quinta-feira, 26 de março de 2015

No Rastro da Serpente

Publico com um pouco (15 dias) de atraso o breve relato de minha viagem pelas Rodovias SP-250 e BR-476fazer site, conhecida entre os motociclistas como "Rastro da Serpente".

Os motivos são óbvios: A Rodovia é tão sinuosa que merece o apelido. Por vezes achei-a tão sinuosa quanto o rio Juruá.

Serve como rota alternativa entre São Paulo e Curitiba.

A rota tem início pela rodovia Raposo Tavares em SP, até Sorocaba e Capão Bonito, onde então começa a descida da serra.

A Rodovia é uma das poucas que continua sobre administração direta do governo do estado de S. Paulo. Talvez por esta razão é considerada a pior rodovia paulista.
Apiaí-SP
Uma pena que uma rodovia que dá acesso ao complexo de cavernas do PETAR esteja tão mal cuidada. O estado do asfalto não é nada convidativo.

O que são convidativas, contudo, são as paisagens ao longo da rodovia.

A estrada serpenteia por uma vasta região de mata atlântica  passando por bosques de araucária mas também muita mata tropical, trazendo as surpresas de mudança de vegetação em função a altitude.

A partir de Apiaí, a estrada melhora bastante.

Ribeira-SP
Há uma parte bem alta, exatamente na divisa entre São Paulo e Paraná, onde predominam campos com grande matacões de rocha.

Nem é preciso dizer que o trajeto é bem arriscado, com tráfego razoável de caminhões.

O motociclista irá enfrentar bruscas variações de temperatura em função da altitude e por se tratar de região serrana é muito provável pegar chuva em qualquer época do ano.

Aqui segue um link que pode interessar a motociclistas.

Porthal Rastro da Serpente




quarta-feira, 25 de março de 2015

Os Guerreiros da Arca


O sujeito acorda de um coma. Ao seu lado um velho conhecido lhe conta as novidades.
-  é você dormiu um bocado! Muita coisa se passou…

O que por exemplo?

O Acre que você conheceu, não é mais. O Brasil que você conheceu, não é mais.
 - o que mudou?

Tudo. Você passou dezesseis anos desacordado.
- dezesseis anos?

Sim. E antes que você saia por ai, é bom saber que você talvez seja uma persona non grata.
- por que?

Tente se lembrar de suas ultimas atividades... como jornalista

Lembro-me de estar defendendo o multiculturalismo, a diversidade de expressões religiosas, de pensamento...

- Pode parar por aí... Basta você saber que a sua tese, perdeu...

Como assim?

Não se faça de idiota. Você sabe, aquela tese do valor da diversidade cultural, humana, religiosa, sexual... Bem, ela foi derrotada. 

E quem venceu?

Faça um esforço, você consegue imaginar. Qual o grupo político-religioso que há vinte anos atrás dizia-se arauto da única verdade.

- Os evangélicos?

Na mosca. Ele cresceram muito, e se tornaram muito, mas muito mais fortes do que naquela época. 

Conseguiram formar maioria no congresso, no senado. Elegeram milhares de prefeitos, dezenas de governadores... e o presidente.

Presidente? Quem é o presidente? 

É melhor ir devagar, se não você pode ter um troço. Vou te contar desde o começo.

Você se lembra de Flavio Maluf

-Lembro, o filho do Maluf evolvido em escândalos.

Pois sim, o Maluf , pai e filho estavam finalmente para ir para a cadeia, depois de décadas com a Polícia Federal no seus encalços. Então eles anunciaram publicamente que se sua conversão a uma Igreja Evangélica e fizeram uma gigantesca doação ao canal de TV do pastor. A TV ficou tão rica que conseguiu mudar a opinião publica e tirar os dois da cadeia. Aí o Flavio Maluf, passou a aparecer na TV como ovelha arrependida, fazendo trabalho com os pobres. Tornou-se um fenômeno de mídia. 

Elegeu-se senador com o maior numero de votos. Com o apoio da TV, iniciou-se uma grande campanha de moralização dos costumes e Flavio Maluf despontou como a voz desta “nova geração”.
Uma loucura. Com a possibilidade real de fazer um presidente, os evangélicos tornaram-se uma militância esmagadora, ultrapassando as barreiras partidárias. Fizeram uma composição com os setores mais direitistas da igreja católica e venceram as eleições.
Foi o fim do estado laico. Emendas e mais emendas foram transformando a antes democracia brasileira em uma teocracia gospel.
Mas e os outros setores, a esquerda, o PT?
Houve muito barulho no início, mas o PT já vinha se rendendo aos poucos, e não resistiu.  Setores importantes da esquerda tiveram medo de se contrapor. Mesmo muitos evangélicos também criticaram este movimento, mas não tiveram voz. O país foi engolido pela "Onda". 

Os evangélicos radicais começaram com uma milícia. No início eles atacavam gays, depois passaram a atacar boêmios. Quando ficaram mais ousados, passaram a depredar centros espíritas, candomblés, igrejas do daime... nem mesmo as tradicionais procissões escapavam. Tinham até um nome sugestivo: “Os Guerreiros da Arca”.

Daí você já pode imaginar o que aconteceu. O movimento espalhou-se pelo país. Prisões, perseguições, mudanças constitucionais reduzindo cada vez mais as liberdades. Mudanças no ensino nas escolas, criacionismo e toda cartilha evangélica. O folclore brasileiro foi praticamente banido dos livros escolares.  Ensino obrigatório do hebraico nas escolas.

O que fizeram com as outras religiões?

Nominalmente ainda existe a liberdade de culto. Na prática o que acontece é que existem programas de governo para padronizar a religião. Atende pela alcunha eufemística de: PER - Programa de Esclarecimento Religioso. Os templos, terreiros e centros espíritas são obrigados a receber os membros do PER, normalmente pastores versados em teologia, para desestruturar o pensamento mágico-espiritualista destes grupos.

- E os católicos?

- Em Rio Branco, são tolerados como uma presença incomoda. Em Cruzeiro do Sul, continuam sendo maioria e virou uma espécie de grande gueto católico, mas eles também estão acuados, o governo marca outras festas na mesma data para esvaziar a sua famosa procissão.
- Imagino que a cada ano tenha menos gente.
- Pelo contrário, mais.

Nossa Senhora da Glória ainda é a única manifestação religiosa não-evangélica tolerada no estado.Vai de tudo, espírita, macumbeiro, gay e até ateu.

Bem está na hora de sair, mas lembre-se, bico calado. A mídia não vai noticiar que você saiu do coma, mas vão estar de olho em você e só não vão fazer alarde.
Passamos pelo corredor e cruzamos com duas autoridades fardadas. A farda era a mesma que eu conhecera exceto pelo bracelete com a estrela de Davi.

- Shalom. Disse meu acompanhante quando cruzou por eles
- Shalom respondeu rispidamente, a autoridade.

Do lado de fora um cartaz da Governadora Antônia Lucia, com aquele olhar no horizonte, como se estivesse em estado de contemplação divina. Abaixo, a frase: “O Acre na graça do senhor”.

Logo adiante um cartaz da prefeitura: “Rio Branco é do senhor Jesus, povo de Deus declare isso.”

segunda-feira, 2 de março de 2015

De Cruzeiro do Sul-AC à Jundiaí-SP em Duas Rodas

Moto: Yamaha Lander 250 ano 2011

1ºTrecho : Cruzeiro do Sul-Rio Branco (aprox. 650 km)


A viagem teve início pela BR 364 em Cruzeiro do Sul. Para um viajante que inicia seu trajeto pelo ponto extremo Noroeste do Brasil em direção ao sudeste, a sensação será de que as rodovias melhoram gradativamente a medida em que se aproximam de São Paulo. Para um viajante que vá no sentido oposto, o que é mais provável, a impressão será a inversa, de modo que quando o mesmo alcançar o trecho Rio Branco-Cruzeiro do Sul, irá se deparar com uma rodovia ainda em fase de implantação, com muitos trechos ruins.
Contudo é preciso dizer que a rodovia federal BR-364, no trecho Cruzeiro do Sul-Rio Branco vem melhorando gradativamente ano após ano. Neste ano por exemplo, não me deparei com os desmoronamentos laterais que no ano anterior eram comuns. Há dois trechos consolidados: Juruá-Liberdade e Sena Madureira-Rio Branco, este último completamente refeito. Há dois trechos críticos com risco de derrapagem. Um deles próximo ao rio Gregório (70km de Tarauacá) e outro próximo ao rio Macapá (entre Feijó e o Purus). No restante do trajeto, a rodovia apresenta uma pista bastante irregular, que obriga o condutor a manter uma velocidade compatível com a segurança da via, que no meu caso variava entre 70 e 85 km/h em média.

2º Trecho Rio Branco- Porto Velho (550Km)


A BR 364 segue em bom estado a partir da saída de Rio Branco, piorando consideravelmente a partir da divisa com Rondônia.
Condições da BR no estado de Rondônia


É necessário realizar a travessia do rio Madeira de balsa, o que acrescenta 30 minutos à viagem. A travessia é paga e o pagamento deve ser feito em um guichê, antes de se adentrar à balsa.
Travessia da Balsa do rio Madeira

A partir da travessia, a qualidade da pista melhora sensivelmente. Este foi o trecho danificado pelas alagações do ano de 2014, que isolaram o estado do Acre do restante do país. Ainda não foi totalmente refeito, e há o risco que novas alagações venham a cobrir novamente a pista.
O lago formado pelas hidrelétricas: ameaça constante à BR 364
É possível perceber a marca da linha d’água da última alagação nas árvores ao redor. De pé, no estribo de minha moto, esta marca atingia o meu peito.

3ºTrecho Porto Velho-Vilhena (720km)


A estrada é razoável. O trafego de caminhões é intenso, mas não senti grande perigo.  Há uma boa oferta de serviços mecânicos e peças de reposição ao longo deste trecho, com destaque para os municípios de Ji-Paraná e Ariquemes.
Vilhena é uma cidade "paranaense" na entrada da Amazônia. Possui boa quantidade de lojas, serviços e hospedagem.

4º Trecho Vilhena- Cáceres-MT (540 km)

Floresta em Terra Indígena contrasta com...

A estrada pareceu-me razoável, o tráfego de carretas de soja é intenso, o que exige muita atenção. Desgastei completamente as pastilhas de freio. Ultrapassagens são especialmente arriscadas. A paisagem varia bastante: de extensos plantios de soja, a belas florestas, especialmente nas partes onde se cruzam duas terras indígenas.


Extensos plantios de soja
Cáceres é uma cidade histórica. O clima pantaneiro e o centro histórico às margens do rio Paraguai são bastante agradáveis.

Rio Paraguai, em Cáceres
5º Trecho Cáceres- Cuiabá-Chapada dos Guimarães-MT (280 km)

Centro Geodésico da América do Sul em Cuiabá
Após uma passagem rápida por Cuiabá, dirigi-me à Chapada dos Guimarães
Não é obrigatória a passagem pela Chapada, mas achei que valia a pena e por isso acrescentei mais 120 Km (ida e volta) que separam Cuiabá, da Chapada. Vale muito a pena.

O Mirante no Morro dos Ventos
O que chamou a atenção nesta rodovia estadual foi o tráfego doméstico, predominantemente de carros de passeio, esconde perigos por trás da aparente “inocência”. 

O primeiro acidente que testemunhei foi justamente neste trecho: um carro de passeio, distraído, acabou colidindo com a traseira de outro. O condutor, poderia ter se distraído com as belas paisagens do local. Há também muitas curvas que exigem atenção total e velocidade moderada.

6ºTrecho Cuiabá-Rondonópolis (215 km)

Para mim este foi certamente o trecho mais perigoso e estressante da viagem. A rodovia federal, que por vezes é a mesma BR 364 e por vezes muda de nome para BR 173, está em péssimo estado. As obras de duplicação estão muito atrasadas. O tráfego de caminhões é intenso, pois esta rodovia liga Cuiabá-Campo Grande e Goiânia. Presenciei balanças e postos rodoviários abandonados. Há algumas partes com terceira pista, o que facilita a ultrapassagem de caminhões, mas a rodovia está muito aquém das necessidades de tráfego.
Carreta de Soja tombada

Serra de São Vicente
Um alento é o trecho da BR 364 na Serra de São Vicente. Uma paisagem belíssima em uma rodovia muito boa, mas que ainda assim, exige total atenção do condutor por suas curvas.

7ºTrecho Rondonópolis - Campo Grande-MS (492 km)



A partir de Rondonópolis, a estrada melhora bastante e as obras de duplicação estão mais avançadas. Ao adentrar o estado do Mato Grosso do Sul, a mesma rodovia federal está em melhor estado. As balanças e postos da PRF estão funcionando.

8º Trecho Campo-Grande- Botucatu-SP (764 km)

Eucaliptais: deserto verde 
Há mais de uma opção para sair do estado de Mato Grosso do Sul em direção ao estado de São Paulo. A escolhida foi por Três Lagoas-Andradina. Há também uma rota mais ao sul, que entra no estado de São Paulo via Presidente Epitácio.


Particularmente, achei o trecho bastante esburacado e sem atrativos visuais. Em sua grande parte são eucaliptais quase sem fim, que continuam mesmo dentro do estado de São Paulo.
Atravessei a divisa na represa de Jupiá e a partir da divisa, temos a rodovia estadual Marechal Rondon (SP300) em excelente estado, já com pista duplicada, o que reduz muito o estresse da viagem. Aqui não há mais risco de colisão frontal e nem o deslocamento de ar produzido por caminhões no sentido contrário.  
Via Rondon

O único porém são os excessivos pedágios. Gastei mais de 30 reais no trajeto até Botucatu.
Normalmente evito dirigir à noite, mas como as condições da estrada permitiam, realizei o trajeto Bauru-Botucatu já no escuro.

9º Trecho Botucatu-Jundiaí (194 km)



A partir de Botucatu, é possível se continuar pela Marechal Rondon, ou pela Castelo Branco. A Rondon passa a ser pista simples, mas o trecho é mais bonito, passando por algumas serras.

De Jundiaí, ainda fui mais adiante, passando por Louveira, Itatiba e Bragança Paulista.

Contudo, após ouvir insistentes apelos de amigos parentes que me alertaram sobre os altos índices de acidentes fatais com motos em SP (seis mortos por dia, em média), os assaltos em faróis e disparos gratuitos contra motociclistas na cidade, decidi deixar a moto em uma cidade do interior e assim evitar um risco desnecessário.

Mais viagens:

Para ler mais sobre a viagem de 2009, ao Peru, com uma Yamaha XTZ 125, clique aqui





quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Pelo Direito de Cruzar os Braços

Impeachmeant da Dilma: Você é contra ou a favor?

Se me fizessem esta pergunta há cerca de dois meses atrás, minha resposta seria categórica, apesar da minha total falta de entusiasmo com Dilma e o PT, seria capaz de ir às ruas para defender uma presidenta legitimamente eleita.

Para mim está mais do que claro que trata-se de um "golpe à hondurenha", onde setores do judiciário, legislativo e imprensa apontam o dedo e gritam "corrupção", ainda que seus próprios partidos, correligionários estejam todos envolvidos no mesmo escândalo, mas a imprensa brasileira utiliza do processo de edição seletiva, para apresentar os fatos conforme lhe convém.

Nem é necessário aqui, deslindar que a corrupção na Petrobrás é endêmica e que temos o envolvimento explícito de gente do PSDB, PMDB e PP, inclusive em maior número que do próprio PT. Apenas digo que isso não serve de argumento para livrar a cara do PT.

Jamais poderia apoiar a hipocrisia daqueles que defendem o impeachmeant. Mas também não sinto a mínima disposição de mover uma palha, uma vírgula sequer, para defender Dilma.

A mudança em meu pensamento se deu a partir das mudanças na legislação trabalhista. Trata-se de traição à classe trabalhadora e ponto. Era a última coisa que separava Dilma e o PT do abismo. Acabou.

Mas, no meu caso não se trata mais apenas de uma avaliação intelectual. Criei uma rejeição física, corporal, à Dilma e ao PT. Causa mal estar pensar em defender o atual estado de coisas.

Vou apenas exercer o meu direito a cruzar os braços.

O Brasil que escreveu sua história assassinando índios, que construiu sua riqueza em cima da escravidão dos negros, o Brasil sempre subserviente a Lisboa, Londres ou Washington escreve mais uma capítulo sujo de sua história. para tal, conta com ajuda de seu parlamento, formado sobretudo por crentes fundamentalistas como Eduardo Cunha, militares fascistas como Bolsonaro, fisiologistas e aproveitadores de todas as cores e matizes. Também escreve um parágrafo negro o nosso judiciário vendilhão, juízes que envergonham a própria ideia universal de justiça para defender com unhas e dentes os seus privilégios classistas. E quem escreve tudo isso se não a nossa imprensa comprometida com todo este estado de coisas, torna-se algoz da verdade e do futuro de nossa nação.

E diante de tudo isso, pequeno como um grão de areia, não me cabe muita coisa.

Terei de me contentar em apenas não ser o "pingo no I" desta história suja.

Começo a achar que Dilma realmente merece o Impeachmeant. Não pela "corrupção" à Petrobrás (faz me rir), mas pela traição à classe trabalhadora.

Começo a achar que talvez seja melhor mesmo ter Michel Temer na presidência.

O que se tornou o PT senão um laranja das políticas do PMDB e mesmo do PSDB?

Vou cruzar meus braços, e com muita satisfação ver o "circo" pegar fogo.

Quem sabe aí talvez, as esquerdas possam se reagrupar em um projeto político que outra vez, contemple a utopia.

sábado, 10 de janeiro de 2015

O show não pode parar

Na última sexta-feira, sirenes, buzinas e gritos pedindo "justiça" alteraram a rotina da nossa pacata "smallville' cruzeirense.

Um prato cheio para uma imprensa quase sempre carente de pautas. Com tanta coisa acontecendo "aí pra fora", muitas vezes não é fácil convencer o telespectador a permanecer na frente da TV para assistir ao noticiário local.

Talvez por isso haja um sentimento tão forte de gratidão entre a imprensa e  polícia.

A chegada dos prisioneiros (em carro aberto) suspeitos do assalto que resultou na morte do sargento M.Araújo foi de fato um espetáculo orquestrado com maestral regência. Os familiares emocionados, os pano pretos desfraldados tremulando ao movimento de motocicletas, convertidas agora em porta-estandartes da indignação de toda uma cidade. Em seguida vieram o choro e os gritos de "assassino", logo após acompanhados das sirenes trazendo som e luz à nossa rotina. um verdadeiro espetáculo.

Tivemos ainda uma tentativa de linchamento (oba, isso dá mais uma pauta!) e após uma espera não muito longa, a "cereja do bolo": em um auditório climatizado e confortável são apresentados à imprensa os suspeitos: algemados e com suas caras inchadas e vermelhas. As confissões na ponta da língua não deixavam dúvidas sobre a participação dos mesmos no crime (exceto dois cruzeirenses: "Tati" e sua mãe, Luiza, que negaram qualquer participação, mas isso é piaba para outro caldo).

Suspeitos do assalto. imagem: Juruá on Line


Basta um olhar minimamente equidistante para perceber que a ação todo foi conduzida como um espetáculo a ser oferecido à população.

Estaria eu com isso condenando a ação-espetáculo?

De forma alguma. Afinal, não basta ser eficiente, é preciso mostrar-se eficiente. e As polícias civil e militar (em uma parceria difícil de se ver) neste caso souberam fazer as duas coisas muito bem.

A menos que provas e confissões venham a ser desmontadas diante do tribunal do juri (o que eu não creio), as polícias cumpriram o objetivo de capturar os criminosos em cerca de uma semana, sem um único tiro disparado. Rápido, limpo e preciso.

Não dar a esta ação o merecido destaque a esta ação, seria um crime imperdoável.

Principalmente em uma semana em que houveram seguidas denúncias de abuso de autoridade.

Durante a coletiva, Major Emílio que responde pela PM e toda região (incluindo Tarauacá e Feijó) defendeu a ação da PM e disse que não houveram arbitrariedades, que todas as prisões e abordagens tinham um motivo, ainda que nem todos estivessem ligados diretamente ao assassinato do sargento.

Ainda que compreenda perfeitamente o papel do comando em fazer esta afirmação, mais uma vez sou obrigado a respeitosamente discordar, desta vez com base no que vi e ouvi na ruas de Cruzeiro do Sul nesta semana.

A afirmação de que a intensificação destas ações não tinham relação com o crime que vitimou o sargento não corresponde ao que alguns policiais falaram nas ruas durante as abordagens. Da boca de um saiu: "mataram um dos nossos, 'tamo muito mansinho mesmo"

Não é preciso ser profissional de imprensa para perceber que as ações da polícia recrudesceram no período. Quem anda nas ruas percebeu isso e sentiu esse clima.

Rotina?

Francamente duvido. Especialmente para uma polícia que muitas vezes mal consegue responder aos inúmeros chamados da população. Salta aos desta mesma população olhos o súbito rompante de eficiência dos últimos dias. Foi como se o Popeye tivesse comido espinafre.



É muita "vontade de combater o crime", para uma polícia que há menos de dois meses se recusou a atender um chamado de assalto no momento que ele acontecia em um residência. Segundo a vítima, a  primeira reação do atendente da PM  foi dizer que assalto era um caso para a Polícia Civil.

Ao ligar na delegacia, a vítima foi informada que precisaria esperar o dia seguinte par registrar a ocorrência, do assalto que acontecia naquele momento.

O marido da vítima chegou à residência a tempo de coibir o assalto e novamente ligou para a polícia desta vez para apenas conduzir o suspeito preso em flagrante para delegacia. Mas aí faltou viatura, combustível e principalmente boa vontade e quem teve que levar o preso para a delegacia foi a própria vítima em seu carro particular.

O que mudou em menos de dois meses?

Acho que estas são perguntas e questionamentos que devem ser feitos nos momentos certos e não apenas se deixar conduzir pelo espetáculo que entretém e satisfaz muito, mas que informa pouco e transforma menos ainda.

Sem estar atento a estas contradições do discurso, a imprensa poderá se deixar conduzir para uma "assessoria de imprensa da polícia", apenas reproduzindo B.Os e mais do que isso, reforçando lugares-comuns e esteriótipos que resultam no recrudescimento da violência.

Este já tem sido o papel de alguns meios de comunicação já há algumas décadas no Brasil. O fenômeno "Cidade em Alerta" começou no rádio, na década de 80 com o sujeito chamado Gil Gomes, aterrorizando a vida das donas-de-casa pela manhã bem cedo com histórias das mais escabrosas possíveis.

Trinta e cinco ao depois pergunto o que Gil Gomes e seus sucessores contribuíram para a diminuição da violência? Nada. pelo contrário, só fizeram crescer o medo e o filho do medo: o ódio.

Muita gente pode questionar afirmando que é apenas o retrato da nossa realidade. Diria que é apenas um recorte da nossa realidade. No momento que este recorte é transformado em notícia pode ganhar uma conotação a mais, um tom vermelho a mais de sangue, pode transformar-se em espetáculo e aí, meus caros colegas, se preparem para alimentar um telespectador cada dia mais sedento de sangue.

O gosto do populacho pelo sangue é atávico, ancestral. Não fosse assim não teríamos tido arenas lotadas para ver cair o sangue dos gladiadores.



E assim seguimos até hoje. Mudam os meios, mas o sangue, é o mesmo.

Afinal, o show não pode parar.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Economizam no dinheiro, mas não no sangue



Familiares de policial assassinado têm direito à indenização por parte de empresário, afirma Major da PM

Em meio a bandeiras negras, comoção popular e uma ação espetacular das Polícias Civil e Militar, é de se esperar que passem despercebido aspectos digamos “secundários” da notícia em si, mas que de fato, podem estar na raiz dos problemas noticiados.
Tentativa de linchamento na chegada dos suspeitos. Imagens: Juruá On Line

O primeiro é a questão dos “bicos” realizados por policiais como segurança privada.

Durante a coletiva desta quarta-feira (08), tive a oportunidade de questionar o comando regional da PM sobre a prática, que além de ilegal, coloca em risco a vida de pessoas.
Meu primeiro questionamento foi sobre o recebimento de benefícios a que a família do policial assassinado teria direito em caso de morte em serviço.
Major Moura, Comandante da PM em Cruzeiro do Sul e região
O Comandante regional da PM no Juruá, Major Moura respondeu que os familiares receberiam os benefícios assegurados por lei.
Mas o fato é que a lei não assegura tais benefícios no caso de o policial ter morrido fora de serviço, ou nesse caso pior: prestando um serviço que é ilegal.
Major Negreiros complementou a informação, afirmando que os familiares têm direito a pedir na justiça, indenização ao empresário pela morte do PM.
Major Negreiros comanda as operações aéreas da PM no Acre
O segundo questionamento é com relação à própria exposição ao risco de morte durante o serviço de segurança privada pelos PMs, sem as devidas garantias.
Na opinião de Major Moura, a atuação dos PMs como seguranças privados, ainda que ilegal, seria um fator de segurança a mais, pois reforçaria a presença policial nas ruas da cidade.
Sobre este ponto, sou obrigado a respeitosamente discordar do comandante, e apresento meus argumentos, não com a autoridade de um especialista na área de segurança pública, mas como um ex-morador de uma das cidades mais violentas do mundo.
A atuação dos policiais como seguranças privados, tal qual está acontecendo em nossa cidade, tão somente os irá expor a um risco extremo de serem mortos.
No caso específico do Major M.Araújo, por ocasião do assalto, o mesmo encontrava-se na função de motorista. Armado e sozinho tornou-se um alvo com poucas chances de reação e menos ainda de evitar o assalto.
Sargento M.Araújo. Imagem: Ecos da Notícia
Não é segredo que em Cruzeiro do Sul, policiais militares sejam vistos em supermercados, às vezes atuando como guardadores de capacetes ou empacotadores de mercadoria.
Sua presença pode ter a eficácia de afastar algum “bêbado” ou “noiado” que deseje furtar uma lata de leite, mas não significa absolutamente nada para criminosos minimamente organizados. É apenas o primeiro alvo a ser eliminado ou neutralizado.
Em setembro de 2013, o sargento Cleiton Aquino morreu na função de segurança privado após ser baleado durante uma tentativa de assalto à loja City Lar em Rio Branco.
Por vezes, a mistura de funções como segurança pública e privada, ganha contornos ainda mais obscuros, como o caso recentemente noticiado na imprensa da capital em que policiais teriam praticado a extorsão o proprietário do Auto Posto Correntão, em Rio Branco , afirmando que o “serviço de inteligência” teria descoberto um assalto planejado para o estabelecimento. Após pagar durante meses o serviço de segurança privada a uma equipe formada exclusivamente por PMs, o empresário resolveu cancelar o serviço e denunciar a extorsão.  
É fato que nossa região não possuiu ainda um histórico de violência que suscite tais questionamentos, mas este histórico começa a mudar, e antes que mais vidas se percam, é importante atentar para estes fatos.
Cruzeiro do Sul dispõe hoje de pelo menos quatro empresas de segurança privada. Em conversa com um empresário do setor, o mesmo me confidenciou que o preparo de um policial militar, é de fato melhor que o de um segurança privado, mas que o PM não tem garantias legais no caso de ser baleado, ou se por ventura, matar o assaltante.
Podemos dizer que por trás de um crime, há pelo menos outros dois: o exercício ilegal da profissão de segurança privado, com evidentes riscos à vida humana e a complacência do comando da PM com a prática ilegal.
Da parte do empresariado percebe-se também uma prática que apesar de não poder ser classificada como ilegal, é pelo menos, imoral: colocar pessoas em situação de risco de morte em defesa de seu patrimônio privado, sem as garantias legais que tal exercício exigiria.
Em poucas palavras: economizam no dinheiro, mas não no sangue. Do outro, é claro.

* O segundo aspecto "secundário" diz respeito justamente ao trabalho da imprensa, e farei um post sobre isso mais adiante

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O resgate do "Vinte e Um"

As fotos presentes nesta postagem são parte do legado material deixado por Genildo dos Santos Muniz.

Genildo foi um dos principais herdeiros da tradição de aplicação do kambô que teve em seu avô, Francisco Gomes, um dos pioneiros da aplicação da "vacina do sapo" nos não-índios.

Genildo continuou o trabalho de seu avô, levando a medicina para os grandes centros do país.

Uma parte dos recursos foi utilizada para a criação e manutenção de dois espaços de cura e de preparação das medicinas: A AJUREMA, localizada na periferia da cidade de Cruzeiro do Sul, e o "Vinte e Um", localizado no projeto de assentamento Santa Luzia, zona rural de Cruzeiro do Sul.

A casa do "Vinte e Um"















Genildo
O espaço conhecido como "Vinte e Um" destinava-se à preparação e toma da ayahuasca, uso e coleta do kambô, e para estudos que demandem um período de maior isolamento na floresta.

No local encontra-se uma casa com cobertura de palha, além de alguns pés de chacrona e cipó plantados por Genildo.

A mata do local é do tipo de terra firme, situada em área de reserva legal destinado ao uso sustentável.


Chacrona plantada por Genildo às margens do Igarapé




















Por que "Vinte e Um" ?

A história do "Vinte e um" começa com Genildo conduzindo o alemão Guido Stiehle e o eslovaco Juraj Penciak que andavam na floresta das redondezas em busca do "lugar ideal" para uma cerimônia de ayahuasca.

Guido então ficou encantado com o canto de um pássaro e decidiu seguir aquele som. Por algumas horas  os três andaram na floresta até que chegaram a um local onde havia um bando desses pássaros.

Genlido explicou que aquela ave era chamado de "Vinte e Um" devido ao som que faz parecer que ele está dizendo, "vinte e um", e também porque segundo a lenda, onde canta um, cantam vinte e um. Aquele local, portanto, seria o local onde estariam os "vinte um" pássaros.

O "Vinte e Um" (Lipaugus vociferans) também é conhecido como pássaro do seringueiro, capitão da mata, fri-frió ou cri-crió, entre outros. Produz um som alto e estridente, bastante característico.

O "Vinte e um", capitão da mata ou pássaro de seringueiro
Clique aqui para ouvir o canto do "vinte e um"

Genildo lembrou também que seu avô Francisco, atribuía uma característica especial ao número 21.
Este era o número máximo que ele fazia de aplicações de kambô.
O pássaro do seringueiro é assim chamado por ser um companheiro na solidão da floresta para o seringueiro, como fora para o seu avô durante as lidas na mata.


O resgate

Após o trágico falecimento de Genildo, em uma acidente automobilístico no ano de 2007, o local ficou praticamente abandonado.

O "Vinte e um" - restauração e reabertura do acesso
Passados mais de sete anos, Elias, o irmão mais novo de Genildo, agora com 23 anos, pretende retomar o trabalho.


A ideia não é aplicar o kambô como quem faz uso de uma substância apenas. Mas sim, transmitir através da aplicação, a força e a pureza da floresta, a natureza dos instintos, a potência da selva amazônica.

Trata-se de manter viva a tradição e a ancestralidade e de possibilitar que esta troca com as pessoas das cidades possibilite aos povos da floresta viver dignamente, com o mínimo de impacto sobre a floresta.

Para isso é necessário preparar as medicinas na floresta, e se preparar com elas também na floresta: fonte de conhecimento e energia de cura e equilíbrio.


Cipó plantado por Genildo

Reativar o "vinte e um" significa reabrir o trabalho iniciado por Genildo e antes, pelos seu pai e avô. Significa um local de estudo e aprofundamento, um local para beber da fonte da floresta e que poderá ser compartilhado com os aliados da cidade.

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cerca de 4 mil estudantes estão sem rematrícula no Juruá

Aproximadamente 4 mil estudantes da rede estadual de ensino estão até o momento sem suas matrículas e rematrículas efetivadas.

O problema ocorre com as escolas da Diocese de Cruzeiro do Sul conveniadas com o Estado. Segundo informações da própria diocese, o convênio foi substituído por uma subvenção o que resultou em dois anos sem receber recursos para reformas na estrutura das escolas.

As escolas afetadas são: Instituto São José, Divina Providência e Padre Damião em Cruzeiro do Sul, além do Instituto São Francisco de Mâncio Lima e Instituto São José de Tarauacá.

Desde maio, a procuradoria da diocese solicita uma reunião com a SEE sem sucesso.

A preocupação é que com o desgaste das estruturas, possam ocorrer acidentes, como o que resultou em um princípio de incêndio na escola Divina Providência, em outubro. Felizmente não havia ninguém em sala.

A Diocese informa que até o presente momento não houve resposta da SEE para a proposta que foi encaminhada.

Segundo informações da coordenação estadual da SEE, a questão já estaria encaminhada na capital e espera-se uma solução até sexta-feira desta semana.

* Na Foto, João Vitor. Nove anos, estudante do terceiro ano da Escola São José. É um dos 4 mil alunos que ainda não efetuou rematrícula.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Banco do Brasil quer transformar praça em estacionamento



A direção da agência do Banco do Brasil está pressionando a prefeitura de Cruzeiro do Sul para demolir a praça e parte da ciclovia em frente à agência na Avenida Mâncio Lima e transformá-la em estacionamento para os veículos dos clientes.
As informações partiram de um funcionário do departamento de trânsito. 
Instalada em uma das principais vias da cidade, os clientes da nova agência tem se deparado com o problema de falta de estacionamento, o que resulta muitas vezes em multas por parar em local proibido.
Ao contrário do que acontece na maioria dos municípios brasileiros, Cruzeiro do Sul não dispõe de uma legislação municipal que obrigue os novos empreendimentos a dimensionar em suas obras a questão do estacionamento.

Como resultado, quem paga a conta é a sociedade: falta de vagas para estacionar, trânsito caótico, perda de espaços para pedestres e de áreas de lazer para os automóveis.
Nem mesmo o fundador da cidade escapou.

O primeiro ato de Vagner Sales como prefeito de Cruzeiro do Sul foi a retirada da estátua de Marechal Thaumaturgo. O espaço foi transformado em estacionamento.
Em seguida, a “gamela” do centro cultural foi também convertida em estacionamento, resultando, entre outras coisas na destruição do piso e das calçadas que passaram a servir de acesso aos veículos.

Outro exemplo do resultado da falta de uma legislação municipal para disciplinar os empreendimentos foi o que aconteceu avenida Rodrigues Alves onde o prédio do Super Econômico, acabou transformando vias públicas e calçadas em estacionamento.

A calçada cedeu espaço para um estacionamento improvisado, prejudicando a circulação dos pedestres. Como não é suficiente, o “coqueiro central” (espaço entre os postes, entre as vias) também transformou-se em estacionamento. Os problemas de circulação são agravados durante os horários de maior movimento.

A “avenida do governo”

O mais irônico de tudo é que a prefeitura se recusa a recuperar ou menos manter um serviço regular de limpeza no local. As razões são políticas. A rua é “do governo” e portanto quanto em pior estado estiver, melhor para a imagem dos opositores.

O descaso tem obrigado o governo a manter ele próprio um serviço terceirizado de limpeza e a utilizar o Deracre para fazer a constante recuperação da avenida, tanto no que diz respeito ao asfalto quanto na manutenção da ciclovia, praças, aparelhos de ginástica e de lazer.
Apesar disso, a prefeitura têm a prerrogativa legal de determinara  demolição da praça para transformá-la em estacionamento.

Com uma provável aprovação na Câmara de Vereadores, restaria apenas uma mobilização popular para evitar que um dos poucos espaços de lazer de Cruzeiro do Sul venha a dar lugar a um estacionamento.