quarta-feira, 30 de julho de 2014

Arimatéia: "O negro não veio aprender a trabalhar no Brasil, ele veio ensinar"

Em entrevista no Programa Juruá Notícias, o professor José de Arimatéia deu uma verdadeira aula sobre a importância da cultura afro no Brasil.

Em Cruzeiro do Sul para organização do I Encontro de Cultura Afro, José de Arimatéia, representante da CERNEGRO (CENTRO de Referência da Cultura Afro no ACRE) e da Secretaria estadual de Direitos Humanos falou sobre os objetivos do encontro.  

“Nossa intensão é pegar as sementes do que existe de cultura afro no Juruá e fortalecer.
Entendemos que a cultura afro tem que deixar de ser apenas folclore e lembrar apenas nos dias 13 de maio e 20 de novembro. Queremos que esta cultura seja constante, e isso tem que ser fomentado pelo poder público. Saúde e educação, segurança e obras públicas são papel do estado, mas cultura também é um preceito constitucional. Isso só é válido quando é local, não queremos importar nada, por isso somos parceiros de entidades que já existem aqui.”

JN

- Hoje se fala muito da violência contra o negro. No Brasil, os maiores índices de violência atinge principalmente jovens negros, moradores das periferias.  E a cultura negra também sofre violência simbólica?

“Sim, até porque o dominado não conta sua historia.
O negro que veio escravizado dentro do navio era produto de guerra. Ali haviam nobres, generais, médicos. Haviam cristãos inclusive, porque cristãos foram sim escravizados. Na África foi construída a primeira catedral cristã.
Julga-se que eram pessoas que não sabiam nada. Vieram para o trabalho braçal. No entanto a cultura econômica brasileira veio naqueles navios negreiros. O problema é pensar a cultura negra somente como folclore.
A criação de gado, por exemplo. Quem trouxe o sistema de criação extensiva de gado foram os negros, já que na Europa, havia a criação intensiva, em pequenos espaços.
Boi-bumbá, Sinhazinha, negrinho do pastoreio, são elementos que estão no folclore, mas que vieram desta cultura econômica trazida da África. Desta cultura afro de cuidar de gado.
O negro não veio aprender a cuidar do gado, ele veio ensinar. O negro veio para o Brasil para trabalhar na mineração, mas ele não veio aprendera tirar ouro, ele veio ensinar, porque já existia esta cultura da mineração na África. A fundição brasileira, também veio de lá.
O negro não veio aprender, veio ensinar.
Mas quando se fala de negro, se pensa logo em feijoada, capoeira e samba. Estes são elementos essenciais na nossa cultura, na África, também tínhamos festas. Agora folclorizar e reduzir, isso é o problema. É não entender a cultura brasileira e tirar dele elementos essenciais.
Saúde
Há dez anos o SUS veio falar de acolhimento. Na cultura Banto, isso existe há dez mil anos. Porque algumas doenças não são somente do corpo, mas da mente. Quando se chega numa casa de santo, num terreiro onde uma mãe de santo, um pai de santo, vai fazer o papel de psicólogo, doutor, alguém que lhe escuta. Muitas doenças de hoje, é só falta de alguém para te ouvir.
Ubuntu
Empoderamento é uma palavra nova, mas na cultura Banto o conceito já existe. Vem através da palavra Ubuntu que significa “eu sou o que eu sou porque nós somos”. Então você tem poder igual a mim. Tenho que dar para você a mesma chance que eu dou pra mim. Quem dá importância dá poder.  
O preconceito neste país é a redução. Reduzir o negro ao canto à dança.
Muitos inventores foram negros*, mas isso não é interessante dizer que este povo escravizado o negro contribui com algo mais do que a sua força braçal
O negro até pouco tempo era retratado só do pescoço pra baixo: futebol, samba e bunda.
Nós temos cabeça também, a contribuição negra é intelectual."


*Vale a pena conferir a lista de inventores negros no arquivo Geledés

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Amazônia: Território do Colonialismo e do Imperialismo Verde-Amarelo


Leandro Altheman

O simpósio promovido pela Fundação Maurício Grabóis durante o segundo dia da 66ª SBPC, em Rio Branco Acre debateu o tema do desenvolvimento na Amazônia sob diferentes pontos de vista. Participaram do simpósio Aldo Arantes, diretor-presidente do INMA;   Ênio Candotti presidente de honra da SBPC e Otávio Alves Velho, antropólogo e cientista político e social, ex-vice-presidente da SBPC.

Colonialismo 

Ênio Candotti foi crítico em relação aos megaprojetos de desenvolvimento na Amazônia. Para o cientista, a falta de pesquisa compromete o resultado. Citando mineração e hidrelétricas, Candotti questionou o fato de que estes projetos geram energia e riqueza para uma parte do país, sem que isso, contudo, se reflita em uma significativa melhora no IDH das populações regionais da Amazônia.
“Além da discussão sobre a real necessidade das hidrelétricas, existe uma relação entre poder central e periferia que são típicas de uma relação colonial. A Amazônia é tratada como fonte de matéria-prima para o desenvolvimento do resto do país.” 

BRICS

Aldo Arantes tratou do tema da cobiça internacional sobre a Amazônia e da necessidade de um projeto integrado de desenvolvimento que servisse como um elemento de defesa e permita aos brasileiros se apropriarem da riqueza. Aldo citou a carência em pesquisa como um dos obstáculos a serem vencidos. Outro obstáculo seria o capitalismo regional predatório do agronegócio, a quem ,segundo Aldo, não interessaria este desenvolvimento integrado.
Aldo defendeu a retomada do Programa Amazônia Sustentável, do Governo Lula, mas com metas mais claras. Para ele, o novo banco dos BRICS poderia financiar um projeto integrado de desenvolvimento na Amazônia, não apenas no Brasil, mas nos oito países que fazem parte da região.
“A SBPC poderia tomar a frente às negociações com o governo federal para isto”, sugeriu Aldo. 

O índio e a esquerda brasileira

O terceiro palestrante foi Otávio Guilherme Alves Velho, Cientista político e Antropólogo.
Otávio chamou a atenção para o fato de que a esquerda brasileira ainda não formulou uma base de pensamento consistente em que as questões indígena e ambiental estejam contempladas. Segundo o antropólogo, nos países vizinhos da América do Sul, há pensadores de esquerda que já avançaram mais nesta discussão e citou o sociólogo peruano Aníbal Quijano. Quijano é um crítico daquilo que chama de visão eurocêntrica da esquerda latino-americana.
“A existência do índio e da questão ambiental podem ter um caráter revolucionário nas bases do nosso pensamento. É um valor que nos obriga a mexer com a nossa visão e a nossa mentalidade.”
Em sua fala, Otávio ampliou o conceito tradicional de soberania, dizendo que o mesmo aplica-se aos direitos dos povos indígenas e tradicionais, em questões como a soberania alimentar, por exemplo.

Imperialismo Verde-Amarelo

O antropólogo chamou a atenção para aquilo que vem sendo chamado de “imperialismo verde-amarelo” em que empresas com base no Brasil reproduzem uma relação imperialista com países e povos da América Latina e da África.
“É preciso ter uma solidariedade com estes povos. Uma noção de solidariedade além da nacional.”

Jornalista lança livro sobre experiência com planta sagrada para indígenas

O jornalista acreano Leandro Altheman lançou, na última quarta-feira, 23, no Memorial dos Autonomistas, em Rio branco, o livro “Muká- A Raiz de um Sonho”.
A obra surgiu de uma experiência que o autor teve com a raiz muká, planta sagrada para o povo Yawanawá, de uso extremamente restrito até mesmo entre os membros da aldeia, sendo reservada para processo de aprendizagem, formação e maturação das lideranças espirituais, os pajés.
“Tive a experiência com o muká durante quatro anos, tempo em que fiz minha formação espiritual na aldeia. Desse período passei três meses isolado. A raiz é mascada e você consome o sumo. Você sonha com muita clareza e a capacidade de concentração aumenta. O efeito é progressivo, vem com o tempo, por isso é importante o isolamento para fazer uma dieta”, explica Leandro Altheman.
O jornalista diz que durante o tempo em que ficou isolado ele fez um diário com as experiências que teve. “O livro surgiu das anotações que eu fazia durante o período em que fiquei na aldeia. Relatei nesse diário os sonhos que eu tive. Daí surgiu a ideia de fazer o livro”.
A obra “Muká- A Raiz de um Sonho” é encontrada nas livrarias Paim, Formato e Nobel, na capital, por de R$ 40. Em Cruzeiro do Sul, também na livraria Paim, o preço é R$35.

sábado, 12 de julho de 2014

A culpa é de Abrãao ?

Um amigo meu, judeu não-praticante, quando perguntado sobre quem seria de fato o culpado pela crise na Palestina, apontou não para os mísseis do Hamas, mas em uma direção bem mais improvável.

- A culpa é de Abraão!  

Perplexos, perguntamos porque o patriarca que quase imolou vivo seu filho para a honra de seu Deus, seria o culpado da atual crise.

- Ele comeu a empregada e fez um filho com ela, Ismael, da qual descendem todos os árabes. Se ele não tivesse feito isso, não existiriam nem árabes e nem palestinos e todos estariam em paz no oriente.

Para aqueles que gostam de tirar lições morais da bíblia esta seria certamente uma bastante explícita: não coma sua empregada, ou se comer, use camisinha.

Rir é uma forma de tirar o poder aparente das coisas. É exatamente o contrário do que o medo faz: dá poder às ilusões.

Se fosse possível  deixar de lado o tema religioso e fazer um esboço meramente geopolítico da situação minha análise seria simples: O Estado de Israel é a parte mais importante da política do ocidente para obter hegemonia no oriente médio. Uma colônia européia e estadunidense no oriente. É assim que os árabes a encaram.

Mais do que isso, o Estado de Israel tal como se propõe é uma impossibilidade lógica que só pode ser mantida pelas forças das armas e da ajuda externa (exatamente o caráter de uma colônia). Como estado democrático, Israel estaria fadado ao fracasso, uma vez que desde sua criação, a população judaica é minoritária. À força de uma política de estado capaz de deixar  saudades do regime de apartheid na África, os judeus vem conseguindo, artificialmente, manter uma falsa maioria sobre o estado. Para isto, os expedientes utilizados incluem a expulsão de palestinos de suas casas, a proibição de retornarem para suas residências quando se ausentam, a proibição, inclusive, da captação de água da chuva para irrigação. 

Enquanto isso, com o apoio da comunidade judaica internacional, mais e mais colônias vão sendo criadas ao redor de Jerusalém Oriental (Palestina) e na Cisjordânia e Faixa de Gaza ocupada, em claro desrespeito às resoluções da ONU.

O Estado de Israel só pode sobreviver desta maneira: como uma colônia apoiada externamente e com um regime igualmente fundamentalista.

O maior temor dos israelitas é de que uma Israel “democrática” seria progressivamente assediada e fatalmente varrida pela onda do fundamentalismo islâmico.

Esta é justamente uma das razões pela qual o tema religioso não pode ser colocado de lado na questão. E com isso voltamos a Abrãao, “pai” das três maiores religiões do planeta: judaísmo, cristianismo e islamismo.

O judaísmo é a mais antiga, a raiz das outras duas. O Torah Hebraico e o Pentateuco cristão são praticamente coincidentes.

Os hebreus continuam até hoje esperando a vinda do messias que iria restaurar a glória da antiga Israel dos tempos de Davi e Salomão. É exatamente em cima desta promessa que se constrói o sonho do Estado de Israel, portanto a questão religiosa é de fato, indissociável da geopolítica.  
Jesus disse que viria trazer o reino dos céus e recusou a disputa política necessária para a restauração do “Reino de Israel” e exatamente por esse motivo teria sido rejeitado pelos judeus.

Para um judeu, Jesus não passa de um mentiroso. Se ele não veio restaurar Israel, ele não é o filho de Deus e por isso, só pode estar mentindo. A grosso modo é isso.

Quando, séculos mais tarde surge Maomé, o mesmo declara a santidade de todos os profetas do passado, inclusive de Jesus. Neste ponto, a doutrina de Maomé é mais inclusiva que a dos judeus: aceitam Jesus não como Deus, mas como um profeta, um anunciador da palavra. Para os judeus ele não é uma coisa nem outra, se não, apenas um mentiroso.

Os judeus continuam seguindo sua fé monoteísta. Passaram por muitos percalços ao longo da história, o que certamente é uma prova de resistência e lealdade para com sua fé. Mas como eles já são o povo escolhido, significa também que o resto do mundo pouco importa. É uma fé excludente por definição.

Talvez por isso, a frase dita em tom de brincadeira pelo meu amigo judeu, reflita de fato, um pensamento comum entre os judeus mais radicais: os árabes não passam de uma escória que descende de uma “pulada de cerca de Abrãao”. E como filhos ilegítimos não teriam direito à herança alguma, seja ela qual for.  

Já os islâmicos não rejeitam as anteriores doutrinas abraâmicas (judaísmo e cristianismo), mas para eles, o Islã, a verdade revelada pelo profeta, seria uma espécie de “cereja do bolo”, o supra-sumo da revelação divina.

Convenhamos que, se a verdade única repousa em um único Deus, a doutrina islâmica é mais coerente e mais simples que a cristã. Nada de Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus só único e pronto. Santos, profetas, Jesus e a Virgem Maria, todos são dignos de respeito, mas só Alá é Deus. Para eles, tornar-se islâmico significaria retornar ao estado primordial do homem, de submissão à vontade divina. Por isso não falam em conversão, mas em reversão ao Islã. É portanto, inclusiva.
Talvez por isso que seja justamente o islamismo, a fé que mais cresce no mundo.  

Mas o que eu acho realmente incrível nisso tudo é o papel desempenhado pelo cristianismo.

Trata-se de uma fé basicamente grega e latina, ocidental portanto. Para um bom cristão, Jesus teria abolido completamente o caráter racial excludente original do judaísmo. A ideia de um Reino de Israel para escolhidos é substituída pela ideia (mais inclusiva) de um Reino dos Céus, para todos (que o aceitarem). Mas apesar disso, as referências culturais e civilizatórias continuam sendo provenientes daquela parte do mundo.
É por isso, que para um cristão, o senhor é seu "pastor" e não seu "agricultor", ou seu "minerador", ou seu "pescador", ou seu "caçador". É uma questão de referência civilizatória. É por isso que mesmo na megadiversa Amazônia estamos ainda sujeitos e atrelados a referenciais que surgiram na estéril e desértica Palestina. É por isso que dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo quando algum cristão menos esclarecido vem me dizer que "na bíblia não fala nada sobre a ayahuasca" E que portanto, ela só poderia ser "coisa do diabo". 
Bem, também não fala sobre mandioca, açaí ou guaraná, mas conta uma história bem interessante de Moisés conversando com uma planta.

Em outro momento, falarei mais da potencialidade genocida que é tomar referenciais culturais locais por universais e de como isso, entre outras coisas, está de fato, nos levando ao "fim do mundo".   

Ao contrário de árabes e judeus não há para o cristão qualquer tipo de ligação étnica com o patriarca Abrãao. Contudo, seus sacerdotes continuam a proferir que o fiel, na vida após a morte, encontrará paz no “seio de Abrãao”.

Com tanto lugar no universo, querem te mandar logo para o colo do sujeito que começou com essa confusão toda. Muito consolador.

Fico imaginando, Abrãao, como um sujeito normal, honesto, trabalhador, mas que deu uma escorregada com a empregada, como muitos o fazem até hoje e acabam tendo problema com a paternidade ilegítima.
Em algum lugar do universo vão chegando as almas de judeus e palestinos mortos,e Abraão vai ter que dar um jeito de acolher tanto a ismaelitas quanto israelitas.

Homem, ponha-se no lugar de Abrãao.
E além destes, ainda vão chegando as almas dos cristãos, gregos, latinos, ibéricos, germânicos, anglicanos... Talvez comecem a chegar também negros da África e índios das Américas ... todos terão também de ser acolhidos agora no "seio de Abrãao"

Vendo aquele monte de gente procurando o "Seio de Abrãao", sua mulher, Sara, o olha desconfiada imaginando quão longe pode ter ido a infidelidade do marido. Abrãao advinha o seu pensamento e diz:

- Estes não Sarinha, estes não fui eu...eu juro.

Mulher, ponha-se no lugar de Sara. O que ela diria? Eu imagino que seria algo assim:

-E eles não tem pai, não? Vão procurar o pai de vocês!

(Me diz, se não daria uma bela comédia?)

Mas eles não podem encontrar o pai deles, porque os obrigaram a esquecer seus próprios ancestrais e adotar uma ancestralidade alheia.

Seio de Abrãao!

Se realmente existe vida após a morte, o “seio de Abraão” seria o último lugar que eu gostaria de ir.  

Mais tarde eu continuo falando sobre o assunto... em: O Apocalipse nosso de cada dia... 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sacrifícios Humanos de Maias e Astecas: mais uma mentira da Igreja Católica?

Para antropólogo mexicano, sacrifícios humanos de maias e astecas foram inventados para justificar invasão das Américas.

Seria a primeira vez que a Igreja Católica teria mentido?

Frank Díaz

O MITO dos sacrifícios humanos na Mesoamérica

Antes de cair Tenochtitlan, os espanhóis viveram por dois anos com o povo de Anahuac.
Nenhum espanhol testemunhou sequer um único sacrifício humano neste período.
Todas as referências e desenhos de sacrifícios que aparecem nas crônicas do período provem de relatos anteriores.

Pelas leis espanholas só se podem colonizar outras terras, se os seus habitantes cometerem atos de desumanidade ou considerados anti-naturais, como o canibalismo, o sacrifício humano ou sodomia institucional. Portanto, os colonos deveriam inventar ou exagerar para justificar tais atos, se necessário.

Quando os informantes nativos já cristianizados descobriram que os espanhóis precisavam dessa justificativa, houve uma verdadeira avalanche de relatos de sacrifícios humanos que foram incorporados nas crônicas da segunda metade do século 16.
Assim, os informantes puderam manter uma distância a respeito de sua religião ancestral, mesmo à custa de caluniar os seus próprios avós.

A religião anahuaca era muito simbólica e com base nos princípios do mérito e sacrifício, que são exemplificadas por imagens de morte (como a tradicional imagem cristã da crucificação).
Se alguém está inclinado a obter esta informação, é muito fácil de tomar estes emblemas como literais.

Todas as sociedades tiveram formas para se livrar de criminosos e inimigos militares ou políticos, bem como o combate de gladiadores e ritual de auto-imolação. Nenhum criminoso é "sacrificado" ao escalar uma pirâmide para dar alguma dignidade à sua morte. De modo similar, hoje um infrator "frita" em uma cadeira elétrica ou um morre com cocktail químico.

O que poucas sociedades tiveram é uma instituição projetada especificamente para torturar quem discordou da doutrina oficial: a Inquisição. Além disso, seria impossível encontrar outra empresa além do  próprio cristianismo de um caso de sacrifícios humanos tão maciço e sistemático como foram as fogueiras inquisitoriais.

Dois exemplos nos contam a verdade sobre o sacrifício humano na Mesoamérica:

1. Haviam  afirmações de que os maias sacrificavam donzelas no cenote (espécie de laguna subterrânea) em Chichen Itza (México). Quando este foi dragado no início do século 20, foram encontrados os restos mortais de 200 pessoas de todas as idades e sexo. Se considerarmos que o local foi habitado pelo menos 10.000 anos atrás, significariam DOIS AFOGAMENTOS POR SÉCULO, o que parece normal para um bem que cota de tamanho.

2. Alguns pesquisadores respeitáveis ainda repetem o mito de que o jogador de bola mesoamericano era sacrificado após a partida. Eles tiram por literais as imagens de decapitados que aparecem em relevos astecas e maias. Os espanhóis muitas vezes frequentaram esse jogo e o descreveram em detalhes, mas nunca registraram um sacrifício.

O tema do sacrifício humano no México antigo é um exagero de antropólogos e um exemplo da hipocrisia da nossa cultura, pronto para destruir cada último vestígio de uma antiga civilização apenas para encobrir a crueldade chocante e ilegalidade da invasão da América.

Frank Diaz
antropólogo
http://diazfrank.blogspot.mx/

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Lançamento do Livro: "Muká a Raiz dos Sonhos"

Em solenidade nesta  sexta-feira, dia 06,  às 19:30 acontece o lançamento do livro na Biblioteca Estadual Padre Trindade em Cruzeiro do Sul(AC).
Durante três anos, Leandro Altheman participou de três diferentes etapas da formação espiritual dos pajés do povo yawanawá.
A mais avançada delas trata-se do Muká: uma raiz amarga de utilização restrita mesmo entre os indígenas. Segundo a tradição yawanawá, o Muká teria o poder de ampliar a capacidade de sonhar, aumentando a consciência durante o sonho.
“É através dos sonhos que se reconhecem os elementos simbólicos da espiritualidade, como canções e desenhos que compõe o universo cultural yawanawá”, explica Leandro.
No livro, Leandro Altheman descreve mais de trinta sonhos que teve durante esta formação espiritual. Alguns são como “histórias dentro da história”. O fio narrativo também descreve a relação cotidiana dos yawanawá com a terra, o trabalho, e a vida.
Da Redação do juruaonline

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Juiz Federal Eugênio Rosa além de burro, é fariseu

Ao não reconhecer os cultos afro-brasileiros como religiões, o juiz federal Eugênio Rosa de Araújo, além de provar sua total ignorância sobre o tema da religião, seu autoritarismo e  fundamentalismo, mas também deixa revelar traços de um flagrante farisaísmo.

Dizer que uma religião para ser reconhecida como tal, deve obrigatoriamente ter um “texto-base”, significa dizer que o judaísmo e o cristianismo também não eram religiões antes de terem sido escritas.

Aparentemente o juiz desconhece o próprio cristianismo.

Explico. É consensual que os textos considerados sagrados para cristãos, judeus e muçulmanos que compõe o chamado Velho Testamento, derivam de histórias que antes de serem escritas, eram repassadas através da oralidade.

Ou será que o juiz pensa que foi Adão quem escreveu o Gênesis?

Boa parte das narrativas do Gênesis eram histórias para serem contadas ao pé da fogueira, após um dia de pastoreio entre as ovelhas e cabras. Ou seja, em essência, não diferem das histórias que compõe a tradição oral de cultos africanos e indígenas.

Os Salmos foram antes poesias para serem declamadas, aprendidas através da oralidade. Somente depois do cativeiro da babilônia é que foram escritas.

E o que dizer de Jesus?

Se Eugênio Rosa fosse juiz em 30 d.C. Os ensinos de Jesus não teriam valor algum. Afinal de contas, o que ele dizia ainda não estava escrito. Paulo escreveu suas famosas cartas, somente 50 anos depois e o Novo Testamento, tal como conhecemos, só ficou “pronto” no século II depois de Cristo.

Ou seja, além de burro, é também um fariseu.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Mídia e Democracia

Semana passada assistimos ao linchamento de uma dona de casa, equivocadamente confundida com uma mulher acusada de infanticídio. O estopim partiu de um site de notícias.

Não é um caso isolado. Em diferentes situações a imprensa foi responsável pelo linchamento físico ou moral de centenas de pessoas. Os casos vão parar na justiça comum, mas todos sabem que depois de uma condenação na imprensa, reputações, biografias e vidas, são perdidas para sempre.

A mídia hoje é regulamentada pelo mercado. Pelos interesses das famílias que mantém suas concessões públicas através de favores políticos. Pela busca desenfreada de audiência, nem que para isso tenha que se mostrar sangue derramado e vísceras expostas.   
Não há hoje nenhuma liberdade de expressão, ou de informação que contrarie tais interesses.
A grande maioria dos jornalistas que podem expressar suas opiniões publicamente tem este privilégio porque suas opiniões coincidem com a de seus patrões.
A quem interessa esta pseudo “liberdade de expressão”?
Há diferentes propostas de regulamentação da mídia. Uma delas consta no PNDH 3. A idéia é simples: um órgão de imprensa que não siga determinados parâmetros não receberá financiamento público. Hoje temos os parâmetros da comunicação ditados pelo mercado. A questão a ser discutida passa a ser então: que parâmetros queremos?
Ou seja, não se trata de censura, trata-se simplesmente de retirar o financiamento do governo. Quer falar o que quer? Busque patrocínio na iniciativa privada.
Ou será que é justo que o governo brasileiro continue financiando as fortunas de Marinhos, Abravanéis e Sarneys, entre outros tantos, para que estes continuem defendendo seus interesses oligárquicos?
Outra proposta parte da Federação Nacional dos Jornalistas e trata da criação de um Conselho Federal de Jornalismo.
Médicos têm o CRM, Engenheiros dispõem do CREA, Advogados têm a OAB.
Caso um profissional de qualquer uma destas áreas cometer um deslize, tiver uma atitude anti-ética, antes de ir para a justiça comum será julgado pelos seus pares e poderá ter o seu registro cassado.
Porque esta regra vale para engenheiros, médicos e advogados, mas não para jornalistas? O caso da dona de casa linchada é só um exemplo, entre tantos, de que o mau exercício da profissão pode causar a morte (ou até uma guerra em alguns casos, mas deixemos isso para outro momento).

No entanto, a proposta foi rejeitada no congresso, com a alegação de que haveria “censura”. A alegação partiu do mesmo lobby da indústria da comunicação que hoje decide o que eu e você podemos ouvir e assistir nas rádios e TVs que pertencem sim, ao povo brasileiro.

sábado, 19 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca - Locais de Origem

Gayle Highpine


As evidências sugerem fortemente que o Napo é o local de origem tanto do cipó Banisteriopsis caapi quanto do complexo cultural que hoje é conhecido como " xamanismo ayahuasqueiro". Do norte, xamãs e pesquisadores apontam igualmente para o Napo como sendo o local de origem. Brabec de Mori (2011:24), diz: "Entre a maioria dos pesquisadores , há um consenso de que uma "origem" da ayahuasca, embora remota que seja, deve estar localizada nas terras baixas amazônicas ocidentais em todo o Rio Napo. "Um documento, publicado por UMIYAC (União dos curadores Yagé da Colômbia) a partir do ponto de vista dos xamãs indígenas colombianos, menciona a origem do cipó no rio Napo . Escrevendo de Colômbia, Weiskopf ( 2005:115 ) menciona a origem do Yagé como sendo no rio Napo. O antropólogo colombiano German Zuluaga localiza a origem da Ayahuasca ou Yagé no "refúgio" de Napo, que inclui a região do rio Napo ao Putumayo ( Zuluaya 2005:175 ) .

Povos ao norte do Napo para o sul para a origem da ayahuasca e por outro lado, os povos ao ponto sul para o norte ( Gow 1990; Brabec de Mori 2011; Calavia Saez 2011) . Se a ayahuasca tinha originalmente sido difundida juntamente com qualquer uma das plantas da mistura, em seguida, que os de mistura - tanto P. viridis ou chaliponga - provavelmente seria usado em todos os lugares na bebida ayahuasca. A evidência é consistente que o cipó Banisteriopsis caapi originou em Napo e foi difundido a partir de lá. É também evidente que o xamanismo ayahuasqueiro foi totalmente desenvolvido no Napo antes dos aditivos DMT terem sido introduzidos, e eventualmente evoluiram para práticas com aditivos DMT.

Não há mistério de como a sinergia entre B. caapi e as misturas contendo DMT foi descoberta . Ao contrário da crença popular, chaliponga e P. viridisare são psicoativos sozinhos, ambos foram documentados tendo sido usados sozinhos. A prática de misturar outras plantas com B. caapi está bem estabelecida. Mais de uma centena de "misturas" foram documentados, mas o número de plantas que foram misturados com ayahuasca em algum momento é além da conta . A maioria desses "aditivos" não são adicionados para aumentar o efeito psicoativo da ayahuasca ; ao contrário, eles são misturados com ayahuasca , a fim de compreender e comunicar-se com aqueles plantas. A ayahuasca tem um papel de apoio tradicional para outras plantas medicinais .

Mais cedo ou mais tarde a videira se espalhou para os locais onde eram utilizados chaliponga e P. viridis . Como outros medicamentos, cada um deles foi misturado com ayahuasca, e, assim, a bebida ayahuasca contendo DMT nasceu. Por sua vez , cada uma das fermentações contendo DMT espalhou-se a partir do seu próprio ponto de origem. Um mapeamento das culturas que utilizam Chaliponga e daqueles que usam Chakruna como uma mistura, torna o padrão de difusão bastante evidente .

Outra "mistura" que contém DMT é Anadenanthera peregrino, ou angico. Angico, como rapé, tem sido muito utilizado sozinho (às vezes com aditivos ) na Venezuela. Os Piaroa adotaram o uso combinado de angico e B. caapi ( Rodd 2002) , um exemplo de um psicoativo já em uso que foi reforçado pelo B. caapi .

Chaliponga

A sinergia de chaliponga ( Chaliponga / chagropanga ) com B. caapi provavelmente foi descoberta mais cedo do que a sinergia de Psychotria viridis com B. caapi. Os Napo Runa parecem muito mais confortáveis e familiarizado com ele do que com P. viridis, por isso é provável que tenha chegado a eles mais cedo.

B. caapi provavelmente conheceu a chaliponga em torno do rio Putumayo superior, a fronteira dos atuais Equador e Colômbia, através dos Siona. Isso é aproximadamente o limite sul da prática mais antiga do uso da chaliponga sozinha, o que influenciou a cultura de "Yagé" distinta em alguns aspectos da cultura da "ayahuasca ".
Como o uso de chaliponga na mistura se espalhou para o sul, foi adotado pelos Napo Runa, pelos Pastaza Runa mais ao sul, e pelas tribos Jivaro ao sul : Shuar , Achuar , Shiwiar , awajún e Huambisa. Os Pastaza Runa e Shuar adotaram o nome Yaji para chaliponga , porque esse era o elemento novo na bebida que receberam sob o nome Yagé. Os únicos grupos no Peru que utilizam chaliponga como uma mistura parecem ser os povos Jivaro; em Iquitos, chaliponga é conhecido como Huambisa segundo a tribo identificado com o seu uso.

Chakruna

B. caapi conheceu P. viridis em algum lugar ao redor da confluência dos rios Napo e Amazonas. A partir daí, esta combinação se espalhou para o sul, especialmente acima do rio Ucayali . P. viridis , como chaliponga , tem sido usado apenas pelos seus efeitos psicoativos. O uso de P. viridis só foi documentada por Yves Duc, um estudante suíço de um curandeiro Ashaninka , que diz que a "dieta" Ashaninka inclui Chakruna , às vezes com Tabaco adicionado como um IMAO suave. "Sozinha a Chacruna não dá visões, mas se alguém toma uma decocção concentrada , a planta é, na minha opinião, profundamente e sutilmente psicoativa " (comunicação pessoal) .

Esta prática com Chakruna provavelmente antecedeu a chegada de Ayahuasca para a região. Ou, a ayahuasca pode ter levado as pessoas a este ajudante, como ela os levou a muitos outros medicamentos. No entanto, e sempre que a reunião de Chakruna com Caapi ocorreu, parece ter acontecido perto da atual Iquitos.

Gow (1996), Brabec de Mori (2011) , e Calavia Saez (2011) fazem um caso convincente, citando os povos indígenas do Ucayali superior a si mesmos, que a difusão de combinação Caapi / Chakruna ao sul de Iquitos pode ser historicamente recente. Eles também mencionam um caso instigante que as perturbações sociais do colonialismo e do boom da borracha contribuiu para tornar a forma Napo do xamanismo a forma dominante de prática Ayahuasca no Alto Amazonas .

Para ler mais:

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4

Parte 5
Original em inglês

Imagem: Paolo del Aguila Sajami

terça-feira, 15 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (parte 5)

Apesar de conhecida desde 2.500 a.c, a malária não tinha uma cura específica. Em apenas 25 anos de contato com esta doença, os Napo Runa encontraram o quinino que até hoje é a base para cura da malária. Eles próprios atribuem o seu vasto conhecimento em plantas medicinais à ayahuasca: "a mãe de todas as plantas".

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Original em inglês

Ayahuasca e Sobrevivência em Napo

Gayle Highpine


O atual Napo Runa são famosos no Equador tanto entre os estudiosos quanto por outros grupos indígenas pelo grande número de diferentes plantas medicinais que conhecem. Alguns estudiosos estimam que um total de 1,2 mil diferentes plantas medicinais são conhecidos e utilizados entre os Napo Runa.
Richard Evans Schultes estimou em 1.600 plantas conhecidas na maior região envolvendo Equador leste e áreas adjacentes da Colômbia e do Peru. Parte da razão para isso pode ser que os Napo Runa originaram-se como uma amálgama de diferentes povos, cada um com suas próprias tradições. Outra parte da razão é o fato de que seu território contém ecossistemas significativamente variados devido às altitudes onde a floresta encontra o sopé dos Andes. Mas tanto os antropólogos quanto os Napo Runa atribuem o fato de que o povo Napo Runa conhece muitas plantas ao fato de que os seus antepassados foram os primeiros índios da Amazônia para encontrar os europeus, e portanto os primeiros a serem atingidos por doenças europeias.

Em contraste, os seus vizinhos (e inimigos tradicionais ) para o sudeste, os Waorani, foram capazes, por causa de sua extrema ferocidade, de manter o seu isolamento até a década de 1950, e muitos ainda vivem livres na floresta. Em 1980, algumas décadas após os Waorani terem sido "pacificados", tornou-se seguro para pessoas de fora para visitá-los. Desde então pesquisadores tem visitado os Waorani para aprender sobre suas plantas medicinais tradicionais. Devido ao isolamento de tanto tempo, sua cultura tradicional foi mantida intacta, pensava-se que seriam um tesouro de conhecimento etnobotânico.
Mas os pesquisadores voltaram com míseras trinta e cinco plantas medicinais entre os Waorani, e perceberam que, em seu estado isolado, os Waorani não precisavam de muitos medicamentos:

"Eles nunca tinham sido expostos a poliomielite ou pneumonia, nem houve qualquer evidência de que a varíola, varicela, tifo e febre tifóide tenham afetado a tribo. Não houve sífilis, tuberculose, malária ou hepatite. Das trinta e cinco plantas medicinais, trinta foram usadas ​​para tratar uma de seis possíveis necessidades: infecções fúngicas, mordidas, problemas dentários, febres, picadas de insetos, dores e lesões traumáticas, como mordidas de animais, feridas de lança, e ossos quebrados. O restante foram avaliados para o tratamento de alguma doença idiossincrática" (Davis, 1996: 291-2).

Esses medicamentos, até recentemente, eram os únicos necessários. Antes da invasão européia, os antepassados ​​do Napo Runa provavelmente tinha um número e variedade de medicamentos similares, mas em pouco tempo eles descobriram muitas novas plantas medicinais para ajudá-los a lidar com os novos desafios de cura.

Aqueles que sugerem que a sinergia entre o cipó da Ayahuasca e folha (rainha ou chacrona) foi descoberta por tentativa e erro, não tem ideia da biodiversidade da Amazônia. São cerca de 80.000 espécies de plantas catalogadas na região onde Ayahuasca é utilizado, mas estima-se que haja cerca de um milhão de espécies vegetais ainda não catalogados.

O Napo Runa descobriram mais de mil plantas medicinais, algumas em combinações complexas, e descobriram a maioria deles em um tempo muito curto, em apenas um século ou mais de a introdução de doenças europeias. Na verdade, embora o mundo já tenha conhecido a malária há milhares de anos (foi descrito na China em 2700 aC), e não tinha remédio para ele, dentro de 25 anos da introdução da malária na Amazônia, o primeiro medicamento para a malária, o quinino, extraído de uma planta, foi descoberto pelos povos indígenas no Equador.

A ideia de tentativa e erro entre pessoas doentes e plantas aleatórias certamente que não é uma maneira eficaz de descobrir quais plantas podem ajudar. Os Napo Runa dão crédito à ayahuasca pela descoberta de tantos medicamentos. Quando as novas doenças os atingiram - não apenas as doenças infecciosas, mas também doenças decorrentes de estresse e da opressão da escravidão xamãs do povo Napo beberam a ayahuasca no contexto de uma rigorosa "dieta", e a Ayahuasca iria então enviar visões de plantas específicas e suas localizações. Uma vez que uma nova planta foi encontrada, ela normalmente seria preparadas em conjunto com a ayahuasca para solicitar visões para ajudar a entender os efeitos da planta, para se comunicar com a planta, e aprender a trabalhar em parceria com a planta como um aliado do espírito. Curandeiros de ervas também usam ayahuasca para ajudar a prescrever remédios para um paciente, embora aliados espirituais da planta possam ajudar com a cura, mesmo sem um paciente necessariamente consumi-los na forma física.

Mesmo se a pessoa não aceitar a possibilidade de comunicação planta (que eu faço), poderia haver outras razões pelas quais Ayahuasca é considerado o mestre de outras plantas medicinais. MAOI podem potencializar muitos tipos de ação farmacêutica, e o IMAO em Ayahuasca pode contribuir para sensibilizar as pessoas para as plantas, especialmente se a pessoa passa meses em solidão na floresta em uma dieta rigorosa bebendo continuamente Ayahuasca. Os seres humanos têm a mesma capacidade instintiva para sentir as plantas medicinais como outros animais, mesmo que a maioria nunca tenha desenvolvido. Seja qual for a razão, a ayahuasca é considerada a grande mestre das plantas medicinais e "a mãe de todas as plantas."

Continua...

Desvendando o mistério da origem da ayahuasca (Locais de Origem)

Imagem: Juan Carlos Taminchi

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (parte 4)

No universo da ayahuasca é comum a associação entre os Incas e a bebida cerimonial. No entanto não há qualquer registro de uso da ayahuasca entre os Incas. Ainda assim, a própria palavra ayahuasca e outra dezenas de palavras utilizadas em cerimonias pertencem ao quetchua, língua franca do Império Inca.
Por que?

Parte 1
Parte 2

Parte 3
Original em inglês


A língua Quechua e História da Ayahuasca

Gayle Highpine

A história da Ayahuasca se confunde com a língua quíchua. A palavra Aya - Waska é Quechua , e a língua está intimamente associada com o xamanismo ayahuasqueiro, mesmo em áreas onde o quechua não é falado. "Além de seus termos próprios todos os grupos de uso da ayahuasca também usam a palavra quíchua "ayahuasca", mesmo quando em discursos e canções na língua-mãe" ( Brabec de Mori 2011: 4).

Os xamãs mestiços de Iquitos, onde o rio Napo se junta à Amazonia, não falam quíchua, e ainda assim sua prática está cheio de palavras quíchua, como arkana ( fortaleza ), kutipa ( vingança), manchari (doença do susto), pusanga (encanto de amor) e até mesmo o espírito da floresta Chullachaki .
São ouvidas palavras em quíchua nos icaros mestiços que incluem shamuy ou shamuriy (vir) , shayay ou shayariy (de pé ou ficar) , Muyuy ou muyuriy (para ir em um círculo ), kapariy (gritar ou chamar ), kayariy (para ligar ou convidar) , llukshiy (para sair ), sinchi ou shinzhi (forte), sumay ( beleza ), samay (respiração ou energia espiritual), kawsay (vida ou energia vital ), shungu ( coração ), nawi (olho), yawar (sangue), wayra (vento), nina (fogo), Illapa ( raios), indi (sol ), killa (lua), Allpa (terra, solo , terra ), urku (morro ou montanha ), sacha ( floresta ), ambi ou hambi (medicina ou veneno), puma (onça-parda) , amarun (jibóia ou anaconda) , kindi (beija-flor) , kuraka (chefe ), pacha ( mundo, tempo, espaço ), Hanã (alto, elevado ), Wasi (casa, morada ), Pungu ( porta ), warmi (humano ou espírito feminino ), kari (humano ou espírito masculino), runa (pessoa, homem,entidade, espírito), maymanda (de onde ) e chaymanda ( de lá).

Os Incas

Quechua é mais conhecida como a " língua dos incas", por isso a associação do Quechua com a Ayahuasca tem, não surpreendentemente, dado origem à especulação de que a ayahuasca pode ter se originado com os incas ou se espalhado pelos incas. Não há nenhuma evidência direta de que os incas tenham usado Ayahuasca. Os Incas chegaram ao atual Equador muito tardiamente e seu império mal tocou na orla do território da Ayahuasca. É pouco provável que os incas tenham aprendido sobre a Ayahuasca quando chegaram às regiões que usam a bebida. Os incas tinham um intenso interesse na vida prática de local onde quer que fossem, embora o seu interesse tenha sido menor em plantas medicinais do que em variedades locais de culturas comestíveis.

Se os Incas tenham utilizado a Ayahuasca, no entanto, de modo restrito às classes dominantes da elite (que é o que a palavra " Inca " significa: "adequadamente para") e as pessoas comuns não tenham participado Isso teria sido algo comum para os Incas: a classe de elite teve muitas práticas cerimoniais reservados fechados para as pessoas comuns, embora alguns detalhes estejam gravados. É possível que eles não gostassem de Ayahuasca: os Incas tinham um desgosto para qualquer coisa muito selvagem, caótica ou incontrolável. Independentemente disso, não há nenhum sinal de uso de Ayahuasca ou a lembrança disso entre os índios das terras altas (embora as pessoas em torno de Cuzco começaram recentemente a aproveitar-se do turismo ayahuasqueiro) .

Os incas tiveram contato muito recente para terem sido o vetor para espalhar a ayahuasca para os povos amazônicos fora de sua pátria original. Os incas não atingiram o Equador até meados dos anos 1400.
É estranho supor que apesar de não apresentarem a ayahuasca ao seu próprio povo nas terras altas, eles teriam o feito não apenas para poucas tribos amazônicas situados na franja que confinava seu império, mas para muitas outras tribos fora desta franja, e muito mais para leste, inclusive para o Brasil em lugares onde não há nenhuma evidência de que algum dia tenha colocado os pés.

A confusão entre a origem da Ayahuasca e os Incas vem de uma falta de conhecimento da história da língua quíchua.

Ramos de Quechua

Quechua é mais precisamente uma família de línguas do que propriamente uma única língua. Ela tem dois ramos principais: a filial sul e o ramo norte, e vários outros ramos isolados menores. A filial sul engloba as terras altas do sul do Peru , Bolívia e norte da Argentina. O ramo do norte, norte do Peru, do Equador e sul da Colombia. Cada ramo tem sub-ramos divididos em numerosos dialetos variados.

Quando os incas adotaram o quíchua como língua franca do Tawantinsuyu, eles estavam se aproveitando de uma língua franca existente já em uso generalizado. Linguístas históricos traçam o Quechua como proto-língua original do centro do Peru, de onde os principais ramos divergiram entre mil e duzentos e dois mil anos atrás. Assim, até mesmo na estimativa mais conservadora, o Quechua foi utilizado no norte do Peru e Equador muitos séculos antes da chegada dos Incas, cujo império começou por volta de 1200 e atingiu o Equador no final dos anos 1400.

Os ramos norte e sul do Quechua são mutuamente ininteligíveis. Eles têm grandes diferenças na pronúncia, vocabulário , semântica e gramática. Por exemplo, "Qual é o seu nome? Meu nome é Ana "seria: "Ima sutiyki ? Sutiyqa Anam" em Cuzco; em Napo, seria "Ima shuti kangui ? Ana shuti kani . " "Eu te amo" é "munayki " em Cuzco, "kanda munani" em Napo . "Meu pai tem uma casa " seria "wasiyuqmi taitay " em Cuzco, e " Nuka yaya Wasira Charin " em Napo .

O quíchua que está associado com a Ayahuasca claramente pertence ao ramo do norte. A pronúncia segue o padrão norte (Shungu vs Sonqo para o coração, arkana vs hark'ana para fortaleza, kindi vs q'enti para o colibri, shamuy vs hamuy para vir, etc) pela semântica, mesmo dentro da gama limitada de palavras Quechua usadas por mestiços, é fácil encontrar exemplos que mostram que eles seguem o vocabulário e semântica do norte. Por exemplo, sacha significa "floresta" ou "selvagem" em quéchua amazônico; em Cuzco sach'a significa árvore. A palavra em Quechua amazônico para " folha", encontrado em muitos nomes de plantas medicinais, é panga; no sul do Peru , "folha" é laqi , laphi ou rafe . A raiz da palavra para pusanga (encanto de amor) , o verbo pusa -(para levar ), não existe no quetchua cuzquenho. Muitos outros exemplos poderiam ser citados. O Quechua associado com a Ayahuasca não é claramente o dialeto Inca.

O Coração da Amazônia Quechua

A bacia do rio Napo é o coração da Amazônia Quechua . É a parte mais acessível de toda a bacia amazônica. Encontra-se abaixo do passo Papallacta, um portal onde os índios das terras altas e terras baixas se reuniram para negociar. (Papallacta é a palavra quechua para "cidade de batata", porque as batatas foram o item principal do comércio trazido pelos índios das terras altas.) O rio Napo se junta ao rio Amazonas perto da atual Iquitos. Assim, o Napo conecta diretamente as terras altas dos Andes com o rio Amazonas. Foi uma importante rota de comércio e corredor de troca intercultural. Dezenas de grupos étnicos diferentes negociaram com outro para cima e para baixo do rio, usando o quíchua amazônico como língua comum. O caráter suave e pacífico de seus descendentes sugere uma sociedade de comércio pacífico.

O contato entre planaltos e planícies mostra na influência das terras altas na música Napo Runa superior e em suas roupas tradicionais, e na forma como curandeiros indígenas das terras altas do Equador, embora não usem ayahuasca, empregam o soplar e o shakapa da mesma forma como é feito todos ao longo do rio Napo para Iquitos.

Como é a área mais acessível de toda a Bacia Amazônica, a região de Napo foi a primeira parte da Amazônia a ser penetrada por europeus: Gonzalo Pizarro e Francisco de Orellana, em 1541. Foi a primeira área atingida por epidemias, que precederam os europeus si . As margens do rio Napo já estavam despovoadas quando Orellana chegou. As epidemias rapidamente varreram de cima e para baixo os principais rios, onde as populações estavam mais concentradas. O próprio rio Amazonas, uma vez que a zona mais densamente povoada da Bacia Amazônica , teve 100 % de perda de população. Desde então, as tribos e as comunidades continuaram a ser abalada por diversas forças destrutivas, de epidemias ao rompimento missionário, a escravidão virtual em encomiendas (sesmarias ), o ciclo da borracha e nas últimas décadas, a colonização em massa, o desmatamento, perdas de terra e o envenenamento dos rios, que são a principal fonte de proteína em sua dieta, por companhias de petróleo.

Ao contrário do quechua das terras altas, que se tornou a primeira língua dos povos, como resultado da erradicação intencional de idiomas locais por missionários espanhóis, o Quechua amazônico, ou Kichwa , desenvolveu-se entre sobreviventes de grupos dizimados, casados ​​entre si e agrupadas em novas famílias e aldeias. Eles falavam o idioma que eles tinham em comum um com o outro; o Kichwa; seus filhos, por sua vez, cresceram falando Kichwa como sua primeira língua . Os Yumbos de Papallacta foram absorvidos pelo superior Napo Runa, os fragmentos dos outrora poderosos Omaguas foram em sua maioria absorvidos pelo menor Napo Runa, e o záparo foram em sua maioria absorvidos pelos Pastaza Runa, que também absorveu muitas Shuar e Achuar deslocados. Muitos Pastaza Runa falam Shuar ou Achuar, bem como Kichwa e espanhol. Muitos povos menores também foram absorvidos pelo Runa. Assim, o Napo Runa e outras falas amazônicas de quechua de hoje são um caldeirão de culturas diferentes.

O número total de falantes de quíchua amazônico , são estimados entre 40.000 e 100.000 o que compreende apenas uma pequena porcentagem do total da população de língua quíchua, que somam na casa dos milhões. Falantes de Quechua amazônico (ou Kichwa ) compreendem entre 5% e 10% do total de falantes de línguas indígenas da Amazônia, tornando o Quechua (em dialetos muito diferentes), de longe, o mais falado das cerca de 200 línguas indígenas utilizadas na Bacia Amazônica. Coletivamente , os grupos Kichwa Amazônicos compreendem mais da metade da população indígena da amazônia equatoriana.
O quechua pode portanto ser chamado de linguagem da Amazônia, bem como nos Andes.

Continua...

Desvendando o mistério da origem da ayahuasca (Parte 5)

Na próxima parte, Gayle Highpine fala sobre as propriedades da ayahuasca em revelar propriedades medicinais de outras plantas.

Imagem: Pablo Amaringo


domingo, 13 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (parte 3)

Através da dieta entre os Napo Runa, Gayle Highpine descobre que o cipó da ayahuasca é também um indutor da comunicacão com outras plantas.

"Outras culturas enteogênicas reverenciam suas plantas enteógenas, mas Ayahuasca ensina as pessoas a venerar também outras plantas"

Parte 1
Parte 2
Original em inglês

Ouvindo o Cipó

Enquanto eu estava morando na aldeia, alguém começou o processo de aprendizado xamânico . Houve uma série de cerimônias com bebidas de força especial para esse fim; feita com enormes quantidades de videira. Cerca de duas a três libras de cipó fresco por pessoa foi usado (cerca de 25 a 35 vezes a quantidade necessária para a inibição MAOI). Essas foram experiências poderosas de fato.

Embora o aprendizado tenha começado com bebidas esmagadoramente pesadas, quanto mais o aprendiz progredia, mais fraca a bebida que ele precisaria . Ele iria aprender a ver a mais obtusa de visões. Se ele passou um total de dois anos em "jejum" (dieta), então, eventualmente, até mesmo cheirar ou provar a bebida , mesmo tocando em uma planta Ayahuasca, seria suficiente para visitar seus reinos. Por outro lado , ele iria aprender a navegar a mais forte das bebidas com foco, e sem distrações mesmo em qualquer quantidade de fogos de artifício de DMT .

A forma mais importante de se tornar sensível a Ayahuasca é através Sasina , que o Napo e Pastaza Runa Runa traduzem como "Ayuno ". Isto é essencialmente o mesmo que o que , como é conhecido como Dieta entre os xamãs mestiços do Peru. Trata-se de alimentos sem sabor, sem estimulação sexual e com o mínimo de ruído e interação social desnecessária. Muito tem sido escrito sobre a Dieta , então eu não vou entrar em detalhes aqui.

Para um aprendiz de xamã , a dieta permite que eles habitem no mundo espiritual; alimentos saborosos e estimulação sexual iriam trazê-los de volta ao seu corpo . Para os não-xamãs , o a dieta torna mais sensível e transparente aos espíritos das plantas. A Ayahuasca ensinou o povo esta técnica para ajudá-los a desenvolver relacionamentos mais profundos com os espíritos das plantas.

Ayahuasca tem três funções interrelacionadas entre o Napo Runa . O papel mais conhecido é a sua função em cerimônias de cura. Ela também é conhecida por seu papel de adivinhação, especialmente a visão distante. Nas histórias orais que gravei , os incidentes foram, por vezes mencionados quando os membros da família em casa, preocupados com alguém há muito ausente, iriam beber Ayahuasca para descobrir o que estava acontecendo com essa pessoa. Alguma literatura menciona o uso por parte de alguns grupos de Ayahuasca para localizar animais de caça e saber o que os inimigos estão fazendo; também como forma de adivinhação.

Seu terceiro papel , no entanto, mal começou a ser reconhecido pelo mundo fora: mediador e tradutor entre o mundo humano e o mundo das plantas. Entre os Napo Runa, uma das funções vitais da Ayahuasca é ensinar os seres humanos sobre outras plantas , além de si mesmo. Entre os enteogenos, este parece ser único. Outras culturas enteogênicas reverenciam suas plantas enteógenas, mas Ayahuasca ensina as pessoas a venerar outras plantas. Ela ensinou às pessoas a prática de Sasina (dieta) para que pudessem usá-lo aprender a se comunicar com outras plantas e não só a si mesma. Se você aprender o suficiente da Ayahuasca, me foi dito, todas as plantas são enteogênicas e visionárias, não apenas aquelas poucas com poderosos aríetes químicos para romper as barreiras mais difíceis na consciência humana . No mundo da Ayahuasca, aliados espirituais são principalmente plantas.

Continua... Na sequência, o linguista Gayles Highpine aborda a relação da ayahuasca com a língua franca do Império Inca, o Quetchua.

Desvendando o mistério da origem da ayahuasca (Parte 4)

Imagem: Felix Pinchi Aguirre



sábado, 12 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (parte 2)

O autor continua a discorrer sobre o fato de que o registro de uso do cipó ayahuasca (B. Caapi) isoladamente, é muito anterior ao acréscimo da folha (Psycotria viridis) e que a popularização no mundo científico de que a ayahuasca seria fruto de uma hipótese formulada pelo etnobotânico Terence McKenna sobre o efeito do DMT no organismo, presente apenas na folha.

Para ler a primeira parte traduzida clique aqui
Para ler o texto original em inglês clique aqui

Este texto foi disponibilizado pelo site The Ayahuasca Community

por Gayle Highpine

Nomes e Classes do cipó Ayahuasca

Não é só em grupos de língua Quechua que o nome da bebida coincide com o do cipó. Isso se repete em quase todos os grupos indígenas: caapi , ou palavras semelhantes entre falantes Tupi, yajé , Kaji , ou palavras semelhantes entre falantes Tucano , Natém , ou palavras semelhantes, entre os falantes Jivaro, shuri (uni), ou palavras semelhantes, entre falantes Pano , kamalampi , ou palavras semelhantes, entre falantes arawak : todos são nomes usados ​​tanto para o cipó quanto para a bebida.

A importância da videira Banisteriopsis caapi nas culturas ayahuasqueiras amazônicas é mostrado nas mitologias tradicionais, nos costumes, como o uso do cipó como um amuleto e um motivo para decorar o espaço ritual e roupas ( Weiskopf 2005:125 ), e nas distinções sutis feitas entre as variedades B. caapi . Os Tukano têm pelo menos seis variedades, com nomes como Suana - kahi - ma ( Kahi do jaguar vermelho) e Kahi -Vai Bucura - rijoma ( Kahi da cabeça de macaco ) ( Schultes , 1986). Junquera (1989) registrou 22 classes de B. caapi diferenciados pelas Harakmbet ( mashco ) índios , como Boyanhe ( verde, verdes ), que "produz visões de caça, pesca, à procura de propriedade, migrações, visões , etc "; Sisi ( carne de antepassados ​​) que produz " visões do céu , aqui entendido como o universo do passado para o presente "; Kemeti ( carne de anta ), que produz " sinais que visam a recriação do universo mítico "; Wakeregn ( branco) que produz " imagens brancas que mostram a viagem para Seronhai , um lugar onde a estadia morto "; e dezoito outras classes. Reichel- Dolmatoff ( 1975:155 ) descreve um xamã barasana que identificou pedaços de videira como " Guamo yagé ", " mamífero yagé " e " yagé cabeça " mastigadas . O Kaxinawa do Brasil distinguir variedades vermelho, azul , branco e preto ( Lagrou , 2000). Ayahuasqueros Mestizo em Iquitos reconhecer branco, preto, vermelho, amarelo, cielo (céu), Trueno ( trovão) , e boa caapi . Langdon (1985) registrou as seguintes classificações de B. caapi videira entre o Sionas : yai - yajé , nea - yajé , horo - yajé , weki - yajé , wai- yajé ou wahi - yaj , ; wati - yajé , weko - yajé , hamo - weko - yajé , Beji - yajé , kwi -ku - yajé , kwaku - yajé , aso- yajé , kido - yajé , usebo - yajé , ga- tokama - yai - yajé , zi - simi - yajé , bi' - ã- yajé , sia - sewi - yajé , sese - yajé ou sise - yajé ( " yajé porco selvagem ", usado para a caça ) e so' -om -wa- wa'i - yajé ( " yajé longo videira" ) .

Langdon escreve que entre os Siona onde os xamãs freqüentemente comercializam variedades de caapi, e que "se um xamã encontra um cipó selvagem na floresta , ele vai preparar uma bebida para determinar o seu valor para a inclusão em seu próprio repertório, especialmente em relação ao que visões pode induzir " Wade Davis cita Jorge Fuerbringer , um velho colono alemão há muito estabelecidos no Putumayo (citado em Weiskopf 2005:125 ) : " . Quando um [ yagé ] planta é repassado no comércio , assim é a sua visão específica. A Siona não pode classificar uma planta sem saber seu histórico de negociação. Cada planta tem , assim, uma linhagem que liga -lo através de todos os tempos para todos os outros . "

Essas classificações não são baseadas em características físicas ou botânicos, mas em critérios de os efeitos xamânicas e os tipos de visões produzidas . Richard Evans Schultes escreveu (1986) :

Não há dúvida de que os índios no noroeste da Amazônia podem identificar diferentes tipos de caapi ou ayahuasca , a uma distância sem sentir, degustar ou cheirar o cipó ... Os nativos afirmam que eles são capazes de usar esses tipos de caapi ou yajé ou ayahuasca para preparar bebidas de forças diferentes, para diferentes fins, ou em conexão com diferentes cerimônias ou danças ou necessidades mágico-religiosas, ou o que o participante deseja matar na caça.

Por outro lado, tais distinções são feitas de variedades e linhagens e os efeitos das plantas de mistura . É a videira (cipó) , e não a folha , que é classificada de acordo com o tipo de visão e o efeito xamânico induzido utilizado .

A nova definição de Ayahuasca

Richard Evans Schultes prestou atenção para a mistura de plantas e com base em suas próprias bebidas teve experiência de consumo com e sem aditivos, Schultes formulou a hipótese de que MAOI na videira pode tornar o DMT ativo em alguns aditivos orais.

Em 1984, esta hipótese foi confirmada experimentalmente por Terence McKenna, GHN Towers, e FS Abbott. Posteriormente, foi popularizada por Terence McKenna . No entanto , ao contrário de Schultes , que havia especulado que DMT foi responsável por grande parte da atividade da bebida , McKenna fez a DMT responsável por tudo isso. Embora ele admitiu que as beta -carbolinas na videira " pode ser alucinógena em cerca de doses tóxicas , " 4 ( 1992:33 ) McKenna popularizou a idéia de que a Banisteriopsis caapi não tinha outro papel em uma bebida Ayahuasca , exceto para tornar o DMT ativo por via oral . " Eles são importantes para o xamanismo visionário porque podem inibir sistemas enzimáticos no corpo que seria de outra forma despotencializar os alucinógenos do tipo DMT " ( McKenna 1992:33 ) . "
A ação da Banisteriopsis , na medida em que as visões estão em causa, é evitar que o Psychotria sejam neutralizados pelas enzimas gástricas " ( Calavia 2011:131 ) .

No mundo ocidental , Ayahuasca adquiriu uma nova definição: Era agora , por definição , a combinação de Banisteriopsis caapi e uma planta contendo DMT Ayahuasca tornou-se , por definição, o primeiro antropólogo a adotar o novo " DMT ativo por via oral . " como definição parece ter sido Luis Eduardo Luna , em 1984. Luna passou um tempo com Terence McKenna , absorvendo sua perspectiva, antes de iniciar seu trabalho de campo . Desde então, os antropólogos têm cada vez mais adotado essa definição e filtrada suas observações através dele. A preeminência da ayahuasca no mundo amazônico indígena tornou-se o elefante na sala de estar de estudos Ayahuasca , com um acordo tácito para fingir que ela não existe .

Neste ponto de vista, o único agente psicoativo importante na bebida Ayahuasca é DMT; e porque B. caapi não tem DMT , B. caapi não é psicoativa; e porque P. viridis utilizados isoladamente não tem efeitos DMT , P. viridis por si só não é psicoativa . E, assim, um novo "mistério" nasceu : Como os povos indígenas descobrir como criar uma bebida psicoativa de duas plantas que , isoladamente, não têm efeitos psicoactivos ?

O Cipó e a Folha

Eu vim ao mundo da ayahuasca , sem preconceitos. Eu tinha bebido Ayahuasca por cerca de metade de um ano antes de eu começar a fazer investigação fora sobre isso. Quando eu fiz, eu fui incitado a aprender algo que tinha descoberto através da experiência.

Eu tinha descoberto que não havia correlação entre a profundidade da viagem e a experiência visual . Às vezes, uma experiência foi muito profunda e também intensamente visual; às vezes era muito profundo , mas teve poucos ou nenhum efeitos visuais; às vezes estava cheio de visuais coloridos, mas não muito profunda; e às vezes era sutil em ambos os aspectos. A profundidade e os efeitos visuais eram duas variáveis ​​independentes .

Então eu li que havia dois componentes necessários para uma bebida Ayahuasca : a videira (cipó) e a folha . Comecei a ter interesse nas folhas que vi sendo adicionadas à bebida. Às vezes, um monte de folhas foram adicionados, por vezes, um pouco, às vezes nenhum, dependendo do que estava disponível.

As folhas eram chamadas chakruna, o que geralmente significa não Psychotria viridis , a planta conhecida como Chakruna , mas mais frequentemente cabrerana Diplopterys , a planta mais conhecida como Chaliponga ou Chagroponga.

O Napo Runa às vezes usam P. viridis , mas preferem chaliponga, bem como outras espécies de Psychotria chamadas Amiruka.

Quando nenhuma deles estava disponível , às vezes Ilex guayusa (uma ramo amazônico da família do mate platino) seria adicionado à bebida.

As folhas eram "ajudantes " da Ayahuasca me foi dito, e seu propósito era o de " iluminar e esclarecer " as visões . A videira é como uma caverna, e a folha é como uma tocha que você usa para ver o que está dentro da caverna. A videira é como um livro, e a folha é como a vela que você usa para ler o livro.
A videira é como um aparelho de televisão, e a folha ajuda a entrar em sintonia com a imagem.
Havia uma atitude sutil que a necessidade de folha era o sinal de um novato : um ayahuasquero experiente pode ter as visões mesmo com pouca luz .

O cipó ayahuasca não é um indutor de visões da mesma maneira como é o DMT. Visões de bebidas apenas com cipó são sombrios, monocromático, como silhuetas, fumaça ou ondulação, ou nuvens que atravessam o céu noturno. É porque suas visões são geralmente monocromática que são classificados pela cor da visão que produzem : branco, preto , azul, vermelho (na minha experiência , marrom escuro).
Cobras, a visão mais comum em Ayahuasca, é considerado o espírito manifesto do cipó. Visões de cipó podem ser mais difíceis de ver; de fato , as "visões " podem não ser visuais, mas auditivas ou somáticas ou intuitivas. Mas a videira carrega o conteúdo da mensagem , o ensino, e o insight. A folha ajuda a iluminar o conteúdo, mas os ensinamentos são creditados ao cipó. Visões de cipó são " freqüentemente associada com a escrita, com um código que está presente nas visões ... ou nos " livros " onde os espíritos guardam os segredos da floresta. " ( Calavia Saez 2011:135 ) . A videira é o Mestre, o Curador, o Guia. O propósito de beber Ayahuasca é receber a mensagem que a videira dá . É por isso que é a videira , e não a folha, que é classificado pelo tipo de visão que dá. " Para eles, a videira é, na verdade , um guia de vida, um amigo, uma autoridade paterna " ( Weiskopf 2005:104 ) .

Continua...

Desvendando o mistério da origem da ayahuasca (Parte 3)

Imagem: "Amor essencial " por Anderson Debernardi

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (parte 1)

Neste artigo, o autor discorre sobre temas caros aos estudiosos da ayahuasca. O primeiro deles sobre como os indígenas teriam "descoberto" entre infinitas possibilidades a combinação entre o cipó (Banisteriopsis caapi) e a folha (Psychotria viridis).

Para ler o texto original em inglês, clique aqui

por Gayle Highpine

RESUMO

Durante décadas, os pesquisadores têm se intrigado com o mistério da origem da Ayahuasca, especialmente a questão de como teria sido descoberta a sinergia entre os dois componentes da bebida : a videira (Banisteriopsis caapi ) com um inibidor da monoamina oxidase (IMAO), e a folha ( Psychotria viridis ou Diplopterys cabrerana ), que exige para fazer a dimetiltriptamina (DMT) ativa por via oral .

A partir de dois anos de trabalho de campo entre os xamãs indígenas Napo Runa (Equador), estudos cruzados com o dialeto quíchua e o registro de dados antropológicos, eu afirmo que a origem botânica da B. caapi estava no rio Napo; que a forma original da Ayahuasca xamanismo empregou o cipó Banisteriopsis caapi sozinho; que o uso xamânico da ayahuasca se espalhou e difundiu antes das misturas contendo DMT serem descobertas; que a sinergia entre B. caapi e Psychotria viridis foi descoberto na região da atual Iquitos, a sinergia entre B. caapi e Diplopterys cabrerana foi descoberto em torno do rio Putumayo superior, e que cada combinação difusa de lá ; e que as descobertas dessas sinergias surgiu por causa da prática tradicional de mistura de outras plantas medicinais com Ayahuasca bebida.
Entre os Napo Runa, a ayahuasca é considerada "a mãe de todas as plantas " e um mediador e tradutor entre os mundos humanos e plantas , ajudando os seres humanos e as plantas para se comunicar uns com os outros .

Introdução

Quando eu comecei a beber Ayahuasca com os Napo e Pastaza Runa no Equador, eu sabia pouco sobre ela. Tudo que eu sabia era que era muito importante para eles e que eles insistiam que ninguém conseguia entender sua cultura sem beber Ayahuasca .

Originalmente, me envolvi em apoio nas suas lutas contra as companhias de petróleo, mas quando os amigos Napo Runa souberam que eu era um escritor, editor e lingüista, me pediram para ajudá-los a documentar a sua cultura, que eles temiam estar sendo perdida pelas gerações mais jovens. Eles queriam alguém para transcrever a história e as tradições orais para ajudar a desenvolver textos bilíngües, materiais culturalmente relevantes para as escolas.
Tenho uma licenciatura em Linguística, com um foco especial em dialetologia quechua.
Aprendi a língua deles em análises lingüísticas comparando o seu dialeto quíchua da Amazônia (ou Kichwa ) com terras altas Quechua dialetos do sul do Peru e da Bolívia, que estudei enquanto vivi nessas regiões em 1970. Ao mesmo tempo, fiz a pesquisa para uma tese de mestrado sobre permacultura amazônica, que analisava a forma como os índios da amazônia cultivam a floresta de uma forma que aumenta ao invés de diminuir a biodiversidade.

Morei no Equador por quase dois anos, a maior parte desse tempo com a família de um xamã Napo Runa . Uma ou duas vezes por mês, alguém viria para uma cura e que haveria uma cerimônia de Ayahuasca . Depois, há normalmente seria outra cerimônia na noite seguinte para usar a poção restante. Eu tive um convite aberto para beber na cerimônia , então eu bebi Ayahuasca , em média, duas a quatro vezes por mês.

"Vinha com uma alma"

Ayahuasca é a palavra tanto para a videira Banisteriopsis caapi quanto para a bebida preparada a partir dela Inequivocamente, este é o significado de " Ayahuasca " ao povo Napo Runa de cuja língua a o nome procede.
Até recentemente, esta foi a definição de Ayahuasca para todos os etnógrafos e etnobotânicos que gravaram uso Ayahuasca entre os povos indígenas e mestiços da Amazônia Superior.

Desde as primeiras observações escritas do uso da Ayahuasca por padres jesuítas em 1700 , foi a videira, ou liana , cujo uso foi gravado. O etnobotânico Richard Spruce , primeiro cientista a estudar Ayahuasca, observou que os povos muito distantes do Amazonas usavam a mesma vinha, e coletou amostras.
" No século que se seguiu o trabalho notável de Spruce ", escreveu etnobotânico Richard Evans Schultes , " muitos exploradores , viajantes, antropólogos e botânicos tem se referido à ayahuasca, caapi , ou yagé ... preparados a partir de um cipó da floresta. " ( Schultes , nd)

Até meados da década de 1980, todos os antropólogos que escreveram sobre o uso de Ayahuasca , sem exceção, definiram a Ayahuasca como Banisteriopsis caapi , ou como uma vinha do gênero Banisteriopsis . Nos livros , a entrada de índice para "ayahuasca " ou " yagé " dizia, " ver Banisteriopsis caapi " ou vice-versa. Alguns antropólogos mencionaram outras plantas adicionados à bebida , mas trataram-nas como sendo de importância secundária. Outros não mencionam aditivos.
Em 1972, Marlene Dobkin de Rios, depois de ter lido toda a literatura disponível mencionar Ayahuasca em Inglês , Espanhol e Francês , em preparação para o seu livro Visionary Vine , resumiu a definição unânime da Ayahuasca na época:

"Antropólogos têm comentado sobre o uso da ayahuasca como uma bebida alucinógena usada por sociedades hortícolas primitivos. A bebida tem o mesmo nome como a videira , apesar de vários nomes, como Natema , yajé , yagé , Nepe e kaji têm sido utilizados em toda a área da bacia. Ayahuasca é o termo geral que tem sido aplicada a várias espécies diferentes de banisteriopsis , a qual pode eventualmente ser adicionado drogas psicodélicas adicionais ."

Richard Evans Schultes , "o pai da etnobotânica moderna", que passou 12 anos na Amazônia na década de 1940 e 1950 , escreveu em 1976:

"Ayahuasca e Caapi são dois dos muitos nomes locais para qualquer uma das duas espécies de uma videira sul-americana: Banisteriopsis caapi ou B. inebrians .... Algumas tribos adicionam outras plantas para alterar ou para aumentar a potência da bebida ...."

As plantas adicionadas à ayahuasca por alguns índios na preparação da bebida alucinógena são incrivelmente diversas e incluem até mesmo samambaias. Vários são agora conhecidos por serem ativo em si e para alterar de forma eficaz as propriedades da bebida básica .... Dois aditivos, utilizados em uma ampla área por muitas tribos , são especialmente significativos . As folhas ( mas não a casca ) de uma terceira espécie de Banisteriopsi -B . rusbyana [ agora reclassificado como Diploptrerys cabrerana ] são muitas vezes adicionados à preparação " para alongar e clarear as visões . " ... sobre uma área muito mais ampla , incluindo o Brasil da Amazônia , Colômbia , Equador e Peru, as folhas das diversas espécies de Psychotria - especialmente P. viridis - são adicionados. Este arbusto florestal de 20 pés pertence à família do café , Rubioceae . Como B. rusbyana , verificou-se recentemente para conter o fortemente alucinogenos N - dimetiltriptamina .

Algumas plantas foram "acrescentadas à ayahuasca por alguns índios "; dois aditivos foram "empregados em uma ampla área por muitas tribos . " Significativamente, Schultes ( que experimentou Ayahuasca com diferentes grupos indígenas mais do que ninguém jamais fez ou vai, e que o uso e mistura foram cuidadosamente registados bem como seus efeitos causados ​​pelos aditivos ) não diz " normalmente " ou que " a maioria dos" aditivos tribos usados. De fato , em seu livro de 1992 Vine da Alma , Schultes reduz o uso de aditivos para "ocasionalmente " ( Schultes 1992:22 ) .

Continua...

Desvendando o mistério da origem da Ayahuasca (Parte 2)

sexta-feira, 4 de abril de 2014

De Volta a Paoyhan


Dom Miguel Ochavano é um maestro ayahuasqueiro do povo Shipibo, residente nas imediações de Pucallpa, Ucayali, na selva peruana.

Após quatro anos de alagações consecutivas, Dom Miguel retorna a sua comunidade, Paoyhan.

Ele relaciona as inundações ao desmatamento descontrolado na região.

Assista ao vídeo: "De Volta a Paoyhan"