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sábado, 29 de maio de 2010

Por que a Bolívia?


" Sem poder atacar a Lula, Serra volta seu rancor contra o presidente Evo Morales da Bolívia."

Leandro Altheman

É esta a inteligentsia que quer governar o Brasil. Que imputa a Lula a pecha de iletrado e ignorante. Enquanto Lula discute o diálogo entre as civilizações, o sujeito atira pedras no vizinho, um governo democraticamente instituído. É mais fácil creditar à Bolívia o problema da violência do que admitir que a segurança está fora de controle em SP. Ou melhor, sob controle do PCC.
Mas, não é a Bolívia o mair produtor mundial de cocaína. O posto cabe à Colômbia, aliado incondicional dos EUA há muitas décadas.
O fato é que a Bolívia, país de maioria indígena, somente agora começa a tomar em suas maõs o seu próprio destino. A Bolívia é uma terra prodigiosa em termos de riquezas minerais. Por séculos foi um quintal explorado pela minoria criolla (brancos descendentes de espanhóis). Antes de Morales era uma verdadeira terra de ninguém onde qualquer um vinha e fazia o que queria (fazendeiros brasileiros também descobriram esta paradisíaca "terra sem lei", especialmente em Santa Cruz) enquanto a maioria da população, indígenas vivendo há milhares de anos naquela terra, continuavam sem os direitos básicos, à saúde, educação e à terra em que seus ancestrais são sepultados muito antes de Colombo. Será este o modelo defendido por Serra para o Brasil?

Evo Morales é índio Aymará, um dos povos mais antigos das Américas. Precursores dos Incas, os Aymará construiram o vasto Reino Tiwanacota, às margens do lago Titicaca, ainda quando os futuros Incas eram apenas uma tribo em meio a tantas outras.
Evo pôs em curso um processo irreversível de autonomia das populações tradicionais, legítimos donos desta riqueza. Um banho de água fria nos interesses do capitalismo. Por isso é alvo de ataques.
Coca

A folha de coca é uma dádiva para os povos andinos. Sem ela é quase impossível trabalhar, se locomover, enfim, viver a uma altitude de 4 mil metros ou mais. Somente a Coca consegue adequar o metabolismo humano a viver nestas altitudes. Por isso para os povos andinos ela é tão importante.

Foram os laboratórios dos EUA que criaram a partir da coca, a cocaína. Inicialmente um anestésico poderoso(ainda utilizado pela medicina), ela se converteu em droga a partir da década de 1920, quando era vendida em farmácias como remédio para dor de cabeça.
Ou seja, em 5 mil anos de história, a coca foi uma planta medicinal, sagrada para estes povos. Em menos de 20 anos, os laboratórios, a transformaram em uma das piores chagas da humanidade.

Os EUA ainda acreditam que a melhor forma de erradicar a cocaína é destruir as plantações na América do Sul. O programa de erradicação da Coca, na Bolívia criou uma reação através de um movimento nacional, os chamados "cocaleros", plantadores tradicionais da Coca. entre eles, surge o líder, Evo Morales. "Erradiquem seus narizes" dizem os cartazes do movimento cocalero. Um claro recado de que os viciados são problema dos EUA, que devem resolver em casa e não usando o seu aparato financeiro-militar contra nações pobres e povos espoliados.
Morales, como líder cocalero e índio aymará luta para resgatar a dignidade de seu povo e a Coca é um símbolo desta resistência.
Socialismo Andino
O fato é que a Bolívia é hoje o maior exemplo de revolução em curso. Enquanto no Brasil ainda estamos no processo de tranformar os pobres em classe média, lá a discussão vai bem mais além.
É socialismo indígena, com discussão ambiental, cultural e espiritual na pauta. Nas alturas andinas, surge um novo paradigma, mostrando que há socialismo sim. Muito além do muro de Berlim, a Bolívia vive hoje a primeira experiência socialista tal qual propôs Mariátegui.

Imagens: 1)Morales em vestimenta tradicional aymará durante cerimônia de posse na antiga cidade aymará de Tiwanaco.
2) A ilustração dá uma idéia da dimensão sagrada da Coca. O gesto de segurar três, ou quatro folhas a frente é uma forma de desejar bençãos. Uma tradicão milenar.
3) a Wipala, bandeira tradicional que simboliza a união dos povos andinos.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mariátegui: Pensador do Socialismo Indígena

Leandro Altheman


A idéia de que a vida comunitária dos povos indígenas da América poderia servir de base para um novo tipo de socialismo, precisava de um teórico que pudesse romper as barreiras do marxismo ortodoxo e enxergar na realidade particular dos povos indígenas, a possibilidade de uma revolução autêntica. Este teórico é José Caros Mariátegui. Peruano de Moquégua, já nos anos 20 do século passado, viu esta possibilidade real. Hoje assistimos ao fenômeno Evo Morales, na Bolívia, em parte fruto destas reflexões que começaram na década de 1920 com Mariátegui.


* Ilustração de capa do jornal "Amauta" editado pr Mariátegui. A palavra "Amauta" em quetchua que significa "sábio" ou simplesmente "semeador".

Seguem abaixo a seleção de algumas frases de seu livro: “O Homem e o Mito”. O que surpreende é que Mariátegui deixa de lado o materialismo para propor a necessidade de um mito que possa catalizar o potencial revolucionário.


“Todas as pesquisas da inteligência contemporânea sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a civilização burguesa sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma esperança. Ausência que é a expressão de sua falência material. A experiência racionalista teve a paradoxal eficiência de conduzir a humanidade à triste convicção de que a Razão não lhe pode oferecer nenhum caminho. O homem ocidental colocou, durante algum tempo, no retábulo dos deuses mortos a Razão e a Ciência. Entretanto, nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo.”


“Mas o homem, como a filosofia o define, é um animal metafísico. Não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica da vida. O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. “


“O que mais nítida e claramente diferencia, nesta época, a burguesia e o proletariado e o mito. A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei num artigo sobre Gandhi, e uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais.”


Face aos acontecimentos na América do Sul, com a organização dos movimentos indígenas e camponeses demonstrando uma formidável capacidade de organização e de ocupação de um certo vácuo-político ideológico pós-guerra fria e pós-neoliberalismo, uma releitura de Mariátegui é essencial para a melhor compreensão destes fenômenos.


Na Bolívia, forças ancestrais de um tempo anterior aos próprios Incas são despertadas por um ideal próprio de socialismo, renovado por mais paradoxal que seja, nos mais profundos mistério das tradições.