Documentário de Fernando Valdívia vai além do lugar-comum e mostra o tamanho do problema que seria construir uma ligação rodoviária ou ferroviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa.
Segundo o documentário, a proposta de integração regional é apenas cortina de fumaça para transformar a região em corredor de exportação de soja para a China, conforme previsto no IIRSA.
Assista ao documentário
quinta-feira, 28 de maio de 2015
quarta-feira, 27 de maio de 2015
No Universo da Cultura, o Centro está em toda parte
Pra mim é impossível não cruzar a praça do relógio da USP, sem tocar mentalmente a empolgante música de Bob Dylan, com os acordes de Jimi Hendrix "All Along the Watchtower". Essa música sempre me soou como um chamamento coletivo para algo que está mais além
Se você nunca ouviu, ouça.
Impossível também não meditar sobre as palavras escritas ao redor da torre "No Universo da Cultura, o Centro está em toda parte".
Há diferentes interpretações para o que o filósofo, jurista e reitor da USP Miguel Reale quis dizer com isso.
O mais óbvio é dizer que ele queria que a torre do relógio fosse o centro da cidade universitária.
Prefiro olhar além e pensar que que o real sentido seja o que de fato estas palavras dizem: onde se busca cultura, ali é o seu centro. Gosto de pensar que Miguel Reale buscava desde ali uma visão descolonizada, em que o centro não estaria na Europa ou nos EUA, mas onde quer que se busque conhecimento. E isto certamente vale para a própria universidade e deva ser constantemente lembrado:
"O centro está em toda parte"- bem poderia ser um mantra mágico proferido todas às vezes em que a universidade ficasse ensimesmada, incapaz de olhar sequer por cima dos seus muros, o que se dirá, olhar além, na direção dos rios e florestas em que habito - OM
Se essa não foi a intenção do reitor, furto-me ao sacrossanto direito à antropofagia para cobrar, como diria o não menos importante, Alberto Lôro, minha "parcela fatal" e assim juntar a frase ao meu caldeirão, como um ingrediente mágico especial.
No meu caldeirão de conhecimento, o centro do universo está agora dentro de um pote de barro rezado por um pajé centenário, e eu deitado em uma rede assisto à sua aula.
Minhas notas são sofríveis, pois me faltam pré-requisitos básicos como a língua e as vivências naquelas matas, na caça, na pesca, nos roçados. Falta-me uma pele que me acoberte dos piuns, mas passa-se querosene, e vai se vivendo.
Sou aluno especial, cotista diria, de uma generosidade tremenda nesta universidade coberta de palha, onde os pássaros são professores e o bugio marca as horas. Lá vem eu chegando atrasado, louvada seja, a paciência de Yawá.
E porque cargas d'água insistir em um sistema de conhecimento que sequer é reconhecido, que não traz canudo nem glória, e nem grau?
Talvez seja pura teimosia, apenas isso e meu sangue aragonês se dá por satisfeito com esta explicação. Ou talvez seja para atender a um chamado que me foi feito nessa mesma floresta, pelo mesmo Yawá, há mais de 10 anos atrás.
Talvez seja para fazer ecoar na cidade um grito que só se ouve na mata.
Ou talvez seja o contrário: fazer ecoar na mata, o grito de uma geração que se perdeu nos labirintos de asfalto e de cimento que se tornaram as grandes cidades, estas gaiolas ausentes de sentido.
Verdade é que do ponto em que estou, isso cada vez menos importa.
Muito mais tem importado o caminho em si, o não estar parado, o não deixar ser paralisado pelas forças mágicas e hipnóticas, serpentes da cabeça da medusa que regem a matrix de nossa era.
Antes havia o apenas ir. Uma fuga, uma carreira desenfreada, pois atrás de si há o fogo da devastação. Aí descobre-se que o fogo e a devastação, tal como "no universo da cultura", também estão em toda parte.
Se antes havia o sentido de apenas ir, tal qual a marcha dos queixadas verdadeiros, há agora também o "vir": o voltar, não no sentido de quem apenas volta de onde veio, mas também que trouxe o que buscou, e que mostra, a que veio e em que acreditou.
Todos ao redor da Torre do Relógio (tradução possível, mas não exata)
Se você nunca ouviu, ouça.
Impossível também não meditar sobre as palavras escritas ao redor da torre "No Universo da Cultura, o Centro está em toda parte".
Há diferentes interpretações para o que o filósofo, jurista e reitor da USP Miguel Reale quis dizer com isso.
O mais óbvio é dizer que ele queria que a torre do relógio fosse o centro da cidade universitária.
Prefiro olhar além e pensar que que o real sentido seja o que de fato estas palavras dizem: onde se busca cultura, ali é o seu centro. Gosto de pensar que Miguel Reale buscava desde ali uma visão descolonizada, em que o centro não estaria na Europa ou nos EUA, mas onde quer que se busque conhecimento. E isto certamente vale para a própria universidade e deva ser constantemente lembrado:
"O centro está em toda parte"- bem poderia ser um mantra mágico proferido todas às vezes em que a universidade ficasse ensimesmada, incapaz de olhar sequer por cima dos seus muros, o que se dirá, olhar além, na direção dos rios e florestas em que habito - OM
Se essa não foi a intenção do reitor, furto-me ao sacrossanto direito à antropofagia para cobrar, como diria o não menos importante, Alberto Lôro, minha "parcela fatal" e assim juntar a frase ao meu caldeirão, como um ingrediente mágico especial.
No meu caldeirão de conhecimento, o centro do universo está agora dentro de um pote de barro rezado por um pajé centenário, e eu deitado em uma rede assisto à sua aula.
Minhas notas são sofríveis, pois me faltam pré-requisitos básicos como a língua e as vivências naquelas matas, na caça, na pesca, nos roçados. Falta-me uma pele que me acoberte dos piuns, mas passa-se querosene, e vai se vivendo.
Sou aluno especial, cotista diria, de uma generosidade tremenda nesta universidade coberta de palha, onde os pássaros são professores e o bugio marca as horas. Lá vem eu chegando atrasado, louvada seja, a paciência de Yawá.
E porque cargas d'água insistir em um sistema de conhecimento que sequer é reconhecido, que não traz canudo nem glória, e nem grau?
Talvez seja pura teimosia, apenas isso e meu sangue aragonês se dá por satisfeito com esta explicação. Ou talvez seja para atender a um chamado que me foi feito nessa mesma floresta, pelo mesmo Yawá, há mais de 10 anos atrás.
Talvez seja para fazer ecoar na cidade um grito que só se ouve na mata.
Ou talvez seja o contrário: fazer ecoar na mata, o grito de uma geração que se perdeu nos labirintos de asfalto e de cimento que se tornaram as grandes cidades, estas gaiolas ausentes de sentido.
Verdade é que do ponto em que estou, isso cada vez menos importa.
Muito mais tem importado o caminho em si, o não estar parado, o não deixar ser paralisado pelas forças mágicas e hipnóticas, serpentes da cabeça da medusa que regem a matrix de nossa era.
Antes havia o apenas ir. Uma fuga, uma carreira desenfreada, pois atrás de si há o fogo da devastação. Aí descobre-se que o fogo e a devastação, tal como "no universo da cultura", também estão em toda parte.
Se antes havia o sentido de apenas ir, tal qual a marcha dos queixadas verdadeiros, há agora também o "vir": o voltar, não no sentido de quem apenas volta de onde veio, mas também que trouxe o que buscou, e que mostra, a que veio e em que acreditou.
Todos ao redor da Torre do Relógio (tradução possível, mas não exata)
Deve haver algum jeito de sair daqui
Disse o piadista ao ladrão
Lá tem muita confusão
Eu não tenho nenhum alívio
Homens de negócio bebem meu vinho
Os homens do arado cavam minha terra
Nenhum tem algum nível em suas mentes
Ninguém está fora deste mundo
Não há razão para estar excitado
O ladrão falou amavelmente
Há muitos aqui entre nós
Que pensam que a vida é mais que uma piada
Mas você e eu, nós passamos por isso
E este não é nosso destino
Então vamos parar de hipocrisia
A hora já começa tarde
Tudo ao redor da torre
Os príncipes mantiveram a vista
Quando todas as mulheres vieram e foram
Empregados descalços também
Lá fora na distância fria
Um gato selvagem rosnou
Dois cavaleiros estavam se aproximando
E o vento começou a uivar
Tudo ao redor da torre
Em toda parte
Em toda parte, eu fui
Narrador: sujeito sonhador - Reflexões a partir da XXI Semana de Ciências Sociais da FFLCH - USP
Só mesmo Ailton Krenak para "colocar na roda" da academia o livro "Muká, A Raiz dos Sonhos".
Foi isso que aconteceu nesta terça-feira, dia 27 de maio de 2015. Atendendo a um convite do mesmo, participamos conjuntamente das apresentações dos livros de nossas respectivas autorias durante a XI Semana de Ciências Sociais.
Eu com o já mencionado "Muká" e ele com o seu livro homônimo, o número 50 da coleção encontros (Editora Azougue).
Até então, percebia um certo "torcer de nariz" da universidade e em especial, da USP. Logo ali, onde me formei, por assim dizer "minha aldeia", foi onde encontrei a menor abertura e a maior rejeição a este trabalho.
Talvez olfatos delicados tenham identificado "hum, isso tá me cheirando a livro exotérico", e tenham parado ali mesmo na capa.
Mal sabem eles que em muitos espaços "exotéricos" o livro foi igualmente rejeitado. Talvez porque não fale aquilo que se quer ouvir nos círculos exotéricos. Meu livro não fala de "paz e amor", não oferece bálsamos curadores e nem saídas miraculosas para os mais de cinco mil anos de civilização ocidental. Sorry!
Por outro lado, sou também um estranho no ninho em um meio indígena que busca afirmar-se cada vez mais como autor de sua própria história, tendo com isso praticamente criado um gênero próprio de literatura.
Diante de uma platéia formada por estudantes universitários, muitos dos quais indígenas de diferentes povos, sou obrigado a refletir cada vez mais não apenas sobre o livro, mas sobre que papel pretendo cumprir como um escritor não-indígena que participa das formas tradicionais de transmissão de conhecimento.
Portanto, só posso expressar minha gratidão ao meio universitário por me impulsionar a estas reflexões.
Narrador: sujeito sonhador
Costumo dizer que não fui chamado para fazer uma tese de doutorado, ou mesmo uma reportagem. Fui chamado para fazer o Samakei do Muká. E assim o fiz.
Por meu juramento no terreiro do Muká, sou compelido a acreditar que quem me chamou, tenha sido o cacique Nixiwaká, o pajé Yawá, ou o próprio Muká, com seus Shenis e Yuvãs do terreiro, ou mais provável ainda, o alinhamento de todas estas vontades, incluindo aí a minha própria; sempre soube, que o resultado viria na forma de um texto.
Todos sabiam desde o início que a escrita seria pelo menos um dos "Cawá Wakin" (consagração) resultantes do Samakei. Isso estava escrito antes mesmo de sê-lo. Os sonhos do Muká reforçaram e reafirmaram isso cada vez mais.
Escrever, cantar e dançar estavam em meus sonhos.
Duvidar disso seria duvidar do Muká.
O livro não é "exotérico". É sim fruto de uma imersão que não faria sentido algum se não tivesse como motivação uma busca pessoal.
Por mais penas que coloque em minha cabeça, meu livro não é por assim dizer "indígena", a menos é claro, que um diz eu seja capaz de dar voz plena "não a esse aqui que está falando agora, mas àquele que eu vi sonhando".
Tampouco fiz do sistema de conhecimento de meu pajé um "objeto" de estudo. E que tremenda falta de respeito teria sido.
Talvez um ponto pacífico para esta escrita seja: narrativa. Viver e narrar. Apenas isso. Sendo que o narrador, é antes de tudo, também ele um sujeito daquilo que vive. Tão óbvio, tão simples. Mas olvidado em séculos de elucubração masturbatória de um sujeito que põe-se atrás da realidade, como se tal coisa fosse possível, com o único objetivo, na verdade, de exercer um poder sobre os demais sujeitos que não dominam a mesma linguagem.
Nessa narrativa isenta de isenção, o narrador descobre-se sujeito de sua caminhada e das conclusões a que ele mesmo leva. Um sujeito que ainda que não seja propriamente "exotérico", não nega a sua dimensão transcendente, pois descobre-se que não há outra maneira de se ser pleno.
Este narrador-sujeito-transcendente, vive, sonha e narra, pois isso é parte intrínseca a sua natureza humana, e assim matura a sua própria existência.
* Não se preocupem com a boca serrada de Ailton. A culpada foi uma esfiha que chegou bem na hora do "selfie". Ou, seria o contrário: o selfie" que foi na hora da esfiha?
Foi isso que aconteceu nesta terça-feira, dia 27 de maio de 2015. Atendendo a um convite do mesmo, participamos conjuntamente das apresentações dos livros de nossas respectivas autorias durante a XI Semana de Ciências Sociais.
Eu com o já mencionado "Muká" e ele com o seu livro homônimo, o número 50 da coleção encontros (Editora Azougue).
Até então, percebia um certo "torcer de nariz" da universidade e em especial, da USP. Logo ali, onde me formei, por assim dizer "minha aldeia", foi onde encontrei a menor abertura e a maior rejeição a este trabalho.
Talvez olfatos delicados tenham identificado "hum, isso tá me cheirando a livro exotérico", e tenham parado ali mesmo na capa.
Mal sabem eles que em muitos espaços "exotéricos" o livro foi igualmente rejeitado. Talvez porque não fale aquilo que se quer ouvir nos círculos exotéricos. Meu livro não fala de "paz e amor", não oferece bálsamos curadores e nem saídas miraculosas para os mais de cinco mil anos de civilização ocidental. Sorry!
Por outro lado, sou também um estranho no ninho em um meio indígena que busca afirmar-se cada vez mais como autor de sua própria história, tendo com isso praticamente criado um gênero próprio de literatura.
Diante de uma platéia formada por estudantes universitários, muitos dos quais indígenas de diferentes povos, sou obrigado a refletir cada vez mais não apenas sobre o livro, mas sobre que papel pretendo cumprir como um escritor não-indígena que participa das formas tradicionais de transmissão de conhecimento.
Portanto, só posso expressar minha gratidão ao meio universitário por me impulsionar a estas reflexões.
Narrador: sujeito sonhador
Costumo dizer que não fui chamado para fazer uma tese de doutorado, ou mesmo uma reportagem. Fui chamado para fazer o Samakei do Muká. E assim o fiz.
Por meu juramento no terreiro do Muká, sou compelido a acreditar que quem me chamou, tenha sido o cacique Nixiwaká, o pajé Yawá, ou o próprio Muká, com seus Shenis e Yuvãs do terreiro, ou mais provável ainda, o alinhamento de todas estas vontades, incluindo aí a minha própria; sempre soube, que o resultado viria na forma de um texto.
Todos sabiam desde o início que a escrita seria pelo menos um dos "Cawá Wakin" (consagração) resultantes do Samakei. Isso estava escrito antes mesmo de sê-lo. Os sonhos do Muká reforçaram e reafirmaram isso cada vez mais.
Escrever, cantar e dançar estavam em meus sonhos.
Duvidar disso seria duvidar do Muká.
O livro não é "exotérico". É sim fruto de uma imersão que não faria sentido algum se não tivesse como motivação uma busca pessoal.
Por mais penas que coloque em minha cabeça, meu livro não é por assim dizer "indígena", a menos é claro, que um diz eu seja capaz de dar voz plena "não a esse aqui que está falando agora, mas àquele que eu vi sonhando".
Tampouco fiz do sistema de conhecimento de meu pajé um "objeto" de estudo. E que tremenda falta de respeito teria sido.
Talvez um ponto pacífico para esta escrita seja: narrativa. Viver e narrar. Apenas isso. Sendo que o narrador, é antes de tudo, também ele um sujeito daquilo que vive. Tão óbvio, tão simples. Mas olvidado em séculos de elucubração masturbatória de um sujeito que põe-se atrás da realidade, como se tal coisa fosse possível, com o único objetivo, na verdade, de exercer um poder sobre os demais sujeitos que não dominam a mesma linguagem.
Nessa narrativa isenta de isenção, o narrador descobre-se sujeito de sua caminhada e das conclusões a que ele mesmo leva. Um sujeito que ainda que não seja propriamente "exotérico", não nega a sua dimensão transcendente, pois descobre-se que não há outra maneira de se ser pleno.
Este narrador-sujeito-transcendente, vive, sonha e narra, pois isso é parte intrínseca a sua natureza humana, e assim matura a sua própria existência.
* Não se preocupem com a boca serrada de Ailton. A culpada foi uma esfiha que chegou bem na hora do "selfie". Ou, seria o contrário: o selfie" que foi na hora da esfiha?
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Paulista não praticante
Uma amiga e colega jornalista acaba de me entrevistar para
um matéria, e talvez por deferência à minha pessoa, fez a gentileza de me
encaminhar o texto, dando-me liberdade para acrescentar ou tirar algo.
Lá na minha ficha de apresentação, a matéria trazia a informação
“jornalista paulista”...
Aquilo me soou mal. Pedi à colega que colocasse apenas “nasceu
em São Paulo”.
Parece a mesma coisa, mas não é. Acho que não basta nascer
em São Paulo para ser “paulista”.
Penso que para ser “paulista” é preciso praticar. É preciso
viver a constante da megalópole.
Parafraseando Euclides da Cunha, o paulista é antes de tudo,
um forte. Só algum tipo de força interior pode explicar como seus quase 20
milhões de habitantes suportam um dia-a-dia que me parece insuportável.
Eu não. Eu sou um fraco. Um trânsfuga que trocou a fumaça da
capital, pela brisa amazônica. Que trocou o congestionamento pelo embalo da
rede. Sou um covarde, é isso que eu sou.
Penso em mim como aqueles filhos de família católica que são batizados, catequisados, crismados, mas que nunca de fato acreditaram na ladainha do padre e que ao atingirem a idade adulta, atiram-se ao ateísmo de Marx, Nietzche, ou Sartre com uma avidez por assim dizer, fervorosa.
Este “fugitivo” deve lembrar o sabor da hóstia, o perfume do incenso, o tom monocórdico do sermão do padre, mas isso faz dele um “católico”?
Tenho por exemplo, uma amiga, que nasceu no nordeste, mas vive intensamente tudo de bom e de ruim que a vida em São Paulo oferece. É uma paulista praticante. Se eu decidisse voltar a viver em SP teria que pegar aulas com ela.
Muito mais paulistas do que eu são os bolivianos que agora ocupam o bairro decadente onde eu nasci, ou os nigerianos que andam pelo centro da cidade em busca de trabalho. Estes são os paulistas, não eu.
Penso em mim como aqueles filhos de família católica que são batizados, catequisados, crismados, mas que nunca de fato acreditaram na ladainha do padre e que ao atingirem a idade adulta, atiram-se ao ateísmo de Marx, Nietzche, ou Sartre com uma avidez por assim dizer, fervorosa.
Este “fugitivo” deve lembrar o sabor da hóstia, o perfume do incenso, o tom monocórdico do sermão do padre, mas isso faz dele um “católico”?
Como um paulista não-praticante ainda guardo a lembrança corporal do stress, do medo e da sensação de estar cercado por milhões de seres humanos, sem contudo viver plenamente a minha humanidade.
Por esta razão, só posso ter um respeito ainda maior por quem, além de sobreviver nesta selva, ainda luta para torná-la mais humana. Estes, vão além de serem paulistas praticantes. São verdadeiros sacerdotes.
Tenho por exemplo, uma amiga, que nasceu no nordeste, mas vive intensamente tudo de bom e de ruim que a vida em São Paulo oferece. É uma paulista praticante. Se eu decidisse voltar a viver em SP teria que pegar aulas com ela.
Muito mais paulistas do que eu são os bolivianos que agora ocupam o bairro decadente onde eu nasci, ou os nigerianos que andam pelo centro da cidade em busca de trabalho. Estes são os paulistas, não eu.
Eu apenas virei as costas e deixei tudo isso
para trás. Não mereço ser chamado de paulista.
quarta-feira, 22 de abril de 2015
“O poder para fazer o mal é o mesmo para curar”
Por Patrícia Flores*
O livro “Muká – A Raiz dos Sonhos”conta a experiência do jornalista Leandro Altheman em um processo de formação espiritual com índios yawanawás do Acre.
O relato detalhado de Altheman sobre o que vivenciou junto com esses índios é uma viagem a um mundo inimaginável, são janelas que se abrem em direção a um mundo que consegue ser fantasioso e concreto ao mesmo tempo. Acompanhar o jornalista em sua viagem espiritual de auto-conhecimento é pesquisar um pouco sobre a matéria-prima de todos nós seres humanos. Durante a leitura do livro, é impossível não pensar em Shakespeare e nas frases de Próspero na peça A Tempestade: “Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono”. A obra de Shakespeare é povoada pelo mundo dos sonhos e dos espíritos. É através do contato com um mundo invisível que alguns de seus personagens enxergam o cerne da realidade do mundo “visível”. E é exatamente isso que Leandro Altheman parece ter vivenciado. Em determinados momentos do livro o leitor terá a impressão de também estar fazendo uma jornada ao centro do seu eu ou ainda ao núcleo da nossa sociedade.
É importante dizer o sentimento de privilégio que o leitor adquire lendo o livro, pois a experiência do autor não é algo corriqueiro: poucos são “escolhidos” e se mostram dispostos a passar pelo longo e profundo ritual de iniciação espiritual, que tem como base digerir uma raiz sagrada chamada de “Muká” pelos yawanawás. O ritual da raiz de gosto amargo exige uma dieta de um ano sem doces e relações sexuais, além de rituais e dieta de preparação e um período de isolamento de pelo menos dois meses, no qual a dieta se torna ainda mais rigorosa. No isolamento, sem comer nada nas primeiras 24 horas depois de digerir o muká, as refeições das semanas seguintes se limitam a alguns peixes (sem esporão), arroz, banana, feijão, cuscuz, açaí e mais alguns poucos alimentos. O tempero da comida é preparado sem sal, mas com limão e pimenta e não é permitido beber água pura. Tudo isso transforma a caiçuma de milho com seu sabor adocicado na grande “dádiva” da dieta. É como se ela fosse o momento lírico da refeição.
Mergulhamos assim no mundo do muká, do uni, do samakei, do sheki mamã, do shuintiya, do vaná, dos kenês, do nanê, dos saitis, do sepá, do xinã, do vê kuxi, do uriá. De repente, palavras que nunca ouvimos se tornam familiares e enchem nosso pensamento de um ritmo que nunca ouvimos, mas que tomou forma em algum lugar dentro de nós.
É linda a capacidade do livro de nos encher de respeito pela cultura indígena. Acompanhamos ali o rico mundo cultural e simbólico de um povo enraizado na floresta. Percebemos a sua relação com a terra, com as plantas e com os animais. E além de ser maravilhoso saber que isso existe, é um aspecto muito importante em tempos em que se continua desrespeitando tanto o direito indígena sobre a terra, com demarcações e desapropriações de terras absolutamente arbitrárias – sem falar nos assassinatos que ocorrem por essa causa. Como seria produtivo se os governantes que decidem sobre as terras indígenas tivessem consciência real da relação do índio com a terra, conhecessem um pouco do respeito, da troca e da sabedoria indígena em relação ao universo no qual todos nós estamos inseridos. E não é que essa relação seja romantizada no livro. O que testemunhamos nos relatos de Leandro Altheman do seu cotidiano em meio aos yawanawás é uma relação concreta, respeitosa e produtiva com a floresta e os seres que a habitam.
O que também impressiona no livro é a “convivência” que os índios têm com seus ancestrais. Esses últimos estão presentes no dia-a-dia. Seus desejos e avisos são recebidos através de sonhos e mirações (visões que se tem quando se toma ayahuasca) e muito respeitados. Não se entra aqui no mérito de acreditar ou não em uma comunicação que ocorra em um mundo onírico ou alucinógeno. Não é esse o âmago da questão. Não é preciso acreditar nisso para constatar a presença dos ancestrais na vida dos índios yawanawás. É real o fato de que eles acreditam continuar em contato com os que já foram e de que eles levam isso muito a sério e de forma absolutamente conseqüente.
O mérito do relato de Leandro Altheman é que somos apresentados e nos familiarizamos com aspectos como esse da cultura yawanawá aos poucos. Temos a impressão de fazer o mesmo caminho que o autor, de descobrir e de nos acostumar com os “novos elementos” dessa cultura junto com ele. Suas descobertas, observações e reflexões são escritas de forma muito sincera e pessoal, o que nos leva a embarcar nessa viagem. Na introdução do livro, o autor escreve: “Entendi que revelar minhas expectativas, crenças e visões particulares de mundo seria uma maneira honesta de mostrar ao leitor a subjetividade por trás de meus relatos,em vez de tentar me esconder sobre o manto de uma falsa objetividade”. É exatamente essa subjetividade do autor que envolve o leitor. “Observar” o contato com os índios com os olhos e o ritmo de Altheman faz com que o leitor tenha tempo de se habituar e se afeiçoar com o mundo yawanawá.
Um grande aprendizado do livro é também o respeito dos índios em relação aos outros seres humanos, sem se importar com a idade ou a etnia. Eles respeitam, admiram e buscam a troca com outras tribos, ouvem com atenção e inserem em todas as atividades crianças, mulheres, homens e idosos, além de terem agregado rapidamente um branco não só no seu cotidiano como em rituais sagrados de sua cultura, riqueza imensurável de um povo. Aliás, Leandro Altheman não é o único “branco”a tomar o muká. No livro, ele conta que um ano antes um antropólogo “branco” (Txai Terry) também fora iniciado no muká. E depois dele, outros “brancos”também terão esse privilégio. Acredita-se ser esse um desejo dos ancestrais.
Percebe-se a preocupação dos índios em explicar tudo com detalhes para o autor, fazer com que o novo agregado esteja realmente informado sobre toda a história e cultura da tribo. Ele é inserido sem distinção naquele lugar. Além disso, os índios se mostram sempre interessados em ouvir o que Altheman tem para contar. Ali todosse ouvem. Que diferença faria se toda a humanidade seguisse essa linha!
Mas a sábia tolerância dos índios não os fazem ingênuos, pois eles são também fortes e perspicazes. Os yawanawás contam para o autor sobre o período em que os missionários chegaram na tribo. Acolhidos com respeito e hospitalidade, os missionários mostraram claramente se sentirem superior aos índios tanto por causa de sua crença monoteísta, quanto pelo seu acesso à medicina “alopática”. Utilizaram os remédios “dos brancos” como forma de manipular e controlar toda a tribo, tornando-a dependente dos mesmos. Mas os índios perceberam a manipulação e expulsaram os missionários de lá nos anos 80.
Enfim, o livro de Leandro Altheman são viagens a diferentes mundos de um mesmo universo: com ele conhecemos o mundo da floresta amazônica, admiramos e ouvimos as revoadas e os cantos dos pássaros, as vocalizações dos macacos, o movimento dos peixes e das águas do rio Gregório, o mundo misterioso das serpentes; com ele conhecemos mundos invisíveis, oníricos, cheios de cores, símbolos, mensagens, enigmas, sensações, paisagens e seres emblemáticos; com ele conhecemos um pouco do mundo indígena, um pouco dos seus ritmos e cantos, da sua dança, do seu artesanato, das suas relações familiares e sociais, da sua relação com os elementos naturais que lhes rodeiam; e, finalmente, viajamos com ele no mundo do auto-conhecimento, pois enquanto ele “se pesquisa”, refletimos também sobre nós mesmos e mergulhamos um pouco em nosso interior, em nossos desejos e emoções, em nossa personalidade, em nossa forma de lidar com os outros, com a doença, com a morte, com expectativas, com o amor e claro, com os nossos sonhos, tanto os de toda noite como os de toda a vida.

* Patrícia Flores é atriz e estudou na Universidade de Berna, na Suíça, onde vive atualmente.
O livro Muká... proporcionou seu primeiro contato com a medicina cultural indígena
O relato detalhado de Altheman sobre o que vivenciou junto com esses índios é uma viagem a um mundo inimaginável, são janelas que se abrem em direção a um mundo que consegue ser fantasioso e concreto ao mesmo tempo. Acompanhar o jornalista em sua viagem espiritual de auto-conhecimento é pesquisar um pouco sobre a matéria-prima de todos nós seres humanos. Durante a leitura do livro, é impossível não pensar em Shakespeare e nas frases de Próspero na peça A Tempestade: “Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono”. A obra de Shakespeare é povoada pelo mundo dos sonhos e dos espíritos. É através do contato com um mundo invisível que alguns de seus personagens enxergam o cerne da realidade do mundo “visível”. E é exatamente isso que Leandro Altheman parece ter vivenciado. Em determinados momentos do livro o leitor terá a impressão de também estar fazendo uma jornada ao centro do seu eu ou ainda ao núcleo da nossa sociedade.
É importante dizer o sentimento de privilégio que o leitor adquire lendo o livro, pois a experiência do autor não é algo corriqueiro: poucos são “escolhidos” e se mostram dispostos a passar pelo longo e profundo ritual de iniciação espiritual, que tem como base digerir uma raiz sagrada chamada de “Muká” pelos yawanawás. O ritual da raiz de gosto amargo exige uma dieta de um ano sem doces e relações sexuais, além de rituais e dieta de preparação e um período de isolamento de pelo menos dois meses, no qual a dieta se torna ainda mais rigorosa. No isolamento, sem comer nada nas primeiras 24 horas depois de digerir o muká, as refeições das semanas seguintes se limitam a alguns peixes (sem esporão), arroz, banana, feijão, cuscuz, açaí e mais alguns poucos alimentos. O tempero da comida é preparado sem sal, mas com limão e pimenta e não é permitido beber água pura. Tudo isso transforma a caiçuma de milho com seu sabor adocicado na grande “dádiva” da dieta. É como se ela fosse o momento lírico da refeição.
Mergulhamos assim no mundo do muká, do uni, do samakei, do sheki mamã, do shuintiya, do vaná, dos kenês, do nanê, dos saitis, do sepá, do xinã, do vê kuxi, do uriá. De repente, palavras que nunca ouvimos se tornam familiares e enchem nosso pensamento de um ritmo que nunca ouvimos, mas que tomou forma em algum lugar dentro de nós.
É linda a capacidade do livro de nos encher de respeito pela cultura indígena. Acompanhamos ali o rico mundo cultural e simbólico de um povo enraizado na floresta. Percebemos a sua relação com a terra, com as plantas e com os animais. E além de ser maravilhoso saber que isso existe, é um aspecto muito importante em tempos em que se continua desrespeitando tanto o direito indígena sobre a terra, com demarcações e desapropriações de terras absolutamente arbitrárias – sem falar nos assassinatos que ocorrem por essa causa. Como seria produtivo se os governantes que decidem sobre as terras indígenas tivessem consciência real da relação do índio com a terra, conhecessem um pouco do respeito, da troca e da sabedoria indígena em relação ao universo no qual todos nós estamos inseridos. E não é que essa relação seja romantizada no livro. O que testemunhamos nos relatos de Leandro Altheman do seu cotidiano em meio aos yawanawás é uma relação concreta, respeitosa e produtiva com a floresta e os seres que a habitam.
O que também impressiona no livro é a “convivência” que os índios têm com seus ancestrais. Esses últimos estão presentes no dia-a-dia. Seus desejos e avisos são recebidos através de sonhos e mirações (visões que se tem quando se toma ayahuasca) e muito respeitados. Não se entra aqui no mérito de acreditar ou não em uma comunicação que ocorra em um mundo onírico ou alucinógeno. Não é esse o âmago da questão. Não é preciso acreditar nisso para constatar a presença dos ancestrais na vida dos índios yawanawás. É real o fato de que eles acreditam continuar em contato com os que já foram e de que eles levam isso muito a sério e de forma absolutamente conseqüente.
O mérito do relato de Leandro Altheman é que somos apresentados e nos familiarizamos com aspectos como esse da cultura yawanawá aos poucos. Temos a impressão de fazer o mesmo caminho que o autor, de descobrir e de nos acostumar com os “novos elementos” dessa cultura junto com ele. Suas descobertas, observações e reflexões são escritas de forma muito sincera e pessoal, o que nos leva a embarcar nessa viagem. Na introdução do livro, o autor escreve: “Entendi que revelar minhas expectativas, crenças e visões particulares de mundo seria uma maneira honesta de mostrar ao leitor a subjetividade por trás de meus relatos,em vez de tentar me esconder sobre o manto de uma falsa objetividade”. É exatamente essa subjetividade do autor que envolve o leitor. “Observar” o contato com os índios com os olhos e o ritmo de Altheman faz com que o leitor tenha tempo de se habituar e se afeiçoar com o mundo yawanawá.
Um grande aprendizado do livro é também o respeito dos índios em relação aos outros seres humanos, sem se importar com a idade ou a etnia. Eles respeitam, admiram e buscam a troca com outras tribos, ouvem com atenção e inserem em todas as atividades crianças, mulheres, homens e idosos, além de terem agregado rapidamente um branco não só no seu cotidiano como em rituais sagrados de sua cultura, riqueza imensurável de um povo. Aliás, Leandro Altheman não é o único “branco”a tomar o muká. No livro, ele conta que um ano antes um antropólogo “branco” (Txai Terry) também fora iniciado no muká. E depois dele, outros “brancos”também terão esse privilégio. Acredita-se ser esse um desejo dos ancestrais.
Percebe-se a preocupação dos índios em explicar tudo com detalhes para o autor, fazer com que o novo agregado esteja realmente informado sobre toda a história e cultura da tribo. Ele é inserido sem distinção naquele lugar. Além disso, os índios se mostram sempre interessados em ouvir o que Altheman tem para contar. Ali todosse ouvem. Que diferença faria se toda a humanidade seguisse essa linha!
Mas a sábia tolerância dos índios não os fazem ingênuos, pois eles são também fortes e perspicazes. Os yawanawás contam para o autor sobre o período em que os missionários chegaram na tribo. Acolhidos com respeito e hospitalidade, os missionários mostraram claramente se sentirem superior aos índios tanto por causa de sua crença monoteísta, quanto pelo seu acesso à medicina “alopática”. Utilizaram os remédios “dos brancos” como forma de manipular e controlar toda a tribo, tornando-a dependente dos mesmos. Mas os índios perceberam a manipulação e expulsaram os missionários de lá nos anos 80.
Enfim, o livro de Leandro Altheman são viagens a diferentes mundos de um mesmo universo: com ele conhecemos o mundo da floresta amazônica, admiramos e ouvimos as revoadas e os cantos dos pássaros, as vocalizações dos macacos, o movimento dos peixes e das águas do rio Gregório, o mundo misterioso das serpentes; com ele conhecemos mundos invisíveis, oníricos, cheios de cores, símbolos, mensagens, enigmas, sensações, paisagens e seres emblemáticos; com ele conhecemos um pouco do mundo indígena, um pouco dos seus ritmos e cantos, da sua dança, do seu artesanato, das suas relações familiares e sociais, da sua relação com os elementos naturais que lhes rodeiam; e, finalmente, viajamos com ele no mundo do auto-conhecimento, pois enquanto ele “se pesquisa”, refletimos também sobre nós mesmos e mergulhamos um pouco em nosso interior, em nossos desejos e emoções, em nossa personalidade, em nossa forma de lidar com os outros, com a doença, com a morte, com expectativas, com o amor e claro, com os nossos sonhos, tanto os de toda noite como os de toda a vida.

* Patrícia Flores é atriz e estudou na Universidade de Berna, na Suíça, onde vive atualmente.
O livro Muká... proporcionou seu primeiro contato com a medicina cultural indígena
quinta-feira, 26 de março de 2015
No Rastro da Serpente
Publico com um pouco (15 dias) de atraso o breve relato de minha viagem pelas Rodovias SP-250 e BR-476
, conhecida entre os motociclistas como "Rastro da Serpente".
Os motivos são óbvios: A Rodovia é tão sinuosa que merece o apelido. Por vezes achei-a tão sinuosa quanto o rio Juruá.
Serve como rota alternativa entre São Paulo e Curitiba.
A rota tem início pela rodovia Raposo Tavares em SP, até Sorocaba e Capão Bonito, onde então começa a descida da serra.
A Rodovia é uma das poucas que continua sobre administração direta do governo do estado de S. Paulo. Talvez por esta razão é considerada a pior rodovia paulista.
Uma pena que uma rodovia que dá acesso ao complexo de cavernas do PETAR esteja tão mal cuidada. O estado do asfalto não é nada convidativo.
O que são convidativas, contudo, são as paisagens ao longo da rodovia.
A estrada serpenteia por uma vasta região de mata atlântica passando por bosques de araucária mas também muita mata tropical, trazendo as surpresas de mudança de vegetação em função a altitude.
A partir de Apiaí, a estrada melhora bastante.
Há uma parte bem alta, exatamente na divisa entre São Paulo e Paraná, onde predominam campos com grande matacões de rocha.
Nem é preciso dizer que o trajeto é bem arriscado, com tráfego razoável de caminhões.
O motociclista irá enfrentar bruscas variações de temperatura em função da altitude e por se tratar de região serrana é muito provável pegar chuva em qualquer época do ano.
Aqui segue um link que pode interessar a motociclistas.
Porthal Rastro da Serpente
, conhecida entre os motociclistas como "Rastro da Serpente".Os motivos são óbvios: A Rodovia é tão sinuosa que merece o apelido. Por vezes achei-a tão sinuosa quanto o rio Juruá.
Serve como rota alternativa entre São Paulo e Curitiba.
A rota tem início pela rodovia Raposo Tavares em SP, até Sorocaba e Capão Bonito, onde então começa a descida da serra.
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| Apiaí-SP |
O que são convidativas, contudo, são as paisagens ao longo da rodovia.
A estrada serpenteia por uma vasta região de mata atlântica passando por bosques de araucária mas também muita mata tropical, trazendo as surpresas de mudança de vegetação em função a altitude.
A partir de Apiaí, a estrada melhora bastante.
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| Ribeira-SP |
Nem é preciso dizer que o trajeto é bem arriscado, com tráfego razoável de caminhões.
O motociclista irá enfrentar bruscas variações de temperatura em função da altitude e por se tratar de região serrana é muito provável pegar chuva em qualquer época do ano.
Aqui segue um link que pode interessar a motociclistas.
Porthal Rastro da Serpente
quarta-feira, 25 de março de 2015
Os Guerreiros da Arca
O sujeito acorda de um coma. Ao
seu lado um velho conhecido lhe conta as novidades.
-
é você dormiu um bocado! Muita coisa se passou…
O que por exemplo?
O Acre que você conheceu, não é
mais. O Brasil que você conheceu, não é mais.
- o que mudou?
Tudo. Você passou dezesseis anos
desacordado.
- dezesseis anos?
Sim. E antes que você saia por ai,
é bom saber que você talvez seja uma persona non grata.
- por que?
Tente se lembrar de suas ultimas
atividades... como jornalista
Lembro-me de estar defendendo o
multiculturalismo, a diversidade de expressões religiosas, de pensamento...
- Pode parar por aí... Basta você
saber que a sua tese, perdeu...
Como assim?
Não se faça de idiota. Você sabe,
aquela tese do valor da diversidade cultural, humana, religiosa, sexual... Bem,
ela foi derrotada.
E quem venceu?
Faça um esforço, você consegue
imaginar. Qual o grupo político-religioso que há vinte anos atrás dizia-se
arauto da única verdade.
- Os evangélicos?
Na mosca. Ele cresceram muito, e
se tornaram muito, mas muito mais fortes do que naquela época.
Conseguiram
formar maioria no congresso, no senado. Elegeram milhares de prefeitos, dezenas
de governadores... e o presidente.
Presidente? Quem é o presidente?
É melhor ir devagar, se não você
pode ter um troço. Vou te contar desde o começo.
Você se lembra de Flavio Maluf
-Lembro, o filho do Maluf
evolvido em escândalos.
Pois sim, o Maluf , pai e filho
estavam finalmente para ir para a cadeia, depois de décadas com a Polícia Federal
no seus encalços. Então eles anunciaram publicamente que se sua conversão a uma
Igreja Evangélica e fizeram uma gigantesca doação ao canal de TV do pastor. A
TV ficou tão rica que conseguiu mudar a opinião publica e tirar os dois da
cadeia. Aí o Flavio Maluf, passou a aparecer na TV como ovelha arrependida,
fazendo trabalho com os pobres. Tornou-se um fenômeno de mídia.
Elegeu-se senador com o maior numero de votos. Com o apoio da TV, iniciou-se uma grande
campanha de moralização dos costumes e Flavio Maluf despontou como a voz desta
“nova geração”.
Uma loucura. Com a
possibilidade real de fazer um presidente, os evangélicos tornaram-se uma
militância esmagadora, ultrapassando as barreiras partidárias. Fizeram uma
composição com os setores mais direitistas da igreja católica e venceram as
eleições.
Foi o fim do estado laico. Emendas e mais emendas foram transformando a antes democracia brasileira em uma teocracia gospel.
Foi o fim do estado laico. Emendas e mais emendas foram transformando a antes democracia brasileira em uma teocracia gospel.
Mas e os outros setores, a
esquerda, o PT?
Houve muito barulho no início,
mas o PT já vinha se rendendo aos poucos, e não resistiu. Setores importantes da esquerda tiveram medo
de se contrapor. Mesmo muitos evangélicos também criticaram este movimento, mas não tiveram voz. O país foi engolido pela "Onda".
Os evangélicos radicais começaram
com uma milícia. No início eles atacavam gays, depois passaram a atacar
boêmios. Quando ficaram mais ousados, passaram a depredar centros espíritas,
candomblés, igrejas do daime... nem mesmo as tradicionais procissões escapavam.
Tinham até um nome sugestivo: “Os Guerreiros da Arca”.
Daí você já pode imaginar o que
aconteceu. O movimento espalhou-se pelo país. Prisões, perseguições, mudanças
constitucionais reduzindo cada vez mais as liberdades. Mudanças no ensino nas
escolas, criacionismo e toda cartilha evangélica. O folclore brasileiro foi
praticamente banido dos livros escolares.
Ensino obrigatório do hebraico nas escolas.
O que fizeram com as outras
religiões?
Nominalmente ainda existe a
liberdade de culto. Na prática o que acontece é que existem programas de governo
para padronizar a religião. Atende pela alcunha eufemística de: PER - Programa
de Esclarecimento Religioso. Os templos, terreiros e centros espíritas são
obrigados a receber os membros do PER, normalmente pastores versados em
teologia, para desestruturar o pensamento mágico-espiritualista destes grupos.
- E os católicos?
- Em Rio Branco, são tolerados
como uma presença incomoda. Em Cruzeiro do Sul, continuam sendo maioria e virou
uma espécie de grande gueto católico, mas eles também estão acuados, o governo
marca outras festas na mesma data para esvaziar a sua famosa procissão.
- Imagino que a cada ano tenha
menos gente.
- Pelo contrário, mais.
Nossa Senhora da Glória ainda é a
única manifestação religiosa não-evangélica tolerada no estado.Vai de tudo,
espírita, macumbeiro, gay e até ateu.
Bem está na hora de sair, mas
lembre-se, bico calado. A mídia não vai noticiar que você saiu do coma, mas vão
estar de olho em você e só não vão fazer alarde.
Passamos pelo corredor e cruzamos
com duas autoridades fardadas. A farda era a mesma que eu conhecera exceto pelo
bracelete com a estrela de Davi.
- Shalom. Disse meu acompanhante quando cruzou por eles
- Shalom respondeu rispidamente, a autoridade.
Do lado de fora um cartaz da
Governadora Antônia Lucia, com aquele olhar no horizonte, como se estivesse em
estado de contemplação divina. Abaixo, a frase: “O Acre na graça do senhor”.
Logo adiante um cartaz da
prefeitura: “Rio Branco é do senhor Jesus, povo de Deus declare isso.”
segunda-feira, 2 de março de 2015
De Cruzeiro do Sul-AC à Jundiaí-SP em Duas Rodas
Moto: Yamaha Lander 250 ano 2011
1ºTrecho : Cruzeiro do Sul-Rio Branco (aprox. 650 km)
1ºTrecho : Cruzeiro do Sul-Rio Branco (aprox. 650 km)
A viagem teve início pela BR 364 em Cruzeiro do Sul. Para um viajante que inicia seu trajeto pelo ponto extremo Noroeste do Brasil em direção ao sudeste, a sensação será de que as rodovias melhoram gradativamente a medida em que se aproximam de São Paulo. Para um viajante que vá no sentido oposto, o que é mais provável, a impressão será a inversa, de modo que quando o mesmo alcançar o trecho Rio Branco-Cruzeiro do Sul, irá se deparar com uma rodovia ainda em fase de implantação, com muitos trechos ruins.
Contudo é preciso dizer que a rodovia federal BR-364, no trecho
Cruzeiro do Sul-Rio Branco vem melhorando gradativamente ano após ano. Neste
ano por exemplo, não me deparei com os desmoronamentos laterais que no ano
anterior eram comuns. Há dois trechos consolidados: Juruá-Liberdade e Sena Madureira-Rio
Branco, este último completamente refeito. Há dois trechos críticos com risco
de derrapagem. Um deles próximo ao rio Gregório (70km de Tarauacá) e outro próximo
ao rio Macapá (entre Feijó e o Purus). No restante do trajeto, a rodovia apresenta
uma pista bastante irregular, que obriga o condutor a manter uma velocidade
compatível com a segurança da via, que no meu caso variava entre 70 e 85 km/h em
média.
2º Trecho Rio Branco- Porto Velho (550Km)
A BR 364 segue em bom estado a partir da saída de Rio
Branco, piorando consideravelmente a partir da divisa com Rondônia.
| Condições da BR no estado de Rondônia |
É necessário realizar a travessia do rio Madeira de balsa, o
que acrescenta 30 minutos à viagem. A travessia é paga e o pagamento deve ser feito em um
guichê, antes de se adentrar à balsa.
| Travessia da Balsa do rio Madeira |
A partir da travessia, a qualidade da pista melhora
sensivelmente. Este foi o trecho danificado pelas alagações do ano de 2014, que
isolaram o estado do Acre do restante do país. Ainda não foi totalmente
refeito, e há o risco que novas alagações venham a cobrir novamente a pista.
| O lago formado pelas hidrelétricas: ameaça constante à BR 364 |
É possível perceber a marca da linha d’água da última
alagação nas árvores ao redor. De pé, no estribo de minha moto, esta marca
atingia o meu peito.
3ºTrecho Porto
Velho-Vilhena (720km)
A estrada é razoável. O trafego de caminhões é
intenso, mas não senti grande perigo. Há
uma boa oferta de serviços mecânicos e peças de reposição ao longo deste
trecho, com destaque para os municípios de Ji-Paraná e Ariquemes.
Vilhena é uma cidade "paranaense" na entrada da Amazônia.
Possui boa quantidade de lojas, serviços e hospedagem.
4º Trecho Vilhena- Cáceres-MT (540 km)
| Floresta em Terra Indígena contrasta com... |
A estrada pareceu-me razoável, o tráfego de carretas de soja
é intenso, o que exige muita atenção. Desgastei completamente as pastilhas de freio.
Ultrapassagens são especialmente arriscadas. A paisagem varia bastante: de extensos
plantios de soja, a belas florestas, especialmente nas partes onde se cruzam duas
terras indígenas.
| Extensos plantios de soja |
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| Centro Geodésico da América do Sul em Cuiabá |
Após uma passagem rápida por Cuiabá, dirigi-me à Chapada dos Guimarães
Não é obrigatória a passagem pela Chapada, mas achei que
valia a pena e por isso acrescentei mais 120 Km (ida e volta) que separam
Cuiabá, da Chapada. Vale muito a pena.
![]() |
| O Mirante no Morro dos Ventos |
O que chamou a atenção nesta rodovia estadual foi o tráfego
doméstico, predominantemente de carros de passeio, esconde perigos por trás da
aparente “inocência”.
O primeiro acidente que testemunhei foi justamente neste trecho:
um carro de passeio, distraído, acabou colidindo com a traseira de outro. O
condutor, poderia ter se distraído com as belas paisagens do local. Há também
muitas curvas que exigem atenção total e velocidade moderada.
6ºTrecho Cuiabá-Rondonópolis (215 km)
Para mim este foi certamente o trecho mais perigoso e
estressante da viagem. A rodovia federal, que por vezes é a mesma BR 364 e por
vezes muda de nome para BR 173, está em péssimo estado. As obras de duplicação
estão muito atrasadas. O tráfego de caminhões é intenso, pois esta rodovia liga
Cuiabá-Campo Grande e Goiânia. Presenciei balanças e postos rodoviários abandonados.
Há algumas partes com terceira pista, o que facilita a ultrapassagem de
caminhões, mas a rodovia está muito aquém das necessidades de tráfego.
![]() |
| Carreta de Soja tombada |
![]() |
| Serra de São Vicente |
Um alento é o trecho da BR 364 na Serra de São Vicente. Uma paisagem
belíssima em uma rodovia muito boa, mas que ainda assim, exige total atenção do
condutor por suas curvas.
7ºTrecho Rondonópolis - Campo Grande-MS (492 km)
A partir de Rondonópolis, a estrada melhora bastante e as
obras de duplicação estão mais avançadas. Ao adentrar o estado do Mato Grosso
do Sul, a mesma rodovia federal está em melhor estado. As balanças e postos da PRF estão funcionando.
8º Trecho Campo-Grande- Botucatu-SP (764 km)
![]() |
| Eucaliptais: deserto verde |
Há mais de uma opção para sair do estado de Mato Grosso do
Sul em direção ao estado de São Paulo. A escolhida foi por Três Lagoas-Andradina.
Há também uma rota mais ao sul, que entra no estado de São Paulo via Presidente
Epitácio.
Particularmente, achei o trecho bastante esburacado e sem atrativos
visuais. Em sua grande parte são eucaliptais quase sem fim, que continuam mesmo
dentro do estado de São Paulo.
Atravessei a divisa na represa de Jupiá e a partir da
divisa, temos a rodovia estadual Marechal Rondon (SP300) em excelente estado,
já com pista duplicada, o que reduz muito o estresse da viagem. Aqui não há
mais risco de colisão frontal e nem o deslocamento de ar produzido por caminhões no
sentido contrário.
![]() |
| Via Rondon |
O único porém são os
excessivos pedágios. Gastei mais de 30 reais no trajeto até Botucatu.
Normalmente evito dirigir à noite, mas como as condições da
estrada permitiam, realizei o trajeto Bauru-Botucatu já no escuro.
9º Trecho Botucatu-Jundiaí (194 km)
A partir de Botucatu, é possível se continuar pela Marechal Rondon,
ou pela Castelo Branco. A Rondon passa a ser pista simples, mas o trecho é mais
bonito, passando por algumas serras.
De Jundiaí, ainda fui mais adiante, passando por Louveira, Itatiba e Bragança Paulista.
Contudo, após ouvir insistentes apelos de amigos parentes que me alertaram sobre os altos índices de acidentes fatais com motos em SP (seis mortos por dia, em média), os assaltos em faróis e disparos gratuitos contra motociclistas na cidade, decidi deixar a moto em uma cidade do interior e assim evitar um risco desnecessário.
Mais viagens:
Para ler mais sobre a viagem de 2009, ao Peru, com uma Yamaha XTZ 125, clique aqui
De Jundiaí, ainda fui mais adiante, passando por Louveira, Itatiba e Bragança Paulista.
Contudo, após ouvir insistentes apelos de amigos parentes que me alertaram sobre os altos índices de acidentes fatais com motos em SP (seis mortos por dia, em média), os assaltos em faróis e disparos gratuitos contra motociclistas na cidade, decidi deixar a moto em uma cidade do interior e assim evitar um risco desnecessário.
Mais viagens:
Para ler mais sobre a viagem de 2009, ao Peru, com uma Yamaha XTZ 125, clique aqui
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
Pelo Direito de Cruzar os Braços
Impeachmeant da Dilma: Você é contra ou a favor?
Se me fizessem esta pergunta há cerca de dois meses atrás, minha resposta seria categórica, apesar da minha total falta de entusiasmo com Dilma e o PT, seria capaz de ir às ruas para defender uma presidenta legitimamente eleita.
Para mim está mais do que claro que trata-se de um "golpe à hondurenha", onde setores do judiciário, legislativo e imprensa apontam o dedo e gritam "corrupção", ainda que seus próprios partidos, correligionários estejam todos envolvidos no mesmo escândalo, mas a imprensa brasileira utiliza do processo de edição seletiva, para apresentar os fatos conforme lhe convém.
Nem é necessário aqui, deslindar que a corrupção na Petrobrás é endêmica e que temos o envolvimento explícito de gente do PSDB, PMDB e PP, inclusive em maior número que do próprio PT. Apenas digo que isso não serve de argumento para livrar a cara do PT.
Jamais poderia apoiar a hipocrisia daqueles que defendem o impeachmeant. Mas também não sinto a mínima disposição de mover uma palha, uma vírgula sequer, para defender Dilma.
A mudança em meu pensamento se deu a partir das mudanças na legislação trabalhista. Trata-se de traição à classe trabalhadora e ponto. Era a última coisa que separava Dilma e o PT do abismo. Acabou.
Mas, no meu caso não se trata mais apenas de uma avaliação intelectual. Criei uma rejeição física, corporal, à Dilma e ao PT. Causa mal estar pensar em defender o atual estado de coisas.
Vou apenas exercer o meu direito a cruzar os braços.
O Brasil que escreveu sua história assassinando índios, que construiu sua riqueza em cima da escravidão dos negros, o Brasil sempre subserviente a Lisboa, Londres ou Washington escreve mais uma capítulo sujo de sua história. para tal, conta com ajuda de seu parlamento, formado sobretudo por crentes fundamentalistas como Eduardo Cunha, militares fascistas como Bolsonaro, fisiologistas e aproveitadores de todas as cores e matizes. Também escreve um parágrafo negro o nosso judiciário vendilhão, juízes que envergonham a própria ideia universal de justiça para defender com unhas e dentes os seus privilégios classistas. E quem escreve tudo isso se não a nossa imprensa comprometida com todo este estado de coisas, torna-se algoz da verdade e do futuro de nossa nação.
E diante de tudo isso, pequeno como um grão de areia, não me cabe muita coisa.
Terei de me contentar em apenas não ser o "pingo no I" desta história suja.
Começo a achar que Dilma realmente merece o Impeachmeant. Não pela "corrupção" à Petrobrás (faz me rir), mas pela traição à classe trabalhadora.
Começo a achar que talvez seja melhor mesmo ter Michel Temer na presidência.
O que se tornou o PT senão um laranja das políticas do PMDB e mesmo do PSDB?
Vou cruzar meus braços, e com muita satisfação ver o "circo" pegar fogo.
Quem sabe aí talvez, as esquerdas possam se reagrupar em um projeto político que outra vez, contemple a utopia.
Se me fizessem esta pergunta há cerca de dois meses atrás, minha resposta seria categórica, apesar da minha total falta de entusiasmo com Dilma e o PT, seria capaz de ir às ruas para defender uma presidenta legitimamente eleita.
Para mim está mais do que claro que trata-se de um "golpe à hondurenha", onde setores do judiciário, legislativo e imprensa apontam o dedo e gritam "corrupção", ainda que seus próprios partidos, correligionários estejam todos envolvidos no mesmo escândalo, mas a imprensa brasileira utiliza do processo de edição seletiva, para apresentar os fatos conforme lhe convém.
Nem é necessário aqui, deslindar que a corrupção na Petrobrás é endêmica e que temos o envolvimento explícito de gente do PSDB, PMDB e PP, inclusive em maior número que do próprio PT. Apenas digo que isso não serve de argumento para livrar a cara do PT.
Jamais poderia apoiar a hipocrisia daqueles que defendem o impeachmeant. Mas também não sinto a mínima disposição de mover uma palha, uma vírgula sequer, para defender Dilma.
A mudança em meu pensamento se deu a partir das mudanças na legislação trabalhista. Trata-se de traição à classe trabalhadora e ponto. Era a última coisa que separava Dilma e o PT do abismo. Acabou.
Mas, no meu caso não se trata mais apenas de uma avaliação intelectual. Criei uma rejeição física, corporal, à Dilma e ao PT. Causa mal estar pensar em defender o atual estado de coisas.
Vou apenas exercer o meu direito a cruzar os braços.
O Brasil que escreveu sua história assassinando índios, que construiu sua riqueza em cima da escravidão dos negros, o Brasil sempre subserviente a Lisboa, Londres ou Washington escreve mais uma capítulo sujo de sua história. para tal, conta com ajuda de seu parlamento, formado sobretudo por crentes fundamentalistas como Eduardo Cunha, militares fascistas como Bolsonaro, fisiologistas e aproveitadores de todas as cores e matizes. Também escreve um parágrafo negro o nosso judiciário vendilhão, juízes que envergonham a própria ideia universal de justiça para defender com unhas e dentes os seus privilégios classistas. E quem escreve tudo isso se não a nossa imprensa comprometida com todo este estado de coisas, torna-se algoz da verdade e do futuro de nossa nação.
E diante de tudo isso, pequeno como um grão de areia, não me cabe muita coisa.
Terei de me contentar em apenas não ser o "pingo no I" desta história suja.
Começo a achar que Dilma realmente merece o Impeachmeant. Não pela "corrupção" à Petrobrás (faz me rir), mas pela traição à classe trabalhadora.
Começo a achar que talvez seja melhor mesmo ter Michel Temer na presidência.
O que se tornou o PT senão um laranja das políticas do PMDB e mesmo do PSDB?
Vou cruzar meus braços, e com muita satisfação ver o "circo" pegar fogo.
Quem sabe aí talvez, as esquerdas possam se reagrupar em um projeto político que outra vez, contemple a utopia.
sábado, 10 de janeiro de 2015
O show não pode parar
Na última sexta-feira, sirenes, buzinas e gritos pedindo "justiça" alteraram a rotina da nossa pacata "smallville' cruzeirense.
Um prato cheio para uma imprensa quase sempre carente de pautas. Com tanta coisa acontecendo "aí pra fora", muitas vezes não é fácil convencer o telespectador a permanecer na frente da TV para assistir ao noticiário local.
Talvez por isso haja um sentimento tão forte de gratidão entre a imprensa e polícia.
A chegada dos prisioneiros (em carro aberto) suspeitos do assalto que resultou na morte do sargento M.Araújo foi de fato um espetáculo orquestrado com maestral regência. Os familiares emocionados, os pano pretos desfraldados tremulando ao movimento de motocicletas, convertidas agora em porta-estandartes da indignação de toda uma cidade. Em seguida vieram o choro e os gritos de "assassino", logo após acompanhados das sirenes trazendo som e luz à nossa rotina. um verdadeiro espetáculo.
Tivemos ainda uma tentativa de linchamento (oba, isso dá mais uma pauta!) e após uma espera não muito longa, a "cereja do bolo": em um auditório climatizado e confortável são apresentados à imprensa os suspeitos: algemados e com suas caras inchadas e vermelhas. As confissões na ponta da língua não deixavam dúvidas sobre a participação dos mesmos no crime (exceto dois cruzeirenses: "Tati" e sua mãe, Luiza, que negaram qualquer participação, mas isso é piaba para outro caldo).
Basta um olhar minimamente equidistante para perceber que a ação todo foi conduzida como um espetáculo a ser oferecido à população.
Estaria eu com isso condenando a ação-espetáculo?
De forma alguma. Afinal, não basta ser eficiente, é preciso mostrar-se eficiente. e As polícias civil e militar (em uma parceria difícil de se ver) neste caso souberam fazer as duas coisas muito bem.
A menos que provas e confissões venham a ser desmontadas diante do tribunal do juri (o que eu não creio), as polícias cumpriram o objetivo de capturar os criminosos em cerca de uma semana, sem um único tiro disparado. Rápido, limpo e preciso.
Não dar a esta ação o merecido destaque a esta ação, seria um crime imperdoável.
Principalmente em uma semana em que houveram seguidas denúncias de abuso de autoridade.
Durante a coletiva, Major Emílio que responde pela PM e toda região (incluindo Tarauacá e Feijó) defendeu a ação da PM e disse que não houveram arbitrariedades, que todas as prisões e abordagens tinham um motivo, ainda que nem todos estivessem ligados diretamente ao assassinato do sargento.
Ainda que compreenda perfeitamente o papel do comando em fazer esta afirmação, mais uma vez sou obrigado a respeitosamente discordar, desta vez com base no que vi e ouvi na ruas de Cruzeiro do Sul nesta semana.
A afirmação de que a intensificação destas ações não tinham relação com o crime que vitimou o sargento não corresponde ao que alguns policiais falaram nas ruas durante as abordagens. Da boca de um saiu: "mataram um dos nossos, 'tamo muito mansinho mesmo"
Não é preciso ser profissional de imprensa para perceber que as ações da polícia recrudesceram no período. Quem anda nas ruas percebeu isso e sentiu esse clima.
Rotina?
Francamente duvido. Especialmente para uma polícia que muitas vezes mal consegue responder aos inúmeros chamados da população. Salta aos desta mesma população olhos o súbito rompante de eficiência dos últimos dias. Foi como se o Popeye tivesse comido espinafre.
É muita "vontade de combater o crime", para uma polícia que há menos de dois meses se recusou a atender um chamado de assalto no momento que ele acontecia em um residência. Segundo a vítima, a primeira reação do atendente da PM foi dizer que assalto era um caso para a Polícia Civil.
Ao ligar na delegacia, a vítima foi informada que precisaria esperar o dia seguinte par registrar a ocorrência, do assalto que acontecia naquele momento.
O marido da vítima chegou à residência a tempo de coibir o assalto e novamente ligou para a polícia desta vez para apenas conduzir o suspeito preso em flagrante para delegacia. Mas aí faltou viatura, combustível e principalmente boa vontade e quem teve que levar o preso para a delegacia foi a própria vítima em seu carro particular.
O que mudou em menos de dois meses?
Acho que estas são perguntas e questionamentos que devem ser feitos nos momentos certos e não apenas se deixar conduzir pelo espetáculo que entretém e satisfaz muito, mas que informa pouco e transforma menos ainda.
Sem estar atento a estas contradições do discurso, a imprensa poderá se deixar conduzir para uma "assessoria de imprensa da polícia", apenas reproduzindo B.Os e mais do que isso, reforçando lugares-comuns e esteriótipos que resultam no recrudescimento da violência.
Este já tem sido o papel de alguns meios de comunicação já há algumas décadas no Brasil. O fenômeno "Cidade em Alerta" começou no rádio, na década de 80 com o sujeito chamado Gil Gomes, aterrorizando a vida das donas-de-casa pela manhã bem cedo com histórias das mais escabrosas possíveis.
Trinta e cinco ao depois pergunto o que Gil Gomes e seus sucessores contribuíram para a diminuição da violência? Nada. pelo contrário, só fizeram crescer o medo e o filho do medo: o ódio.
Muita gente pode questionar afirmando que é apenas o retrato da nossa realidade. Diria que é apenas um recorte da nossa realidade. No momento que este recorte é transformado em notícia pode ganhar uma conotação a mais, um tom vermelho a mais de sangue, pode transformar-se em espetáculo e aí, meus caros colegas, se preparem para alimentar um telespectador cada dia mais sedento de sangue.
O gosto do populacho pelo sangue é atávico, ancestral. Não fosse assim não teríamos tido arenas lotadas para ver cair o sangue dos gladiadores.
E assim seguimos até hoje. Mudam os meios, mas o sangue, é o mesmo.
Afinal, o show não pode parar.
Um prato cheio para uma imprensa quase sempre carente de pautas. Com tanta coisa acontecendo "aí pra fora", muitas vezes não é fácil convencer o telespectador a permanecer na frente da TV para assistir ao noticiário local.
Talvez por isso haja um sentimento tão forte de gratidão entre a imprensa e polícia.
A chegada dos prisioneiros (em carro aberto) suspeitos do assalto que resultou na morte do sargento M.Araújo foi de fato um espetáculo orquestrado com maestral regência. Os familiares emocionados, os pano pretos desfraldados tremulando ao movimento de motocicletas, convertidas agora em porta-estandartes da indignação de toda uma cidade. Em seguida vieram o choro e os gritos de "assassino", logo após acompanhados das sirenes trazendo som e luz à nossa rotina. um verdadeiro espetáculo.
Tivemos ainda uma tentativa de linchamento (oba, isso dá mais uma pauta!) e após uma espera não muito longa, a "cereja do bolo": em um auditório climatizado e confortável são apresentados à imprensa os suspeitos: algemados e com suas caras inchadas e vermelhas. As confissões na ponta da língua não deixavam dúvidas sobre a participação dos mesmos no crime (exceto dois cruzeirenses: "Tati" e sua mãe, Luiza, que negaram qualquer participação, mas isso é piaba para outro caldo).
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| Suspeitos do assalto. imagem: Juruá on Line |
Basta um olhar minimamente equidistante para perceber que a ação todo foi conduzida como um espetáculo a ser oferecido à população.
Estaria eu com isso condenando a ação-espetáculo?
De forma alguma. Afinal, não basta ser eficiente, é preciso mostrar-se eficiente. e As polícias civil e militar (em uma parceria difícil de se ver) neste caso souberam fazer as duas coisas muito bem.
A menos que provas e confissões venham a ser desmontadas diante do tribunal do juri (o que eu não creio), as polícias cumpriram o objetivo de capturar os criminosos em cerca de uma semana, sem um único tiro disparado. Rápido, limpo e preciso.
Não dar a esta ação o merecido destaque a esta ação, seria um crime imperdoável.
Principalmente em uma semana em que houveram seguidas denúncias de abuso de autoridade.
Durante a coletiva, Major Emílio que responde pela PM e toda região (incluindo Tarauacá e Feijó) defendeu a ação da PM e disse que não houveram arbitrariedades, que todas as prisões e abordagens tinham um motivo, ainda que nem todos estivessem ligados diretamente ao assassinato do sargento.
Ainda que compreenda perfeitamente o papel do comando em fazer esta afirmação, mais uma vez sou obrigado a respeitosamente discordar, desta vez com base no que vi e ouvi na ruas de Cruzeiro do Sul nesta semana.
A afirmação de que a intensificação destas ações não tinham relação com o crime que vitimou o sargento não corresponde ao que alguns policiais falaram nas ruas durante as abordagens. Da boca de um saiu: "mataram um dos nossos, 'tamo muito mansinho mesmo"
Não é preciso ser profissional de imprensa para perceber que as ações da polícia recrudesceram no período. Quem anda nas ruas percebeu isso e sentiu esse clima.
Rotina?
Francamente duvido. Especialmente para uma polícia que muitas vezes mal consegue responder aos inúmeros chamados da população. Salta aos desta mesma população olhos o súbito rompante de eficiência dos últimos dias. Foi como se o Popeye tivesse comido espinafre.
É muita "vontade de combater o crime", para uma polícia que há menos de dois meses se recusou a atender um chamado de assalto no momento que ele acontecia em um residência. Segundo a vítima, a primeira reação do atendente da PM foi dizer que assalto era um caso para a Polícia Civil.
Ao ligar na delegacia, a vítima foi informada que precisaria esperar o dia seguinte par registrar a ocorrência, do assalto que acontecia naquele momento.
O marido da vítima chegou à residência a tempo de coibir o assalto e novamente ligou para a polícia desta vez para apenas conduzir o suspeito preso em flagrante para delegacia. Mas aí faltou viatura, combustível e principalmente boa vontade e quem teve que levar o preso para a delegacia foi a própria vítima em seu carro particular.
O que mudou em menos de dois meses?
Acho que estas são perguntas e questionamentos que devem ser feitos nos momentos certos e não apenas se deixar conduzir pelo espetáculo que entretém e satisfaz muito, mas que informa pouco e transforma menos ainda.
Sem estar atento a estas contradições do discurso, a imprensa poderá se deixar conduzir para uma "assessoria de imprensa da polícia", apenas reproduzindo B.Os e mais do que isso, reforçando lugares-comuns e esteriótipos que resultam no recrudescimento da violência.
Este já tem sido o papel de alguns meios de comunicação já há algumas décadas no Brasil. O fenômeno "Cidade em Alerta" começou no rádio, na década de 80 com o sujeito chamado Gil Gomes, aterrorizando a vida das donas-de-casa pela manhã bem cedo com histórias das mais escabrosas possíveis.
Trinta e cinco ao depois pergunto o que Gil Gomes e seus sucessores contribuíram para a diminuição da violência? Nada. pelo contrário, só fizeram crescer o medo e o filho do medo: o ódio.
Muita gente pode questionar afirmando que é apenas o retrato da nossa realidade. Diria que é apenas um recorte da nossa realidade. No momento que este recorte é transformado em notícia pode ganhar uma conotação a mais, um tom vermelho a mais de sangue, pode transformar-se em espetáculo e aí, meus caros colegas, se preparem para alimentar um telespectador cada dia mais sedento de sangue.
O gosto do populacho pelo sangue é atávico, ancestral. Não fosse assim não teríamos tido arenas lotadas para ver cair o sangue dos gladiadores.
E assim seguimos até hoje. Mudam os meios, mas o sangue, é o mesmo.
Afinal, o show não pode parar.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Economizam no dinheiro, mas não no sangue
Familiares de policial
assassinado têm direito à indenização por parte de empresário, afirma Major da PM
Em meio a bandeiras negras, comoção popular e uma ação
espetacular das Polícias Civil e Militar, é de se esperar que passem
despercebido aspectos digamos “secundários” da notícia em si, mas que de fato,
podem estar na raiz dos problemas noticiados.
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| Tentativa de linchamento na chegada dos suspeitos. Imagens: Juruá On Line |
O primeiro é a questão dos “bicos” realizados por policiais
como segurança privada.
Durante a coletiva desta quarta-feira (08), tive a
oportunidade de questionar o comando regional da PM sobre a prática, que além
de ilegal, coloca em risco a vida de pessoas.
Meu primeiro questionamento foi sobre o recebimento de
benefícios a que a família do policial assassinado teria direito em caso de morte
em serviço.
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| Major Moura, Comandante da PM em Cruzeiro do Sul e região |
O Comandante regional da PM no Juruá, Major Moura respondeu
que os familiares receberiam os benefícios assegurados por lei.
Mas o fato é que a lei não assegura tais benefícios no caso
de o policial ter morrido fora de serviço, ou nesse caso pior: prestando um
serviço que é ilegal.
Major Negreiros complementou a informação, afirmando que os
familiares têm direito a pedir na justiça, indenização ao empresário pela morte
do PM.
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| Major Negreiros comanda as operações aéreas da PM no Acre |
Na opinião de Major Moura, a atuação dos PMs como seguranças
privados, ainda que ilegal, seria um fator de segurança a mais, pois
reforçaria a presença policial nas ruas da cidade.
Sobre este ponto, sou obrigado a respeitosamente discordar do comandante, e
apresento meus argumentos, não com a autoridade de um especialista na área de
segurança pública, mas como um ex-morador de uma das cidades mais violentas do
mundo.
A atuação dos policiais como seguranças privados, tal qual está
acontecendo em nossa cidade, tão somente os irá expor a um risco extremo de serem
mortos.
No caso específico do Major M.Araújo, por ocasião do
assalto, o mesmo encontrava-se na função de motorista. Armado e sozinho
tornou-se um alvo com poucas chances de reação e menos ainda de evitar o assalto.
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| Sargento M.Araújo. Imagem: Ecos da Notícia |
Não é segredo que em Cruzeiro do Sul, policiais militares sejam
vistos em supermercados, às vezes atuando como guardadores de capacetes ou
empacotadores de mercadoria.
Sua presença pode ter a eficácia de afastar algum “bêbado”
ou “noiado” que deseje furtar uma lata de leite, mas não significa absolutamente
nada para criminosos minimamente organizados. É apenas o primeiro alvo a ser eliminado
ou neutralizado.
Em setembro de 2013, o sargento Cleiton Aquino morreu na
função de segurança privado após ser baleado durante uma tentativa de assalto à
loja City Lar em Rio Branco.
Por vezes, a mistura de funções como segurança pública e
privada, ganha contornos ainda mais obscuros, como o caso recentemente
noticiado na imprensa da capital em que policiais teriam praticado a extorsão o
proprietário do Auto Posto Correntão, em Rio Branco , afirmando que o “serviço
de inteligência” teria descoberto um assalto planejado para o estabelecimento.
Após pagar durante meses o serviço de segurança privada a uma equipe formada
exclusivamente por PMs, o empresário resolveu cancelar o serviço e denunciar a
extorsão.
É fato que nossa região não possuiu ainda um histórico de violência
que suscite tais questionamentos, mas este histórico começa a mudar, e antes
que mais vidas se percam, é importante atentar para estes fatos.
Cruzeiro do Sul dispõe hoje de pelo menos quatro empresas de
segurança privada. Em conversa com um empresário do setor, o mesmo me confidenciou
que o preparo de um policial militar, é de fato melhor que o de um segurança
privado, mas que o PM não tem garantias legais no caso de ser baleado, ou se por
ventura, matar o assaltante.
Podemos dizer que por trás de um crime, há pelo menos outros
dois: o exercício ilegal da profissão de segurança privado, com evidentes
riscos à vida humana e a complacência do comando da PM com a prática ilegal.
Da parte do empresariado percebe-se também uma prática que apesar
de não poder ser classificada como ilegal, é pelo menos, imoral: colocar
pessoas em situação de risco de morte em defesa de seu patrimônio privado, sem
as garantias legais que tal exercício exigiria.
Em poucas palavras: economizam no dinheiro, mas não no sangue.
Do outro, é claro.
* O segundo aspecto "secundário" diz respeito justamente ao trabalho da imprensa, e farei um post sobre isso mais adiante
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