quarta-feira, 30 de março de 2016

Cai a farsa do ‘apartidarismo’ e MBL pode virar partido político

Leandro Altheman

O Movimento Brasil Livre, principal articulador das manifestações de rua pró impeachmeant rasgou de vez a máscara do ‘apartidarismo’ que desde 2013 foi uma das principais ‘bandeiras’ do movimento.
O grupo, que possui núcleos em pelo menos 173 municípios anunciou que deverá lançar pelo menos dez candidatos a prefeito nas eleições deste ano, além de uma centena de candidatos a vereador.
O MBL tem incentivado a filiação de seus integrantes nos partidos já registrados, em especial PSDB, DEM, PPS e PSC. Seus coordenadores não escondem que as candidaturas desse ano seriam apenas mas a ideia é mais ousada e pretende não apenas transformar o próprio MBL em um partido, como lançar o nome de Kim Kataguiri, principal coordenador do movimento à presidência.
Uma das condicionantes para permitir a filiação de seus integrantes é que os mesmos sejam apresentados como candidatos do MBL.
É positivo que o MBL abrace com clareza suas causas políticas: a defesa do livre mercado e do estado mínimo. O liberalismo é um ponto de vista válido dentro do jogo democrático. O que não é válido é defender um ponto de vista e tratá-lo como verdade imponderável e ‘interesse da nação’ acima de qualquer partido, e esconder-se por trás da máscara do 'apartidarismo'.
É justamente esse um dos discursos precursores do fascismo: negar a existência de conflitos de interesse dentro da nação.

Ataques à Marina Silva
As pretensões do líder do MBL já vislumbram um obstáculo à frente: Marina Silva. Em sua coluna semanal, Kim Kataguiri acusa Marina de ‘petismo verde’, seja lá o que isso possa significar.
Ao explicitar suas posições contra a eventual adversária política e buscar um alvo fora das longas listas de delações e propinas, Kim e o MBL deixam claro que não são apenas um movimento ‘anti-corrupção’, mas que possuem uma posição política definida, um ponto de vista, um ‘partido’.
Em seu artigo, Kim não faz menção a qualquer ‘deslize ético’ de Marina, mas justamente às suas posições políticas.

Empurrada para a esquerda
Caso o impeachmenat se configure, Marina mais uma vez, deverá experimentar o paradoxo de suas posições políticas conflitantes. Se durante nas eleições, seus adversários usaram seu conservadorismo (anti-aborto, anticasamento gay, anti-legalização da maconha), para colar-lhe o rótulo de ‘direita’, agora, seus novos adversários usaram sua trajetória no PT como ‘prova’ de que ela sempre será ‘de esquerda’.

A própria Marina Silva, contudo, defende a ideia de que seja possível transcender a polarização entre ‘esquerda e direita’. Resta saber se isso de fato, é possível, e como.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Marina cresce na Sombra

pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (19/03) aponta que cresceram as intenções do voto na acreana Marina Silva (Rede). Se as eleições fossem hoje, Marina venceria as eleições nos quatro cenários possíveis, independente de qual seja o candidato do PSDB. Na mesma pesquisa, Lula, ficaria em segundo ou terceiro lugar dependendo do cenário. A conclusão possível é de que Marina tornou-se o nome mais forte para disputar a eleição contra os tucanos Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Mesmo em uma improvável eleição em que os três candidatos tucanos viessem a disputar, ainda assim, Marina levaria vantagem sobre os mesmos, segundo a pesquisa.


Há muita água para rolar debaixo da ponte, mas é certo que Marina deverá ser novamente o alvo do PT nos próximos dias.

Uma avaliação possível é de é preferível ao PT, perder as eleições para os tucanos e entregar a presidência, do que ver Marina Silva à frente dela.

Tamanha prevenção só se explica pelo que Marina pode vir a significar, caso vença as eleições. Ela, que já é hoje, uma referência internacional nas questões climáticas e ambientais, poderia tornar-se ainda uma figura de tal importância a ponto de ofuscar o lugar que hoje Lula ocupa como o presidente que ‘venceu a fome no Brasil’.

Marina já vem sendo criticada por suas posições por vezes tíbias, por vezes moderadas demais, mesmo quando o assunto é a sua praia: as questões ambientais. Um exemplo comumente lembrado é o da tragédia envolvendo a Samarco em Mariana. Não é verdade. Marina escreveu sobre o assunto nos espaços em que lhe foi permitido. Ainda assim, não há nela, aquela postura militante, indignada, que muitos poderiam esperar em um caso do tamanho e da gravidade de Mariana.

Mas também não é segredo que boa parte das razões que a fizeram romper com Lula, Dilma e o PT, encontram-se justamente na sua relutância em conceder as licenças ambientais para a construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio.

Ao contrário do que afirmam muitos petistas, a saída de Marina do PT não teve nada de ‘oportunista’ ou ‘personalista’. Há aí uma divergência de concepção que é fundamental. Enquanto o governo desenvolvimentista de Dilma Roussef aposta (ou apostava) no petróleo do pré-sal, aliado ás hidrelétricas na Amazônia como principal alavanca para o desenvolvimento, Marina faz uma aposta mais utópica, do Brasil como ‘potência ambiental’, por enxergar o enorme potencial do país na produção de energia solar e eólica, na sua biodiversidade, nas suas florestas e rios. Há aí o risco da chamada ‘economia verde’ e de mercantilização da natureza, já alertado por setores dos movimentos indigenista e ambiental. Mas é inegável que seria um passo à frente no país que baseia sua economia nas frágeis comodities.

Ainda que boa parte da população e da classe política enxergue as questões ambientais como um tema transverso, periférico, a decantada produção de soja do país pode ser abalada caso venhamos a ter um agravamento das crises hídricas e climáticas. O mesmo pode ser aplicado à produção hidrelétrica, totalmente sujeita ao regime de águas dos rios, e portanto, às florestas.

Uma mudança na matriz de produção energética do país, tal como propõe Marina  implicariam entre outras coisas, em um investimento massivo em ciência e tecnologia, relegado a um plano pífio durante o governo Dilma. Outra consequência indireta, poderia vir a ser um reaquecimento e realinhamento da economia para atender a esta nova demanda.
Algo que certamente assusta as empreiteiras e partidos políticos que hoje dependem de grandes obras para financiarem suas campanhas e conseguirem as benesses do poder público, num circulo vicioso que só deve parar quando não existir mais nada a ser devorado por essa aliança espúria.
Marina é igualmente criticada por estar sempre ‘à sombra’ dos grandes debates nacionais, o que denotaria ‘oportunismo’ segundo seus críticos.
Pois é justamente este ‘estar às sombras’ que melhor explique o seu crescimento político.  
Marina sabe que para vencer a disputa presidencial de 2018 (e eventualmente antes disso, caso vença a tese da cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, defendida pela REDE e pelo PSOL) deverá cativar eleitores hoje identificados tanto com a esquerda quanto com a direita. Qualquer posicionamento mais incisivo, irá fatalmente reduzir o eleitorado de que necessita para tonar-se uma candidatura viável.
A acreana não vai entrar num campo minado, onde não detém nem o poder da mídia, nem o da militância. Seria esmagada e despedaçada em poucas semanas, como o que ocorreu nas eleições de 2014.

Há uma analogia poética possível deste ‘crescer às sombras’, não com os ‘urupês’ – cogumelos que crescem em paus podres, usados como metáfora por Monteiro Lobato para descrever os caipiras do interior do Brasil, mas com a rainha, ou chacrona, arbusto utilizado na preparação do daime, que apesar de ser a responsável pela ‘luz’ das mirações, deve crescer às sombras.    


sexta-feira, 18 de março de 2016

O Chapéu de Duas Cores

Nestes dias em que assistimos ao acirramento político, achei que permaneceria intocável aqui no meu distante buritizal, lá onde o vento faz a curva.

Enganei-me. Primeiro porque é quase impossível assistir impassível a tantas movimentações, que querendo ou não, em algum momento extrapolam nossas razões e atingem o âmago de nossos sentimentos.

Já há algum tempo, por razões bastante conhecidas por aqueles que seguem minhas publicações, havia deixado de lado qualquer apoio político ao PT e à Lula. Em resumo: compartilho com a sensação de boa parte das pessoas ligadas às causas ambientais e indígenas, de que nossa pauta foi completamente rifada pelo atual governo em troca de apoios substanciais de setores como: agronegócio, empreiteiras, bancada teocrática e outros. Isso para mim foi motivo suficiente para retirar o apoio, que até então, prestei ao governo até pelo menos metade do primeiro mandato de Dilma.

Fato é que, a súbita explosão de comoções geradas pela quebra do sigilo telefônico de Lula e Dilma, acabou tocando aquele emocional, lá no fundo, trazendo à tona uma ojeriza acumulada em décadas de percepção de que a Justiça, que hoje ampara aqueles que querem ver o fim do governo Dilma, de Lula, do PT e se possível de toda esquerda, em verdade sempre foi um colegiado de privilégios profundamente empregado de valores do Brasil Colônia. São as ‘excelências’ togadas arrotando direitos tão fora da realidade quanto seus privilégios permitem.

Minha decisão de não ir às ruas, nem de vermelho PT e nem de amarelo CBF não é ‘muro’, mas resultado de um sentimento que somente têm se fortalecido nos últimos dias.
Não me resta dúvida de que Lula, Dilma e o PT, ainda que por meios questionáveis, colhem exatamente o que plantaram. Ou acharam eles que as alianças espúrias com o setor privado sairiam ‘de graça’?
A questão é: o que está sendo semeado? O que vejo é ódio e intolerância. O que as passeatas verde-amarelas transmitem é uma noção de ‘ordem’ que parece advinda de aulinhas de educação Moral e Cívica, e que sim, contém elementos proto-fascistas.

Dito isso, é preciso fazer a ressalva de que nem todo mundo que está de vermelho hoje ‘apoia a corrupção’, do mesmo modo que nem todos que estão de amarelo são fascistas ou proto-fascistas. Pessoas chegam a determinadas conclusões baseadas em aspectos objetivos, mas muito também, por razões subjetivas que as levaram a construir determinada escolha. Se não respeitarmos as escolhas de cada pessoa, tampouco respeitaremos a pessoa por trás delas.
Tenho me rendido cada vez mais à concepção de que tudo o que temos no final das contas, são pontos de vista, já que nossa visão da realidade, por melhor que seja, sempre será apenas um recorte ínfimo da realidade total.
Encerro esse texto, com o conto africano do Chapéu de Duas Cores, que explica, com muita sabedoria, o que busquei expressar através desse texto.

O CHAPÉU DE DUAS CORES

Contavam os mais-velhos que, na Aldeia de Ajalá, havia dois irmãos muito unidos. Eles jamais tinham brigado entre si. Nunca tinham se aborrecido um com o outro. A fama daquela amizade corria as aldeias e todo mundo comentava, fazendo disso admiração geral.
Um dia, Exu andava por aquele lugar e ouviu comentários sobre o fato. Então, ele resolveu fazer um teste sobre a fortaleza daquela amizade. Descobriu os dois irmãos trabalhando num campo, que era dividido ao meio por uma estrada estreita. E eles trabalhavam cantando, cortando o mato com facões bem amolados, conversando sobre diversos assuntos. Aí, Exu pôs na cabeça um chapéu pintado de vermelho e preto, sendo que de cada lado só se via uma única cor.

Então Exu passou pela estrada, entre os dois irmãos e os saudou, dizendo:

— Bom dia, irmãos unidos!

E os irmãos responderam a Exu em uma só voz. Mas Exu passou por entre eles, sempre olhando para frente e seguiu adiante, até desaparecer na curva da estrada. Aí, um dos irmãos perguntou ao outro:
— Quem era aquele homem de chapéu vermelho?
Ao que o outro respondeu:
— Mentira sua! O homem usava um chapéu preto...
O irmão que viu o homem de chapéu vermelho se sentiu ofendido e, pela primeira vez, mostrando-se aborrecido, devolveu a ofensa. E o que tinha visto o homem de chapéu preto ficou aborrecido também. Daí, eles começaram a discutir, num desentendimento sem igual. A raiva cresceu tanto, que eles terminaram se agredindo com palavras. As ofensas trocadas se agravaram e eles terminaram avançando um sobre o outro, armados de facão. Brigaram tanto que se mataram. E porque eles não tinham herdeiros, o campo ficou entregue às feras e às ervas daninhas.
É por isso que, até hoje, nas aldeias, os mais-velhos ainda avisam:
— Se lembre do chapéu de duas cores: Nem tudo é aquilo que parece ser...

segunda-feira, 7 de março de 2016

♫‘Mas o que mais me dói, você escolheu errado seu super-herói’♪

Não, definitivamente, Moro não é herói. Ou talvez seja. Cada um escolhe o herói que quer. Bin Laden pode ser herói. Lampião. Al Capone. Eduardo Cunha. Eu por exemplo, gosto de Gêngis Khan, um cruel assassino. Gosto é gosto.

Moro é o pai de todos os coxinhas, aqueles anti-petistas doentes incuráveis, que por razões que Freud explica muito bem, bradam contra a corrupção de A, mas não se incomodam com a de B. Para estes, basta ‘tirar o PT’ do poder, e o arco-iris irá brilhar no horizonte, livrando-nos de todo o mal, amém.
Moro criou em torno de si a imagem do garoto incorruptível que quer transformar o Brasil em ‘país sério’.

Em um ‘país sério’, Moro não seria levado a sério. O Moro real não sobreviveria à severidade do Moro da mídia.

Moro pode convencer ‘suas nêga’, mas não a mim. É extensa sua ficha de ‘serviços prestados’ à agremiação política imediatamente beneficiada em 'tirar o PT do poder’. Sua esposa, Rosângela Moro, é nada menos que assessora jurídica do PSDB do Paraná, partido que vem sendo sistematicamente tolerado nos vazamentos seletivos à imprensa na ‘Lava Jato’.

Em um país sério, isso já seria o bastante para, no mínimo, por em cheque sua capacidade de julgamento sobre o caso.

Moro é um canalha, mas isso não faz de Lula e o PT ‘vítimas inocentes’. Moro é exatamente o tipo de canalha que Lula merece no seu calcanhar.

Porque Lula, meus caros, também não é ‘herói’. Bem, talvez seja para alguns. Como Stalin é herói. Hitler para outros ainda é. Tem quem curta Bolsonaro. Sadam Hussein já teve estátua no Iraque. O ladrão contumaz Fujimori ainda é querido no Peru e eu não duvido que até o Idi Amim Dadá deva ter seus fãs lá pras suas bandas em Uganda. Eu por exemplo, quando assisto os “Dez Mandamentos’, sempre torço para Ramsés. Gosto é gosto.
 
Sei que o 'pai do pobres' gostaria de ser comparado ao herói-bandido Robin Hood, mas eu duvido que o arqueiro medieval tenha recebido presentinhos do xerife de Nothingan. Isso faria muito mal à sua imagem e Sherwood.

O que diriam vocês, meus nobres leitores, caso soubessem que eu, este ‘orelha seca’ que vos fala, tivesse recebido um ‘presentinho’ substancial de algum político? No mínimo seria questionada minha suposta ‘imparcialidade’ ao microfone, por que, no mínimo, eu teria que ‘pegar leve’ com quem me presenteou, mesmo que os fdps em questão fossem responsável por invasões áreas públicas ou aterros ilegais.

Lula recebeu bem mais que um presentinho, e justamente das empreiteiras que dão as cartas nos grandes projetos de ‘desenvolvimento’ no país.
Lula jamais poderia ter aceitado tal coisa. No mínimo, ele sabe que isso lhe fere não apenas a sua ética e sua dignidade, como o deixa exposto como chefe da nação. Ao aceitar tais ‘presentes’, Lula não apenas mostrou que também ele, e sua história, tem preço como vendeu a nação às empreiteiras de modo vergonhoso.

Lula é no mínimo, um traidor.

Não dá para defendê-lo nessa altura do campeonato. Se está nas mãos de um canalha que usa a máscara do ‘bom-mocismo’ isso deve-se somente ao 'karma' engendrado por sua própria biografia. sua própria ‘biografia’, ao seu próprio 'karma'. Como dizem por aqui ‘deixou pegar na sua munheca’, deixou o rastro de suas sujeiras e agora quer ‘mobilizar’ a nação em sua defesa. Usar o povo como ‘escudo humano’. Covarde.

E que me desculpem aqueles da tese de ‘defesa da democracia’.

A qual democracia deveria sair em defesa? A mesma democracia das empreiteiras, que atropelam direitos fundamentais na construção de hidrelétricas, nas obras da copa e das olimpíadas, que atrasam e superfaturam obras inconclusas? Que financiam políticos de praticamente TODOS os campos políticos?

É em defesa a este mesmo modelo de democracia, que Dilma, em conluio com nosso congresso aprovou a famigerada ‘lei anti-terrorismo’, que vai entre outras coisas, criminalizar os movimentos sociais. Portarias são publicadas, facilitando cada vez mais a essas mesmas empreiteiras, atropelar os processos de licenciamentos ambientais e de consulta às populações afetadas. Todo poder às empreiteiras!

Como cidadão brasileiro, tenho todo direito do mundo de supor que estes e outros ‘presentinhos’, aceitos com tanta docilidade por Lula ajudaram moldar o caráter dessa ‘empreiteirocracia’ de favores tão prestimosos por parte do executivo.

Não contem comigo para a defesa da ‘empreiteirocracia’ a qual Lula se vendeu. Não contem comigo para ir às ruas defender a republiqueta hondurenha de Moro e sua turma.

Você pode até escolher um deles para ser o ‘seu herói’. Mas certamente não são os meus.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cruzeiro do Sul 'exporta' banana para Rio Branco e pequenos comerciantes 'torcem' pelo fechamento da BR

As condições precárias de tráfego na BR 364 não têm impedido a compra de banana no mercado de Cruzeiro do Sul para atender ao mercado da capital.
Diariamente caminhões carregados com o produto enfrentam lama e buracos no asfalto para suprir o mercado riobranquense, onde a banana está em falta.
Segundo a imprensa da capital a razão da escassez seria a menor produção de banana, e o fato de que muitos produtores estariam preferindo vender diretamente para Rondônia.
No mercado de Cruzeiro do Sul, não há falta de banana, e a 'palma' pode ser encontrada por R$2,00 da prata ou maçã, para o consumidor.

Não há escassez do produto, mas preço pode sofrer alteração 

Para o atravessador, o preço do cacho tem saído entre R$6,00 a R$8,00 destas qualidades, podendo chegar a R$20,00 no caso da banana grande.
No mercado, os pequenos comerciantes não tiveram consenso sobre se esta comercialização tem influenciado ou não o preço do produto em Cruzeiro do Sul. Para uma comerciante, por exemplo, o preço já havia sofrido elevação de R$4,00 para R$6,00 reais o cacho antes mesmo de o produto começar a ser comercializado para Rio Branco.
Já outros acreditam que há influência, e que o cacho deve chegar esta semana a R$8,00, igualando com o preço com que tem sido comercializado para Rio Branco.
Bananas Prata, Maçã e Comprida ainda podem ser compradas pelos consumidores cruzeirenses por preços menores que na capital 
A maior parte da banana que é vendida no mercado de Cruzeiro do Sul é produzida ao longo do rio Juruá, e não sofre portanto, influência da intrafegabilidade da maioria dos ramais nesse período.
A produção ribeirinha de banana decaiu muito em decorrência da grande alagação de 2008, que destruiu a maior parte dos bananais do Juruá, mas já apresenta sinais de recuperação.
Outro problema também é a praga da sigatoka negra, que tem motivado a EMBRAPA a difundir uma espécie resistente à praga, mas que ainda representa uma porcentagem ínfima do que é vendido no mercado.

Comerciante 'torce' pelo fechamento da BR 

Na contra mão dos que se preocupam com um possível fechamento da BR 364, alguns pequenos comerciantes de banana não escondem que gostariam que ela viesse mesmo a fechar.
'Era bom que rolasse logo', disse um comerciante que preferiu não ser identificado, mas cuja opinião encontrou eco nos demais colegas que comercializam o produto. Para ele, a possibilidade da venda de banana em Rio Branco significa ter de praticar preços maiores e a consequente perda de clientela, já que a banana é um dos produtos mais populares da cesta básica da região.

Peixe com Banana

E para não perder o costume, o blog Terranáuas oferece hoje também uma receita de banana verde cozida, um prato tradicional indígena, muito consumido no Peru com o nome de 'tacacho', mas também em boa parte do Amazonas e mesmo no litoral brasileiro de influência caiçara.

Corte a banana grande verde em rodelas não muito pequenas e as ponha para cozinhar. É bom que a banana esteja 'de vez' (ou 'verdolenga', como chamam no litoral caiçara). Pode-se optar por cozinhá-las já descascadas, os descascá-las após o cozimento, quando a casca sai mais facilmente.

Então com o uso de um pilão, ou usando o fundo de uma garrafa, ou mesmo um garfo, amassa-se as bananas cozidas até obter uma massa mais ou menos uniforme.

A partir daí, o 'tacacho' pode ser preparado ao gosto do freguês. Em Pucalpa, por exemplo, o tradicional é temperá-la com banha de porco, manteiga ou margarina, e servi-la no café da manhã como 'desayuno'.

Pessoalmente prefiro a opção de temperá-la com azeite de oliva, cebola de palha, pimenta de cheiro, azeitona e milho verde.
Surubim com 'Tacacho': Foto: Arquivo Pessoal

Também é possível refogá-la antes no azeite com cebola ou alho, por exemplo, o que a deixa muito saborosa.

Vale mencionar que o valor nutricional da banana verde é maior do que o arroz, macarrão ou farinha de mandioca.

Segundo o site especializado em saúde e nutrição "Bolsa de Mulher"

banana verde, principalmente quando cozida, contém mais amido resistente do que a madura, um nutriente que não é digerido ou absorvido pelo intestino grosso, mas fermentado, processo que resulta na formação de substâncias que auxiliam a saúde intestinal. “O amido resistente favorece a integridade da mucosa, contribuindo para a correta absorção dos nutrientes e impedindo a entrada de invasores. Com esta barreira, é possível prevenir diarreias, obstipação e até o câncer”, explica a nutricionista da clínica Super Healthy, Paola Moreira.


Se não bastassem todos os benefícios para o intestino, a banana verde apresenta baixo índice glicêmico, ou seja, distribui o açúcar lentamente pelo corpo evitando picos de insulina e contribuindo para a sensação de saciedade. Isso significa que ela é uma grande aliada para quem quer emagrecer de forma saudável.

“Graças ao valor reduzido do índice glicêmico, a banana verde ainda é capaz de prevenir o desenvolvimento do diabetes tipo 2 e o acúmulo de gordura corporal, além de atuar na redução do colesterol e, desta forma, auxiliar na prevenção do desenvolvimento de doenças do coração”, afirma a especialista.  

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Três é pouco

Hoje, em conversa com um motorista que percorre a BR 364 pelo menos duas vezes por semana, o mesmo confirmou a prática de baldear carga a mais de alguns empresários. A prática aconteceria principalmente em Feijó. Mas não seriam apenas três conforme afirmei na reportagem de ontem.

O motorista, que também é empresário, cujo nome não revelo nem sob tortura, acrescentou mais nomes à lista divulgada ontém.

Além dos já mencionados Assem Cameli e Tião Cameli, o excesso de carga na BR também estaria sendo cometido pelo empresário Donário, da Empresa MD Construção, que atua nos ramos de construção civil, combustíveis e navegação.

Ainda segundo esta fonte, a Transportadora Pimpão, que traz combustível para Cruzeiro do Sul também estaria praticando sobrecarga na BR.

'Detonada' por excesso de carga, rua permanece interditada em Cruzeiro do Sul

Há cerca de um mês os moradores da rua Joaquim Távora no bairro do Cruzeirinho Novo têm o seu direito de ir e vir limitados pela interdição da via.

A via foi danificada, reparada e novamente danificada incontáveis vezes por caminhões caçamba carregados de barro.
Segundo moradores, caminhões com excesso de peso, e de velocidade, transitaram por mais de um ano no local. a prefeitura chegou a reparar os danos causados, mas continuamente danificada e sem condições de tráfego, a via foi interditada.

Ainda segundo moradores do local, o atual secretário municipal de obras, Mauri, o também vereador pelo PMDB, 'Sinhô', afirmou que irá conversar com o empresário responsável pelos danos causados à via, contudo, a rua permanece interditada ha cerca de um mês.
A maior parte do barro retirado de uma jazida localizada na própria rua e que teria sido o responsável pelos danos à via foi utilizado para construir um aterro no bairro do Miritizal, destinado à um empreendimento comercial do empresário Tião Cameli.
O aterro é apontado pelos moradores do Miritizal como principal causa dos alagamentos que afetaram as residencias em parte do bairro.
O empreendimento no bairro do Miritizal foi realizado sem o devido licenciamento ambiental, o caso foi levado ao MP e o empresário teve de assinar um TAC - Termo de Ajustamento de Conduta.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quem são os empresários que estão 'detonando' a BR?

O péssimo estado da BR 364, já beirando as raias da intrafegabilidade, como sempre, tem motivado as velhas acusações de superfaturamento na obra, por um lado, e de utilização acima do peso permitido, por outro.

As declarações do governador Tião Viana, em pelo menos dois meios de comunicação da capital, de que alguns 'empresários do vale do Juruá, de maneira criminosa estariam burlando a fiscalização em Sena Madureira e passando com cargas acima do permitido', causaram rebuliço, com os tradicionais meios de comunicação de oposição tentando imputar a acusação à todo empresariado.

O senador Gladson Cameli (PP) rebateu as acusações, afirmado que as mesmas, feitas de maneira genérica, serviriam, segundo ele, para criminalizar toda a classe empresarial da cidade. 

Sem isentar a responsabilidade do governo do estado pelas péssimas condições da rodovia, entregue ao DNIT, o superintendente do órgão federal para Rondônia e Acre, Sérgio Augusto Mamany, reiterou as acusações feitas por Tião Viana de que comerciantes de Cruzeiro do Sul atuariam como os principais responsáveis pela destruição da rodovia.

Segundo ele, carretas que levam mercadoria para comerciantes em Cruzeiro do Sul, trafegam com cargas de até 70 toneladas, quando o peso máximo permitido em portaria expedida pelo órgão é de 18 toneladas.
“Nós demos uma abertura para que casos emergenciais pudessem passar com o peso acima do permitido, mas se utilizaram dessa abertura e estão passando com todas as cargas como se fossem emergencial e isso contribuiu sobremaneira para a danificação da rodovia. Embora a gente tenha um posto de pesagem (Bujari), não conseguimos evitar esse tráfego”, disse ele. (Fonte: AC 24 Horas.)
Segundo informações internas, a  'malandragem' destes comerciantes seria embarcar a quantidade permitida de carga até Tarauacá e a partir dali, embarcar uma quantidade acima do peso permitido, aumentando seus lucros individuais e socializando o prejuízo pela estrada com o restante da população. Não por acaso, a rodovia apresenta as condições mais críticas de trafegabilidade justamente no trecho Tarauacá-Liberdade. A balança do rio Liberdade, que poderia fazer esta fiscalização está fechada desde que o DNIT assumiu a rodovia.

A preocupação com os danos provocados pelas carretas bi-trem à BR 364, foi trazido pelo responsável pela empresa Colorado, Linker Cameli, durante uma conversa com o governador. A Colorado é uma das quatro empresas designadas para as obras emergenciais de recuperação da rodovia. 

Apesar da aparente irritação do senador Gladson Cameli sobre a não divulgação dos nomes que estariam atuando com esta prática, ele, mais que ninguém deve ser o sabedor de quem são estes empresários.

Em Cruzeiro do Sul, são três os empresários que atuam com as tais carretas bi-trem na BR 364: o primeiro deles, é o próprio presidente da Associação Comercial do Alto Juruá, Assem Cameli, o segundo é o empresário do ramo de materiais de construção e combustíveis, Tião Cameli, e o terceiro, seria também um empresário do ramo de combustíveis, que não pode ser identificado pessoalmente até o presente momento.

Trechos Consolidados

O péssimo estado da rodovia encontra-se em um trecho específico, entre Tarauacá e o rio Liberdade, justamente o trecho, onde suspeita-se de que o excesso de carga tenha promovido danos acima do esperado.

O que pouco se comenta, é de que os dois trechos: entre o Juruá e o rio Liberdade e entre Rio Branco e Sena Madureira, apresentam condições muito boas de tráfego.

As boas condições da pista nestes trechos servem para alimentar o 'mito' de que a estrada quando feita por Orleir Cameli tinha mais qualidade.

O fato é que estes são justamente alguns dos trechos mais antigos da rodovia e também já foram refeitos algumas vezes. Na região entre Santa Luzia e o rio Liberdade, onde a estrada foi feita durante o governo Jorge Viana, a pista também teve de ser refeita pelo menos duas vezes. 

O mesmo vale para a região entre Sena Madureira e Rio Branco. Feita pela primeira vez por Orleir Cameli, a estrada passou por diversas manutenções e até bem pouco tempo também sofreu abalos e desbarrancamentos nas laterais.

Parte do problema pode ser de fato explicado pela questão do solo, como tem alegado o governo do estado, e como o próprio DNIT admite nesta nota, em que sugere maiores estudos técnicos e prevê inclusive, possível acréscimo no valor do km asfaltado. 

Contudo, apesar da velha tendência para que o juruaense, sinta-se único em suas agruras, vale lembrar que a rodovia entre Porto Velho e Rio Branco passou por processo semelhante, ainda que o solo seja mais propício à rodovia neste trecho. Segundo caminhoneiros que trafegaram nesta rodovia em seus primórdios, a rodovia levou pelo menos 20 anos para que fosse 'consolidada', ou seja, para que o leito, mais compactado, sofresse menos danos com o peso dos caminhões. 

Ainda assim, quem tiver a oportunidade de conhecer o que o excesso de peso pode fazer mesmo a uma rodovia já 'consolidada', sugiro um passeio pela mesma BR 364 entre Cuiabá e Rondonópolis, onde, por razões políticas que me fogem à compreensão, as balanças e postos rodoviários permaneceram desativados durante meses.

O mesmo vale, inclusive para a própria malha urbana de Cruzeiro do Sul. No bairro do Cruzeirinho Novo, por exemplo, o tráfego de caminhões caçamba carregados com peso acima do suportável para a via, tem acabado com o asfalto nas ladeiras do bairro. Afinal, empresários com os nomes 'certos' podem sempre contar com a leniência e subserviência do poder público. 

A expectativa de muitos, é que a estrada após continuas manutenções possa aos poucos ser toda ela 'consolidada'. Algo que demandaria, tempo, dinheiro, e principalmente a colaboração dos principais interessados na manutenção da rodovia, já que durante décadas, foram estes mesmos comerciantes que praticaram preços estratosféricos de suas mercadorias, alegando a falta de um acesso terrestre para extorquir a população da cidade.



domingo, 29 de novembro de 2015

Indígenas participam de processo de patrimonialização da ayahuasca

Povos indígenas do Acre deverão ter participação ativa e decisiva no processo
A antropóloga do IPHAN Danielle Jatobá esteve nesta semana em Cruzeiro do Sul para mais uma etapa do relatório preliminar que irá nortear o processo de patrimonialização da ayahuasca.
A pesquisadora irá produzir um relatório a respeito do uso ritualístico da ayahuasca no contexto indígena.
“Todos os povos indígenas do Acre fazem uso da ayahuasca, ainda que de diferentes medidas e formas”, explica.
O pedido de patrimonialização partiu conjuntamente das três principais linhas religiosas ayahuasqueiras do Acre: Barquinha, a UDV, e o Santo Daime (Alto Santo e Cefluris).
Religião
Compreendido como religião por seus adeptos e tendo seu uso assegurado por lei em seu contexto religioso, a ayahuasca ganha contornos distintos quando estudada a partir do ponto de vista indígena.
“O conceito de religião é ocidental e urbano. No universo indígena, é algo mais totalizado”, explica Danielle.
“Chamar de religião (no contexto indígena) é uma simplificação. A ayahuasca é história, cultura, e pode sim, ser religião, também. Mas esta resposta deve partir dos próprios indígenas e essa realidade pode variar de aldeia para aldeia”, complementa.
Medicina
Nos estudos preliminares, uma palavra que aparece com frequência para designar a ayahuasca é ‘medicina’. A ideia de que a ayahuasca seja ela própria portadora de poder de cura para um número considerável de doenças está presente no imaginário sobre a bebida. Pesquisas científicas recentes corroboram esta visão quando apontam que, por exemplo, a bebida tenha potencial terapêutico no tratamento de doenças como depressão, mal de Parkinson, alcoolismo e até mesmo em alguns tipos de câncer.
“Medicina é um conceito tão possível quanto religião para a realidade dos povos indígenas, mas tanto religião, quanto medicina são categorias em nossa língua, e portanto, apenas uma tentativa de aproximação.”
Restrição de Uso
A antropóloga não a redita que o processo de patrimonialização da ayahuasca possa se refletir em alguma forma de restrição de uso ou de ‘engessamento’ das práticas.
“A patrimonialização não tem relação com propriedade intelectual ou patente. Tampouco trata-se de política de controle. Os atuais detentores do bem cultural permanecerão sendo os detentores. Trata-se de um reconhecimento do valor como referência cultural para o país.”
Também segundo a pesquisadora, não haveria interesse de restringir o uso fora das três tradições. “Isso seria inexequível”, explica.
Mesma bebida, caminhos diferentes
O uso ritualístico da bebida entre os indígenas e comunidades urbanas e rurais é uma especificidade do Acre em relação ao restante do Brasil, mas não em relação aos vizinhos amazônicos: Peru, Colômbia e Equador, onde pesquisadores apontam um uso milenar em diferentes tradições.
Em 2008, o Peru declarou a ayahuasca como patrimônio cultural do país. Na decisão assinada pelo diretor do Instituto Nacional de Cultura, Javier Villacorta define o uso da ayahuasca como tendo propósitos religiosos, terapêuticos e de afirmação cultural.
Canções e desenhos
Está associado ao uso ritualístico da ayahuasca entre os indígenas um repertório das mais variadas canções que vão desde ‘louvores’ a aspectos da natureza animal, vegetal e cósmica, a canções de cura e orações.
Outro elemento chave ligado ao uso da ayahuasca são os ‘kenês’ – palavra da família pano para designar os grafismos que traduzem em formas geométricas aspectos da natureza.
“Serão os indígenas que irão definir o que eles querem que faça parte deste processo ou não”, conclui a pesquisadora.

Leia mais sobre no site do NEIP – Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre PsicoativosMartini, Andréa. 2014. “Conhecimento indígena e a patrimonialização da ayahuasca”.

Paranoia (anti) rapé na fronteira

Gente que havia participado do lançamento do ponto de cultura Yorenka Atame, em Marechal Thaumaturgo, passou pelo constrangimento de ver o seu rapé apreendido durante revista dos soldados do Exército Brasileiro na pista de pouso do município. Até mesmo indígenas tiveram seu rapé apreendido, ainda que o porte esse tipo de substância de uso cultural, lhes seja assegurado por lei.
Os soldados justificaram a apreensão por se tratar de “produto da fauna e da flora local” (sic). A explicação não convence. Feito a partir de tabaco (produzido ali mesmo em Marechal) e cinza de cascas de árvores, o rapé tem menos de “fauna e flora local” do que os cocares e brincos emplumados que passaram sem problema.
A implicância com um produto que até bem pouco tempo não era incomodado com os aeroportos pode ter relação com uma reportagem recentemente apresentada pela TV Gazeta, onde, legitimamente, se apresentam preocupações com o abuso do rapé e sua rápida popularização no meio urbano, incluindo aí, muitos jovens e adolescentes nas escolas.
Digo que a preocupação é legítima, já que ate mesmo os pajés alertam para os danos de um eventual abuso do rapé.
O problema é que nas instituições da nossa sociedade, as reações a um fenômeno cultural, acabam tendo um viés proibicionista e criminalizador, principalmente quando se tratam de produtos da ‘exótica’ Amazônia.
Não se vê, por exemplo, alguém defendendo a proibição de Nutela ou Coca Cola, que podem ser tão viciantes ou, no caso da Coca Cola, especialmente danosa à saúde.
No caso do rapé, kambô ou mesmo da ayahuasca, cada vez mais se faz necessária a circulação de informações claras a respeito. Uma sugestão é que lideranças do meio indígena venham a cada vez mais a público, fazer estes esclarecimentos. Mas pode ser necessário também realizar encontros entre indígenas e não-indígenas, já que o uso destas substâncias no meio urbano, é uma realidade.

Livro da Cura Huni Kuin é um dos vencedores do Prêmio Jabuti deste ano

A comissão organizadora do 57º Prêmio Jabuti divulgou nesta quinta-feira (19) o resultado final da premiação deste ano. O Livro Una Isi Kayawá, escrito pelos pajés Huni Kuin do rio Jordão em parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro conquistou o terceiro lugar na categoria Ciências da Natureza, Meio Ambiente e Matemática.
O livro teve um processo criativo bastante original, utilizando os cadernos de anotações dos pajés do rio Jordão. Segundo a editora Anna Dantes, a ideia do livro teve início a partir de um sonho do pajé Agostinho Iká Muru. O pajé, juntamente com o taxonomista Alexandre Quinet, são os organizadores do projeto.
O livro Mata Atlântica – Uma História do Futuro e,  Agricultura Conservacionista no Brasil foram respectivamente os vencedores do primeiro e segundo lugar da mesma categoria.
O Prêmio Jabuti, considerado o mais importante do mercado editorial brasileiro, recebeu 2.573 inscrições este ano.
A cerimônia de entrega aos vencedores do Prêmio Jabuti 2015 será realizada em 3 de dezembro de 2015, no Auditório Ibirapuera, em São Paulo.

domingo, 4 de outubro de 2015

Homofobia ou Fundamentalismo ?



homofobia

  1. substantivo feminino
    rejeição ou aversão a homossexual e à homossexualidade.

fundamentalismo
substantivo masculino
  1. 1.
    rel movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século XX, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs [Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes do sXX.].
  2. 2.
    p.ext. qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos; integrismo.

A entrevista com Bibiano Queiroz, (por enquanto) do PSOL deu o que falar. Foram mais de 20 mil compartilhamentos, o que é muito, mesmo para uma matéria em um site nacional.
As entidades de defesa dos direitos LGBT rapidamente repudiaram a fala do (supostamente) presidente municipal do PSOL em Cruzeiro do Sul pela “Unidade Socialista”, tendência apontada como muitos membros do partido como sendo “de direita”.
As declarações de Bibiano foram classificadas como “homofóbicas”, e é sobre este ponto que pretendo me debruçar neste texto (sem duplo sentido, por favor).
Os evangélicos em geral não aceitam a pecha de homofobia a eles imputada. O argumento é de que homofobia, na acepção da palavra, significa medo, ódio ou rejeição aos homossexuais.
Os evangélicos argumentam que não tem “medo, ódio ou rejeição” aos homossexuais, mas que a prática é condenada pelas escrituras, ou pela interpretação que dela fazem.
Em nenhum de meus textos ou postagens, imputei a Bibiano a classificação de homofóbico. Deixo que façam isso as entidades de defesa LGBT que tem mais legitimidade para tal.
Contudo, afirmo sem medo de errar, que a posição de Bibiano é sim, fundamentalista.
Explico. Fundamentalismo não se trata de usar uma barba comprida e amarrar explosivos na cintura. Fundamentalismo significa simplesmente a concepção de que um texto religioso deve ser utilizado para reger a vida civil da sociedade. E aí tanto faz ser a bíblia, o alcorão, ou o livro dos Mortos Tibetano.E o fundamentalismo, pasmem, não nasceu no oriente, mas sim nos EUA.
Ocorre que, Bibiano, ou qualquer outro, ao achar que pode aplicar a interpretação bíblica corrente de que a homossexualidade é condenável e que por isso não deva filiar homossexuais ao partido, na prática estaria restringindo um direito cidadão, algo que é regido pelas leis laicas do estado: constituição, código civil e regimento partidário. Ainda que o mesmo não tenha “ódio, medo, ou rejeição” aos homossexuais, na prática sua ação resultaria em perda de direitos devido à orientação sexual, algo que é vedado pela constituição do país. Ou seja, o resultado é sim, homofóbico.
O fundamentalismo cresce no mundo inteiro, e no ocidente, ao que parece os cristãos são os que menos se dão conta disso. Encaram com naturalidade que sua interpretação de mundo, seja implantada por força de lei, ao conjunto da sociedade.

E é aí que mora o perigo. Pois a homofobia, talvez afete diretamente apenas aos homossexuais, mas o fundamentalismo, afeta a todos nós.


sábado, 20 de junho de 2015

Ágora X Púlpito

Parodiando o relógio do apocalipse do filme "Watchmen" é possível dizer que o recente entrevero virtual entre Boechat e Malafaia, adiantou em um minuto o relógio da contagem regressiva para a "Gospelândia", o estado teocrático que dia após dia cresce como um câncer dentro do sistema polítoco e da sociedade brasileira. Já afirmei em postagens anteriores que a "gospelândia" que há menos de uma década atrás apresentava-se como um projeto político, já deixou de ser projeto.

A Gospelândia não é mais um pesadelo, porque ela já é uma realidade com cor, forma, tamanho e sobretudo, líderes. adquire consistência e materialidade física e jurídica através do Congresso nacional.

A cada dia, o centro da vida política do país se desloca da Ágora, para o Púlpito.

A existência de nossa moderna democracia só foi possível por ter existido lá em seus primórdios, um espaço de discussão civil, justamente, a ágora. Nela, os cidadãos exerciam o seu direito à voz. Pontos de vista divergentes eram postos à prova por seus debatedores e argumentadores que aí tinham a oportunidade de fazer vencer suas teses.

O púlpito é o oposto da ágora. É onde um líder pretensamente ungido fala sozinho pelo tempo necessário a produzir uma catarse no público.

O problema destes supostos líderes é que eles não se contentam com o público de suas igrejas. Sentem-se capazes de ditar as normas da vida civil do país. (Bom dia, fundamentalistas!).

É o caso de Malafaia. Após produzir a catarse hipnótica nas ovelhas que zelosamente tosquia dia após dia, sente-se capaz de voos mais altos. Por isso intromete-se descaradamente na vida política do país.

Boechat está coberto de razão quando afirmou que "no âmbito das igrejas neopentecostais tem acontecido incitação ao ódio e á intolerância religiosa, mais do que em outros ambientes".

Há vídeos que comprovam isso. Pregações religiosas que incitam os fiéis a atacar membros das religiões afro-brasileiras e destruição de imagens católicas. Há vídeos inclusive protagonizados por Marco Feliciano. Em um deles, um pastor não apenas incita o ataque às imagens como ainda reforça a ideia de que o fiel que seja preso e penalizado por tal ato, seria recompensado por estar sendo preso "por amor à Jesus". Para reforçar o efeito dramático, o pastor beija algemas imaginárias num púlpito para centenas de pessoas. Se isso não é incitação à intolerância, o que é então? Esse é o caminho seguro para um estado fundamentalista: a "República da Gospelândia"

Depois de nos acostumarmos com as notícias de ataques a templos e imagens a novidade agora parece ser agressões a pessoas também. Quando nos acostumarmos a isso, não mais nos importaremos que figuras como Malafaia decidam o destino da vida social do país.

Cada vez menos importa o debate entre juristas para definir, por exemplo, questões como a maioridade penal. Isto está sendo decidido nos púlpitos de templos e igrejas, para somente depois ir à ágora, que cada vez mais perde seus espaço de debate, para apenas referendar o que já foi incutido na cabeça das ovelhas pelos seus pastores.

E se existe hoje dentro do meio evangélico vozes contrárias à tragédia que se anuncia, é bom que comecem a falar e se expressar, a saírem do púlpito e virem a ocupar o espaço público da ágora e questionar estes supostos líderes que se arvoram ao papel de "porta-vozes" de todos evangélicos. Se estes não forem questionados "de dentro", continuarão suas pregações fundamentalistas até que toda "ágora" seja apenas uma extensão do seu "púlpito".

Caso resolvam se calar e deixar "o barco correr" é bom que estejam preparados para depois, ocuparem o mesmo lugar na história ocupado pelos alemães que, mesmo não sendo nazistas, deixaram a serpente crescer no jardim de suas casas.








terça-feira, 9 de junho de 2015

Vistamos a irracionalidade de amor

O episódio do Boticário já cantado e decantado em versa e prosa, me levou a algumas reflexões e a pelo menos duas conclusões.
A primeira é de que resultou em uma vitória sem precedentes sobre o dito “movimento evangélico”, ou mais precisamente, sobre a parte dele que é capitaneada pela banda podre desta imensa comunidade evangélica. Comunidade que, diga-se de passagem, reagiu de maneiras diferentes ao episódio, tornando mais evidente algo que já se sabia: nem todo evangélico é “Malafaia”. Pior para ele, que se portava como espécie de porta voz desta comunidade. Perdeu liderança dentro do movimento.
A participação de evangélicos na “Marcha par Jesus” em São Paulo, certamente é mais um demonstrativo de que uma parcela cada vez maior de evangélicos, busca se distanciar da pecha de “homofóbica” e que rejeita a suposta liderança de Malafaia, Cunha e companhia bela.
Tenho lido com satisfação, vozes dissonantes de teólogos protestantes (ou seriam “evangélicos”?) que conseguem se contrapor aos discursos totalitários destes barões midiáticos do movimento evangélico. Quero crer que estes teóricos tenham conseguido se fazer ouvir por uma parcela importante da comunidade evangélica, talvez apenas lembrando o óbvio da mensagem da “boa nova” uma redenção para todos através do amor incondicional. Ora, se o amor é incondicional, não faz sentido pensar em um amor seletivo apenas para “escolhidos” que de preferência, recolham dízimo.
Não diria que foi apenas uma vitória dos homossexuais sobre este “movimento”. Diria que foi uma vitória da lógica sobre a irracionalidade.
Malafaia ao sugerir o boicote ao boticário, expôs a irracionalidade de sua aparente lógica. De fato, pelo mesmo motivo a comunidade evangélica por “coerência” seria “obrigada” a rejeitar o próprio mundo em que vivemos hoje, com destaque à Alan Turing um dos principais responsáveis pelo advento do computador. Ele próprio um homossexual que sofreu perseguições inimagináveis nos tempos de hoje, mas sobretudo um cientista e matemático brilhante que nos legou uma das maiores “bênçãos” do mundo moderno.
Antes que os ateus militantes e cientificistas toquem suas trombetas, faço a ressalva, em boa hora, que sem irracionalidade, tampouco haveria amor também. Sem amor, sem dia dos namorados, sem dia dos namorados, sem propaganda do boticário.
Não senhores, a lógica sozinha não “salva”. Pelo contrário: é na razão insensível que se encontram algumas das mazelas de nosso mundo. O poder do comercial reside justamente na sensibilidade com que tratou o tema.
Proponho portanto, um brinde: Neste Dia dos Namorados brindemos à irracionalidade vestida não de ódio e segregação, mas do amor e da paixão em todas as cores. Afinal, eu também tenho a minha.
...
Opa... tava tão bom que eu ia me esquecendo do resto. Culpa de uma morena.
Vamos à segunda conclusão.

A dois passos da “gospelândia”

A aprovação do projeto de lei que amplia ainda mais o benefício de imunidade tributária aos pastores foi mais uma demonstração de que, parafraseando a música da Blitz dos Anos 80 “estamos a dois passos da ‘gospelândia’ ”, estamos cada vez mais próximos do fim de um estado laico de direito.
Para quem ainda não sabe, a “Gospelândia”, é uma alcunha para uma espécie de “reino dos escolhidos” que virá em substituição ao estado laico. Este reino, não será encantado, mas pelo contrário, totalmente desencantado, porque encanto não é coisa de deus e se não é de deus, é pecado e o pecado não entra na Gospelândia: o reino dos escolhidos.
A “Gospelândia” é a falência, o fracasso do estado laico. Um estado que permanecerá apenas nominalmente laico, mas que deverá perder cada vez mais espaço para uma concepção religiosa específica, pois em torno dela se agregam todos os medos. É o “nazi-fundamentalismo”, um bunker contra as mudanças trazidas pelos ventos da contemporaneidade.
A “Gospelândia” é a realização suprema da frase que nos é esfregada na cara quando entramos em uma cidade e nela está estampada a frase “Cidade tal é do Senhor Jesus”.
Na sua célebre exortação “Deus nos Livre de um Brasil Evangélico”, o pastor Ricardo Gondim captou a essência da frase: não há aí uma preocupação genuinamente “espiritual” de salvação, mas um projeto político pernicioso, totalitarista que pretende submeter não apenas a política do estado, mas a cultura, a arte e o comportamento civil do país.
Com Cunha à frente deste projeto, a “Gospelândia” toma corpo, cor e forma. Não é mais apenas um fantasma na cabeça de teólogos e pastores descontentes como Gondim: é agora fato consumado pelo legislativo e sancionado pelo executivo.
Não é a uma democracia capenga como a nossa que fará frente ao “Triunfo da Vontade” de milhões de crentes. Aliás, democracia alguma faz frente. Weimar não fez frente à Hitler e não será a nossa que o fará. Quando se forma uma maioria, esta é esmagadora.
Mas mesmo nessa nossa histriônica republiqueta, também há limites para a “Gospelândia”.
E os limites são impostos pelo capitalismo. Este sim é o terreno sagrado que não pode ser maculado por Malafaia, e nem por ninguém.
A lógica (ou seria dogma?) do capitalismo diz que homossexuais são consumidores e é por esta razão que merecem respeito. Malafaia pecou contra o sacro-santo princípio do capitalismo ao propor boicote. É por isso que não vai pro céu.
Capitalismo e Protestantismo são duas cabeças da mesma cobra. É impossível distinguir qual é o criador e qual é a criatura.
Mas é o Capitalismo que dá as regras deste mundo. Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

Ideólogos embandeirados defendendo suas teses cinzentas não são capazes de perceber a sutil ironia. Somente a leveza de um sufi pode apreciar a visão de uma cobra comendo a si mesma. E dançar ao seu redor.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Charlie, Charlie - Respeitem os espíritos. E os espíritas

Estava relutante em escrever sobre o tal assunto: "Charlie, Charlie".

Mas há um momento em que não é mais possível se furtar sobre determinado tema, principalmente quando este passa perigosamente a ser usado como mais um instrumento de discriminação religiosa nas escolas.

O fato do assunto ter se tornado pauta na imprensa, não deveria ser motivo de surpresa, princialmente nesta semana em que a revista de maior circulação no país escolhe o OVO como matéria principal de sua edição na mesma semana em que houve o escândalo dos dirigentes da CBF e as manobras de Cunha no Congresso.

Pelo ponto de vista comportamental, o assunto já virou pauta.

A questão é portanto, como abordar o tema, sem ser piegas, sem cometer achismos e principalmente, sem cometer preconceito religioso.

Na internet, já circulam inúmeros posts explicando que o tal "Charlie, Charlie" não passaria de uma jogada de marketing do filme "A Forca".

Poderia escrever falando sobre a vocação maldita do cinema de hollywood em legitimar preconceitos de toda ordem, incluso aí os de ordem religiosa. Mas precisaria fazer outra postagem para tanto.

O tal "Charlie, Charlie", ainda que possa ser fruto de uma jogada de marketing, não é mais do que uma derivação empobrecida da Tábula Ouija, assim como é também a famosa "Brincadeira do Copo".



Dito isto, seria preciso dizer quais as explicações possíveis para este fenômeno.

Há pelo menos três.

A primeira delas nos fala do efeito ideomotor, em suma, as pessoas moveriam estes objetos (copo, caneta e etc) de maneira involuntária e inconsciente, possibilitando tais especulações.

A segunda delas, é a radiestesia. Críticos do efeito ideomotor buscam explicações através do eletromagnetismo e de mudanças na percepção que ainda assim não seriam necessariamente, sobrenaturais.

 A terceira delas é a explicação espiritualista, na qual de fato espíritos dos mortos poderiam se comunicar através destes instrumentos.

É importante fazer a seguinte ressalva: O códice espírita kardecista não aprova tais práticas. Em O Livro dos Médiuns, Alan Kardek afirma que este tipo de prática seria mais propícia a atrair espíritos zombeteiros e levianos.

Sobre isto, vivenciei uma situação na minha adolescência que foi deveras instrutiva, e que gostaria de compartilhar por meio desta postagem.

Tinha por volta de 16 anos de idade e na escola de ensino médio que frequentava surgiu a tal "brincadeira do copo". Para quem não conhece a brincadeira, ela segue os mesmos princípios da tabula Ouija: as letras do alfabeto dispostas em circulo e as palavras sim e não. Os participantes colocam seus dedos em cima do copo e passam a fazer perguntas. O copo então se move na direção das letras e das palavras sim e não, respondendo às perguntas.





Fizemos a tal "brincadeira" algumas vezes. Lembro-me que havia uma sequência de perguntas iniciais. - Tem alguém aí? - Você é um espírito de luz?

Em uma destas ocasiões após as duas respostas afirmativas do "copo", tiveram início uma série de respostas desconexas, gerando conflito entre os participantes que passaram a acusar um ao outro de estarem manipulando o copo de acordo com sua vontade.

Foi então que um dos participantes falou:

- Gente, se ele fosse um espírito de luz, nós não estaríamos brigando.

E nesse momento, o copo realmente parou de se mover

Na terceira e última vez que participei da tal "brincadeira", após responder afirmativamente às duas perguntas iniciais, o copo não mais se movia. Foi quando então algum de nós resolveu perguntar.

- O que você quer que a gente faça?

O Copo então começou a se mover na direção das letras E, depois um S, depois um T, depois um U, depois um D... então quando a palavra se tornou óbvia, alguém disse:

E-S-T-U-D-A-R

E o copo não mais se moveu.

Na ocasião interpretei o ocorrido de duas maneiras. A primeira que aquele deveria ser de fato um espírito de luz, que não queria nos fazer perder tempo com tais bobagens e nos mandava para algo mais produtivo; Estudar.

A segunda, é de que se realmente eu tivesse interesse em conhecer tais fenômenos, também deveria, estudar.



quinta-feira, 28 de maio de 2015

Onde nos levará a ligação Cruzeiro do Sul e Pucallpa?

Documentário de Fernando Valdívia vai além do lugar-comum e mostra o tamanho do problema que seria construir uma ligação rodoviária ou ferroviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa.

Segundo o documentário, a proposta de integração regional é apenas cortina de fumaça para transformar a região em corredor de exportação de soja para a China, conforme previsto no IIRSA.

Assista ao documentário

quarta-feira, 27 de maio de 2015

No Universo da Cultura, o Centro está em toda parte

Pra mim é impossível não cruzar a praça do relógio da USP, sem tocar mentalmente a empolgante música de Bob Dylan, com os acordes de Jimi Hendrix​ "All Along the Watchtower". Essa música sempre me soou como um chamamento coletivo para algo que está mais além

Se você nunca ouviu, ouça.

Impossível também não meditar sobre as palavras escritas ao redor da torre "No Universo da Cultura, o Centro está em toda parte".


Há diferentes interpretações para o que o filósofo, jurista e reitor da USP Miguel Reale quis dizer com isso.
O mais óbvio é dizer que ele queria que a torre do relógio fosse o centro da cidade universitária.

Prefiro olhar além e pensar que que o real sentido seja o que de fato estas palavras dizem: onde se busca cultura, ali é o seu centro. Gosto de pensar que Miguel Reale buscava desde ali uma visão descolonizada, em que o centro não estaria na Europa ou nos EUA, mas onde quer que se busque conhecimento. E isto certamente vale para a própria universidade e deva ser constantemente lembrado:

"O centro está em toda parte"- bem poderia ser um mantra mágico proferido todas às vezes em que a universidade ficasse ensimesmada, incapaz de olhar sequer por cima dos seus muros, o que se dirá, olhar além, na direção dos rios e florestas em que habito - OM

Se essa não foi a intenção do reitor, furto-me ao sacrossanto direito à antropofagia para cobrar, como diria o não menos importante, Alberto Lôro, minha "parcela fatal" e assim juntar a frase ao meu caldeirão, como um ingrediente mágico especial.

No meu caldeirão de conhecimento, o centro do universo está agora dentro de um pote de barro rezado por um pajé centenário, e eu deitado em uma rede assisto à sua aula.

Minhas notas são sofríveis, pois me faltam pré-requisitos básicos como a língua e as vivências naquelas matas, na caça, na pesca, nos roçados. Falta-me uma pele que me acoberte dos piuns, mas passa-se querosene, e vai se vivendo.

Sou aluno especial, cotista diria, de uma generosidade tremenda nesta universidade coberta de palha, onde os pássaros são professores e o bugio marca as horas. Lá vem eu chegando atrasado, louvada seja, a paciência de Yawá.

E porque cargas d'água insistir em um sistema de conhecimento que sequer é reconhecido, que não traz canudo nem glória, e nem grau?

Talvez seja pura teimosia, apenas isso e meu sangue aragonês se dá por satisfeito com esta explicação. Ou talvez seja para atender a um chamado que me foi feito nessa mesma floresta, pelo mesmo Yawá, há mais de 10 anos atrás.

Talvez seja para fazer ecoar na cidade um grito que só se ouve na mata.

Ou talvez seja o contrário: fazer ecoar na mata, o grito de uma geração que se perdeu nos labirintos de asfalto e de cimento que se tornaram as grandes cidades, estas gaiolas ausentes de sentido.

Verdade é que do ponto em que estou, isso cada vez menos importa.

Muito mais tem importado o caminho em si, o não estar parado, o não deixar ser paralisado pelas forças mágicas e hipnóticas, serpentes da cabeça da medusa que regem a matrix de nossa era.

Antes havia o apenas ir. Uma fuga, uma carreira desenfreada, pois atrás de si há o fogo da devastação. Aí descobre-se que o fogo e a devastação, tal como "no universo da cultura", também estão em toda parte.

Se antes havia o sentido de apenas ir, tal qual a marcha dos queixadas verdadeiros, há agora também o "vir": o voltar, não no sentido de quem apenas volta de onde veio, mas também que trouxe o que buscou, e que mostra, a que veio e em que acreditou.


Todos ao redor da Torre do Relógio (tradução possível, mas não exata)

Deve haver algum jeito de sair daqui
Disse o piadista ao ladrão
Lá tem muita confusão
Eu não tenho nenhum alívio

Homens de negócio bebem meu vinho
Os homens do arado cavam minha terra
Nenhum tem algum nível em suas mentes
Ninguém está fora deste mundo

Não há razão para estar excitado
O ladrão falou amavelmente
Há muitos aqui entre nós
Que pensam que a vida é mais que uma piada
Mas você e eu, nós passamos por isso
E este não é nosso destino
Então vamos parar de hipocrisia
A hora já começa tarde

Tudo ao redor da torre
Os príncipes mantiveram a vista
Quando todas as mulheres vieram e foram
Empregados descalços também

Lá fora na distância fria
Um gato selvagem rosnou
Dois cavaleiros estavam se aproximando
E o vento começou a uivar

Tudo ao redor da torre
Em toda parte

Em toda parte, eu fui