sábado, 28 de maio de 2016

Sobre a Cultura do Estupro

O estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro popularizou o uso da expressão ‘cultura do estupro’. Aparentemente, na minha Time Line, muita gente teve contato com o termo pela primeira vez, e a julgar pelas postagens, de homens e de mulheres, há muita incompreensão do significado e consequentemente uma rejeição ao uso da expressão ‘cultura’ associado ao ato violento do estupro.

A expressão refere-se a um conjunto de normas e crenças que resultam na banalização do ato do estupro, ou, ainda mais frequentemente, a culpabilização da vítima pela violência sofrida.
São as ‘tradicionais’ (e portanto, sim, culturais) ‘explicações’ ou ‘justificativas’: ela usava roupas curtas demais, ela provocou, ela queria, e etc...  

O termo  cultura do estupro foi cunhado pelo movimento feminista ainda na década de 70 aplicada á cultura dos EUA como um todo.  Posteriormente foi identificada pela sociologia, antropologia e psicologia. Parte integrante dessa ‘cultura’ estaria a transformação da mulher em objeto.

“Há culturas em que isso é coibido. E são culturas em que há uma disparidade menor entre gêneros, em níveis diversos - na representatividade política, na igualdade de salários, na divisão de tarefas dentro de casa. Não é apenas um viés [de igualdade].”
Arielle Sagrillo Scarpati, Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Espírito Santo e doutoranda em Psicologia Forense pela University of Kent, na Inglaterra

Contudo, o tema é controverso e também há críticos desta concepção.

Caroline Kitchens, pesquisadora do American Researsh Institute, por exemplo, rejeita a ideia de que a responsabilidade do estupro seja de uma ‘cultura’ e não de indivíduos. E argumenta:

“Temos leis rigorosas que os americanos querem ver aplicadas. Embora o estupro seja certamente um problema sério, não há nenhuma evidência de que ele é considerado uma norma cultural. Século XXI América não tem uma cultura de estupro; o que temos é um átrio fora de controle, levando o público e os nossos líderes educacionais e políticas para o caminho errado.”

Ainda em seu texto ‘Its time to end rape-culture hysteria’, Caroline sugere que a concepção de uma cultura do estupro esteja levando o país a uma espécie de ‘histeria‘ , em que músicas, peças de teatro e até mesmo esculturas, são classificadas como ‘cultura do estupro’, perdem espaços públicos e chegam a ser censuradas.

Pode ser que de fato, alguns exageros estejam sendo cometidos nos EUA em nome de se combater a ‘cultura do estupro’. Aqui nessas plagas latinas, pode-se perceber que existe sim, uma cultura muito forte de objetificação da mulher e que a ideia de se culpar a vítima pela violência sofrida, ainda é um argumento muito comum. Não por acaso foram criadas as delegacias da especializadas nos crimes contra a mulher, já que muitas vítimas, após terem sofrido ainda tinham (e ás vezes ainda tem), de lidar com preconceito e machismo de delegados mau preparados.

Há duas imagens que ilustram bem a ideia de ‘cultura do estupro’. A primeira delas, do desenhista Milo Manara, em que retrata o estupro, e o sentido de posse, intimamente ligado ao primado da violência.

A segunda, uma campanha da Dulce & Gabana, que francamente, não remete a outra coisa senão a um estupro. Uma campanha publicitária como esta é praticamente uma prova física de que não apenas existe uma cultura do estupro, fundamentada nos aspectos mais atávicos da humanidade, mas como se renova através da comunicação de massas.




Homem, branco, e heterossexual, certamente não é a minha opinião a que mais importa para dizer se há, ou se não há uma cultura do estupro. Francamente, não gostaria de que uma histeria, como a descrita por Caroline, viesse a pautar as relações entre homens e mulheres. Tampouco desejo que a impunidade continue a limitar a liberdade das mulheres sobre seus próprios corpos e suas relações. 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Educação na República dos Coxinhas

Alexandre Frota, com o invejável currículo de ator pornô apresenta propostas para a educação, que não por acaso, tem a sua frente 'Mendoncinha', criatura do DEM cuja experiência é o de criador de aves no interior de Pernambuco.

Alexandre, o Frota, foi levar ao 'sinistro da educação', uma proposta que pasmem, foi criada pelo 'Revoltados On Line'. Agora quem sabe, seremos o primeiro país com um modelo de educação pautado em uma página de facebook, que entre outras coisas não prima pela verdade

Esta não é uma situação à toa. Não é nenhum 'ponto fora da curva' ou acidente de percurso do governo Temer. É resultado direto da paranoia anti-comunista que se instalou no país, através de sites de desinformação. Para estes, o modelo de educação de Paulo Freire, educador reconhecido mundialmente, não serve, bom mesmo é o modelo do 'Revoltados On Line'.

Em pauta, a 'desideologização da escola'. Como se tal coisa fosse possível. Como se não tivéssemos no âmago da educação o positivismo cientificista que nos enfiam goela abaixo desde o inicio do século XX, o cristianismo católico que está na base da primeira educação dos jesuítas, o calvinismo presente em instituições de ensino anglo-saxãs instaladas no país, o liberalismo que permeia praticamente toda e qualquer instituição de ensino que tenha por objetivo 'preparar para o mercado de trabalho'. E por aí vai. Desde a disposição das carteiras, o quadro negro, o sino do recreio, TUDO É IDEOLOGIA, pois em tudo há uma visão de mundo presente e uma necessidade de 'formar' para esta visão.

Agora patético mesmo, é que a corramos o risco de ter, daqui pra frente, uma educação montada em cima de IDEOLOGIA criada a partir do rebotalho de quem nunca estudou a questão à fundo, e que apenas reproduz asneiras de uma página de facebook.

Parabéns, esse é o modelo de educação na República dos Coxinhas



sábado, 21 de maio de 2016

Ode a 'Vagabundagem': do ócio criativo de Masi ao não-fazer de Dom Juan e Heidegger

Desde manhã vinha pensando em escrever uma espécie de ‘Ode à vagabundagem’. Mas... pense numa preguiça...

Desisti várias vezes. Qual é afinal a utilidade de um texto sobre a vagabundagem? A maior ‘ode’ seria não fazê-lo.

Então me recordei de uma história que ocorreu comigo há uns dez anos atrás.

Encontrei-me com um amigo, um jovem huni kuin, no centro da cidade de Cruzeiro do Sul. Ao me ver, ele exclamou:

-Nossa, você está tão magro! Andou doente?

-Não, é muito trabalho!

-E para que tanto trabalho? Você se acaba e o trabalho não se acaba! 

Aquelas palavras ficaram ‘coçando’ em minha cabeça durante anos, como uma caspa ou um piolho pelo lado de dentro do crânio.

Naquele tempo, trabalhava de manhã em uma rádio, à tarde em uma televisão e à noite, três vezes por semana, ainda dava aulas de história em um cursinho pré-vestibular.

Sentia-me bem e útil. Importante.  E as palavras do índio, simplesmente viraram do avesso meu modo de pensar.

Encontrei em sua maneira de pensar, ecos com o chamado ‘Ócio Criativo’ defendido pelo filósofo italiano Domenico de Masi.

"O homem que trabalha perde um tempo precioso" Domenico de Mais.

Filho da sociedade industrial, nasci e cresci em um bairro industrial, estudei em escolas que preparavam para o ‘mercado de trabalho’, e mesmo apesar de toda visão crítica em relação a isto, seguia reproduzindo o mesmo modelo de meus pais e avós: produzir para consumir, como um robô. Satisfação zero.

E essa forma de pensar, e agir, tão arraigada. Trabalhar, produzir, consumir. Trabalhar mais, produzir mais, consumir mais e a vida se esvaído com as areias do tempo, escorrendo por entre os dedos. Tão ‘útil’.
Domenico de Masi propõe a superação da sociedade industrial por meio de uma forma de ‘trabalho’ que confunda-se com estudo, jogo e lazer:

"O futuro pertence a quem souber libertar-se da idéia tradicional do trabalho como obrigação ou dever e for capaz de apostar numa mistura de atividades, onde o trabalho se confundirá com o tempo livre, com o estudo e com o jogo, enfim, com o 'ócio criativo'".

O não-fazer

Um dos conceitos mais intrigantes apresentados a Carlos Castañeda por seu mestre Dom Juan, é justamente o do não-fazer.

Dom Juan explica o fazer como um processo mental em que reproduzimos os aspectos já conhecidos da realidade. Enquanto fazemos, diz Dom Juan, não somos capazes de realmente ver a realidade. 
Estamos simplesmente dizendo para nós mesmos, através de nosso diálogo interno, que as coisas são como são porque são assim que as conhecemos.

E aí chego no ponto que queria.

Não há processo criativo possível dentro do fazer. Somente no não-fazer é possível criar.

Dom Juan descreve a realidade como pulsante e mutável. O fazer torna as coisas ‘mais simples’ para nós. È um espécie de ‘piloto automático’ da consciência que faz nos enxergar o caminho onde ele de fato nunca esteve, pois de fato, não há caminho algum.

-Aquela pedra ali é uma pedra por causa de fazer, disse ele. ...não havia entendido o que ele queria dizer.

-Aquilo é fazer! - exclamou.

-Como?

-Isso também é fazer.

-De que é que está falando, Don Juan?

-Fazer é o que torna aquela pedra uma pedra e um arbusto um arbusto. Fazer é o que torna você, você e eu, eu. (...)

-Tome aquela pedra por exemplo. Olhar para ela é fazer, mas vê-la é não fazer. Tive de confessar que as palavras dele não estavam fazendo sentido para mim.

-Ah, fazem, sim! - exclamou. - Mas você está convencido do contrário porque isso é você fazendo. É assim que você age em relação a mim e ao mundo...

-O mundo é o mundo porque você conhece o fazer necessário para torná-lo mundo - disse ele. - Se você não soubesse o seu fazer, o mundo seria diferente (Castaneda, 1972/2006, p. 237).

A concepção do índio mexicano Dom Juan dialoga com o filósofo alemão Heidegger:

Em sua analítica da existência, Heidegger aponta que o nosso modo predominante de ser é o estar absorvido na ocupação com as coisas. Essa "ocupação" não é para ele a mera lida objetiva com coisas previamente dadas, mas uma relação intencional, no sentido fenomenológico, de constituição de sentido. Ocupar-se com as coisas é participar de modo irrefletido da dinâmica de realização de um mundo. Nos deixamos absorver tão firmemente a essa lida ocupacional que deixamos escapar o aberto do mundo.’

É este aberto que permite o processo criativo para Heideger. Fora disso, está apenas a reprodução irrefletida, a desumanização e consequente robotização do ser humano por meio da técnica.

‘Na "era da técnica", como é denominada, por ele, a época atual, o homem toma todos os entes como recursos para os seus afazeres, como se toda a realidade se reduzisse a mera reserva de energia disponível para sua exploração e consumo (Novaes de Sá & Rodrigues, 2007).’

O músico, xamã e filósofo da cosmovisão andina, Alonso Del Rio atribui a eminência do desastre ecológico ambiental que ameaça a existência humana, ao que denomina a ‘tripla maldição’ do pensamento ocidental. Argumenta que a concepção da expulsão do paraíso, significou o sentimento de que a Terra é maldita, e portanto não é lugar de ser feliz. O trabalho, também é maldito: uma obrigação enfadonha determinada pelo deus patriarcal. Nas palavras de Alonso, o mito do gênese torna maldita também a mulher através da menstruação e as dores do parto.

Contudo, o Calvinismo, transformou o que trabalho, que na sociedade cristã medieval era simplesmente uma obrigação, em uma maneira de chegar aos céus. Afinal, a proposta calvinista que libertou a burguesia de suas amarras teológicas, é a de que riqueza é sinônimo de salvação e que portanto, o lucro, proveniente de trabalho honesto, leva aos céus.

Resta saber se a concepção de trabalho honesto se aplica aos próprios religiosos que constroem verdadeiros impérios empresariais, midiáticos e políticos com base nas doações dos fiéis, mas isso é tema para outra discussão.

Veja que o Calvinismo não libertou a concepção de trabalho como castigo, libertou somente a consciência do ‘pecado’ da ganância. O trabalho continua sendo uma obrigação, mas você pode ao menos, agora, usufruir através do consumo.

Alguém tem dúvida de que estes são os paradigmas em execução questão nos conduzindo ao cadafalso?

A questão passa a ser portanto: e o que temos para substituir este paradigma?

Talvez possam nos ajudar aqueles que foram, e são, justamente chamados de ‘vagabundos’: os índios.

Penso que não foi por acaso que aquele jovem huin kuin advertiu ‘você se acaba, e o trabalho não se acaba’. Penso que seja fruto realmente de uma concepção ancestral, de uma lida com a natureza onde o acumular não faz muito sentido.

Aliás, que sentido faria o conto infantil da ‘cigarra e a formiga’ em um lugar onde não há invernos rigorosos, e onde a escassez de um tipo de alimento, é substituído pela fartura de outro?

Nos breves períodos em que estive com os yawanawá, por exemplo, pude presenciar período de trabalho bastante intenso que movimentavam toda a comunidade, precedidos de dias de descanso, em que a presença familiar é valorizada e aspectos culturais são enfatizados. São noitadas de cantorias, são as brincadeiras, são as histórias. É o viver que em uma existência automatizada torna-se apenas consumo de lazer e entretenimento.

Bem, meu texto já vai chegando ultrapassando as 1.200 palavras. Muita coisa para quem se propôs a escrever uma ‘ode à vagadundagem’.


Por ser este um tema, praticamente inesgotável, preferia não fechá-lo em uma conclusão, como seria de praxe, mas deixá-lo em aberto como sugere Heideger, pois afinal é somente não-fazendo que é possível existir em plenitude... E criar.

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Referências:
1.Castaneda, C. (1968). A Erva do Diabo. Rio de Janeiro: Record.
2.Castaneda, C. (1974). Porta para o infinito. Rio de Janeiro: Record.
3.Castaneda, C. (2006). Viagem a Ixtlan. Rio de Janeiro: Nova Era (Original publicado em 1972).
4.Castaneda, C. (2009). Uma estranha realidade. Rio de Janeiro: Nova Era (Original publicado em 1971).
Ana Gabriela Rebelo dos SantosI; Roberto Novaes de SáII
IGraduada em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense, Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense / Bolsista REUNI (UFF) e Arteterapeuta integrante da equipe da Clínica Pomar no Rio de Janeiro. Email: anagabrielarebelo@gmail.com
IIProfessor Associado da Universidade Federal Fluminense, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFF. Endereço Institucional: Universidade Federal Fluminense, Centro de Estudos Gerais, Departamento de Psicologia. Campus Gragoatá, bl. O, sala 218 (São Domingos). CEP 24210-350, Niterói (RJ). Email: roberto_novaes@terra.com.br

domingo, 15 de maio de 2016

Ao vencedor, as bananas

Mesmo diante de seu 'Rei Nu', setores da imprensa ainda se esforçam para elogiar suas vestes, ao professar legitimidade à farsa que segundo a opinião corrente, transformou o Brasil em uma ‘República das Bananas’: associação imediata com uma republiqueta onde as regras do jogo são torcidas e distorcidas para se chegar ao resultado que afinal, se queria desde o início, mas que, não sendo possível por meios legítimos busca-se dar ao menos a aparência de legalidade.

Temer em seu Trono de bananas. Imagem: Mídia Ninja*
A expressão tem origem na atuação da United Fruits Company, corporação estadunidense que determinou a política local da maioria das repúblicas centro-americanas durante o século XX.

Eram elas, afinal, as bananas, principal produto de exportação, quem de fato importavam na política nacional destes países. A democracia, nada mais que uma pantomima, destinada a dar a aparência de que havia ali, o aval da vontade popular.

Em editorial deste dia 15 de maio do Jornal O Globo, repete à exaustão a catilinária de que ‘o Brasil não é a Venezuela’, como uma contra medida à imagem maculada do país no exterior com a suspeita de que tenha sido vitima de um ‘golpe’.

Ainda que alguns meios de comunicação estrangeiros ainda se ressalvem de utilizar a palavra ‘golpe’, a noção de que o processo todo foi uma grande farsa está cada vez mais evidente.

O editorial tenta pregar a ideia de que a reação da imprensa internacional tenha sido fruto de movimentos de bastidores daquilo que denomina ‘lulopetismo’.

Com a acusação, tenta se defender da triste sina que carrega desde que foi criada para dar sustentação ao regime ditatorial militar instaurado com o Golpe de 64.

A argumentação de que o processo transcorre na mais absoluta normalidade institucional, tramitando por duas casas legislativas com o amparo do STF pode até, para os mais incautos, servir de base para sedimentar a opinião de que não há golpe algum.

Contudo, mesmo uma avaliação das mais superficiais, dá conta do tamanho da farsa perpetrada justamente sob as barbas, togas e mandatos de quem deveria resguardar não apenas a constituição, mas a essência da vontade popular.

Pois bem, recordemos:

1-      Um processo de impeachmeant é instaurado contra uma presidente eleita tendo como acusação as benditas ‘pedaladas fiscais’, expediente comum utilizado por presidentes anteriores e repetido por dezenas de governos estaduais, como o de SP, para citar um
2-      Mobilizações populares são estimuladas e incentivadas pela mídia, tendo como motivação central a (justa) indignação popular contra a corrupção. A imprensa, aí incluída as organizações Globo, ajudam a construir a ideia de que o impeachmeant de Dilma, seria apenas o começo de uma ‘grande limpeza’.
3-      O processo é conduzido por um presidente da câmara sob graves acusações de enriquecimento ilícito, recebimento e distribuição de propina entre outros parlamentares e lavagem de dinheiro através de uma igreja evangélica. É réu no STF, que contudo o permite continuar todo o processo, para logo em seguida ao impeachmeant, ter o mandato cassado
4-      Finalmente após a aprovação no senado, Dilma é afastada e assume Michel Temer, já declarado inelegível por estar enquadrado na ficha suja. Temer compõe o governo com o PSDB, partido derrotado nas eleições anteriores. Entre eles estão ao menos sete investigados pela Lava Jato.
5-      Temer anuncia um plano de governo que prevê cortes em programas sociais e uma política de austeridade que jamais seria aprovada em referendo popular
6-      O PMDB tenta ‘garrotear’ a Operação Lava Jato, levando a considerar, por exemplo, a anistia de Cunha, para evitar a sua delação, ou mudar a lei de delações no congresso.

Não é preciso ser ‘lulopetista’ para enxergar a grande ‘Ópera Bufa’ que se tornou o processo de imepachmeant.

A alegação de que toda esta farsa ocorre justamente com tramites e ritos supostamente respeitados nas duas casas legislativas e no judiciário, longe de conferir legitimidade ao processo, tão somente denunciam o quão podres e carcomidas estão as instituições a ponto de permitir tamanha ruptura institucional.

Fato é que, se nossa democracia permite que esta ‘ruptura’ tendo as instituições preservadas, o mesmo não se pode dizer do pacto representado pelo momento das eleições.

Nela, é facultada uma escolha. O eleitor opta por um candidato, um partido, um programa de governo.

Vota-se inclusive, no conjunto, também em um vice-presidente com atribuições constitucionais bastante claras, que certamente não incluem a conspiração com o seu partido para comprometer a governabilidade do governo pela qual foi eleito e implantar o programa político adversário.

Farsa.

Durante anos, a Rede Globo que vinham anunciando à população ‘abram o olho, vejam quanta corrupção’, faz o movimento contrário: ao defender a ‘legalidade’ da farsa, dizem com isso: -’podem fechar os olhos, está tudo sob controle e absoluta normalidade democrática’.

Farsa

O editorial de ‘O Globo’ busca exaltar as instituições brasileiras festejando como a prova definitiva de que ‘O Brasil não é a Venezuela’. Repete-se ad nauseum os adjetivos ‘lulupetista’ e ‘bolivariano’, como se fossem aplicáveis a meios de comunicação internacionais como Whashington Post, New York Times, The Guardian, Liberation, Le Monde, El País.

Todos estes jornais, com maior ou menor grau assumem o caráter de farsa do impeachmeant. Alguns claramente aplicam o nome definitivo: ‘golpe’, mas mesmo os mais cautelosos apontam os desvios e vícios do processo.

Certamente que não o Brasil não é a Venezuela, já que aqui, comprovadamente as instituições: legislativo e judiciário, não serviram aos interesses do executivo, o que não significa dizê-los dignos de isenção.

A acintosa seletividade, denunciada desde o início, primeiro pela imprensa declaradamente de esquerda, e agora pela imprensa internacional, somente revela que nossas instituições tem claramente servido a um projeto de poder que não por acaso, é o exato oposto daquele referendado pela população nas últimas eleições.

O episódio servirá de ilustração para os historiadores quando estes quiserem exemplificar de como um projeto neoliberal falido, incapaz de vencer pela via eleitoral, volta do túmulo como um morto-vivo por meio de uma ‘farsa’ institucional, que na prática trata-se de uma eleição indireta para presidente.

Se isso não faz de nós uma ‘Venezuela’, certamente nos aproxima de outros exemplos de ‘farsas’ e ‘manobras’ perpetradas em outros países do continente, como Paraguai e Honduras, para citar dois exemplos.

Uma nova classe de golpe, em que não se dispara um único tiro, em que os militares não saem as ruas, mas que tão somente as instituições que deveriam  ser as guardiãs da vontade popular, tornam-se sua algoz, usurpando para si um poder que não lhes pertence por direito.

De nada irá adiantar que se repita 24 horas por dia que ‘não houve golpe’. Podemos passar anos discutindo a semântica da palavra ‘golpe’ cada qual defendendo um ponto de vista. O fato é que, houve uma ruptura, um pacto foi quebrado, e as chances de que um governo sem legitimidade possa a vir resgatá-lo são praticamente nulas.
A imprensa não irá lidar mais com a classe média bestializada, mas com setores organizados, conscientes e agora libertos de qualquer compromisso com a manutenção do governo.  

Temer, o conspirador, irá herdar não somente um país quebrado do ponto de vista fiscal, mas completamente cindido em vários níveis.

Irá herdar uma República nascida da promessa de uma era de combate à corrupção, mas que já inicia-se desmoralizada com sete ministros investigados pela Lava Jato e manobras para diminuir o alcance das investigações.

Quincas Borba, personagem imortal de Machado de Assis traduzia sua filosofia particular, o ‘humanitismo’, na célebre frase ‘ao vencedor, as batatas’ – como maneira de justificar todos os atos que levem à vitória

Àqueles que procuram naturalizar o conjunto de manobras e farsas, algumas sutis e outras nem tanto, para alterar por completo o resultado das últimas eleições, fica o recado, prenhe de simbolismos, seja pela herança que terão de uma República das Bananas, desmoralizada em sua essência, seja pelo gesto familiar de quem não aceita as condições impostas de maneira arbitrária e sorrateira:


Ao vencedor, as bananas.

* Não consegui identificar o autor da caricatura. A imagem foi publicada pelas páginas 'Mídia Ninja' e 'Jornalistas Livres'.


quarta-feira, 27 de abril de 2016

A República de Temer

Uma análise bastante comum entre historiadores sobre a proclamação da república é a de que não houve participação popular.
Nesse sentido, o quadro de Benedito Calixto traz um registro importante, não tanto pelo que retrata, mas pela ausência que revela.
O historiador José Murilo de Carvalho refere-se a esta ausência do povo como o ‘pecado original’ da República. Dele originam-se todos os outros.
Ali estão os militares e fazendeiros cafeicultores, estes últimos, particularmente decepcionados com o Império que havia acabado com a escravidão, havia pouco mais de um ano.
Quem está na foto na República de Temer?
Eduardo Cunha, e seu congresso-circo, as oligarquias das poucas famílias que comandam a imprensa nacional, a FIESP e seu pato, os ruralistas e suas mãos sujas de sangue indígena, os teocratas fariseus, os neo-fascistas.
Mas, e o povo? Afinal o povo nas ruas teve um papel primordial para forçar a votação favorável ao impeachmeant no congresso. O povo fará parte desta República de Temer?
Ou repetirá as palavras de Cazuza quando cantou “Não me convidaram para esta festa pobre que os homens armaram para me convencer”.
Segundo a pesquisa IBOPE, Temer possui pífios 8% de preferência do eleitorado enquanto 62% dos entrevistados pedem novas eleições. Definitivamente, o povo não está na foto.
Assim como na República proclamada por Deodoro, a Nova Velha República de Temer também não precisa do povo para existir.
Os fundadores da República de Temer estão certos de que havendo legalidade, a legitimidade é supérflua.
Já empalidece o verde amarelo do “povo nas ruas”, desconvidado a participar da patriótica cruzada contra a corrupção.
Talvez por isso, o super-herói da vez, Sergio Moro tenha subitamente, desaparecido das manchetes. Talvez, quem sabe, a Lava Jato continue acontecendo, mas agora sem os holofotes da imprensa, como sabê-lo?
Sem os vazamentos seletivos, as delações premiadas, as citações comprometedoras, as propinas e doações de campanha passam a fazer parte de outro jogo, outro tabuleiro, onde jogarão agora PMDB e PSDB, como peças de barganha interna.
Um cargo, um ministério, a aprovação de uma lei, o esquecimento/arquivamento de um processo contra um adversário ou aliado.
Temer, o ‘capitão do golpe’ nas palavras de Ciro Gomes, por seu turno, provoca as mais incontidas gargalhadas ao referir-se agora ele, como ‘golpe’ a iniciativa que começa a ganhar corpo no senado, da convocação de novas eleições.
Cunha, o ungido, aquele das contas no exterior e da lavagem de dinheiro ilegal de campanha através de uma igreja, tem tudo para ser inocentado no conselho de ética, mas pode vir também a ser sacrificado, caso a República de Temer assim julgue necessário. Há muito mais a ser protegido. A lista da Odebreacht vai longe e certamente, não existe honra entre ladrões.
Bordões como “Fora e PT” e “Pelo fim da corrupção” darão vez a outros: “Tudo pela Governabilidade”, “União pelo Brasil”, “Tirar o Pais da Crise” e etc.
O espetáculo, senhores, não terminou, apenas as cortinas foram cerradas para disputas que agora serão travadas nos bastidores.
O povo nas ruas?
Não precisam mais. Podem se sentar em suas poltronas confortáveis e voltar a assistir seus seriados de TV favoritos.
Leandro Altheman
Publicado originalmente no site de notícias Juruá em Tempo

quarta-feira, 30 de março de 2016

Cai a farsa do ‘apartidarismo’ e MBL pode virar partido político

Leandro Altheman

O Movimento Brasil Livre, principal articulador das manifestações de rua pró impeachmeant rasgou de vez a máscara do ‘apartidarismo’ que desde 2013 foi uma das principais ‘bandeiras’ do movimento.
O grupo, que possui núcleos em pelo menos 173 municípios anunciou que deverá lançar pelo menos dez candidatos a prefeito nas eleições deste ano, além de uma centena de candidatos a vereador.
O MBL tem incentivado a filiação de seus integrantes nos partidos já registrados, em especial PSDB, DEM, PPS e PSC. Seus coordenadores não escondem que as candidaturas desse ano seriam apenas mas a ideia é mais ousada e pretende não apenas transformar o próprio MBL em um partido, como lançar o nome de Kim Kataguiri, principal coordenador do movimento à presidência.
Uma das condicionantes para permitir a filiação de seus integrantes é que os mesmos sejam apresentados como candidatos do MBL.
É positivo que o MBL abrace com clareza suas causas políticas: a defesa do livre mercado e do estado mínimo. O liberalismo é um ponto de vista válido dentro do jogo democrático. O que não é válido é defender um ponto de vista e tratá-lo como verdade imponderável e ‘interesse da nação’ acima de qualquer partido, e esconder-se por trás da máscara do 'apartidarismo'.
É justamente esse um dos discursos precursores do fascismo: negar a existência de conflitos de interesse dentro da nação.

Ataques à Marina Silva
As pretensões do líder do MBL já vislumbram um obstáculo à frente: Marina Silva. Em sua coluna semanal, Kim Kataguiri acusa Marina de ‘petismo verde’, seja lá o que isso possa significar.
Ao explicitar suas posições contra a eventual adversária política e buscar um alvo fora das longas listas de delações e propinas, Kim e o MBL deixam claro que não são apenas um movimento ‘anti-corrupção’, mas que possuem uma posição política definida, um ponto de vista, um ‘partido’.
Em seu artigo, Kim não faz menção a qualquer ‘deslize ético’ de Marina, mas justamente às suas posições políticas.

Empurrada para a esquerda
Caso o impeachmenat se configure, Marina mais uma vez, deverá experimentar o paradoxo de suas posições políticas conflitantes. Se durante nas eleições, seus adversários usaram seu conservadorismo (anti-aborto, anticasamento gay, anti-legalização da maconha), para colar-lhe o rótulo de ‘direita’, agora, seus novos adversários usaram sua trajetória no PT como ‘prova’ de que ela sempre será ‘de esquerda’.

A própria Marina Silva, contudo, defende a ideia de que seja possível transcender a polarização entre ‘esquerda e direita’. Resta saber se isso de fato, é possível, e como.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Marina cresce na Sombra

pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (19/03) aponta que cresceram as intenções do voto na acreana Marina Silva (Rede). Se as eleições fossem hoje, Marina venceria as eleições nos quatro cenários possíveis, independente de qual seja o candidato do PSDB. Na mesma pesquisa, Lula, ficaria em segundo ou terceiro lugar dependendo do cenário. A conclusão possível é de que Marina tornou-se o nome mais forte para disputar a eleição contra os tucanos Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra. Mesmo em uma improvável eleição em que os três candidatos tucanos viessem a disputar, ainda assim, Marina levaria vantagem sobre os mesmos, segundo a pesquisa.


Há muita água para rolar debaixo da ponte, mas é certo que Marina deverá ser novamente o alvo do PT nos próximos dias.

Uma avaliação possível é de é preferível ao PT, perder as eleições para os tucanos e entregar a presidência, do que ver Marina Silva à frente dela.

Tamanha prevenção só se explica pelo que Marina pode vir a significar, caso vença as eleições. Ela, que já é hoje, uma referência internacional nas questões climáticas e ambientais, poderia tornar-se ainda uma figura de tal importância a ponto de ofuscar o lugar que hoje Lula ocupa como o presidente que ‘venceu a fome no Brasil’.

Marina já vem sendo criticada por suas posições por vezes tíbias, por vezes moderadas demais, mesmo quando o assunto é a sua praia: as questões ambientais. Um exemplo comumente lembrado é o da tragédia envolvendo a Samarco em Mariana. Não é verdade. Marina escreveu sobre o assunto nos espaços em que lhe foi permitido. Ainda assim, não há nela, aquela postura militante, indignada, que muitos poderiam esperar em um caso do tamanho e da gravidade de Mariana.

Mas também não é segredo que boa parte das razões que a fizeram romper com Lula, Dilma e o PT, encontram-se justamente na sua relutância em conceder as licenças ambientais para a construção das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio.

Ao contrário do que afirmam muitos petistas, a saída de Marina do PT não teve nada de ‘oportunista’ ou ‘personalista’. Há aí uma divergência de concepção que é fundamental. Enquanto o governo desenvolvimentista de Dilma Roussef aposta (ou apostava) no petróleo do pré-sal, aliado ás hidrelétricas na Amazônia como principal alavanca para o desenvolvimento, Marina faz uma aposta mais utópica, do Brasil como ‘potência ambiental’, por enxergar o enorme potencial do país na produção de energia solar e eólica, na sua biodiversidade, nas suas florestas e rios. Há aí o risco da chamada ‘economia verde’ e de mercantilização da natureza, já alertado por setores dos movimentos indigenista e ambiental. Mas é inegável que seria um passo à frente no país que baseia sua economia nas frágeis comodities.

Ainda que boa parte da população e da classe política enxergue as questões ambientais como um tema transverso, periférico, a decantada produção de soja do país pode ser abalada caso venhamos a ter um agravamento das crises hídricas e climáticas. O mesmo pode ser aplicado à produção hidrelétrica, totalmente sujeita ao regime de águas dos rios, e portanto, às florestas.

Uma mudança na matriz de produção energética do país, tal como propõe Marina  implicariam entre outras coisas, em um investimento massivo em ciência e tecnologia, relegado a um plano pífio durante o governo Dilma. Outra consequência indireta, poderia vir a ser um reaquecimento e realinhamento da economia para atender a esta nova demanda.
Algo que certamente assusta as empreiteiras e partidos políticos que hoje dependem de grandes obras para financiarem suas campanhas e conseguirem as benesses do poder público, num circulo vicioso que só deve parar quando não existir mais nada a ser devorado por essa aliança espúria.
Marina é igualmente criticada por estar sempre ‘à sombra’ dos grandes debates nacionais, o que denotaria ‘oportunismo’ segundo seus críticos.
Pois é justamente este ‘estar às sombras’ que melhor explique o seu crescimento político.  
Marina sabe que para vencer a disputa presidencial de 2018 (e eventualmente antes disso, caso vença a tese da cassação da chapa Dilma-Temer no TSE, defendida pela REDE e pelo PSOL) deverá cativar eleitores hoje identificados tanto com a esquerda quanto com a direita. Qualquer posicionamento mais incisivo, irá fatalmente reduzir o eleitorado de que necessita para tonar-se uma candidatura viável.
A acreana não vai entrar num campo minado, onde não detém nem o poder da mídia, nem o da militância. Seria esmagada e despedaçada em poucas semanas, como o que ocorreu nas eleições de 2014.

Há uma analogia poética possível deste ‘crescer às sombras’, não com os ‘urupês’ – cogumelos que crescem em paus podres, usados como metáfora por Monteiro Lobato para descrever os caipiras do interior do Brasil, mas com a rainha, ou chacrona, arbusto utilizado na preparação do daime, que apesar de ser a responsável pela ‘luz’ das mirações, deve crescer às sombras.    


sexta-feira, 18 de março de 2016

O Chapéu de Duas Cores

Nestes dias em que assistimos ao acirramento político, achei que permaneceria intocável aqui no meu distante buritizal, lá onde o vento faz a curva.

Enganei-me. Primeiro porque é quase impossível assistir impassível a tantas movimentações, que querendo ou não, em algum momento extrapolam nossas razões e atingem o âmago de nossos sentimentos.

Já há algum tempo, por razões bastante conhecidas por aqueles que seguem minhas publicações, havia deixado de lado qualquer apoio político ao PT e à Lula. Em resumo: compartilho com a sensação de boa parte das pessoas ligadas às causas ambientais e indígenas, de que nossa pauta foi completamente rifada pelo atual governo em troca de apoios substanciais de setores como: agronegócio, empreiteiras, bancada teocrática e outros. Isso para mim foi motivo suficiente para retirar o apoio, que até então, prestei ao governo até pelo menos metade do primeiro mandato de Dilma.

Fato é que, a súbita explosão de comoções geradas pela quebra do sigilo telefônico de Lula e Dilma, acabou tocando aquele emocional, lá no fundo, trazendo à tona uma ojeriza acumulada em décadas de percepção de que a Justiça, que hoje ampara aqueles que querem ver o fim do governo Dilma, de Lula, do PT e se possível de toda esquerda, em verdade sempre foi um colegiado de privilégios profundamente empregado de valores do Brasil Colônia. São as ‘excelências’ togadas arrotando direitos tão fora da realidade quanto seus privilégios permitem.

Minha decisão de não ir às ruas, nem de vermelho PT e nem de amarelo CBF não é ‘muro’, mas resultado de um sentimento que somente têm se fortalecido nos últimos dias.
Não me resta dúvida de que Lula, Dilma e o PT, ainda que por meios questionáveis, colhem exatamente o que plantaram. Ou acharam eles que as alianças espúrias com o setor privado sairiam ‘de graça’?
A questão é: o que está sendo semeado? O que vejo é ódio e intolerância. O que as passeatas verde-amarelas transmitem é uma noção de ‘ordem’ que parece advinda de aulinhas de educação Moral e Cívica, e que sim, contém elementos proto-fascistas.

Dito isso, é preciso fazer a ressalva de que nem todo mundo que está de vermelho hoje ‘apoia a corrupção’, do mesmo modo que nem todos que estão de amarelo são fascistas ou proto-fascistas. Pessoas chegam a determinadas conclusões baseadas em aspectos objetivos, mas muito também, por razões subjetivas que as levaram a construir determinada escolha. Se não respeitarmos as escolhas de cada pessoa, tampouco respeitaremos a pessoa por trás delas.
Tenho me rendido cada vez mais à concepção de que tudo o que temos no final das contas, são pontos de vista, já que nossa visão da realidade, por melhor que seja, sempre será apenas um recorte ínfimo da realidade total.
Encerro esse texto, com o conto africano do Chapéu de Duas Cores, que explica, com muita sabedoria, o que busquei expressar através desse texto.

O CHAPÉU DE DUAS CORES

Contavam os mais-velhos que, na Aldeia de Ajalá, havia dois irmãos muito unidos. Eles jamais tinham brigado entre si. Nunca tinham se aborrecido um com o outro. A fama daquela amizade corria as aldeias e todo mundo comentava, fazendo disso admiração geral.
Um dia, Exu andava por aquele lugar e ouviu comentários sobre o fato. Então, ele resolveu fazer um teste sobre a fortaleza daquela amizade. Descobriu os dois irmãos trabalhando num campo, que era dividido ao meio por uma estrada estreita. E eles trabalhavam cantando, cortando o mato com facões bem amolados, conversando sobre diversos assuntos. Aí, Exu pôs na cabeça um chapéu pintado de vermelho e preto, sendo que de cada lado só se via uma única cor.

Então Exu passou pela estrada, entre os dois irmãos e os saudou, dizendo:

— Bom dia, irmãos unidos!

E os irmãos responderam a Exu em uma só voz. Mas Exu passou por entre eles, sempre olhando para frente e seguiu adiante, até desaparecer na curva da estrada. Aí, um dos irmãos perguntou ao outro:
— Quem era aquele homem de chapéu vermelho?
Ao que o outro respondeu:
— Mentira sua! O homem usava um chapéu preto...
O irmão que viu o homem de chapéu vermelho se sentiu ofendido e, pela primeira vez, mostrando-se aborrecido, devolveu a ofensa. E o que tinha visto o homem de chapéu preto ficou aborrecido também. Daí, eles começaram a discutir, num desentendimento sem igual. A raiva cresceu tanto, que eles terminaram se agredindo com palavras. As ofensas trocadas se agravaram e eles terminaram avançando um sobre o outro, armados de facão. Brigaram tanto que se mataram. E porque eles não tinham herdeiros, o campo ficou entregue às feras e às ervas daninhas.
É por isso que, até hoje, nas aldeias, os mais-velhos ainda avisam:
— Se lembre do chapéu de duas cores: Nem tudo é aquilo que parece ser...

segunda-feira, 7 de março de 2016

♫‘Mas o que mais me dói, você escolheu errado seu super-herói’♪

Não, definitivamente, Moro não é herói. Ou talvez seja. Cada um escolhe o herói que quer. Bin Laden pode ser herói. Lampião. Al Capone. Eduardo Cunha. Eu por exemplo, gosto de Gêngis Khan, um cruel assassino. Gosto é gosto.

Moro é o pai de todos os coxinhas, aqueles anti-petistas doentes incuráveis, que por razões que Freud explica muito bem, bradam contra a corrupção de A, mas não se incomodam com a de B. Para estes, basta ‘tirar o PT’ do poder, e o arco-iris irá brilhar no horizonte, livrando-nos de todo o mal, amém.
Moro criou em torno de si a imagem do garoto incorruptível que quer transformar o Brasil em ‘país sério’.

Em um ‘país sério’, Moro não seria levado a sério. O Moro real não sobreviveria à severidade do Moro da mídia.

Moro pode convencer ‘suas nêga’, mas não a mim. É extensa sua ficha de ‘serviços prestados’ à agremiação política imediatamente beneficiada em 'tirar o PT do poder’. Sua esposa, Rosângela Moro, é nada menos que assessora jurídica do PSDB do Paraná, partido que vem sendo sistematicamente tolerado nos vazamentos seletivos à imprensa na ‘Lava Jato’.

Em um país sério, isso já seria o bastante para, no mínimo, por em cheque sua capacidade de julgamento sobre o caso.

Moro é um canalha, mas isso não faz de Lula e o PT ‘vítimas inocentes’. Moro é exatamente o tipo de canalha que Lula merece no seu calcanhar.

Porque Lula, meus caros, também não é ‘herói’. Bem, talvez seja para alguns. Como Stalin é herói. Hitler para outros ainda é. Tem quem curta Bolsonaro. Sadam Hussein já teve estátua no Iraque. O ladrão contumaz Fujimori ainda é querido no Peru e eu não duvido que até o Idi Amim Dadá deva ter seus fãs lá pras suas bandas em Uganda. Eu por exemplo, quando assisto os “Dez Mandamentos’, sempre torço para Ramsés. Gosto é gosto.
 
Sei que o 'pai do pobres' gostaria de ser comparado ao herói-bandido Robin Hood, mas eu duvido que o arqueiro medieval tenha recebido presentinhos do xerife de Nothingan. Isso faria muito mal à sua imagem e Sherwood.

O que diriam vocês, meus nobres leitores, caso soubessem que eu, este ‘orelha seca’ que vos fala, tivesse recebido um ‘presentinho’ substancial de algum político? No mínimo seria questionada minha suposta ‘imparcialidade’ ao microfone, por que, no mínimo, eu teria que ‘pegar leve’ com quem me presenteou, mesmo que os fdps em questão fossem responsável por invasões áreas públicas ou aterros ilegais.

Lula recebeu bem mais que um presentinho, e justamente das empreiteiras que dão as cartas nos grandes projetos de ‘desenvolvimento’ no país.
Lula jamais poderia ter aceitado tal coisa. No mínimo, ele sabe que isso lhe fere não apenas a sua ética e sua dignidade, como o deixa exposto como chefe da nação. Ao aceitar tais ‘presentes’, Lula não apenas mostrou que também ele, e sua história, tem preço como vendeu a nação às empreiteiras de modo vergonhoso.

Lula é no mínimo, um traidor.

Não dá para defendê-lo nessa altura do campeonato. Se está nas mãos de um canalha que usa a máscara do ‘bom-mocismo’ isso deve-se somente ao 'karma' engendrado por sua própria biografia. sua própria ‘biografia’, ao seu próprio 'karma'. Como dizem por aqui ‘deixou pegar na sua munheca’, deixou o rastro de suas sujeiras e agora quer ‘mobilizar’ a nação em sua defesa. Usar o povo como ‘escudo humano’. Covarde.

E que me desculpem aqueles da tese de ‘defesa da democracia’.

A qual democracia deveria sair em defesa? A mesma democracia das empreiteiras, que atropelam direitos fundamentais na construção de hidrelétricas, nas obras da copa e das olimpíadas, que atrasam e superfaturam obras inconclusas? Que financiam políticos de praticamente TODOS os campos políticos?

É em defesa a este mesmo modelo de democracia, que Dilma, em conluio com nosso congresso aprovou a famigerada ‘lei anti-terrorismo’, que vai entre outras coisas, criminalizar os movimentos sociais. Portarias são publicadas, facilitando cada vez mais a essas mesmas empreiteiras, atropelar os processos de licenciamentos ambientais e de consulta às populações afetadas. Todo poder às empreiteiras!

Como cidadão brasileiro, tenho todo direito do mundo de supor que estes e outros ‘presentinhos’, aceitos com tanta docilidade por Lula ajudaram moldar o caráter dessa ‘empreiteirocracia’ de favores tão prestimosos por parte do executivo.

Não contem comigo para a defesa da ‘empreiteirocracia’ a qual Lula se vendeu. Não contem comigo para ir às ruas defender a republiqueta hondurenha de Moro e sua turma.

Você pode até escolher um deles para ser o ‘seu herói’. Mas certamente não são os meus.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cruzeiro do Sul 'exporta' banana para Rio Branco e pequenos comerciantes 'torcem' pelo fechamento da BR

As condições precárias de tráfego na BR 364 não têm impedido a compra de banana no mercado de Cruzeiro do Sul para atender ao mercado da capital.
Diariamente caminhões carregados com o produto enfrentam lama e buracos no asfalto para suprir o mercado riobranquense, onde a banana está em falta.
Segundo a imprensa da capital a razão da escassez seria a menor produção de banana, e o fato de que muitos produtores estariam preferindo vender diretamente para Rondônia.
No mercado de Cruzeiro do Sul, não há falta de banana, e a 'palma' pode ser encontrada por R$2,00 da prata ou maçã, para o consumidor.

Não há escassez do produto, mas preço pode sofrer alteração 

Para o atravessador, o preço do cacho tem saído entre R$6,00 a R$8,00 destas qualidades, podendo chegar a R$20,00 no caso da banana grande.
No mercado, os pequenos comerciantes não tiveram consenso sobre se esta comercialização tem influenciado ou não o preço do produto em Cruzeiro do Sul. Para uma comerciante, por exemplo, o preço já havia sofrido elevação de R$4,00 para R$6,00 reais o cacho antes mesmo de o produto começar a ser comercializado para Rio Branco.
Já outros acreditam que há influência, e que o cacho deve chegar esta semana a R$8,00, igualando com o preço com que tem sido comercializado para Rio Branco.
Bananas Prata, Maçã e Comprida ainda podem ser compradas pelos consumidores cruzeirenses por preços menores que na capital 
A maior parte da banana que é vendida no mercado de Cruzeiro do Sul é produzida ao longo do rio Juruá, e não sofre portanto, influência da intrafegabilidade da maioria dos ramais nesse período.
A produção ribeirinha de banana decaiu muito em decorrência da grande alagação de 2008, que destruiu a maior parte dos bananais do Juruá, mas já apresenta sinais de recuperação.
Outro problema também é a praga da sigatoka negra, que tem motivado a EMBRAPA a difundir uma espécie resistente à praga, mas que ainda representa uma porcentagem ínfima do que é vendido no mercado.

Comerciante 'torce' pelo fechamento da BR 

Na contra mão dos que se preocupam com um possível fechamento da BR 364, alguns pequenos comerciantes de banana não escondem que gostariam que ela viesse mesmo a fechar.
'Era bom que rolasse logo', disse um comerciante que preferiu não ser identificado, mas cuja opinião encontrou eco nos demais colegas que comercializam o produto. Para ele, a possibilidade da venda de banana em Rio Branco significa ter de praticar preços maiores e a consequente perda de clientela, já que a banana é um dos produtos mais populares da cesta básica da região.

Peixe com Banana

E para não perder o costume, o blog Terranáuas oferece hoje também uma receita de banana verde cozida, um prato tradicional indígena, muito consumido no Peru com o nome de 'tacacho', mas também em boa parte do Amazonas e mesmo no litoral brasileiro de influência caiçara.

Corte a banana grande verde em rodelas não muito pequenas e as ponha para cozinhar. É bom que a banana esteja 'de vez' (ou 'verdolenga', como chamam no litoral caiçara). Pode-se optar por cozinhá-las já descascadas, os descascá-las após o cozimento, quando a casca sai mais facilmente.

Então com o uso de um pilão, ou usando o fundo de uma garrafa, ou mesmo um garfo, amassa-se as bananas cozidas até obter uma massa mais ou menos uniforme.

A partir daí, o 'tacacho' pode ser preparado ao gosto do freguês. Em Pucalpa, por exemplo, o tradicional é temperá-la com banha de porco, manteiga ou margarina, e servi-la no café da manhã como 'desayuno'.

Pessoalmente prefiro a opção de temperá-la com azeite de oliva, cebola de palha, pimenta de cheiro, azeitona e milho verde.
Surubim com 'Tacacho': Foto: Arquivo Pessoal

Também é possível refogá-la antes no azeite com cebola ou alho, por exemplo, o que a deixa muito saborosa.

Vale mencionar que o valor nutricional da banana verde é maior do que o arroz, macarrão ou farinha de mandioca.

Segundo o site especializado em saúde e nutrição "Bolsa de Mulher"

banana verde, principalmente quando cozida, contém mais amido resistente do que a madura, um nutriente que não é digerido ou absorvido pelo intestino grosso, mas fermentado, processo que resulta na formação de substâncias que auxiliam a saúde intestinal. “O amido resistente favorece a integridade da mucosa, contribuindo para a correta absorção dos nutrientes e impedindo a entrada de invasores. Com esta barreira, é possível prevenir diarreias, obstipação e até o câncer”, explica a nutricionista da clínica Super Healthy, Paola Moreira.


Se não bastassem todos os benefícios para o intestino, a banana verde apresenta baixo índice glicêmico, ou seja, distribui o açúcar lentamente pelo corpo evitando picos de insulina e contribuindo para a sensação de saciedade. Isso significa que ela é uma grande aliada para quem quer emagrecer de forma saudável.

“Graças ao valor reduzido do índice glicêmico, a banana verde ainda é capaz de prevenir o desenvolvimento do diabetes tipo 2 e o acúmulo de gordura corporal, além de atuar na redução do colesterol e, desta forma, auxiliar na prevenção do desenvolvimento de doenças do coração”, afirma a especialista.  

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Três é pouco

Hoje, em conversa com um motorista que percorre a BR 364 pelo menos duas vezes por semana, o mesmo confirmou a prática de baldear carga a mais de alguns empresários. A prática aconteceria principalmente em Feijó. Mas não seriam apenas três conforme afirmei na reportagem de ontem.

O motorista, que também é empresário, cujo nome não revelo nem sob tortura, acrescentou mais nomes à lista divulgada ontém.

Além dos já mencionados Assem Cameli e Tião Cameli, o excesso de carga na BR também estaria sendo cometido pelo empresário Donário, da Empresa MD Construção, que atua nos ramos de construção civil, combustíveis e navegação.

Ainda segundo esta fonte, a Transportadora Pimpão, que traz combustível para Cruzeiro do Sul também estaria praticando sobrecarga na BR.

'Detonada' por excesso de carga, rua permanece interditada em Cruzeiro do Sul

Há cerca de um mês os moradores da rua Joaquim Távora no bairro do Cruzeirinho Novo têm o seu direito de ir e vir limitados pela interdição da via.

A via foi danificada, reparada e novamente danificada incontáveis vezes por caminhões caçamba carregados de barro.
Segundo moradores, caminhões com excesso de peso, e de velocidade, transitaram por mais de um ano no local. a prefeitura chegou a reparar os danos causados, mas continuamente danificada e sem condições de tráfego, a via foi interditada.

Ainda segundo moradores do local, o atual secretário municipal de obras, Mauri, o também vereador pelo PMDB, 'Sinhô', afirmou que irá conversar com o empresário responsável pelos danos causados à via, contudo, a rua permanece interditada ha cerca de um mês.
A maior parte do barro retirado de uma jazida localizada na própria rua e que teria sido o responsável pelos danos à via foi utilizado para construir um aterro no bairro do Miritizal, destinado à um empreendimento comercial do empresário Tião Cameli.
O aterro é apontado pelos moradores do Miritizal como principal causa dos alagamentos que afetaram as residencias em parte do bairro.
O empreendimento no bairro do Miritizal foi realizado sem o devido licenciamento ambiental, o caso foi levado ao MP e o empresário teve de assinar um TAC - Termo de Ajustamento de Conduta.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Quem são os empresários que estão 'detonando' a BR?

O péssimo estado da BR 364, já beirando as raias da intrafegabilidade, como sempre, tem motivado as velhas acusações de superfaturamento na obra, por um lado, e de utilização acima do peso permitido, por outro.

As declarações do governador Tião Viana, em pelo menos dois meios de comunicação da capital, de que alguns 'empresários do vale do Juruá, de maneira criminosa estariam burlando a fiscalização em Sena Madureira e passando com cargas acima do permitido', causaram rebuliço, com os tradicionais meios de comunicação de oposição tentando imputar a acusação à todo empresariado.

O senador Gladson Cameli (PP) rebateu as acusações, afirmado que as mesmas, feitas de maneira genérica, serviriam, segundo ele, para criminalizar toda a classe empresarial da cidade. 

Sem isentar a responsabilidade do governo do estado pelas péssimas condições da rodovia, entregue ao DNIT, o superintendente do órgão federal para Rondônia e Acre, Sérgio Augusto Mamany, reiterou as acusações feitas por Tião Viana de que comerciantes de Cruzeiro do Sul atuariam como os principais responsáveis pela destruição da rodovia.

Segundo ele, carretas que levam mercadoria para comerciantes em Cruzeiro do Sul, trafegam com cargas de até 70 toneladas, quando o peso máximo permitido em portaria expedida pelo órgão é de 18 toneladas.
“Nós demos uma abertura para que casos emergenciais pudessem passar com o peso acima do permitido, mas se utilizaram dessa abertura e estão passando com todas as cargas como se fossem emergencial e isso contribuiu sobremaneira para a danificação da rodovia. Embora a gente tenha um posto de pesagem (Bujari), não conseguimos evitar esse tráfego”, disse ele. (Fonte: AC 24 Horas.)
Segundo informações internas, a  'malandragem' destes comerciantes seria embarcar a quantidade permitida de carga até Tarauacá e a partir dali, embarcar uma quantidade acima do peso permitido, aumentando seus lucros individuais e socializando o prejuízo pela estrada com o restante da população. Não por acaso, a rodovia apresenta as condições mais críticas de trafegabilidade justamente no trecho Tarauacá-Liberdade. A balança do rio Liberdade, que poderia fazer esta fiscalização está fechada desde que o DNIT assumiu a rodovia.

A preocupação com os danos provocados pelas carretas bi-trem à BR 364, foi trazido pelo responsável pela empresa Colorado, Linker Cameli, durante uma conversa com o governador. A Colorado é uma das quatro empresas designadas para as obras emergenciais de recuperação da rodovia. 

Apesar da aparente irritação do senador Gladson Cameli sobre a não divulgação dos nomes que estariam atuando com esta prática, ele, mais que ninguém deve ser o sabedor de quem são estes empresários.

Em Cruzeiro do Sul, são três os empresários que atuam com as tais carretas bi-trem na BR 364: o primeiro deles, é o próprio presidente da Associação Comercial do Alto Juruá, Assem Cameli, o segundo é o empresário do ramo de materiais de construção e combustíveis, Tião Cameli, e o terceiro, seria também um empresário do ramo de combustíveis, que não pode ser identificado pessoalmente até o presente momento.

Trechos Consolidados

O péssimo estado da rodovia encontra-se em um trecho específico, entre Tarauacá e o rio Liberdade, justamente o trecho, onde suspeita-se de que o excesso de carga tenha promovido danos acima do esperado.

O que pouco se comenta, é de que os dois trechos: entre o Juruá e o rio Liberdade e entre Rio Branco e Sena Madureira, apresentam condições muito boas de tráfego.

As boas condições da pista nestes trechos servem para alimentar o 'mito' de que a estrada quando feita por Orleir Cameli tinha mais qualidade.

O fato é que estes são justamente alguns dos trechos mais antigos da rodovia e também já foram refeitos algumas vezes. Na região entre Santa Luzia e o rio Liberdade, onde a estrada foi feita durante o governo Jorge Viana, a pista também teve de ser refeita pelo menos duas vezes. 

O mesmo vale para a região entre Sena Madureira e Rio Branco. Feita pela primeira vez por Orleir Cameli, a estrada passou por diversas manutenções e até bem pouco tempo também sofreu abalos e desbarrancamentos nas laterais.

Parte do problema pode ser de fato explicado pela questão do solo, como tem alegado o governo do estado, e como o próprio DNIT admite nesta nota, em que sugere maiores estudos técnicos e prevê inclusive, possível acréscimo no valor do km asfaltado. 

Contudo, apesar da velha tendência para que o juruaense, sinta-se único em suas agruras, vale lembrar que a rodovia entre Porto Velho e Rio Branco passou por processo semelhante, ainda que o solo seja mais propício à rodovia neste trecho. Segundo caminhoneiros que trafegaram nesta rodovia em seus primórdios, a rodovia levou pelo menos 20 anos para que fosse 'consolidada', ou seja, para que o leito, mais compactado, sofresse menos danos com o peso dos caminhões. 

Ainda assim, quem tiver a oportunidade de conhecer o que o excesso de peso pode fazer mesmo a uma rodovia já 'consolidada', sugiro um passeio pela mesma BR 364 entre Cuiabá e Rondonópolis, onde, por razões políticas que me fogem à compreensão, as balanças e postos rodoviários permaneceram desativados durante meses.

O mesmo vale, inclusive para a própria malha urbana de Cruzeiro do Sul. No bairro do Cruzeirinho Novo, por exemplo, o tráfego de caminhões caçamba carregados com peso acima do suportável para a via, tem acabado com o asfalto nas ladeiras do bairro. Afinal, empresários com os nomes 'certos' podem sempre contar com a leniência e subserviência do poder público. 

A expectativa de muitos, é que a estrada após continuas manutenções possa aos poucos ser toda ela 'consolidada'. Algo que demandaria, tempo, dinheiro, e principalmente a colaboração dos principais interessados na manutenção da rodovia, já que durante décadas, foram estes mesmos comerciantes que praticaram preços estratosféricos de suas mercadorias, alegando a falta de um acesso terrestre para extorquir a população da cidade.