sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Da Selva aos Andes - Parte 3 “Hasta Cuzco”

Leandro Altheman

Assim que sai de Marcapata iniciei uma nova subida, desta vez ainda mais íngreme. No entanto, após 5 km o asfalto surge novamente e a estrada, em que pese a altitude, é segura. Apesar disso, a moto mal conseguia ultrapassar os 20 km/h e em alguns momentos tive que zigzaguear na pista para que ela nao morresse de todo. Alguns quilometros adiante tive a visao do nevado Auzangate o maior da regiao com mais de 6.300 metros de altitude.
A carretera, no entanto tem o seu ponto culminante a 4.725 metros de altura, de onde entao comeca a decida novamente. Neste momnento revela-se uma paisagem totalmente diferente, mais seca, com muitas casas feitas de adobe (tijolos feitos barro e palha), mas também muito acolhedora, com suas lhamas e alpacas pastando nos campos próximo a estrada. Depois d edescer a cerca de 3 mil metros de altiutudes cruzamos o rio Vilcanota, que mais na frente ganha volume de águas e passa a se chamar Urubamaba que é um dos principais formadores do Amazonas. Depois voltamos a subir novamente até os 4.125 metros e descemos de novo desta vez até cruzar o rio Ocongate. A partir daí já estamos bem proximos de Cuzco. Passamos ainda pela cidade de Urcois, com sua praca e mercado movimentados, turistas do mundo inteiro e ônibus que oferecem transporte para Cuzco. A partir daí inicia-se uma suave descida até Cuzco passando por diversos pequenos municipios. Após atravessar-se uma área urbana caótica e barulhenta, chegamos finalmente ao Centro Histórico de Cuzco, e a partir daí tem-se a impressao de se estar em um novo universo: Ruas limpas, predios historicos bem cuidados do tempo colonial, e sitios arqueologicos pré-colombianos no meio da cidade. Nas ruas de Cuzco passeiam gente de todo mundo, europeus, principalmente, mas também muitos latino americanos e os próprios cuzqueños que adoram aproveitar a beleza da sua mundialmente famosa “Praca de Armas”.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Da Selva aos Andes Parte 2 : Déjà Vu em Marcapata

Leandro Altheman

Entre as pedras e as águas

A cada curva em torno dos paredões de pedra, as transformações na paisagem vão ficando cada vez mais evidentes. Vão desaparecendo as arvores grandes, e surge uma vegetação rasteira, musgos e liquens que cobrem as rochas, embora nos pés das montanhas ainda seja possível identificar espécies típicas da Amazônia como embaúbas e cana-brava.

Em certa altura, a vegetação praticamente desaparece, para reaparecer novamente mais adiante. Mas há um trecho que a viagem é puramente no “reino mineral”, entre rochas nuas de diferentes tonalidades. No meio, uma corredeira cada vez mais forte. Neste trecho da viagem deparei-me com uma das principais preocupações com relação a viagem. Tive de atravessar por diversas vezes trechos por dentro d´água. As vezes não é possível determinar com exatidão a fundura do rio, e também existe a possibilidade de se bater e um pedra. As primeiras travessias foram tranqüilas e a água não chegou a ameaçar o motor da motocicleta. A água, tão pura e cristalina, muito convidativa para um banho, quando ainda faz calor. Em um destes não resisti e cai no banho, como havia visto diversos caminhoneiros fazendo trechos atrás. Uma das coisas que torna a viagem especialmente atrativa é que existem diversos pontos, onde se é possível parar, admirar a paisagem, descansar, enfim, aproveitar ao maximo. Uma impressão do Peru de minha primeira viagem em 1999 ao Peru que se confirmou agora: diferentemente do Brasil, não há cercas separando os terrenos e muita terra na verdade parece ser estatal ou comunal o que permite-se andar livremente por grandes áreas. No Brasil, há cerca ate no meio do Pantanal.

Bem, depois de passar por algumas corredeiras inofensivas, a brincadeira foi ficando mais seria, e comecei a cruzar trechos de maior profundidade. Em um deles a coisa ficou tão funda que a moto morreu no meio de uma corredeira capaz de empurrar a moto longe. De pronto, pulei da moto e a empurrei ate o outro lado da margem. Felizmente ela ligou rápido e expulsou a água do carburador.

Apu

Em uma certa altitude, parei para urinar. De repente, me vi constrangido diante da enorme presença que se erguia a minha frente. Uma das mais espetaculares montanhas que já havia visto. Ao meu redor, estava cercado por elas: imponentes, majestosas. Percebi que estava entrando em um reino diferente. Sem saber como ou porque saquei de minha mochila, um pequeno saquinho com folhas de coca. Guiado por algum tipo de inspiração ou forca divina, chame como quiser, ergui as folhas acima de minha cabeça pedi a proteção daqueles senhores e lembre-me de seu nome em quéchua: Apu. Os Apu no que pude entender são aspectos divinos da natureza presente na forca dos elementos.
O fato é passei pelas altitudes com uma boa dose de segurança e tranqüilidade. Não sofri nenhum dos efeitos da altura como desmaios, tonturas ou enjôos. No entanto, soube também nesta hora que para ter a sua proteção é preciso respeitar a montanha. Despir-se da arrogância de quem acha que vai “vencer” a montanha. Ninguém vence a montanha. Nossos filhos e netos já terão partido deste mundo e a montanha ainda estará lá.

Cruzando os Andes em um barbeador elétrico

O mesmo não pode ser dito de minha motocicleta, embora valente ela começou a sofrer os efeitos da altitude por volta dos 2 mil metros, quando começaram as primeiras falhas. Por volta de 3 mil, o motor parecia a de uma enceradeira e a 4 mil, um barbeador elétrico. E neste trecho ficam as piores subidas, o que exige ainda mais da motocicleta. Ultrapassar é totalmente impossível, e ela não chega a 20 km por hora. Cruzei com motoristas de caminhão, de carro e motociclistas e todos me dizem o mesmo: “Es normal,pero se llega, despacio”. Ou seja, não havia muito o que fazer, somente ter paciência para ir devagarinho ate chegar lá.

Déjà Vu em Marcapata

Eram cerca de 4 horas da tarde quando cheguei ao vilarejo de Marcapata, há quase 4 mil metros de altura. Já estava dirigindo há 13 horas portanto, e o normal era que estivesse muito cansado. Mas o que provocou meu maior cansaço não foi o frio, que a esta altura já era bem forte, nem as rajadas de vento, nem a chuva fina e fria que molhava me corpo e sim, a fraqueza da motocicleta. Acho que resolvi parar mais em respeito a ela do que a mim mesmo, que ainda encontrava-me disposto a seguir viagem.

No vilarejo, fui tomado por uma sensação fora do comum. Primeiro parecia que as pessoas já me esperavam, o que é deveras estranho para um lugar onde não há fluxo de turistas. Antes de procurar hospedagem para mim, procurei para a moto, afinal ela merecia descansar sob uma garagem, depois de todo seu heroísmo.

Depois de guarda-la sob o conforto de um teto, procurei um teto para mim mesmo cheguei a uma casa, onde a dona hospeda principalmente trabalhadores da Transoceânica. Os quartos são coletivos, mas peguei um quarto sozinho. O local quente e aconchegante, alem de limpo, embora estivesse faltando água.

Depois de tirar a roupa úmida, desci de meus aposentos para uma copa, onde se servia a janta. O Clima era de uma taverna de tempos antigos, as pessoas eram fregueses, ais ao mesmo tempo, amigos dos donos. Todos tratavam-se como conhecidos enquanto aguardavam sua sopa quente. A experiência de chegar a Marcapata daquele jeito foi riquíssima, por que tive a oportunidade de participar da intimidade do cotidiano da comunidade. Sem prepara para o recebimento de turistas, tudo que tinham a oferecer era sua hospitalidade. Sentei-me em uma mesa em que estavam dois trabalhadores da transoceânica, um de Lima e outro de Cuzco, e pude perceber a diferença marcante de personalidade. Enquanto o limenho era brincalhão e falador, o cuzqueño era mais reservado, mas de uma gentileza e generosidade sem par. Na mesma mesa ainda estavam um jovem medico que trabalhava no posto de saúde da comunidade, e uma jovem local, perto dos 25 anos, de família de agricultores.

Todos conversavam animadamente e minha presença parece que os animou ainda mais. Em diversas vezes, ali, como em todo Peru, referiam-se ao Brasil como “O Pais más grande del mundo”. Enquanto explicavam-me como são as formações das cordilheiras, suas passagens ou “passos”, tive uma sensação muito interessante: tive a nítida impressão que já havia vivido aquela exata situação antes, o mesmo lugar, as mesmas pessoas, a mesma conversa e os mesmos pensamentos, inclusive. Para mim, foi como se eu estivesse vivendo uma situação já antes profetizada em sonhos. A sensação é conhecida e tem ate um nome próprio “Deja Vu”. Para uns trata-se apenas de uma “confusão” no cérebro, como uma miragem. Já para outros, ela seria o resultado de que presente, passado e futuro existem unidos e de alguma forma se tem acesso as trilhas invisíveis que nos conduzem nos destinos. Uma explicação absurda, mas que tem o aval da moderna física quântica. Seja qual for a explicação o fato é que vivi intensamente, o que reforçou a minha idéia de estar realizando um caminho, antes de tudo, espiritual.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Da Selva aos Andes em Duas Rodas (Parte 1)

Leandro Altheman

Sai de Puerto Maldonado as 3 da manha e viajei as primeiras horas totalmente no escuro. A estrada contudo era segura, e pude viajar com absoluta tranqüilidade. Quase não havia trafego, embora nos primeiros quilômetros passassem por mim muitos táxis para pegar clientes na área peri-urbana de Maldonado, onde estão a maior parte das casas noturnas. Mas depois de alguns quilômetros, a estrada ficou praticamente deserta.Percebia apenas que estava em uma leve, mas constante subida.

Algumas horas depois o sol surgiu atrás de mim, lançando os raios da aurora por cima de minha cabeça.

Quando tudo começou a ficar mais claro, comecei a perceber que estava em uma região de floresta, mas com um solo totalmente diferente da região do Juruá. Ao invés do barro, lama e dos terrenos arenosos, imensas quantidades de cascalho brotavam a superfície, especialmente nos córregos que cruzam por baixo da pista. A água também, ao inves de barrenta ou negra como em nossa região, límpida e cristalina.

A paisagem é bela e a estrada, boa e segue tranqüilamente assim ate a localidade Quince mil, onde surge um aviso diante do condutor: “Peligro de Muerte”. Daí para frente a estrada fica mais perigosa e também mais bonita. Contudo, é perfeitamente possível dirigir sem pressa e observar a paisagem. A estrada alias é uma obra admirável de engenharia, pontes suspensa a grandes altura em terrenos íngremes e curvas muito angulosas. Ainda assim, na maior parte da viagem há pista dupla, o que possibilita dois carros passarem em sentidos opostos. As exceções são os trechos em obras que são em geral bem sinalizados enquanto um funcionário da construtora regula o transito com placas abrindo e fechando para cada um dos lados. Absolutamente seguro. Algo que não vi, por exemplo, na BR 364 e que muitas vezes cria grandes complicações especialmente para os caminhoneiros.

Um dos trechos mais incríveis da viagem e o cruzamento do rio Inambari. Uma admirável ponte suspensa cruza o rio em grande altitude. Em algumas passagens o rio esta bastante deteriorado pelo efeito da mineração. Vemos nele uma água barrenta, e uma grande quantidade de cascalho fora de lugar, o que mudou um pouco o leito natural do rio. Mais acima, o rio apresenta sua beleza natural. De uma lado vemos o rio com seu grande caudal, corredeiras impressionantes que descem dos Andes em meio a floresta. A Floresta neste ponto, me lembrou um pouco a Serra do Mar. Imensos paredões de pedra cobertos com uma vegetação exuberante, muitas flores exóticas como orquídeas nascem em meio as arvores. Apesar da semelhança com a Serra do Mar, a paisagem supera em imponência, pois o rio que corre é imenso e os paredões de pedra se erguem a alturas inimagináveis no Brasil.

Cada curva na montanha é um mergulho mais para dentro dos Andes, é possível muitas vezes perceber a mudança de clima de vegetação a cada volta, para muitas vezes retornar ao bioma anterior. Isto por que a viagem, embora seja para o alto é feita de subidas e descidas, há vales profundos no interior que não são possíveis de serem cruzados no alto, então é necessário descer até quase o nível do rio, para novamente uma ponte cruzar para o outro lado. Então começa-se uma nova volta subindo pouco a pouco.

Mais adiante percebi uma mudança significativa na vegetação. As arvores, cada vez mais finas, são agora cobertas por liquens e musgos, muitas tem raízes aéreas. Uma forma de captar a umidade do ar, uma vez que a camada de solo é muito pequena até a rocha nua... (continua na proxima postagem)

PS: Os erros de ortografia se devem grande parte ao teclado espanhol que
nao possui os mesmo acentos graficos do português. Agradeço a compreensao!

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Fronteiras

Leandro Altheman

De certa forma foi este incontido e inexplicável desejo de viajar, de expandir os limites para além do conhecido que me trouxe ao Vale do Juruá. Mas depois servir por três anos a Marinha do Brasil, percebi que a “visao de marinheiro” nao me bastava mais. Uma visita esporádica a muitos lugares permite apenas uma visao limitada, descomprometida. Com o Juruá nao bastava um simples namoro, a paixao foi tanta que resolvi casar e ser filhos. Enfim entranhar-me na realidade, deixar com que o sol, as águas, a terra e as gentes, me mudassem por dentro e por fora. Extrapolar as fronteiras de minha própria identidade. E assim se passaram dez anos e a identidade que antes fora nova já começa a pesar como uma incômoda carcaça que me impede de enchergar com maior profundidade, minha verdadeira e sagrada identidade.

E assim, como a um filho que chega a hora de nacer, surge novamente este inexplicavel desejo, que soa como ordem dentro de meu ser.

A viagem, em si, começa antes do primeiro passo, quando se decide, enfim, viajar. Entao estao lá, de prontidao, todos os medos como guardas cuidadosos que utilizarao d etodas suas manhas para nos fazer desistir. Há muitos mais motivos para nao faze-lo do que para realizar a viagem. Por isso, a razao nao conta. Há algo maior, misterio profundo que diz: “vai, segue em frente”.

Na primeira parada encontro a mim mesmo: estou só, magro e cansado. Fui deixado de lado por mim mesmo enquanto alimentava desesperadamente… O que mesmo? Nem me lembro! E de pensar que vivia dia após dia uma selvagem luta para cumprir metas e objetivos exteriores a mim, que nao me traziam mais compensaçao do que uma sardinha traz a uma foca que com sucesso, equilibra a bola no nariz. Chega uma hora que os aplausos do fim do dia nao mais ajudam.
Magro, sozinho e cansado sou presa fácil de minhas próprias ilusoes.

Mas nao agora. Depois de consagrado na poeira da estrada, com o vento nos cabelos, sou outro. Ou melhor, longe de do que achava ser eu, sou mais eu mesmo.

“Vou me encontrar longe do meu lugar, eu, caçador de mim” –

Milton Nascimento – Caçador de Mim

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Impressões da Capital


Leandro Altheman

Alguns dias em Rio Branco me fizeram enxergar melhor algumas contradições que tornam tão incrível este estado que é o Acre.
Cada dia vivido na Capital torna mais evidente que existem realidades muito distintas no Acre. Não é de se estranhar que muitas vezes nossa voz soe tão fraca, tão impotente nas ermas paragens do Juruá. Nossos conterrâneos da capital estão em outro nível civilizatório. Aqui se dispõem de produtos, serviços e comodidades que ainda sequer sonhamos em Cruzeiro do Sul.
Uma visita à gôndola de verduras e legumes do maior supermercado de Rio Branco é como entrar em um novo mundo, desconhecido da maior parte dos juruaenses. Mas para não ficar no óbvio, tão cantado em versa e prosa do alto custo de vida de Cruzeiro do Sul, relacionei também outros aspetos, que às vezes passam despercebidos por quem se encanta com as facilidades da capital.
O primeiro, é que geralmente quando se fala em custo de vida, não se leva em conta o alto custo da habitação em Rio Branco, exceto para uma minoria privilegiada, a maior parte da população vive em casas apertadas em bairros periféricos, muitas vezes sem um quintal para as crianças brincarem. A falta de água é uma constante. Em Cruzeiro do Sul ainda é relativamente fácil para uma família, mesmo de baixa renda, morar em uma casa decente, com quintal e sombra. O calor aliás, aqui é infernal, devido à reduzida quantidade de árvores da área urbana e nos arredores.
O trânsito é caótico, fruto de uma cidade que cresceu sem planejamento, as ruas estreitas, com muitas conversões proibidas, não suporta o crescente aumento da frota de automóveis e o resultado é um trânsito de deixar qualquer um, enlouquecido.

A verdade é que diferentemente de Cruzeiro do sul e de Sena Madureira, cidades criadas como tal, para cumprir a função de capitais, Rio Branco é um seringal que virou cidade, verdade inconveniente que muitas vezes o pessoal daqui não gosta de lembrar.
As muitas novas e grandes avenidas construídas durante as últimas administrações, são uma exceção, e não é difícil entender porque as administrações da frente popular são idolatradas em Rio Branco: um ponto simples e convincente é que a abertura de pontes, avenidas e rodovias valorizou imensamente os imóveis em Rio Branco beneficiando desde o grande empresariado até ao pequeno morador de uma antes esquecida colônia na periferia da capital.

Ah!Também não passa despercebido o pobre e triste rio Acre, trabnsformado em um "igarapé", ou "boulevard" que cruza a cidade, com o pouco que restou de navegação no histórico rio de combates e batalhas da Revolução Acreana. Resultado da ocupação indiscriminada das margens.
Uma Cruzeiro do Sul de mentirinha

Nos jornais de Rio Branco não faltam notícias sobre Cruzeiro do Sul, a maioria, pura mentira. Os jornais trazem informações sobre a “excelente” (sic) administração do prefeito Wagner Sales. Nada como dinheiro no bolso para fazer sorrir os carrancudos empresários da comunicação da capital. Até aí, tudo bem, divulgar as ações da prefeitura (que existem, sim, é verdade) é uma coisa normal, resultado de bom trabalho de sua assessoria. Daí, alguns imbecís escreverem em sua coluna que a administração do prefeito Wagner Sales é uma “unanimidade”(sic), é um puro e total exagero. O tipo de falácia que às vezes me envergonha de pertencer à classe jornalística. Com isso, cometem um verdadeiro desserviço á população, em especial, aos milhares de cruzeirenses e juruaenses que adotaram à capital em busca de melhores condições de vida e oportunidades. Lendo com uma certa dose de revolta um destes jornais cheguei a afirmar “não sei onde fica esta Cruzeiro, com certeza não é a mesma em que eu vivo”

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O Ambientalismo à serviço do Capital

Leandro Altheman

Ninguém nega o fato de que a entrada de Marina Silva no cenário político nacional como provável candidata à presidência, altera por completo não apenas o quadro sucessório do presidente Lula, mas o próprio debate político-ideológico. Um ganho enorme para todos nós, brasileiros.

No entanto há uma série de armadilhas pela qual Marina terá que passar. A primeira delas já está mais do que clara nas entrelinhas da mídia nacional.

O PV Acreano é aliado do PT e PCdoB na Frente Popular. No Acre, as causas sociais e ambientais celebram um casamento de mais de 12 anos (apesar das corriqueiras brigas pela qual todo casal passa). O Acre é o berço do sócio-ambientalismo, resultado da luta de indígenas e seringueiros tão bem representada na figura emblemática de Chico Mendes.

No eixo Rio-São Paulo, a história é outra. Lá, as causas ambientais foram abraçadas pelo grande empresariado o que resultou em uma aliança entre PV, PSDB e DEM. Esta aliança não é apenas um produto de uma conjuntura particular, é o resultado de uma forma de pensar típica do chamado "primeiro mundo."São aqueles que querem exercer sobre o Norte-Nordeste do Brasil a mesma relação "Metrópole- Colônia" a que se submetem.

São estes que condenam veementemente a destruição da floresta amazônica, o “pulmão do mundo”, mas jamais cogitam abrir mão dos confortos da vida moderna, mesmo que isso signifique a destruição dos recursos naturais do planeta. Também não aceitam dividir a riqueza conquistada em séculos de exploração e opressão. Mas ainda assim, querem ter direitos sobre a maior floresta tropical do mundo, sem nunca ter pisado neste solo.

Não por acaso, já aparecem na TV comentários de que “a descoberta do petróleo do pré-sal não tem tanta importância assim, afinal, em 20 anos teremos uma mudança na matriz energética”. Comentário "ambiental" muito oportuno para quem quer reduzir a importância desta descoberta.

Esta aliança política colocou dentro do mesmo grupo que defende a preservação da floresta amazônica os que, por exemplo, defendem a ampliação da marginal Tietê para dar mais fluxo à já gigantesca frota de veículos de São Paulo (há mais carros em São Paulo do que pessoas em qualquer cidade brasileira), mesmo que isso signifique destruir o pouco que ainda resta de cobertura vegetal na megalóple.

Também há neste grupo severos críticos à política do presidente Lula de promover o poder de compra nas camadas mais baixas da população, e diminuir as desigualdades regionais. Para eles, um pobre ter geladeira é um problema, uma vez que vai aumentar o consumo de energia, e ái do meio ambiente! Os que dizem isso, provavelmente têm mais de um carro na garagem (para fugir do rodízio em São Paulo), almoçam em restaurantes de luxo e viajam de avião pelo menos uma vez por ano.

Ou seja, não é novidade a utilização do discurso ambientalista para justificar e manter as desigualdades sociais e econômicas, produto do capitalismo. Infelizmente é preciso dizer que o IBAMA e sua política são fruto deste pensamento. A importância do órgão é inegável, mas sua atuação rende-se à lógica capitalista. Por esta razão que os pequenos agricultores padecem para tirar uma licença para abrir o seu roçado, enquanto alguns dos maiores devastadores do Juruá, passeiam em automóveis de luxo pelo centro da cidade de Cruzeiro do Sul, depois de fazerem “um termo de ajustamento de conduta” em que, por exemplo, constroem um muro para o escritório do órgão. A população entende o recado de que os grandes devastadores são hoje os maiores parceiros do IBAMA e crime mesmo, é ser pobre.

Para não terminar esta postagem apenas com uma interrogação, digo que enquanto o ambientalismo estiver à serviço do capitalismo, não terá respaldo popular. Será apenas a bandeira de uma “minoria consciente”, mas privilegiada. Marina, por sua história, tem toda condição de levar este debate a um outro nível. As questões ambientais são sim, urgentes, mas mais urgente ainda, é a mudança de uma visão de mundo, de atitude, de comportamento, enfim, de um paradigma, algo que somente uma revolução no pensamento ocidental é capaz de realizar.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Mariátegui: Pensador do Socialismo Indígena

Leandro Altheman


A idéia de que a vida comunitária dos povos indígenas da América poderia servir de base para um novo tipo de socialismo, precisava de um teórico que pudesse romper as barreiras do marxismo ortodoxo e enxergar na realidade particular dos povos indígenas, a possibilidade de uma revolução autêntica. Este teórico é José Caros Mariátegui. Peruano de Moquégua, já nos anos 20 do século passado, viu esta possibilidade real. Hoje assistimos ao fenômeno Evo Morales, na Bolívia, em parte fruto destas reflexões que começaram na década de 1920 com Mariátegui.


* Ilustração de capa do jornal "Amauta" editado pr Mariátegui. A palavra "Amauta" em quetchua que significa "sábio" ou simplesmente "semeador".

Seguem abaixo a seleção de algumas frases de seu livro: “O Homem e o Mito”. O que surpreende é que Mariátegui deixa de lado o materialismo para propor a necessidade de um mito que possa catalizar o potencial revolucionário.


“Todas as pesquisas da inteligência contemporânea sobre a crise mundial deságuam nesta unânime conclusão: a civilização burguesa sofre da ausência de um mito, de uma fé, de uma esperança. Ausência que é a expressão de sua falência material. A experiência racionalista teve a paradoxal eficiência de conduzir a humanidade à triste convicção de que a Razão não lhe pode oferecer nenhum caminho. O homem ocidental colocou, durante algum tempo, no retábulo dos deuses mortos a Razão e a Ciência. Entretanto, nem a Razão nem a Ciência podem ser um mito. Nem a Razão nem a Ciência podem satisfazer toda a necessidade de infinito que há no homem. A própria Razão encarregou-se de demonstrar aos homens que ela não lhes basta. Que unicamente o Mito possui a preciosa virtude de preencher seu eu profundo.”


“Mas o homem, como a filosofia o define, é um animal metafísico. Não se vive fecundamente sem uma concepção metafísica da vida. O mito move o homem na história. Sem um mito a existência do homem não tem nenhum sentido histórico. A história, fazem-na os homens possuídos e iluminados por uma crença superior, por uma esperança sobre-humana; os demais constituem o coro anônimo do drama. “


“O que mais nítida e claramente diferencia, nesta época, a burguesia e o proletariado e o mito. A burguesia já não tem mito algum. Tornou-se incrédula, cética e niilista. O mito liberal renascentista envelheceu demasiadamente. O proletariado tem um mito: a revolução social. Em direção a esse mito move-se com uma fé veemente e ativa. A burguesia nega; o proletariado afirma. A inteligência burguesa entretém-se numa crítica racionalista do método, da teoria e da técnica dos revolucionários. Que incompreensão! A força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária, como afirmei num artigo sobre Gandhi, e uma emoção religiosa. Os motivos religiosos deslocaram-se do céu para a terra. Não são divinos; são humanos, são sociais.”


Face aos acontecimentos na América do Sul, com a organização dos movimentos indígenas e camponeses demonstrando uma formidável capacidade de organização e de ocupação de um certo vácuo-político ideológico pós-guerra fria e pós-neoliberalismo, uma releitura de Mariátegui é essencial para a melhor compreensão destes fenômenos.


Na Bolívia, forças ancestrais de um tempo anterior aos próprios Incas são despertadas por um ideal próprio de socialismo, renovado por mais paradoxal que seja, nos mais profundos mistério das tradições.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Milagres



Leandro Altheman

A viagem de volta pela BR 364 foi bem mais difícil do que a ida. Alem do cansaço natural de um corpo que passou praticamente dois dias em cima de uma motocicleta, uma inesperada chuva dificultou de maneira incalculável o progresso da viagem.
Mesmo esperando dois dias após a chuva, quando sai de Sena Madureira em direção a Manoel Urbano, com a incrível pretensão de dormir em Feijó, percebi o tamanho da dificuldade que teria de enfrentar. Logo após a travessia sobre o rio Caetés, dezenas de automóveis, grandes e pequenos, caminhões e caminhonetes, enfileiravam-se um após o outro em trechos de difícil passagem. Ainda assim, com a motocicleta foi possível ultrapassar estes obstáculos, ate que finalmente me deparei com a inacreditável e intransponível “tabatinga”. Levei a primeira queda e sem desanimar subi novamente na moto. Mas adiante foi ficando cada vez mais funda a “tabatinga”. Em alguns lugares, onde desci da moto para empurrá-la, tinha a impressão de estar pisando em uma enorme esponja com quase meio metro de profundidade. A água chiava saindo dos poros daquele terreno, aderindo-se ao sapato, aos pneus, correntes e ao que mais estivesse ao seu alcance, não como uma lama, mas como um “chiclete”, uma borracha liguenta que ia se acumulando e aumentando a espessura a cada passo. Como se não bastasse, o terreno não oferecia o mínimo de aderência para ao menos empurrar a moto que mesmo pesando apenas 100 kg exigia um esforço hercúleo para transpor míseros centímetros. Em pouco tempo estava totalmente sem fôlego. Tentei pela ultima vez utilizar o motor da moto para sair daquela situação, o que foi fatal: a embreagem não suportou o esforço e queimou o disco. Fiquei parado em cima de uma ladeira, com a tabatinga a frente a atrás de mim, com o motor funcionando, mas sem o mínimo de movimento. Alguns motoqueiros que vinham atrás ajudaram-me a afastar a moto da pista.

Atitude confiante

Neste momento, minha tendência natural seria entrar em desespero, sentir raiva de mim mesmo, me culpar por ter sido tão burro e imprevidente a ponto de entrar na BR naquelas condições. No entanto, percebendo a total inutilidade destes sentimentos, fiquei absolutamente tranqüilo e observar antes, as condições do meu corpo. Percebi que estava com forte palpitação e quase sem fôlego, o sol forte ofuscava minha vista e minha cabeça aquecia-se assustadoramente com o calor. Mal tinha forças para andar. Minha primeira atitude foi buscar uma sombra. Tirei a bagagem das minhas costas e deite-me sob a sombra tênue de uma sororoca. Sentia sede, mas como não tinha água, apenas a sombra e o descanso estavam a minha disposição. Alguns minutos depois de estar sob a sombra comecei a relaxar, senti um leve mas agradável brisa e a sensação de sede diminui consideravelmente. Cerca de 10 minutos depois, já estava tão descansado que conseguia ajudar outros motoqueiros que passavam pelo caminho. Mas apenas alguns segundos sob o sol eram suficientes para fazerem voltar a sede e a palpitação com força total.
Percebendo que não tinha água a minha disposição, resolvi lançar mão da única coisa a disposição: ayahuasca.

Delicadamente coloquei uma pequena dose na garrafinha, fiz a consagração e tomei.
O espírito do momento era esse: não desanimar diante das adversidades, encontrar em tudo, alento, ter fé, esperança, confiança, em si mesmo e nos seres divinos que me acompanham. Orei para os seres divinos que comandam os caminhos e aguardei o resultado, pensando e sentindo que na verdade nada poderia me fazer mal, e que alguma solução viria.

Conforme a força veio chegando, minhas percepções sobre aquele momento preciso, seus múltiplos significados, foram aos poucos se revelando.

Percebi a importância desta atitude de fé, de esperança, de confiança profunda, em si mesmo, na semente divina que trazemos no coração e que com dignidade devemos portá-la.

Estava tudo tão maravilhosamente ótimo, e nem cheguei a me surpreender com isso. Minha moto estava quebrada, a mais de 400 km de casa, um sol abrasador e nenhuma perspectiva de resgate em pouco tempo. Ótimo!

Tinha uma garrafa inteira de ayahuasca, e no meu peito, uma confiança que começou a se abrir em entendimento. Vi um gavião sendo atacado por pequenos pássaros. Uma cena comum e que em outros momentos me causava uma certa angustia pro ver que meu parente sofria com pássaros tão pequenos. Mas desta vez, na sombra da sororoca, sem pressa de tempo, pude ver a cena completa e percebi que na verdade o gavião não se aperreava nem um pouco com as manobras dos passarinhos, ele manobrava também, diminuindo o poder de fogo dos ataques. O que antes, em cenas curtas me parecia uma fuga desesperada, revelou-se na verdade uma manobra evasiva muito inteligente, que colocavam os pássaros pequenos exatamente aonde o gavião os queria.

De repente, passaram por ali dois tratores. A vibração deles perturbou o ar e a terra em volta de mim, tirando-me um pouco do estado em que me encontrava. No entanto, mantendo a confiança, a paz permaneceu preservada em meu peito, e pude então entrar em uma nova cadeia de percepções. A primeira foi de uma sensação de urgência, que aprecia fazer parte não apenas daquelas máquinas, mas de toda uma era. Uma sensação com um apelo muito forte, lançado a todos nós. Mas dentro da consciência xamânica, me veio um profundo alerta:”não atenda a este apelo”. E pude então olhar as coisas mais a fundo. Vi então que este aparente “sentido de urgência” na verdade escondia, encobria uma urgência mais real, verdadeira, mas que contudo não me foi revelada.

Já a “urgência social’, assim me foi revelado, estava enraizada em um sentimento de prepotência, de presunção do ser humano. Um sentimento que lhe afastava daquilo que era mais nobre, mais verdadeiro, mais prazeroso, de uma devoção natural aos Criador através dos elementos da criação. Foi me mostrado, contudo, que mesmo este atual estágio do ser humano, era também de certa forma, parte de seu aprendizado, mas que nem por isso, eu precisaria compartilhar. Ainda me resta a escolha de um caminho sagrado, junto ao Criador, presente, em cada partícula da criação.

Providência Divina

Em meio a esta deleitosa aula que transformou um amargo inferno, em um carinhoso paraíso e palácio do conhecimento, a medida que o sol aquecia, mais e mais automóveis, motocicletas e caminhões passavam por ali, intensificando o fluxo naquele local. Estava risonho e sentei-me sobre um grande pedaço de barro, observando o movimento. Alguns carros que por ali passavam buzinavam e me cumprimentavam, mas mesmo alguns conhecidos que passaram por mim, não chegaram a perguntar se precisava de algo.
Passou por mim então, uma Toyota azul, de carroceria de madeira, e o motorista olhou demoradamente para mim, diminuindo a velocidade. Aproveitei a deixa para lhe pedir água que ele me deu. Bebi longos e demorados goles, esvaziando pela metade a garrafa de dois litros. Ele então me perguntou o que acontecera e em meio aos goles, fui explicando.
“_vamos buscar um senhor que está machucado no ramal. Quando voltarmos, embarcamos a tua moto de volta para Sena Madureira.”
“-Maravilha”. Respondi
Minha alegria foi tanta que resolvi comemorar com mais uma dose de ayahuasca.
Só que desta vez, o cuzcuz com ovos do café da manhã do hotel, pediu para sair, por baixo.
Juntando toda dignidade do meu ser procurei o papel higiênico, já meio que me espremendo. Coloquei um boné e andei uns 50 metros até achar uma sombra (que não fosse perto de onde eu estava) e lá deixei o meu testemunho: Fiz a higiene e sai de lá antes que as moscas começassem a perturbar aquele lindo momento.

Voltei para o meu canto, mais aliviado e fiquei curtindo a vida, alegremente aproveitando aquele momento de leveza. Em menos de 15 minutos a Toyota Azul apareceu de volta, e imediatamente, o motorista, estacionou ao lado da moto. Sentindo a emoção de ser salvo, fui até lá e ajudei-o a embarcar a motocicleta. Logo percebi a boa disposição do sujeito: mesmo coberto de lama, num sol daqueles, levantando aquela moto a uma altura de 1 metro e meio, o sorriso não saia de seu rosto.
Enquanto o ajudava a erguer a motocicleta lembrei de dizer:
“Um resgate destes, só pode ser a providencia divina”.
Para mim que estava alí sem a possibilidade de um resgate este me pareceu um autêntico mliagre. E mesmo diante de todas as incertezas da vida, saí de lá com uma certeza: que o auxílio vem para quem consegue se colocar em uma atitude de confiança e de dignidade perante as dificuldades da vida.

Fidélis, o condutor da Toyota, amarrou a motocicleta. E para não ficar só olhando, uma vez que não fazia a menor idéia de por onde começar disse: “Vou fazer o que sei”, peguei então minha câmera fotográfica e passei a registrar o momento do resgate, já pensando em utilizar depois as fotos para descrever esta incrível cadeia de eventos.

Depois de embarcado, seguimos viagem de volta para Sena, mas não pro muito tempo: no meio do caminho, uma caminhonete Nissan que estava sendo rebocada, foi deixada para traz depois que o reboque partiu e o cara que o levava nem percebeu, e seguiu em frente. Nosso herói de hoje, que já havia tirado um senhor idoso de dentro de um ramal, e resgatado um motociclista que ele nunca tinha visto na vida, desceu da caminhonete , pacientemente atou uma corda por dentro de um “cambão” (espécie de eixo que evita o choque entre o rebocador e o rebocado) e passou a rebocar a “Nissan”. Mais para frente, Fidélis, afastou-se um pouco e desceu para ficar observando os carros pequenos passando por um trecho difícil, indicando os melhores lugares para passagem. Perguntei para outro ocupante da Toyota de quem era o veículo e ele me disse apenas: “da Igreja”. Não quis perguntar “de qual igreja”, pois achei que estaria sendo indelicado. Não importa de qual igreja fosse, seria sempre grato aqueles irmãos.

Depois seguimos nossa viagem, já em maior velocidade, pois eram cerca de 5 horas da tarde e a estrada já estava bem mais seca.Conversei demoradamente com o sujeito que ia comigo na caçamba: um rapaz jovem, mineiro, que vivia naquele ramal desde os seis anos de idade. Há mais de 21 anos sua família havia saído da zona urbana de Belo Horizonte para morar na zona Rural de Sena Madureira-AC. O mais incrível é que tudo começou com o seu irmão, que foi para lá com 14 anos, virou padre e convidou o restante da família. Neste momento já comecei a perceber que se tratava de Igreja Católica.
Enquanto andava na carroceria daquela Toyota fui contando ao rapaz sobre Cruzeiro do Sul, os seus muitos buritizais, os seus banhos, o nosso novenário, falei sobre meu filho que sobe em árvores para comer ingá e percebi que amava imensamente o Juruá. Senti um amor tão profundo e forte, que começou por Cruzeiro do Sul, ampliou-se para a natureza do Juruá, para a minha família, agradeci imensamente minhas escolhas que me levaram até lá, e meu amor foi se ampliando: ao vento que balançava meus cabelos, ao sol que fazia meus braços arderem, à terra tão bela afinal, e que nos concedia seus caminhos, aqueles irmãos que mesmo sem me conhecerem me resgataram. Senti a presença de Deus em tudo, não enxerguei mais barreiras entre religiões, credos, enfim, percebi que há portanto uma fonte universal a qual todos podemos acessar, de diferentes maneiras...

Prometi para mim mesmo ascender uma vela na igreja, para agradecer o espírito fraterno daqueles irmãos.

A ocasião ainda me deu a oportunidade de conhecer o legendário Padre Paolino Baldassari que há tantos anos faz o bem naquela terra, àquelas gentes, de acordo com seus princípios.

Depois de consertar a moto, o que levou cerca de 40 minutos, fui até a igreja Nossa Senhora da Conceição e acendi uma vela em agradecimento...
Um frase na igreja me chamou a atenção: "Ninguém vem a mim a não ser que lhe seja concedido pelo pai". E lá estava eu, mesmo sendo uma ayahuasqueiro, prestando uma homenagem, um agradecimento sincero àquelas pessoas que com base nos seus sentimentos e crenças, fazem o bem, sem olhar a quem.

Saí de lá com a certeza ainda maior de que "Deus está em toda parte".

domingo, 16 de agosto de 2009

O Chute na Santa (3)


A idolatria na TV

Roteiro para um filme sobre idolatria

Cena 1:
Um pastor berra ao microfone palavras eloqüentes. Com um habilidoso sofisma, ele cita passagens bíblicas e depois às compara com exemplos do mundo atual. Uma multidão atônita assiste ao espetáculo. É de madrugada. Um gordo na poltrona tem em uma das mãos o controle remoto e na outra um pacote de biscoitos. Quando chega no canal do pastor ele não muda mais de canal. Permanece atônito como o auditório. O pastor, com bíblia na mão, exaspera-se, condenado o que ele chama de “idolatria”. Milhares de lares acompanham sua pregação.

Cena 2:
O gordo finalmente consegue trocar de canal. Mais um canal de pregações. Neste o telefone toca e o pastor atende ao vivo. Ao fundo uma mulher desesperada. Seu marido alcoólatra perdeu o emprego. Ele ergue as mãos e proclama o poder de deus que alcança a mulher via satélite.

Cena 3:
Nosso personagem na poltrona troca novamente de canal. Agora um grupo de pastores com as mãos erguidas pede que cada telespectador coloque em frente à sua televisão um copo d’água, para captar as bênçãos que eles vão emitir. Em muitos lares, as pessoas fazem isso, em geral, são mulheres desesperadas e solitárias como a que ligou. O gordo até pensa em fazer também. Mas olha a geladeira, olha o copo, mede a distância e tomado de uma imensurável preguiça, decide não fazê-lo. Apanha mais um bocado de amendoins e os joga na boca, assistindo o resto do espetáculo.

Cena 4:
Finalmente ele adormece. A mistura de TV com amendoins estragados faz com que tenha um incrível pesadelo. Nele se ergue uma gigantesca torre, onde no alto há uma televisão. De dentro dela saem às imagens de um pastor que faz a sua pregação enfurecida, condenando a idolatria. Ao seu redor, milhares de pessoas ajoelhadas diante da tela, mãos erguidas em prece. Alguns trazem seu filhos doentes para que o pastor, da TV, os abençoe. Outros andaram muito com suas muletas em busca de uma cura. Outros são desesperados que querem um lampejo de luz em suas vidas, mas a maioria se torna uma turba furiosa, raivosa que começa a circular a torre com a TV, como fiéis fundamentalistas que prometem fazer tudo o que a TV mandar. Há uma catarse em torno da figura do pastor, que aparece apenas na tela. Ele acusa as outras religiões de pertencerem ao demônio, para seus fiéis cada palavra sua, é lei.

Cena 5:
O Gordo desperta assustado. No mesmo canal, agora o pastor faz um exorcismo expulsando o demônio em rede nacional. Cansado de tudo aquilo, ele troca mais uma vez de canal, é o Pica-Pau. Ele respira aliviado. He-he-he-he; he-he-he-he, hehehehehehehe…

sábado, 15 de agosto de 2009

O Chute na Santa (2)

A Arena Televisiva
Leandro Altheman

Esqueça esta história que você ouviu sobre democracia e meios de comunicação. Esqueça esta balela sobre a imparcialidade a qual se arvoram os senhores da imprensa. É tudo mentira. Ou melhor: é tudo mais um espetáculo para manter você e eu, ligados na TV acreditando se tratar da realidade.

Sendo assim, não é preciso tomar partido na briga entre a Globo de Roberto Marinho e a Record de Edir Macedo. Não se trata de uma luta entre o “bem e o mal’ como poderiam sugerir os filmes da sessão da tarde. Verdadeiramente nenhum presta. Nenhuma destas emissoras merece a sua atenção ou o seu respeito. Se quiser, divirta-se, como se divertiria um romano ao ver dois gladiadores lutando até a morte.

O dinheiro que deu origem à Rede Globo veio de um poderoso conglomerado dos EUAS da área de comunicação, o grupo Time-Life. O objetivo era claro e simples: em plena guerra fria eles precisavam de uma empresa que garantisse os ideais capitalistas e pró-EUA no Brasil. Conseguiram bem mais do que isso, emperraram os avanços políticos do nosso país por mais de 20 anos e por outro lado, uma pretensa “liberação dos costumes”, nos fazia acreditar estarmos indo na direção da “modernidade”.

Já o dinheiro que permitiu ao bispo Edir Macedo a compra da Rede Record é bastante óbvio que tenha vindo de sua igreja, e portando, direta ou indiretamente da doação de seus fiéis. Por outro lado, a vinda das chamadas igrejas neopentecostais para o Brasil coincide com o exato momento em que setores da Igreja Católica passaram a professar uma fé mais socialista que de costume. Favorecidos pelo regime militar, os telepastores vieram dos EUA e fizeram sucesso nestas latitudes, deixando discípulos como Edir Macedo.

Em outras palavras: é tudo a mesma bosta...

Um monte de dinheiro usado para encobrir a verdade e amortecer nossa capacidade de ver o mundo de maneira crítica. A medida que a população vai adquirindo mais consciência, mais sofisticados se tornam os meios de manipulação.

É difícil escolher. O que é pior: o “BBB nº tal”, ou “A Fazenda”. Tudo conspira a favor das meias verdade, a indução dos pensamentos, dos sentimentos, das respostas que damos ao mundo que nos cerca.

Mas, antes que me chamem de pessimista. Quero deixar claro uma coisa. Mesmo com todo o poder de manipulação da mídia, seu alcance ainda é limitado. Cito três exemplos: As Diretas Já, o Impeachment de Collor e a primeira Eleição de Lula. Em nenhum destes três casos o poder da mídia foi maior do que a mobilização popular. Engana-se quem pensa que a Globo ajudou o Impeachment, ou Lula. No caso das diretas já, a emissora deixou para a história o seu papel mesquinho de manipulador, ao noticiar a manifestação da praça da Sé como uma “festa dos estudantes”. No caso do Impeachment, a emissora tentou neglicenciar o acontecido, mas não teve jeito, o povo foi as ruas e Collor caiu. Bem, quanto a Lula, eles o derrubaram duas vezes, mas na terceira, ele já havia aprendido suficientemente as regras do jogo para não cair nas mesmas armadilhas (caiu em outras, depois).

Ou seja, por maior que seja o poder da mídia, ainda nos restam escolhas e mesmo este poder, escorre pelos dedos a medida que o acesso à Internet avança. Não é a toa que foi sugerido em Matrix, um universo por trás da aparente realidade. Não difere muito da Caverna de Platão, mas podemos sim, enxergar além das sombras animadas da telinha.