vermelho".

O resultado final, é a proliferação entre policiais federais, promotores e magistrados, de uma subjetividade propensa a uma "caça às bruxas vermelhas", movidas pelos mais puros sentimentos de "restauração da ordem democrática"e "combate à corrupção".

Em última análise, o "barbosismo"não deixa de ser também, um aparelhamento ideológico do estado, muito útil a um grupo politico específico.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mais Escolas ou Mais Presídios

Não é de hoje que setores da imprensa semeiam na opinião pública a ideia de que jovens que cometem crimes entre 16 e 18 anos deveriam pagar na mesma moeda que os adultos.
A princípio a ideia de que um jovem de 16 anos que mata, rouba ou trafica já é capaz responder pelos seus atos parece bastante simples e até certa medida, justa.
Contudo, é preciso analisar a questão um pouco mais a fundo para tentar compreender o que significaria uma redução da maioridade penal.
A grosso modo seria responder que jovens entre 16 e 18 anos que hoje cumprem medidas sócio-educativas iriam, obrigatoriamente para uma prisão comum.
Acredito que o microcosmo de Cruzeiro do Sul, nos fornece dados interessantes sobre a situação da nossa juventude e o que significaria a sua criminalização.

Alguns dados

No Instituto Sócio –Educativo (ISE) cumprem medida sócio-educativa hoje, 56 adolescentes entre 12 a 18 anos.
Destes 56, 27 deles praticaram roubo de pequenos objetos e outros 8, furto. Na maioria deles trata-se de roubo de celulares
Segundo a assistência social e psicológica da unidade, todos estes crimes estão relacionados à dependência química, ou seja: furtos e roubos para manutenção do vício.
Ainda segundo a unidade, são estes menores infratores que apresentam o maior índice de reincidência, isto porque, enquanto não for sanada a questão da dependência química, é certo que virão a ser praticados novamente os mesmos crimes.

Crimes Hediondos

Uma proposta aparente mais moderada prevê a redução de maioridade penal para quem cometer crimes hediondos.
No ISE de Cruzeiro do Sul, entre os 56 adolescentes, há apenas 4 casos de homicídio. Dois simples e dois qualificados.
A direção da unidade explicou que não há motivação específica para o homicídio e muito ao menos premeditação. Em todos os casos, o menor teria agido sob forte emoção e por uma fatalidade, encontrado em seu alcance uma arma.
O mais surpreendente contudo, é que no caso de homicídios praticados por menores, o índice de reincidência é próximo a zero. Ou seja, são justamente os menores que cometem homicídios os que apresentam o melhor índice de recuperação.
O que significaria colocar estes jovens “atrás da grades”?
Em prisões comuns, quais seriam as chances de ressocialização destes jovens e quais as chances de se tornarem “mestres do crime”?

Tráfico de Drogas

É importante lembrar que no Brasil, tráfico de drogas é qualificado como crime hediondo, o que significaria, prender jovens de 16 anos com envolvimento no tráfico. Sabe aquele garto que “vende uma parada” às vezes para sustentar o próprio vício, ou porque simplesmente não teve outra chance? Pois sim, pela proposta de redução da maioridade penal para crimes hediondos, este jovem iria para a prisão, com chances mínimas de reabilitação.

Impunidade

A ideia popularizada pela imprensa de que o jovem infrator não é responsabilizado pelos seus atos, não corresponde à realidade. 
O ECA prevê as chamadas medidas sócio educativas que podem variar desde uma simples advertência, passando pela reparação do dano e prestação de serviços comunitários até a internação por até três anos.
Apresentadores de programas policiais nas TV afirmam, faltam com a verdade ao afirmar que um jovem que comete um crime grave aos 17 anos, é solto imediatamente ao cumprir 18 anos. 
Isso não é verdade. 
O jovem pode passar até os 21 anos em medida privativa de liberdade. Caso cometa um crime, dentro da unidade, já com mais de 18 anos, também irá responder como adulto.

Superlotação


A Unidade Penitenciária de Cruzeiro do Sul atualmente conta com um efetivo carcerário de 550 presos, sendo que dispõe de 224 vagas, ou seja  um défit 326 vagas. Atualmente as celas que foram planejadas para 2 presos, abrigam uma média de 5 presos.

Com esse problema de superlotação, são inevitáveis surgirem problemas de ordem estrutural, elétrico e na rede de esgoto, pois um prédio planejado para determinado número de usuários, sendo dobrado essa lotação, o que se foi projetado não suporta.
Com uma redução na maioridade penal haveria o agravamento da superlotação já existente.

Não seriam apenas 56 jovens a mais na penal. Teriam de ser incluídos aqueles que hoje cumprem medida no CREAS, ou seja, em liberdade.


Mais Escola

Uma análise nos dados do ISE de Cruzeiro do Sul também aponta que a solução pode não ser o encarceramento da juventude, mas a sua escolarização.
70% dos jovens que cumprem medida no ISE, não chegaram a concluir o ensino fundamental. Alguns deles, jovens de 17 anos estão se alfabetizando somente agora, durante cumprimento de medida restritiva de liberdade.
O custo de manutenção de um jovem no ISE é próximo de 2 mil reais.
Segundo dados publicados em matéria do jornal “O Globo”, um preso chega a custar 21 mil reais para o estado brasileiro, nove vezes o que é gasto com um estudante.
Na outra ponta estão aqueles que defendem o ensino em tempo integral como forma de ampliar o acesso à educação, cultura, lazer e esporte, e consequentemente, uma diminuição da criminalidade entre os jovens.
Certamente que os investimentos para viabilizar o ensino integral em caráter universal para nossa juventude demandariam grandes somas em dinheiro, mas ainda seriam menores do que as somas exigidas para o encarceramento desta mesma juventude.

Uma análise fria da situação nos permite afirmar com boa dose de assertividade que a redução da maioridade penal além de fazer parte de um ideário ultrapassado, é sobretudo, uma medida cara e ineficaz de combate à criminalidade.