terça-feira, 14 de dezembro de 2010

WikiLeaks: Serra ia entregar pré-sal à exploração norte-americana

O refino do petróleo garante a produção de gasolina

As petroleiras norte-americanas contavam com o apoio do candidato derrotado à Presidência da República José Serra para não se submeter às novas regras definidas no marco de exploração de petróleo na camada pré-sal que o governo aprovou no Congresso. A Chevron chegou a ouvir do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), quando estava à frente da presidente eleita, Dilma Rousseff, a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse. A revelação está em um telegrama diplomático dos EUA, datado de dezembro de 2009, e vazado pelo site WikiLeaks.

“Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava… E nós mudaremos de volta”, disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

O despacho relata a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição em tentar derrubar a proposta do governo brasileiro. O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem “senso de urgência”. Questionado sobre o que as petroleiras fariam nesse meio tempo, Serra respondeu, sempre segundo o relato: “Vocês vão e voltam”.

A executiva da Chevron relatou a conversa com Serra ao representante de economia do consulado dos EUA no Rio. O cônsul Dennis Hearne repassou as informações no despacho “A indústria do petróleo conseguirá derrubar a lei do pré-sal?”.

O governo alterou o modelo de exploração –que desde 1997 era baseado em concessões–, obrigando a partilha da produção das novas reservas. A Petrobras tem de ser parceira em todos os consórcios de exploração e é operadora exclusiva dos campos. A regra foi aprovada na Câmara este mês.

O diário conservador paulistano Folha de S. Paulo teve acesso e divulgou os seis telegramas do consulado dos EUA no Rio sobre a descoberta da reserva de petróleo, obtidos pelo WikiLeaks. Datados entre janeiro de 2008 e dezembro de 2009, mostram a preocupação da diplomacia dos EUA com as novas regras. O crescente papel da Petrobras como “operadora chefe” também é relatado com preocupação.

O consultado também avaliava, em 15 de abril de 2008, que as descobertas de petróleo e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) poderiam “turbinar” a candidatura de Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil. O consulado cita que o Brasil se tornará um “player” importante no mercado de energia internacional. Em outro telegrama, de 27 de agosto de 2009, a executiva da Chevron comenta que uma nova estatal deve ser criada para gerir a nova reserva porque “o PMDB precisa de uma companhia”.

Texto de 30 de junho de 2008 diz que a reativação da Quarta Frota da Marinha dos EUA, na época da descoberta do pré-sal, causou reação nacionalista. A frota é destinada a agir no Atlântico Sul, área de influência brasileira.

Publicado originalmente em:

www.correiodobrasil.com.br

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

EUA criticam o presidente Lula na questão ambiental

Publicado no site de notícias Correio do Brasil

Mais uma série de documentos publicados no sítio WikiLeaks e divulgados na imprensa mundial revela as críticas dos EUA à diplomacia brasileira durante as negociações internacionais do clima, entre 2008 e 2010. Em um dos vários telegramas escritos por diplomatas norte-americanos, o texto é irônico ao tratar da liderança do Brasil na cúpula do clima de Copenhague, no final de 2009.

Na mensagem, a diplomata Lisa Kubiske diz que “Lula cacarejou” suas conquistas ambientais e sua capacidade de costurar um acordo e acrescenta que o Brasil teria passado uma imagem de “herói” e “cavaleiro branco”. Os documentos, revelam ainda que os EUA exercitaram a estratégia de tentar conquistar o apoio brasileiro às suas propostas com o enfraquecimento do Itamaraty em favor do Ministério do Meio Ambiente (MMA). Durante o encontro de nações, ainda segundo o WikiLeaks, EUA e China negociaram um acordo para manter os atuais níveis de poluição no mundo.

De acordo com o sítio fundado pelo jornalista Julian Assange, preso em Londres, o embaixador do Brasil para o clima, Sergio Serra, teria dito que “quem lidera as negociações é o Itamaraty, e Carlos Minc (na época ministro do Meio Ambiente) fala apenas sobre as suas opiniões pessoais”.

A ex-ministra do Meio Ambiente e candidata derrotada à Presidência da República, Marina Silva, para os norte-americanos, trata-se de uma pessoa “inflexível e absolutista nas questões ambientais”. Carlos Minc, por sua vez, era visto como pragmático e parceiro-chave dos EUA para defender que países como China e Índia deveriam ter metas.

O WikiLeaks flagrou correspondências também do embaixador Clifford Sobel, nas quais ele critica Minc: “Ele tem tendência a dizer o que gostaria que fosse verdade, e não o que de fato ocorreu”, referindo-se à garantia do então ministro ao representante dos EUA no Brasil de que que a posição do Itamaraty não prevaleceria, e sim a de seu ministério, o que não ocorreu.

Sobel, no entanto, reconhece que “o MMA está muito mais preocupado em resolver a questão. O Itamaraty a vê (à política ambiental brasileira) no contexto maior da política externa e está disposto a fazer menos sacrifícios”.

Procurado por jornalistas, Minc disse que havia, sim, uma divisão nítida entre seu ministério e o Itamaraty.

– O conservadorismo do Itamaraty se alinhava às posições mundialmente mais atrasadas: como quem historicamente poluiu foram os ricos, eles que façam alguma coisa – disse ao diário conservador paulistano Folha de S. Paulo.

Minc, porém, não aprovou a ideia de ser apontado como o homem de confiança dos EUA.

– Não tenho nenhuma identidade com os EUA. Tenho posições duríssimas com relação a eles. Defendi posição histórica dos ambientalistas – concluiu.

Publicado em : www.correiodobrasil.com.br


sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Jobim: nos tempos de Jango?

Correspondência entre EUA e Minsitro da Defesa revelado pelo site WikeLeaks mostra a que interesses de fato ele serve.

Por Gilson Caroni Filho - do Rio de Janeiro

O professor Boaventura de Souza Santos, da Universidade de Coimbra, escreveu, há 11 anos, que: “uma parte do que de importante ocorre no mundo é em segredo e em silêncio, fora do alcance dos cidadãos. E o dilema para a democracia daqui resultante é que os segredos só podem ser conhecidos a posteriori, depois de deixarem de ser, depois de produzirem fatos consumados que escaparam ao controle democrático”. Referia-se ele, na época, ao Acordo Multilateral de Investimentos (AMI), que vinha sendo negociado na surdina, entre os países desenvolvidos da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), por iniciativa dos Estados Unidos e da União Européia, com cinco países observadores, entre eles o Brasil de FHC. Tratava-se de uma carta magna das corporações transnacionais que não deixava aos países da periferia qualquer margem de soberania.

Graças ao vazamento do site Wikileaks, organização que confirma o surgimento de uma nova esfera informativa mundial, os fatos e manobras que permaneciam ocultos, na lúcida observação de Boaventura, se tornaram de conhecimento público, expondo, no caso brasileiro, o tamanho da queda que nos querem impor, ou a que estamos sujeitos.

Os telegramas de Clifford Sobel, ex-embaixador dos EUA no Brasil, dando conta de que os serviços prestados pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, a um país estrangeiro são emblemáticos. A presença de Jobim no futuro governo pode ter se tornado inviável. Mais do que nunca é importante lembrar a existência de uma relação íntima entre a intensidade da ameaça e a firmeza da resposta. Não há justificativa plausível, nem mesmo na lógica de uma estreita Realpolitik, para a continuação de Jobim à frente da pasta da Defesa. Um pequeno histórico se faz necessário quando mentalidades mórbidas voltam a atacar a soberania nacional, como se fosse praga e empecilho a ser removido.

Ao se abrirem os anos 1960, a diplomacia brasileira, refletindo tanto as novas realidades internacionais quanto a correlação interna das forças sociopolíticas, desenvolveu os seus primeiros esforços no sentido de divorciar-se do caduco alinhamento incondicional ao imperialismo, herança dos tempos da Guerra Fria. Foram dados, então, os passos do que, à época, ficou conhecido como “política externa independente”

O golpe de 1964 interrompeu esse processo. O regime emergente de 1º de abril, medularmente comprometido com o imperialismo estadunidense, acoplou à repressão no interior (“segurança nacional”) o reacionarismo na política externa (fronteiras ideológicas). O posicionamento internacional daí resultante só poderia ter sido aquilo que que sabemos: a subserviência mais lamentável aos desígnios do Império – de que permanece, como triste exemplo, a nossa intervenção na República Dominicana, no bojo da sinistra “Força Interamericana de Paz”.

Pouco a pouco, todavia, este posicionamento – lesivo à verdadeira soberania nacional, aviltante para uma república soberana – foi sendo ultrapassado pela realidade da vida. Entre as complicações de um mundo cada vez menos definível segundo o maniqueísmo dos “blocos” e as contradições do desenvolvimento das forças produtivas no país, a concepção das ” fronteiras ideológicas” passou, de fato, à categoria de figura de retórica. Especialmente a partir dos primeiros anos da década de 70, os governos militares foram compelidos a descolar-se do jogo internacional do imperialismo.

E sempre que o fizeram, conflitando com sua política interna e com seu próprio discurso global, marcaram posições progressistas que lhes valeram significativos créditos entre a comunidade das nações. Basta pensar na postura brasileira em face da luta de libertação dos povos africanos, diante da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e em relação às Malvinas.

A importância deste descolamento, conduzido consequentemente após a redemocratização, configurou o perfil que as forças democráticas reclamam para o Brasil: o de um país independente, com uma posição internacional e soberana e autônoma. Este cenário, evidentemente, é função da situação nacional. Somente um regime democrático, como o que temos hoje, assentado na mais ampla participação popular, pode aprofundar as tendências progressistas de nossa política externa. Vale dizer: a luta pela reorganização democrática da sociedade continua sendo conjugada à luta para sistematizar uma inserção internacional que corresponda aos interesses da maioria do nosso povo.

No limiar do futuro, a sociedade brasileira aparenta ser prisioneira do seu passado que, por ainda não ter sido dominado, ameaça se voltar contra ela. Pois é na hora do vôo livre para uma área ainda por construir, porém promissora, que a vontade não pode se distrair na desconfiança de que, mais uma vez, reiteramos antigos erros.

Quando disse ao diplomata americano que o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, “odeia os Estados Unidos e trabalha para criar problemas na relação entre Brasília e Washington”, Nelson Jobim se afigurou como triste personagem de uma geopolítica de vice-reinado.

Por aí, estaríamos condenados a viver em um território estranho à dialética, oscilando mecanicamente entre velhas sístoles e diástoles, vítimas de uma conspiração da nossa própria história. Cabe à presidente eleita avaliar se vale a pena apostar no atual ministro da Defesa. Por seu desempenho nos últimos anos e pelas confidências reveladas pelo site, Jobim está empenhado em uma aventura que lhe permita tomar o passado de assalto, obrigando o país a viver uma vida que não é a sua, como se fosse a única possível. Seria Jango o seu alvo?

Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior, colaborador do Correio do Brasil e do Jornal do Brasil.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Centenário de morte de Leon Tolstói, mestre de Gandhi

Por Leonardo Boff - do Rio de Janeiro

Ocupando lugar central da sala de estar de minha casa há impressionante quadro de um pintor polonês mostrando Tolstói (1828-1910) sendo abraçado pelo Cristo coroado de espinhos. Ele está vestido como um camponês russo e parece extuado como a simbolizar a humanidade inteira chegando finalmente ao abraço infinito da paz depois de milhões de anos ascendendo penosamente o caminho da evolução. Foi um presente que recebi do então Presidente da Assembleia da ONU Miguel d’Escoto Brockmann, grande devoto do pai do pacifismo moderno. No dia 20 de novembro celebrou-se o centenário de sua morte em 1910. Ele merece ser recordado não só como um dos maiores escritores da humanidade com seus romances Guerra e Paz (1868) e Anna Karenina (1875) entre outros tantos, perfazendo 90 volumes, mas principalmente como um dos espíritos mais comprometidos com os pobres e com a paz, considerado o pai do pacifismo moderno.

Para nós teólogos, conta especialmente o livro O Reino de Deus está em vós escrito depois de terrível crise espiritual quando tinha 50 anos (1978). Frequentou filósofos, teólogos e sábios e ninguém o satisfez. Foi então que mergulhou no mundo dos pobres. Foi ai que redescobriu a fé viva “aquela que lhes dava possibilidade de viver”. Tolstói considerava esta obra a mais importante de tudo o que escreveu. Seus famosos romances tinha-os, como confessa no Diário de 28/20/1895, “conversa fiada de feirantes para atrair fregueses com o objetivo de lhes vender depois outra coisa bem diferente”. Levou três anos para terminá-la (1890-1893). Saiu no Brasil pela Editora Rosa dos Tempos (hoje Record) em 1994, com bela introdução de Frei Clodovis Boff, mas infelizmente esgotada.

O Reino de Deus está em vós, logo traduzido em várias línguas, teve enorme repercussão, gerando aplausos e acirradas rejeições. Mas a maior influência foi sobre Gandhi. Mergulhado também em profunda crise espiritual, acreditando ainda na violência como solução para os problemas sociais, leu o livro em 1894. Causou-lhe uma abissal comoção:”a leitura do livro me curou e fez de mim um firme seguidor da ahimsa (não violência)”. Distribuía o livro entre amigos e o levou para a prisão em 1908 para meditá-lo. O apóstolo da “não-violência ativa” teve como mestre a Leon Tolstói. Este foi excomungado pela Igreja Ortodoxa e o livro vetado pelo regime czarista.

Qual a tese central do livro? É a palavra de Cristo: “Não resistais ao mal” (Mt 5,39). O sentido é: “Não resistais ao mal com o mal”. Ou não respondais a violência com violência. Não se trata de cruzar os braços, mas de responder à violência com a não-violência ativa: com a bondade, a mansidão e o amor. Em outra forma: “não revidar, não retaliar, não contra-atacar, não se vingar”. Estas atitudes verdadeiras possuem uma força intrínseca invencível como ensina Gandhi. Para o profeta russo tal preceito não se restringe ao cristianismo. Ele traduz a lógica secreta e profunda do espírito humano que é o amor. Toca no sagrado que está dentro de cada um. Por isso o título do livro O Reino de Deus está em vós.

Gandhi traduziu a nao-violência tolstoiana como não-cooperação, desobediência civil e repúdio ativo a toda servilidade. Tanto ele como Tolstói sabiam que o poder se alimenta da aceitação, da obediência cega e da submissão. Porque tanto o Estado quanto a Igreja exigem estas atitudes servis, desqualifica-as de forma contundente. São instituições que tolhem a liberdade, atributo inalienável e definitório do ser humano. No frontispício do livro lemos a frase de São Paulo: “não vos torneis servos dos homens”(1Cor 7,23).

Para Tolstói o cristianismo é menos uma doutrina a ser aceita do que uma prática a ser vivida. Ele está à frente e não atrás. Para trás parece que faliu. Mas à frente é uma força que não foi ainda totalmente experimentada. E é urgente praticá-la Profeticamente Tolstói percebia a irrupção de guerras violentas, como, de fato, ocorreram. A casa está pegando fogo e não há tempo para se perguntar se é preciso sair ou não.

Tolstói tem uma mensagem para o momento atual, pois os grandes continuam acreditando na violência bélica para resolver problemas políticos no Iraque e no Afeganistão. Mas outros tempos virão. Quando o pintinho já não pode mais ficar no ovo, ele mesmo rompe a casca com o bico e então nasce. Assim deverá nascer uma nova era de não-violência e de paz.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Convenção de Veneza




Reproduzo aqui trecho da declaração de Veneza de 1986, que trata da necessiade de se discutir o novo paradigma da ciência. O texto é assinado por cientistas de renome da época. Vale a pena dar uma olhada, principalmente quem deseja discutir saúde e educação.

Declaração de Veneza (Unesco 1986)

Cientistas, médicos, antropólogos, educadores, filósofos e escritores de 16 países reuniram-se em Veneza (Itália) de 03 a 07 de março de 1986 no 1º Fórum da UNESCO sobre Ciência e Cultura para responder a uma das mais importantes indagações deste final de século: que caminhos a humanidade deveria trilhar para evitar sua autodestruição e salvar o Planeta? Desse simpósio surgiu a "Declaração de Veneza", um dos mais importantes documentos da nossa história contemporânea que resume os desafios do nosso tempo. Entre os seis tópicos da "Declaração", os 19 signatários alertam para o abismo existente "entre uma nova visão do mundo que emerge do estudo de sistemas naturais e os valores que continuam a prevalecer em filosofia, nas ciências sociais e humanas e na vida da sociedade moderna, baseados num determinismo mecanicista".

Segundo os signatários, "a maneira convencional de ensinar ciência não permite que se perceba a separação entre a ciência moderna e as visões do mundo hoje superadas". Por isso, reforçam a complementariedade entre Ciência e Tradição, a necessidade da pesquisa autenticamente transdisciplinar e a busca de harmonia com as grandes tradições culturais. Foram signatários os representantes do Brasil, Guana, Suíça, Itália, França, Índia, México, Israel, Japão, Suécia, Paquistão, Nigéria, Canadá, Srilanca e Estados Unidos.

Declaração de Veneza (Unesco 1986)

1. Estamos testemunhando uma importante evolução no campo das ciências, resultante das reflexões sobre ciência básica (em particular pelos desenvolvimentos recentes em física e embriologia), pelas mudanças rápidas que elas ocasionaram na lógica, na epistemologia e na vida diária mediante suas aplicações tecnológicas. Contudo, notamos ao mesmo tempo um grande abismo entre uma nova visão do mundo que emerge do estudo de sistemas naturais e os valores que continuam a prevalecer em filosofia, nas ciências sociais e humanas e na vida da sociedade moderna, valores amplamente baseados num determinismo mecanicista, positivismo ou niilismo. Acreditamos que essa discrepância é danosa e, na verdade, perigosa para a sobrevivência de nossa espécie.

2. O conhecimento científico, no seu próprio ímpeto, atingiu o ponto em que ele pode começar um diálogo com outras formas de conhecimento. Nesse sentido, e mesmo admitindo as diferenças fundamentais entre Ciência e Tradição, reconhecemos ambas em complementaridade e não em contradição. Esse novo e enriquecedor intercâmbio entre ciência e as diferentes tradições do mundo abre as portas para uma nova visão da humanidade e, até, para um novo racionalismo, o que poderia induzir a uma nova perspectiva metafísica.

3. Mesmo não desejando tentar um enfoque global, nem estabelecer um sistema fechado de pensamento, nem inventar uma nova utopia, reconhecemos a necessidade premente de pesquisa autenticamente transdisciplinar mediante uma dinâmica de intercâmbio entre as ciências naturais, sociais, arte e tradição. Poderia ser dito que esse modo transdisciplinar é inerente ao nosso cérebro pela dinâmica de interação entre os seus dois hemisférios.Pesquisas conjuntas da natureza e da imaginação, do universo e do homem, poderiam conduzir-nos mais próximo à realidade e permitir-nos um melhor enfrentamento dos desafios do nosso tempo.

4. A maneira convencional de ensinar ciência mediante uma apresentação linear do conhecimento não permite que se perceba o divórcio entre a ciência moderna e visões do mundo que são hoje superadas. Enfatizamos a necessidade de novos métodos educacionais que tomem em consideração o progresso científico atual, que agora entra em harmonia com as grandes tradições culturais cuja preservação e estudo profundo são essenciais.A Unesco deve ser a organização apropriada para procurar essas idéias.

5. Os desafios de nosso tempo, o risco de destruição de nossa espécie, o impacto do processamento de dados, as implicações da genética, etc. jogam uma nova luz nas responsabilidades sociais da comunidade científica, tanto na iniciação quanto na aplicação de pesquisa. Embora os cientistas possam não ter controle sobre as aplicações das suas próprias descobertas, eles não poderão permanecer passivos quando se confrontando com os usos impensados daquilo que eles descobriram. É nosso ponto de vista que a magnitude dos desafios de hoje exige, por um lado, um fluxo de informações para o público que seja confiável e contínuo e, por outro lado, o estabelecimento de mecanismos multi- transdisciplinares para conduzirem e mesmo executarem os processos decisórios.

6. Esperamos que a UNESCO considere este encontro como um ponto de partida e encoraje mais reflexões do gênero num clima de transdisciplinaridade e universalidade.

Signatários: A.D. Akeampong (Ghana; físico-matemático); Ubiratan D'Ambrósio (Brasil; educador matemático); René Berger (Suíça, crítico de arte); Nicoló Dallaporta (Itália; físico); Jean Dausset (França; Prêmio Nobel de Medicina); Maitraye Devi (Índia; poetisa); Gilbert Durand (França; filósofo); Santiago Genovês (México; antropólogo); Akshai Margalit (Israel; filósofo); Yujiro Nakamura (Japão; filósofo); David Ottoson (Suécia; Presidente do Comitê Nobel de Filosofia); Abdus Salam (Paquistão; Prêmio Nobel de Física); L.K. Shayo (Nigéria; matemático); Ruppert Sheldrake (Inglaterra; bioquímica); Henry Stapp (USA; físico); David Suzuki (Canadá; geneticista); Susantha Goonatilake (Sri Lanka; antropologia cultural); Besarab Nicolescu (França; físico); Michel Random (França; escritor); Jacques Richardson (USA; escritor); Eiji Hattori (UNESCO; Chefe do Setor de Informações); V.T. Zharov (UNESCO; Diretor da Divisão de Ciências).

Müraiá: Médicos da Floresta (2)



Leandro Altheman

Poderia ser a cena de um filme de terror, se não fosse tão corriqueiro. É o lugar-comum do SUS.

Chego em casa após um dia estafante de trabalho, encontro a mãe de meu filho chorando; - "Nosso filho não consegue mais andar". Qual desespero não sente um pai nesta situação. Peguei meu filho e levei-o até o hospital, na época (2002), Hospital Geral de Cruzeiro do Sul. O médico plantonista lá estava, tranquilo, num dia sem ocorrências. Depois de explicar a ele que meu filho, que eu deixara em casa normnal, pela manhã, à noite não podia mais andar, sua resposta foi simplesmente essa: "- Não posso fazer nada"
Então é essa a resposta de um médico que ganha no mínimo 8 mil reais por mês, que depois de passar até sete anos ou mais estudando o corpo humano, desde suas células, tecidos e orgãos?
Pois bem, cheguei em casa e já que o médico não pode fazer nada , faço eu. Passei a realizar massagens e já na segunda em diante ele recuperou a capacidade de andar. Continuei realizando as massagens e felizmente meu filho não sofre de nenhum problema.

Ora, a Medicina, em sua origem nasce do desejo inerente do ser humano de ajudar ao próximo. Toda a ciência e tecnologia que tornam a medicina moderna tão admirável, são apenas meros instrumentos para tornar este desejo, realizável. Portanto, alguém que não tenha dentro de si este desejo, jamais deveria seguir profissão alguma na área de saúde.

Mas hoje eu só tenho a agradecer a este médico. Graças também a ele, descobri que eu posso fazer muito mais pelos meus pares, do que a maioria dos médicos nos julgam capazes. Parte do desejo de me tornar um müraiá, deve-se também a este fato.

Um médico faz um juramento, o famoso Juramento de Hipócrates. Um Müraiá também faz um juramento: o de que seu conhecimento será usado para curar, para trazer o bem das pessoas. A diferença é de que não é um juramento público, mas feito no interior da Floresta, junto às plantas e árvores que serão suas eternas auxiliares.

Nas imagens: 1-Hipócrates. 2- O caduceu de esculápio, um dos simbolos da medicina e não por acaso, também dos médicos da floresta. As asas simbolizam a presteza com a qual os médicos devem atuar.3- O médico dividido entre a ética e o lucro.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

domingo, 21 de novembro de 2010

Mürayá: Médicos da Floresta (1)








Leandro Altheman

Aproveito o momento oportunizado pelos recentes debates em nossa Cruzeiro do Sul acerca do tema da saúde, para trazer minha contribuição, nada ortodoxa, às discussões.

Esta é uma primera postagem, da qual pretendo inciciar uma série abordando este tema.
Minha exposição baseia-se não tanto em crenças e sim sobretudo, no que se insere dentro da perspectiva temática do novo paradigma da ciência, já elucidada pela OMS durante Convenção de Veneza.

Em minha mais recente viagem ao Peru, desta vez na região conhecida como Selva Baixa no médio Ucayally, conheci povos com elevado grau de conhecimento das medicinas naturais.
Grande parte das plantas, ervas, cascas, sementes e raízes utilizadas por eles são também de conhecimento deste lado da fronteira, especialmente neste Extremo Ocidente.

No entanto alguns fatores contribuiem para que no Peru, tais conhecimentos estejam em um nível mais elevado d econhecimento. O primeiro é que muito antes da formação do Império Inca, já havia entre estes povos o costume de realizar trocas de toda ordem entre os diferentes povos e regiões. Com isso, houve uma difusão de conhecimentos e práticas que ampliou enormemente a farmacopéia de cada povo. Ao passo que no Brasil, o estado de maior isolamente entre povos e culturas, limitou o conhecimento de cada grupo.

O segundo fator é o estado de precariedade do sistema de saúde pública do Peru. Recorrer a tais medicinas tem sido, portanto, há séculos, uma questão de sobrevivência.

O estado de organziação do Império Inca e dos diferentes "Ayllus" permitiu a criação de uma classe de médicos (inclusive cirurgiões), curandeiros, ervateiros, raizeiros e especialistas de diversas ordens.
O grau de conhecimento deste médicos era tão elevado que durante séculos, os espanhóis e seus descenedentes preferiam tratar-se com os nativos de que com seus pares. Portanto, mesmo após a queda do império, tais médicos continuaram tendo uma função social.
Da região conhecida como Selva Baixa ou Omágua advinham as mais poderosas medicinas que eram utilizadas em todo o império, dentre elas a própria ayahuasca. Tais trocas interregionais continuam acontecendo até hoje e são a base de sustento para uma classe.

Alguns destes medicamentos naturais foram apropriados pela ciência que por sua característica reducionista e analítica , a reduziu a princípios ativos hoje largamente empregados pela medicina e muitos outros em fase de estudo.

Dentre estes pode-se citar a cocaína princípio ativo da Folha de Coca usado com base na produção de analgésicos e infelizmente, vício endêmico nas sociedades urbanas do ocidente. Merece um estudo de caso o fato de que como uma folha considerada um remédio milagroso, auxiliar do sistema nervoso, se transformou em uma das maiores chagas da humanidade.

Este será o ponto de partida da próxima postagem, onde colocarei em cheque o reducionismo da ciência e a necessidade de superá-la a bem do progresso da humanidade.

Para quem deseja saber um pouco como pensam outros profissionais da área de saúde sonbre o tema, aí vai o link do blog Plantas Medicinais criado por estudantes da Universidade Católica de Brasília.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ex-Governador Orleir Cameli desmente boato sobre superfaturamento na BR 364


Leandro Altheman

Em entrevista exclusiva na Radio e TV Juruá, o Ex-governador Orleir Cameli criticou matéria recentemente publicada na imprensa da capital em que a Empresa Colorado é citada como beneficiária de suposto esquema de superfaturamento envolvendo o governo.
“Tem uns gaiatos que passam e dão palpite, sem conhecera obra. O sujeito passa e pergunta para o operador quantos centímetros tem de capa asfáltica. O operador responde: 2,5 cm. Ele não mentiu, acontece que a primeira capa tem 2,5 centímetros nos 9 metros de largura da estrada e a segunda, que pega somente a pista de rodagem (7mts), tem mais cerca de 3 cms.Essa primeira capa é colocada somente para garantir o tráfego.”
Superfaturamento
Sempre citada em reportagens como uma obra suspeita de superfaturamento pelo TCU, Orleir defendeu a BR 364 e justificou o seu alto custo. “Pessoas que não conhecem a Amazônia acham caro 2 milhões e meio o km, mas essa obra tem que ser analisada, não pelo seu comprimento, mas pela altura necessária para se colocar a pista de rodagem. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o anel viário de Pelotas é apenas um trecho de 10 km que está orçado em 250 milhões. Sai portanto, a 25 milhões o kilometro. Desse ninguém fala nada. Eu não estou dizendo que seja caro. É preciso conhecer a obra.” Segundo Orleir Cameli, o boato corrente de que a BR “nunca vai ficar pronta” é fruto de pessimismo, má fé, ou desconhecimento. “Hoje faltam cerca de 90 km e se 2011 nós tivermos o mesmo verão deste ano, a BR fica pronta, com pontes, com tudo. Mas em 1995 quando começamos a obra, depois de dez anos dela parada, também tinha gente que dizia isso. São pessoas que desejam o pior para o estado, que tem inveja da administração.” Orleir negou que sua empresa seria beneficiada politicamente pelo atual Governo do Estado. “Em todo o processo passamos por licitações. Em alguns casos conseguimos oferecer um valor 10 milhões de reais mais em conta do que o da planilha.”
Para o empresário a afirmação de que a estrada não sai porque os empresários de Cruzeiro do Sul tem a ganhar com o isolamento, não procede com a realidade. “Só se o empresário não for bom das idéias. Hoje um empresário de Cruzeiro do Sul tem que trabalhar com um capital de giro que inclua o seu estoque, o que está na balsa em viagem, e o que ainda vai comprar. Com a estrada isso não vai ser mais necessário.”

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Estado laico e pluralista e as Igrejas


6/11/2010 17:44, Por Leonardo Boff - do Rio de Janeiro

A descriminalização do aborto e a união civil de homosexuais, temas suscitados na campanha eleitoral, ensejam uma reflexão sobre a laicidade do Estado brasileiro, expressão do amadurecimento de nossa democracia. Laico é um Estado que não é confessional, como ocorre ainda em vários países que estabelecem uma religião, a majoritária, como oficial. Laico é o Estado que não impõe nenhuma religião mas que respeita a todas, mantendo-se imparcial diante de cada uma delas. Essa imparcialidade não significa desconhecer o valor espiritual e ético de uma confissão religiosa. Mas por causa do respeito à consciência, o Estado é o garante do pluralismo religioso.

Por causa dessa imparcialidade não é permitido ao Estado laico impôr, em matéria controversa de ética, comportamentos derivados de ditames ou dogmas de uma religião, mesmo dominante. Ao entrar no campo político e ao assumir cargos no aparelho de Estado, não se pede aos cidadãos religiosos que renunciem a suas convicções religiosas. O único que se cobra deles é que não pretendam impôr a sua visão a todos os demais nem traduzir em leis gerais seus próprios pontos de vista particulares. A laicidade obriga a todos a exercer a razão comunicativa, a superar os dogmatismos em favor de uma convivência pacífica e diante dos conflitos buscar pontos de convergência comuns. Nesse sentido, a laicidade é um princípio da organização jurídica e social do Estado moderno.

Subjacente à laicidade há uma filosofia humanística, base da democracia sem fim: o respeito incondicional ao ser humano e o valor da consciência individual, independente de seus condicionamentos. Trata-se de uma crença, não em Deus como nas religiões que melhor chamaríamos de fé, mas de crença no ser humano em si mesmo, como valor. Ela se expressa pelo reconhecimento do pluralismo e pela convivência entre todos.

Não será fácil. Quem está convencido da verdade de sua posição, será tentado a divulgá-la e ganhar adeptos para ela. Mas está impedido de usar meios massivos para fazer valê-la aos outros. Isso seria proselitismo e fundamentalismo.

Laicidade não se confunde com laicismo. Este configura uma atitude que visa a erradicar da sociedade as religiões, como ocorreu com o socialismo de versão soviética ou por qualquer motivo que se aduza, para dar espaço apenas a valores seculares e racionais. Este comportamento é religioso ao avesso e desrespeita as pessoas religiosas.

Setores de Igreja ferem a laicidade quando, como ocorreu entre nós, aconselharam a seus membros a não votarem em certa candidata por apoiar a discriminalização do aborto por razões de saúde pública ou aceitar as uniões civis de homosexuais. Essa atitude é inaceitável dentro do regime laico e democrático que é o convívio legítimo das diferenças.

A ação política visa a realização do bem comum concretamente possível nos limites de uma determinada situação e de um certo estado de consciência coletivo. Pode ocorrer que, devido às muitas polêmicas, não se consiga alcançar o melhor bem comum concretamente possível. Neste caso é razoável, também para as Igrejas, acolher um bem menor ou tolerar um mal menor para evitar um mal maior.

A laicidade eleva a todos os cidadãos religiosos a um mesmo patamar de dignidade. Essa igualdade não invalida os particularismos próprios de cada religião, apenas cobra dela o reconhecimento desta mesma igualdade às outras religiões.

Mas não há apenas a laicidade jurídica. Há ainda uma laicidade cultural e política que, entre nós, é geralmente desrespeitada. A maioria das sociedades atuais laicas são hegemonizadas pela cultura do capital. Nesta prevalecem valores materiais questionáveis como o individualismo, a exaltação da propriedade privada, a laxidão dos costumes e a magnificação do erotismo. Utilizam-se os meios de comunicação de massa, a maioria deles propriedade privada de algumas famílias poderosas que impõem a sua visão das coisas.

Tal prática atenta contra o estatuto laico da sociedade. Esta deve manter distância e submeter à crítica os “novos deuses”. Estes são ídolos de uma “religião laica” montada sobre o culto do progresso ilimitado, da tecnificação de toda vida e do hedonismo, sabendo-se que este culto é política e ecologicamente falso porque implica a continuada exploração da natureza já degradada e a exclusão social de muita gente.

Mesmo assim não se invalida a laicidade como valor social.

Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Publicado originalmente no Jornal Correio do Brasil

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Os perigos da soberba

Mauro Santayana


Se o homem é a sua circunstância, a circunstância de José Serra é São Paulo. É conhecido o orgulho do grande estado, com desenvolvimento econômico que supera o de numerosos países europeus, sua cultura cosmopolita, e a oportunidade de realização pessoal de muitos dos que procuram ali a sua sorte. Todas essas qualidades do povo de São Paulo distanciam o estado do resto do país. Talvez por isso mesmo, as suas elites, ressalvadas as exceções, não saibam exatamente o que é o Brasil. Para isso, teriam que aceitá-lo. Da Avenida Paulista se vê melhor a City e a Place de la Bourse; seus telefones chamam mais Hong Kong e Shangai do que Aracaju e São Gabriel da Cachoeira. É provável que não seja exatamente assim, mas muitos paulistas dão ao resto do Brasil a impressão de que se sentem incomodados com a companhia dos demais estados.


Ainda agora estamos assistindo a uma dolorosa e inusitada campanha racista na internet, a partir de São Paulo, contra os nordestinos, a propósito da grande vitória de Dilma na região, embora os resultados eleitorais demonstrem que ela teria sido vitoriosa, mesmo que as eleições só ocorressem fora do Nordeste. A campanha ressuscita os fantasmas de 32, ao pregar, criminosamente, o separatismo. Esqueçamos, a fim de não turbar o raciocínio, a verdade de que São Paulo não se fez só: a inteligência, o trabalho e mesmo o capital dos demais brasileiros e dos imigrantes europeus ajudaram a erguer a sua economia.


Como a circunstância de José Serra é a que apontamos, temos a explicação para o desastrado pronunciamento que fez, diante da derrota. Faltou-lhe, naquele momento, a elegância que se espera dos grandes homens. Ele desdenhou o esforço feito – e reconhecido em todo o país – por Aécio, simplesmente ignorando-o. Agora, os mineiros se sentem outra vez afrontados.


Como Jânio, Serra falou em “forças terríveis”, anunciou, com suas metáforas, que continua candidato, falou em trincheiras, afirmou que o povo “não quis que fosse agora” e despediu-se com um “até breve”.


Alguns estão atribuindo a Aécio a derrota de Serra, embora o ex-governador de Minas tenha constrangido grande parte dos mineiros, ao solicitar votos a favor de quem os desdenhara, ao recusar a disputa democrática com Aécio junto às bases do PSDB. Aécio pode ter perdoado a Serra a aleivosia, mas os mineiros, não. E não se esqueça que Dilma nasceu em Belo Horizonte.


Espera-se que, passados os dias mais amargos do malogro eleitoral, José Serra recobrará a serenidade e entenderá que a sua biografia pode encerrar-se, sem nenhum desdouro, mesmo que não chegue à Presidência. Ele prestou assinalados serviços ao país, como líder estudantil, parlamentar e ministro da Saúde, e particularmente a São Paulo, como prefeito e governador, não obstante sua cumplicidade nas privatizações e na abertura do mercado financeiro. Para que volte a candidatar-se, é preciso que se dedique a conhecer realmente o Brasil. Conhecer não é visitar uma cidade ou outra, por algumas horas. É aceitar sua humanidade, ler os seus escritores, assimilar a fantástica sabedoria do povo, enfim, participar de seus sonhos, solidarizar-se e comover-se com seus sofrimentos – enfim, integrar-se em sua realidade.


Terminada a campanha, à vencedora cabe tomar a iniciativa de cicatrizar divergências sem a necessidade de compor interesses rasteiros por baixo de uma retórica elevada. Se São Paulo se orgulha em destacar-se do Brasil pela sua pujança econômica, Minas integra o todo brasileiro com alegria e sem qualquer constrangimento. Minas é o centro-oeste na margem esquerda do São Francisco; é o Nordeste nas duas margens do Jequitinhonha e na fronteira setentrional com a Bahia; é quase atlântica na Zona da Mata e no baixo Rio Doce. O conflito é entre a parcela mais soberba das elites paulistas e o resto do país.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Imprensa Livre


Vocês notaram que a "imprensa livre" (leia-se PIG) não mostrou as comemorações na rua pela vitória de Dilma?

Isto é que é "imparcialidade"!

Dia de Finados




Ou seriam "mortos-vivos"?



















Última cena: Enquanto se fecha a tampa do caixão, Serra anuncia tetricamente:
-"Eu voltarei!"


Minas Gerais vive situação política análoga ao Acre


Leandro Altheman

Apesar de eleger um governador e dois senadores do bloco político liderado pelo PSDB, em Minas Gerais, José Serra acabou sendo derrotado nas urnas pela candidata Dilma Roussef, por cerca de 2 milhões de votos.

De muito pouco adiantou a entrada em cena de Aécio Neves, retratado na capa da revista Veja, como aquele capaz de “mover a montanha”. Agora, tucanos mineiros e paulistas trocam acusações sobre a derrota. De um lado os tucanos mineiros ainda que não assumam abertamente, sugerem que se Aécio tivesse sido o candidato, teria tido maiores chances de vitória. Já o tucanato paulista vê em Aécio um aliado que não teria se dedicado com o afinco suficiente pela eleição de José Serra. A primeira bicada partiu do ninho paulista, a partir do coordenador de campanha de José Serra, Xico Graziano que em seu Twiter questionou a derrota sofrida em Minas Gerais. O troco do lado mineiro veio do presidente do PSDB, Nárcio Rodrigues: “se alguém estiver insatisfeito que vá se queixar ao bispo.”

Mas as analogias não param por aí. Hoje Acre e Minas contam com os mais fortes presidenciáveis para 2014. Dentro do PSDB todos sabem que Aécio seria o nome mais forte para a próxima disputa, mas o anúncio de José Serra que deseja continuar concorrendo à presidência pode corroer ainda mais as relações internas do PSDB.

O Acre tem a sua filha mais ilustre. Marina Silva foi até hoje aquela que em terceiro lugar em uma disputa, obteve o maior número de votos superando nomes de expressão nacional, como Ciro Gomes e Brizola, por exemplo. Um feito ainda mais notável se levarmos em conta o diminuto espaço do PV no horário eleitoral.

Nos dois casos, Acre e Minas, a questão partidária pode ser nó na provável candidatura de quaisquer um dos presidenciáveis. Como ficará o PV acreano na composição do novo governo da FPA? Como Aécio e os tucanos mineiros vão se viabilizar dentro do PSDB comandado pelos paulistas? Há sempre a porta aberta do PMBD, que poderia cair nas graças da nova presidenta, mudando completamente o cenário.

Mas talvez nos dois estados a resposta para o enigma esteja além das configurações políticas mais imediatas. Parte do resultado, tanto no Acre, quanto em Minas Gerais se explica também pela própria configuração política do eleitorado. Ou seja, apesar de aprovar o PT pelo quarto mandato consecutivo, ainda é um eleitorado conservador, que teme mudanças e que por isso mesmo continua referendando a FPA. Não adianta também o PSDB acreano achar que estes votos foram para o seu “projeto” político. Projeto que aliás, nem ficou claro durante a campanha (desmatamento zero?) É mais um voto contra o que representa o PT do que um voto em favor José Serra.

Em Minas, talvez muito possa ser explicado também pela velha disputa da “República do Café com Leite” quando São Paulo e Minas Gerais se alternavam no poder. Quando a oligarquia paulista se sentiu forte o bastante para tocar sozinha a política nacional, romperam-se as alianças a “República do Café-com Leite” chegou ao fim, dando início a uma nova era na política nacional. Uma história que se repete até hoje dentro do ninho tucano.

Que a comparação possa talvez servir de consolo, mas não de acomodação. É urgente a necessidade de uma auto-avaliação dentro da FPA, e para que de fato sejam estes os líderes que venham a conduzir o Acre para a era de grande transformação que se anuncia para todo país, com a eleição de Dilma Roussef.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Diretor do voz Populi avalia vitória de Dilma


Três mitos sobre a eleição de Dilma

Marcos Coimbra 31 de outubro de 2010 às 19:25h

Enquanto o País vai se acostumando à vitória de Dilma Rousseff, uma nova batalha começa. Nem é preciso sublinhar quão relevante, objetivamente, é o fato de ela ter vencido a eleição, nas condições em que aconteceu. Ela é a presidente do Brasil e, contra este fato, não há argumentos.

Sim e não. Porque, na política, nem sempre os fatos e as versões coincidem. E as coisas que se dizem a respeito deles nos levam a percebê-los de maneiras muito diferentes.

Nenhuma versão muda o resultado, mas pode fazer com que o interpretemos de forma equivocada. Como consequência, a reduzir seu significado e lhe diminuir a importância. É nesse sentido que cabe falar em nova batalha, que se trava em torno dos porquês e de como chegamos a ele.

Para entender a eleição de Dilma, é preciso evitar três erros, muito comuns na versão que as oposições (seja por meio de suas lideranças políticas, seja por seus jornalistas ou intelectuais) formularam a respeito da candidatura do PT desde quando foi lançada. E é voltando a usá-los que se começa a construir uma versão a respeito do resultado, como estamos vendo na reação da mídia e dos “especialistas” desde a noite de domingo.

O “economicismo” – O primeiro erro a respeito da eleição de Dilma é o mais singelo.

Consiste em explicá-la pelo velho bordão “é a economia, estúpido!”
É impressionante o curso que tem, no Brasil, a expressão cunhada por James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, quando quis deixar clara a ênfase que propunha para o discurso de seu cliente nas eleições norte-americanas de 1992. Como o país estava mal e o eleitorado andava insatisfeito com a economia, parecia evidente que nela deveria estar o foco do candidato da oposição.

Era uma frase boa naquele momento, mas só naquele. Na sucessão de Clinton, por exemplo, a economia estava bem, mas Al Gore, o candidato democrata, perdeu, prejudicado pelo desgaste do presidente que saía. Ou seja, nem sempre “é a economia, estúpido!”

Aqui, as pessoas costumam citar a frase como se fosse uma verdade absoluta e a raciocinar com ela a todo momento. Como nas eleições que concluímos, ao discutir a candidatura Dilma.

É outra maneira de dizer que os eleitores votaram nela “com o bolso”.
Como se nada mais importasse. Satisfeitos com a economia, não pensaram em mais nada. Foi o bolso que mandou.

Esse reducionismo está equivocado. Quem acompanhou o processo de decisão do eleitorado viu que o voto não foi unidimensional. As pessoas, na sua imensa maioria, votaram com a cabeça, o coração e, sim, o bolso, mas este apenas como um elemento complementar da decisão. Nunca como o único critério (ou o mais importante).

A “segmentação” – O segundo erro está na suposição de que as eleições mostraram que o eleitorado brasileiro está segmentado por clivagens regionais e de classe. Tipicamente, a tese é de que os pobres, analfabetos, moradores de cidades pequenas, de estados atrasados, votaram em Dilma, enquanto ricos, educados, moradores de cidades grandes e de estados modernos, em Serra.

Ainda não temos o mapa exato da votação, com detalhe suficiente para testar a hipótese. Mas há um vasto acervo de pesquisas de intenção de voto que ajuda.

Por mais que se tenha tentado, no começo do processo eleitoral, sugerir que a eleição seria travada entre “dois Brasis”, opondo, grosso modo, Sul e Sudeste contra Norte, Nordeste e Centro-Oeste, os dados nunca disseram isso. Salvo no Nordeste, as distâncias entre eles, nas demais regiões, nunca foram grandes.

Também não é verdade que Dilma foi “eleita pelos pobres”. Ou afirmar que Serra era o “candidato dos ricos”. Ambos tinham eleitores em todos os segmentos socioeconômicos, embora pudessem ter presenças maiores em alguns do que em outros.

As diferenças no comportamento eleitoral dos brasileiros dependem mais de segmentações de opinião que de determinações materiais. Em outras palavras, há tucanos pobres e ricos, no Norte e no Sul, com alta e com baixa escolaridade. Assim como há petistas em todas as faixas e nichos de nossa sociedade.

Dilma venceu porque ganhou no conjunto do Brasil e não em razão de um segmento.

O “paternalismo” – O terceiro erro é interpretar a vitória de Dilma como decorrência do “paternalismo” e do “assistencialismo”. Tipicamente, como pensam alguns, como fruto do Bolsa Família.

Contrariando todas as evidências, há muita gente que acha isso na imprensa oposicionista e na classe média antilulista. São os que creem que Lula comprou o povo com meia dúzia de benefícios.

As pesquisas sempre mostraram que esse argumento não se sustenta. Dilma tinha, proporcionalmente, mais votos que Serra entre os beneficiários do programa, mas apenas um pouco mais que seu oponente. Ou seja: as pessoas que tinham direito a ele escolheram em quem votar de maneira muito parecida à dos demais eleitores. Em São Paulo e Minas Gerais, por exemplo, os candidatos do PSDB aos governos estaduais foram eleitos com o voto delas.

Os três erros têm o mesmo fundamento: uma profunda desconfiança na capacidade do povo. É o velho preconceito de que o “povo não sabe votar” que está por trás do reducionismo de quem acha que foi a barriga cheia que elegeu Dilma. Ou do argumento de que foram o atraso e a ignorância da maioria que fizeram com que ela vencesse. Ou de quem supõe que a pessoa que recebe o benefício de um programa público se escraviza.

É preciso enfrentar essa nova batalha. Se não, ficaremos com a versão dos perdedores.

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi. Também é colunista do Correio Braziliense.