terça-feira, 23 de dezembro de 2014

O resgate do "Vinte e Um"

As fotos presentes nesta postagem são parte do legado material deixado por Genildo dos Santos Muniz.

Genildo foi um dos principais herdeiros da tradição de aplicação do kambô que teve em seu avô, Francisco Gomes, um dos pioneiros da aplicação da "vacina do sapo" nos não-índios.

Genildo continuou o trabalho de seu avô, levando a medicina para os grandes centros do país.

Uma parte dos recursos foi utilizada para a criação e manutenção de dois espaços de cura e de preparação das medicinas: A AJUREMA, localizada na periferia da cidade de Cruzeiro do Sul, e o "Vinte e Um", localizado no projeto de assentamento Santa Luzia, zona rural de Cruzeiro do Sul.

A casa do "Vinte e Um"















Genildo
O espaço conhecido como "Vinte e Um" destinava-se à preparação e toma da ayahuasca, uso e coleta do kambô, e para estudos que demandem um período de maior isolamento na floresta.

No local encontra-se uma casa com cobertura de palha, além de alguns pés de chacrona e cipó plantados por Genildo.

A mata do local é do tipo de terra firme, situada em área de reserva legal destinado ao uso sustentável.


Chacrona plantada por Genildo às margens do Igarapé




















Por que "Vinte e Um" ?

A história do "Vinte e um" começa com Genildo conduzindo o alemão Guido Stiehle e o eslovaco Juraj Penciak que andavam na floresta das redondezas em busca do "lugar ideal" para uma cerimônia de ayahuasca.

Guido então ficou encantado com o canto de um pássaro e decidiu seguir aquele som. Por algumas horas  os três andaram na floresta até que chegaram a um local onde havia um bando desses pássaros.

Genlido explicou que aquela ave era chamado de "Vinte e Um" devido ao som que faz parecer que ele está dizendo, "vinte e um", e também porque segundo a lenda, onde canta um, cantam vinte e um. Aquele local, portanto, seria o local onde estariam os "vinte um" pássaros.

O "Vinte e Um" (Lipaugus vociferans) também é conhecido como pássaro do seringueiro, capitão da mata, fri-frió ou cri-crió, entre outros. Produz um som alto e estridente, bastante característico.

O "Vinte e um", capitão da mata ou pássaro de seringueiro
Clique aqui para ouvir o canto do "vinte e um"

Genildo lembrou também que seu avô Francisco, atribuía uma característica especial ao número 21.
Este era o número máximo que ele fazia de aplicações de kambô.
O pássaro do seringueiro é assim chamado por ser um companheiro na solidão da floresta para o seringueiro, como fora para o seu avô durante as lidas na mata.


O resgate

Após o trágico falecimento de Genildo, em uma acidente automobilístico no ano de 2007, o local ficou praticamente abandonado.

O "Vinte e um" - restauração e reabertura do acesso
Passados mais de sete anos, Elias, o irmão mais novo de Genildo, agora com 23 anos, pretende retomar o trabalho.


A ideia não é aplicar o kambô como quem faz uso de uma substância apenas. Mas sim, transmitir através da aplicação, a força e a pureza da floresta, a natureza dos instintos, a potência da selva amazônica.

Trata-se de manter viva a tradição e a ancestralidade e de possibilitar que esta troca com as pessoas das cidades possibilite aos povos da floresta viver dignamente, com o mínimo de impacto sobre a floresta.

Para isso é necessário preparar as medicinas na floresta, e se preparar com elas também na floresta: fonte de conhecimento e energia de cura e equilíbrio.


Cipó plantado por Genildo

Reativar o "vinte e um" significa reabrir o trabalho iniciado por Genildo e antes, pelos seu pai e avô. Significa um local de estudo e aprofundamento, um local para beber da fonte da floresta e que poderá ser compartilhado com os aliados da cidade.

  

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Cerca de 4 mil estudantes estão sem rematrícula no Juruá

Aproximadamente 4 mil estudantes da rede estadual de ensino estão até o momento sem suas matrículas e rematrículas efetivadas.

O problema ocorre com as escolas da Diocese de Cruzeiro do Sul conveniadas com o Estado. Segundo informações da própria diocese, o convênio foi substituído por uma subvenção o que resultou em dois anos sem receber recursos para reformas na estrutura das escolas.

As escolas afetadas são: Instituto São José, Divina Providência e Padre Damião em Cruzeiro do Sul, além do Instituto São Francisco de Mâncio Lima e Instituto São José de Tarauacá.

Desde maio, a procuradoria da diocese solicita uma reunião com a SEE sem sucesso.

A preocupação é que com o desgaste das estruturas, possam ocorrer acidentes, como o que resultou em um princípio de incêndio na escola Divina Providência, em outubro. Felizmente não havia ninguém em sala.

A Diocese informa que até o presente momento não houve resposta da SEE para a proposta que foi encaminhada.

Segundo informações da coordenação estadual da SEE, a questão já estaria encaminhada na capital e espera-se uma solução até sexta-feira desta semana.

* Na Foto, João Vitor. Nove anos, estudante do terceiro ano da Escola São José. É um dos 4 mil alunos que ainda não efetuou rematrícula.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Banco do Brasil quer transformar praça em estacionamento



A direção da agência do Banco do Brasil está pressionando a prefeitura de Cruzeiro do Sul para demolir a praça e parte da ciclovia em frente à agência na Avenida Mâncio Lima e transformá-la em estacionamento para os veículos dos clientes.
As informações partiram de um funcionário do departamento de trânsito. 
Instalada em uma das principais vias da cidade, os clientes da nova agência tem se deparado com o problema de falta de estacionamento, o que resulta muitas vezes em multas por parar em local proibido.
Ao contrário do que acontece na maioria dos municípios brasileiros, Cruzeiro do Sul não dispõe de uma legislação municipal que obrigue os novos empreendimentos a dimensionar em suas obras a questão do estacionamento.

Como resultado, quem paga a conta é a sociedade: falta de vagas para estacionar, trânsito caótico, perda de espaços para pedestres e de áreas de lazer para os automóveis.
Nem mesmo o fundador da cidade escapou.

O primeiro ato de Vagner Sales como prefeito de Cruzeiro do Sul foi a retirada da estátua de Marechal Thaumaturgo. O espaço foi transformado em estacionamento.
Em seguida, a “gamela” do centro cultural foi também convertida em estacionamento, resultando, entre outras coisas na destruição do piso e das calçadas que passaram a servir de acesso aos veículos.

Outro exemplo do resultado da falta de uma legislação municipal para disciplinar os empreendimentos foi o que aconteceu avenida Rodrigues Alves onde o prédio do Super Econômico, acabou transformando vias públicas e calçadas em estacionamento.

A calçada cedeu espaço para um estacionamento improvisado, prejudicando a circulação dos pedestres. Como não é suficiente, o “coqueiro central” (espaço entre os postes, entre as vias) também transformou-se em estacionamento. Os problemas de circulação são agravados durante os horários de maior movimento.

A “avenida do governo”

O mais irônico de tudo é que a prefeitura se recusa a recuperar ou menos manter um serviço regular de limpeza no local. As razões são políticas. A rua é “do governo” e portanto quanto em pior estado estiver, melhor para a imagem dos opositores.

O descaso tem obrigado o governo a manter ele próprio um serviço terceirizado de limpeza e a utilizar o Deracre para fazer a constante recuperação da avenida, tanto no que diz respeito ao asfalto quanto na manutenção da ciclovia, praças, aparelhos de ginástica e de lazer.
Apesar disso, a prefeitura têm a prerrogativa legal de determinara  demolição da praça para transformá-la em estacionamento.

Com uma provável aprovação na Câmara de Vereadores, restaria apenas uma mobilização popular para evitar que um dos poucos espaços de lazer de Cruzeiro do Sul venha a dar lugar a um estacionamento.

sábado, 15 de novembro de 2014

Imparcial é a minha cafeteira


Tenho vontade de dizer um palavrão toda vez que ouço alguém fazer pregação sobre de "imparcialidade". Pior ainda se este alguém for um jornalista.
Fico pensando o que andam ensinando nas escolas de jornalismo. Na que eu frequentei, aprendi que imparcialidade é algo que simplesmente não existe.

O mais honesto que um jornalista pode ser consigo mesmo e com seu público é admitir a sua parcialidade.

Imparcialidade significa ser capaz de produzir notícia e informação de maneira totalmente objetiva, sem qualquer traço de subjetividade.

Ora, e como é possível, sendo o jornalista ele próprio um "sujeito" abstrair totalmente a sua própria "subjetividade" ? O próprio ato de "apropriar-se" da realidade é um processo subjetivo e desconhecer isso é o primeiro passo para que o jornalista inadvertidamente imponha a sua própria interpretação da realidade como "verdadeira".

O comunicador que ainda aja desta maneira, das duas uma: não possuiu formação adequada, ou está usando de má fé.

Estamos fartos de exemplos ao nosso redor. Do Jornal Nacional à Revista Veja, todos gostam de alegar uma pretensiosa imparcialidade que nunca possuíram. Sua opiniões estão, implícita ou explicitamente, eivadas de uma visão de mundo próprias de uma classe social. Negar que haja uma posição política por trás disso, não é apenas desonestidade: é exercício de estelionato intelectual.

Assédio Moral

No entanto é com base na falácia da imparcialidade que alguns meios de comunicação passam a exigir de jornalistas, desfiliação partidária, de quem por ventura possuir.

Só uma estupidez sem tamanho pode justificar tal coisa.

Primeiro, porque a não-filiação partidária não é garantia de que o jornalista ou comunicador não possua sua própria visão política.

Segundo, porque o exercício de participação política é garantia constitucional. Exigir desfiliação partidária além de representar uma marcha-ré para a democracia, configura assédio moral, incompatível com qualquer empresa, muito mais se tratando de uma empresa de comunicação de rádio e tele-difusão, que administra na verdade não apenas um simples negócio, mas uma concessão pública.

"Formatar" e empregar jornalistas incapazes (ou proibidos) de pensar e agir politicamente equivale uma castração, já que a visão política é uma daquelas partes que tem grande importância na vida do jornalista.

É muito parecida com a ideia de castrar eunucos para tomar conta de um harém. Ou talvez, como os famosos "castratti" da renascença: jovenzinhos que tinham seus testículos retirados. Sem nunca alcançar a maturidade, os "castradinhos" podiam sempre cantar com o mesmo tom de voz que agradava aos seus patrões.

O "harém" neste caso representa os próprios interesses políticos e econômicos da emissora. Enquanto se exige dos seus "eunucos castrados" total obediência ao seu próprio projeto político-econômico, ainda comete o estelionato moral de dizer ao seu público que é "imparcial".

Imparcial é a minha cafeteira!

Ela faz café forte ou fraco, de acordo com a medida de pó e água que eu coloco nela.

Jornalistas não são cafeteiras e jornais tampouco são fábricas  onde se enfia um porco de um lado e se retira a salsicha do outro.

O estelionato moral, consiste em se colocar para o público como mero transmissor de informações, sem qualquer cunho ideológico, sem qualquer interesse político. Que meigo!

Mas no frigir dos ovos, um público cada dia mais antenado, percebe claramente as tendências políticas e eleitorais daquele meio, e o que é pior tratando de modo desonesto as diferenças políticas sem a qual, não haveria democracia.

Em se tratando de concessões públicas, o mínimo de respeito com o público, e com os profissionais,   é tratar da questão política de maneira honesta e não  com o obscurantismo de quem guarda cartas escondidas na manga, para no momento propício usar como um trunfo em benefício de seus próprios interesses.


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

"É pouco" - afirma Vagner Sales sobre desconto em folha de pagamento

"- Vocês não tem mais o que fazer? Isso é falta de assunto? Vocês estão tomando meu precioso (sic) tempo"

Essa foi a recepção calorosa com que o coronel de barranco Vagner Sales recebeu a imprensa de Cruzeiro do Sul, não na prefeitura, mas na sua "Casa do Povo".

Enquanto as equipes aguardavam a sua chegada, um dos repórteres recebeu uma ligação, proibindo-o de cobrir a pauta. Constrangido, foi obrigado a deixar o recinto, impedido de cumprir a sua função.

Vomitando a sua proverbial arrogância a cada sílaba, Vagner teve o descaramento de dizer que a cobrança além de normal, ainda era "pouco".

Em uma comparação esdrúxula, fez menção aos senadores, deputados e vereadores eleitos que recolhem parte dos vencimentos para os partidos pela qual se elegeram.

Só mesmo muito descaramento para fazer esta comparação.

O denunciante N.S.O. não é mais do que um operador de máquinas. Nem sequer é filiado ao PMDB

Durante a coletiva, Vagner afirmou que as pessoas "concordaram" com o desconto, mediante a assinatura de um termo. E ainda disse: "O PMDB cobra é pouco".

O "Leão" correu

Contudo, apesar da explícita prepotência de quem se acha "dono" da cidade, as equipes de jornalismo fizeram o "leão" correr da sala quando perguntaram porque a prefeitura não estava recolhendo os direitos trabalhistas do funcionário.

O coronel simplesmente levantou-se e foi embora.

Imoral e Ilegal

O promotor Wendy Takao, do MP Acre afirmou que uma investigação sobre o desconto ilegal em folha corre desde de junho deste ano e que já houveram outros denunciantes. O promotor afirma que já foi solicitado um documento da prefeitura com os nomes dos funcionários que tem descontos em folha, e que os documentos enviados pela prefeitura estão incompletos.

Para o promotor, o MP vislumbra no desconto em folha uma ação que fere o princípio constitucional da moralidade administrativa, incorrendo em crime contra a lei de improbidade administrativa

Sobre o não pagamento dos direitos trabalhistas, Wendy Takao disse que deveria ser objeto de investigação pela PF.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Reforma da Praça nega o verdadeiro autor da obra, afirma César Messias

O deputado federal eleito pelo PSB, César Messias fez críticas contundentes à reforma da praça  realizada pelo prefeito Vagner Sales.

"É de um mau gosto extraordinário", dispara.

Mas as críticas não se limitam ao aspecto burlesco da obra. Para César Messias, por trás da aparente "homenagem" à Orleir Cameli, há uma tentativa deliberada de apagar e reescrever a história de Cruzeiro do Sul.

"O verdadeiro autor daquela obra, é Orleir Cameli. Orleir teve muito trabalho em drenar aquela área, que era um chavascal enorme. O atual prefeito fez uma maquiagem mal feita, retirou a placa de inauguração e colocou a sua própria, dando a entender que quem fez foi ele. Vagner nega a autoria da obra do maior prefeito da cidade".

A praça que custou 3 milhões e meio de reais e demorou seis meses para ser construída tem sido objeto de polêmica e ironia entre a população.

Apelidos jocosos como: "Praça do Posto Ipiranga" (devido ao formato quadrado, lembrando de fato um posto de gasolina) ou "Praça Patati Patata" (pelas cores escolhidas à esmo) já se popularizaram através das redes sociais.

Mesmo funcionários de confiança do prefeito já admitem, às escondidas, que a praça "poderia ter ficado melhor"

"Durante meu mandato como prefeito, também houve uma revitalização. Mas a placa e o aspecto original da praça foram mantidos. Tampouco se sabe o que foi feito com o obelisco (também chamado "marco zero"). O obelisco homenageava os imigrantes nordestinos, sírio-libaneses e alemães que ajudaram a construir em Cruzeiro do Sul.

O homem que briga com estátuas

Vagner Sales tem sido pródigo em brigar com o próprio passado da cidade. Sua primeira ação como prefeito de Cruzeiro do Sul foi a retirada da estátua de Marechal Thaumaturgo, comemorativa dos 100 anos da cidade. No local, foi feito um estacionamento.

O Posto de Saúde Manoel Bezerra da Cunha também teve seu nome apagado do letreiro central e passou a se chamar apenas "Centro de Atendimento da 25 de Agosto". O nome original do posto aparece hoje apenas nas laterais, em uma pintura antiga. O posto é considerado uma das príncipais marcas da administração de Aluísio Bezerra, na época, do mesmo PMDB de Sales.




domingo, 12 de outubro de 2014

Marina “El Cid” Silva

Todo espanhol que se preze conhece a história de El Cid.

O cavaleiro que liderou as tropas cristãs contra os sarracenos teve uma biografia conturbada.

Conta-se que “El Cid” mudou de lado algumas vezes e teria lutado também ao lado dos sarracenos contra os cristãos. As razões que o levaram a isto são até hoje são motivos de controvérsias entre os historiadores.

Dizem, por exemplo que “El Cid” não recebeu dos reis de “La Mancha” aquilo que achava que era o seu merecido valor em batalha.

Outros afirmam que “El Cid” almejava mais do que dinheiro e que pretendia tornar-se senhor de uma parte da Península Ibérica ou quem sabe, mesmo Rei.

Há até quem imagine que “El Cid” sonhava criar um reino onde cristão e sarracenos pudessem conviver, na magnífica civilização criada pelos Almorávidas.

O fato é que as últimas batalhas de “El Cid” foram travadas ao lado dos cristãos. O respeito que inspirava nas tropas, bem como o temor que causava nos inimigos, o tornaram uma figura lendária.

Conta a história que travou sua última batalha, morto. E Venceu.

Sabendo o significado de ter “El Cid” montado em seu cavalo, os cristãos teriam atado seu corpo morto de tal modo que pudesse segurar o estandarte que defendia.

Resultado: vitória dos cristãos!

Encontro paralelo entre a trajetória de Marina com a de “El Cid” motivos.

Primeiro, a óbvia polarização entre tucanos e petistas, que já vem arrastando o país numa interminável guerra de valores, onde “bons” e “maus” encontram-se dos dois lados da trincheira.

Segundo, por ter um projeto próprio de país, que não é o dos “sarracenos” nem o dos “cristãos”, mas de um país que possa existir para todos, independente de suas diferenças.

Por último, por perceber que Marina, mesmo depois de “morta” na disputa eleitoral continua portando o estandarte das causas indígenas e ambientais com a mesma galhardia.

E ainda é capaz de decidir uma batalha.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A jornalista presa e o "barbosismo"

Há alguns dias venho tentando decifrar o episódio ocorrido com a colega jornalista Jaqueline Teles.

Detida no domingo de eleição sob a acusação de "transporte ilegal de eleitores", a jornalista foi encaminhada à unidade prisional feminina, onde passou a noite em uma cela, e liberada somente após apresentação de alvará de soltura, no dia seguinte, pela manhã.

Ainda que tudo tenha transcorrido "dentro da lei", uma análise dos fatos transcorridos neste dia, me levam a crer que houve excessos de um lado e tolerância demais, de outro.

Jaqueline é comunista. Milita no PCdoB deste a adolescência, trabalha em uma secretaria de governo cuja cota pertence ao PCdoB, exatamente como prevêem as regras do jogo democrático.

No dia "Jackie", como é chamada pelos colegas, de fato transportava uma amiga sua de infância, igualmente comunista, e com dificuldade de locomoção, e mais três vizinhos, que segundo a mesma votariam na mesma sessão eleitoral.

Segundo um dirigente da UJS, os três vizinhos também fariam parte da entidade jovem, ou seja, não se encaixavam de modo algum no perfil de eleitores que pudessem ser aliciados no dia da eleição. Eram votos seguros de militantes.

Este me parece que seja o objetivo principal da lei que proíbe o transporte de eleitores: evitar o aliciamento.

Pelas regras específicas vigentes no dia das eleições Jackie errou. Não questiono o fato de ela ter sido detida e nem que ela pague pelo seu erro. Contudo, a maneira como tudo transcorreu nesse dia, é no mínimo, suspeitoso.

Primeiro

Por que, em meio a tantos outros detidos que foram liberados antes do final do dia, outros que foram liberados após as eleições, alguns inclusive por compra de voto, Jaqueline Teles, a comunista, foi encaminhada a unidade prisional feminina? O recado era claro: fazer a prisão da jornalista "vermelha"um exemplo de combate à "corrupção" e ao "aparelhamento do estado".

Segundo

Por que neste mesmo dia, internautas publicaram nas redes sociais, fotos do prefeito acompanhado da primeira-dama candidata, igualmente adesivados passeando livremente entre eleitores nas sessões?

Terceiro

Na noite anterior à eleição, carros de campanha lançaram nas portas das sessões eleitorais, milhares de "santinhos", em flagrante desrespeito à legislação eleitoral. É óbvio que a volumosa presença deste material de campanha pode sim, influenciar a decisão do eleitor, em especial aqueles menos esclarecidos, ou que simplesmente ainda não tenham decidido seu voto.

O "lixo eleitoral" permaneceu intocável durante todo o dia das eleições. Quando tive a oportunidade de questionar a juíza responsável pela 4 Zona Eleitoral sobre o derrame ilegal de material de campanha, a mesma afirmou, durante entrevista que já havia pactuado com o chefe de gabinete do prefeito que o mesmo providenciaria a retirada do material na segunda feira pela manhã.

Aparentemente, à juíza importava apenas o aspecto "lixo"da questão e menos o aspecto "eleitoral". Na sua avaliação, o material derramado não seria capaz de influenciar na decisão do eleitor.

Ocorre que, horas antes, nos minutos que antecediam o início da votação, quase que no exato momento em que a repórter pelo rádio aponta o problema do "lixo eleitoral", surge uma mensagem no celular do colega ao lado do mesmo chefe de gabinete da prefeitura com quem a juíza pactou a retirada do material somente para o dia seguinte.
A mensagem do chefe de gabinete do prefeito, pressionava o colega para que o mesmo não deixasse eu me pronunciar sobre o "lixo eleitoral".

O sentimento geral é de que para uns foram aplicados os "rigores da lei", enquanto para outros, "os favores da lei".  A escolha de dar maior ou menor importância às denúncias, é totalmente subjetivo, e é justamente aí que se revela o chamado "barbosismo".

"Barbosismo"

Diante destes fatos sobra ainda a mais ululante obviedade de que não é fácil fazer uma desconhecida em sua própria terra receber votos até em Santa Rosa do Purus e Jordão.

Some a isso, uma obra inacabada de custo exarcebado (3,5 milhões), onde faltou a decência de instalar mictórios por ocasião da inauguração. Enquanto isso, o material de campanha da candidata "oficial"da prefeitura ganha um tom onipresente nas ruas da cidade.

Circunstâncias destas bastariam para que qualquer autoridade interessada em promover eleições limpas, ficasse de "orelha em pé".

Mas, por alguma razão, nada disso despertou a subjetividade adormecida da juíza.

A desconfiança, que deveria ter sido distribuída em igual medida para pelo menos dois dos três campos políticos (o grupo de Bocalom não tinha dinheiro, e foi, na minha avaliação, o maior prejudicado), concentrou-se em apenas um.

Não creio, como muitos afirmaram no dia, que tenha havido a "compra" do TRE. Acredito mais na hipótese do "barbosismo" nas instituições brasileiras.

Explico

A passagem de Joaquim Barbosa pelo Supremo tornou-o um bastião da luta contra a corrupção para milhões.
O símbolo de um "Batman" lutando contra a corrupção é extremanente poderosa e catalizadora dos anseios dos brasileiros.
Contudo, o "mito" em torno de Joaquim Barbosa esconde uma falácia extremamente danosa à democracia: a idéia de que a corrupção em nosso país, é obra de um partido, especificamente o PT.

A desconfiança de que esta ideia tenha sido disseminada deliberadamente, é plausível, já que o mesmo "Barbosão" que foi inclemente com os supostos mensaleiros, arredou o pé do Supremo antes de julgar o crime análogo cometido pelos tucanos.

Em todo Brasil generalizou-se o sentimento de que ao se combater o PT, estaria-se imediatamente combatendo a corrupção no país.

Entre os eleitores, consolidou-se a ideia que para combater a corrupção, bastaria se votar nos partidos adversários ao PT.

Entre as instituições, há evidências de que por vezes são cometidos excessos em nome do "combate à corrupção", transformado agora em perseguição partidária, muito útil aos adversários do partido, mas como já falei, danosa à democracia.

No Estado do Acre não há exemplo maior de "barbosismo" que a famigerada "Operação G7". A operação deflagrada pela Polícia Federal lançou sombras de dúvidas sobre dezenas de gestores, inclusive sobre o mandatário do executivo, mas não foi capaz de responder nenhuma das dúvidas que levantou antes do período eleitoral.

Isso significa dizer que a PF, com a sua estriônica "Operação G7", até o momento não conseguiu nada além de municiar a oposição com "suspeitas" não respondidas que apenas servirão de base para material panfletário.

Das duas uma: ou a PF age de modo irresponsável em suas açoes midiáticas, ou é deliberadamente golpista (ou "barbosista").

Acredito que este mesmo sentimento de que "combater o PT (e todos os "vermelhos") é combater a corrupção" tenha se enraizado principalmente entre a jovem magistratura brasileira, tomada de um sincero anseio de livrar o país de um de seus maiores males, a corrpução, mas ao mesmo tempo, vítima de uma concepção equivocada: a de que a corrupção seja um fenômeno partidário.

No mais recente episódio de golpe da América Latina, movido contra o presidente de Honduras, houve uma articulação jurídico-militar que sob a acusação de corrupção, depôs o presidente Zelaya.

É mais do que evidente que atores semelhantes tentaram mover algo neste sentido durante as manifestações de junho. Felizmente, os brasileiros não embarcaram na onda. Contudo, agora em plenas eleições, há movimento nos tabuleiros, e multiplicado em milhares, o arquétipo do "batman togado" parece novamente se lançar contra o "perigo vermelho".

O resultado final, é a proliferação entre policiais federais, promotores e magistrados, de uma subjetividade propensa a uma "caça às bruxas vermelhas", movidas pelos mais puros sentimentos de "restauração da ordem democrática"e "combate à corrupção".

Em última análise, o "barbosismo"não deixa de ser também, um aparelhamento ideológico do estado, muito útil a um grupo politico específico.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Mais Escolas ou Mais Presídios

Não é de hoje que setores da imprensa semeiam na opinião pública a ideia de que jovens que cometem crimes entre 16 e 18 anos deveriam pagar na mesma moeda que os adultos.
A princípio a ideia de que um jovem de 16 anos que mata, rouba ou trafica já é capaz responder pelos seus atos parece bastante simples e até certa medida, justa.
Contudo, é preciso analisar a questão um pouco mais a fundo para tentar compreender o que significaria uma redução da maioridade penal.
A grosso modo seria responder que jovens entre 16 e 18 anos que hoje cumprem medidas sócio-educativas iriam, obrigatoriamente para uma prisão comum.
Acredito que o microcosmo de Cruzeiro do Sul, nos fornece dados interessantes sobre a situação da nossa juventude e o que significaria a sua criminalização.

Alguns dados

No Instituto Sócio –Educativo (ISE) cumprem medida sócio-educativa hoje, 56 adolescentes entre 12 a 18 anos.
Destes 56, 27 deles praticaram roubo de pequenos objetos e outros 8, furto. Na maioria deles trata-se de roubo de celulares
Segundo a assistência social e psicológica da unidade, todos estes crimes estão relacionados à dependência química, ou seja: furtos e roubos para manutenção do vício.
Ainda segundo a unidade, são estes menores infratores que apresentam o maior índice de reincidência, isto porque, enquanto não for sanada a questão da dependência química, é certo que virão a ser praticados novamente os mesmos crimes.

Crimes Hediondos

Uma proposta aparente mais moderada prevê a redução de maioridade penal para quem cometer crimes hediondos.
No ISE de Cruzeiro do Sul, entre os 56 adolescentes, há apenas 4 casos de homicídio. Dois simples e dois qualificados.
A direção da unidade explicou que não há motivação específica para o homicídio e muito ao menos premeditação. Em todos os casos, o menor teria agido sob forte emoção e por uma fatalidade, encontrado em seu alcance uma arma.
O mais surpreendente contudo, é que no caso de homicídios praticados por menores, o índice de reincidência é próximo a zero. Ou seja, são justamente os menores que cometem homicídios os que apresentam o melhor índice de recuperação.
O que significaria colocar estes jovens “atrás da grades”?
Em prisões comuns, quais seriam as chances de ressocialização destes jovens e quais as chances de se tornarem “mestres do crime”?

Tráfico de Drogas

É importante lembrar que no Brasil, tráfico de drogas é qualificado como crime hediondo, o que significaria, prender jovens de 16 anos com envolvimento no tráfico. Sabe aquele garto que “vende uma parada” às vezes para sustentar o próprio vício, ou porque simplesmente não teve outra chance? Pois sim, pela proposta de redução da maioridade penal para crimes hediondos, este jovem iria para a prisão, com chances mínimas de reabilitação.

Impunidade

A ideia popularizada pela imprensa de que o jovem infrator não é responsabilizado pelos seus atos, não corresponde à realidade. 
O ECA prevê as chamadas medidas sócio educativas que podem variar desde uma simples advertência, passando pela reparação do dano e prestação de serviços comunitários até a internação por até três anos.
Apresentadores de programas policiais nas TV afirmam, faltam com a verdade ao afirmar que um jovem que comete um crime grave aos 17 anos, é solto imediatamente ao cumprir 18 anos. 
Isso não é verdade. 
O jovem pode passar até os 21 anos em medida privativa de liberdade. Caso cometa um crime, dentro da unidade, já com mais de 18 anos, também irá responder como adulto.

Superlotação


A Unidade Penitenciária de Cruzeiro do Sul atualmente conta com um efetivo carcerário de 550 presos, sendo que dispõe de 224 vagas, ou seja  um défit 326 vagas. Atualmente as celas que foram planejadas para 2 presos, abrigam uma média de 5 presos.

Com esse problema de superlotação, são inevitáveis surgirem problemas de ordem estrutural, elétrico e na rede de esgoto, pois um prédio planejado para determinado número de usuários, sendo dobrado essa lotação, o que se foi projetado não suporta.
Com uma redução na maioridade penal haveria o agravamento da superlotação já existente.

Não seriam apenas 56 jovens a mais na penal. Teriam de ser incluídos aqueles que hoje cumprem medida no CREAS, ou seja, em liberdade.


Mais Escola

Uma análise nos dados do ISE de Cruzeiro do Sul também aponta que a solução pode não ser o encarceramento da juventude, mas a sua escolarização.
70% dos jovens que cumprem medida no ISE, não chegaram a concluir o ensino fundamental. Alguns deles, jovens de 17 anos estão se alfabetizando somente agora, durante cumprimento de medida restritiva de liberdade.
O custo de manutenção de um jovem no ISE é próximo de 2 mil reais.
Segundo dados publicados em matéria do jornal “O Globo”, um preso chega a custar 21 mil reais para o estado brasileiro, nove vezes o que é gasto com um estudante.
Na outra ponta estão aqueles que defendem o ensino em tempo integral como forma de ampliar o acesso à educação, cultura, lazer e esporte, e consequentemente, uma diminuição da criminalidade entre os jovens.
Certamente que os investimentos para viabilizar o ensino integral em caráter universal para nossa juventude demandariam grandes somas em dinheiro, mas ainda seriam menores do que as somas exigidas para o encarceramento desta mesma juventude.

Uma análise fria da situação nos permite afirmar com boa dose de assertividade que a redução da maioridade penal além de fazer parte de um ideário ultrapassado, é sobretudo, uma medida cara e ineficaz de combate à criminalidade. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Chico Mendes: ambientalista ou sindicalista?

Em recente nota, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri defende que Chico Mendes teria sido um sindicalista, e não um ambientalista. Para o STR, a associação de Chico Mendes a causa ambiental teria sido um equívoco perpetuado através da imprensa e mais precisamente, a internacional.

Quando Chico Mendes realizava os famosos “empates” estava na verdade defendendo os seringueiros e não exatamente a floresta. No entanto, defender os seringueiros naquele momento significava sobretudo, impedir o avanço dos tratores que traziam a expansão da frente agropecuária no Acre.

Considero legítimo afirmar que o movimento ambientalista internacional, apropriou-se desta luta, inicialmente sindical e trabalhista para transformá-la em sua própria bandeira. Mas é igualmente legítimo afirmar que Chico Mendes também apoiou-se no movimento ambientalista internacional para que sua voz fosse ouvida, já que na época, tanto a imprensa local quanto nacional deram pouca ou nenhuma importância à luta dos seringueiros acreanos.

Não consigo visualizar no horizonte qualquer outra instituição com mais legitimidade para falar de Chico Mendes que o STR de Xapuri. Contudo, creio que o legado de Chico Mendes tenha ultrapassado os limites de uma luta sindical, para colocar-se como uma nova possível reflexão de mundo.

Esta reflexão em que causas sociais unem-se à causa ambiental não poderia surgir, por exemplo, no ABC paulista, onde os trabalhadores tiram seu sustento das linhas de produção da indústria automotiva. Não poderia também surgir na social-democrata Alemanha, onde a militância das causas ambientais parte principalmente de setores urbanos com garantias sociais ainda inimagináveis aos trabalhadores brasileiros.

O Acre é afinal de contas, um grande celeiro e laboratório político capaz de produzir reflexões que até então estiveram ausentes do debate político. A temática ambiental e indígena tem sido tratada de maneira quase que pueril pela classe política. Esquerda e direita tradicionais ainda não foram capazes de formular a questão sem sair do nível de abstração. A julgar pela maneira com que o tema vem sendo tratado: “floresta” é uma espécie de entidade mitológica como o curupira e o mapinguari. 

Não se leva em conta, por exemplo, que continuidade do atual modelo de desenvolvimento poderá entre outras coisas, colapsar inclusive o sacro-santo agronegócio da soja, com uma eventual e provável mudança climática que altere o regime de chuvas.

O propalado "desenvolvimento" não leva em conta que, objetivamente, algumas centenas de milhares de pessoas vivem da exploração direta dos peixes dos rios, e da subsistência do que a terra é capaz de produzir, em condições de vida melhores, por exemplo, de que os sub-empregos criados pela indústria e pelo agronegócio.     

Não carrego grandes ilusões com relação à Marina Silva. A mulher tem mais contradições que os rios acreanos têm curvas. E que bom que seja assim.

Com a Dilma, temos a certeza de que continuarão os tratores a devorar a Amazônia, construindo hidrelétricas que servem principalmente para pagar dívidas de campanha. Tenho a certeza de que com Dilma, logo estarão aqui pelo meu Juruá perfurando petróleo. Com a Dilma, tenho certeza que meus amigos, minha família Yawanawá não terão o restante de sua terra completamente demarcada, bem como deve continuar andando a passo de jabuti a demarcação de outras tantas terras indígenas no Acre e fora dele.

Também não há certeza alguma de que com Marina isso venha ser diferente. Os atores em cena continuarão os mesmos, mas talvez haja uma nova distribuição de cartas. Talvez os movimentos sociais hoje calados por medo ou conveniência, possam de fato se manifestar e fazer a diferença nas ruas, no campo e na floresta.

As dúvidas trazidas por Marina Silva me apetecem mais que as indigestas certezas que Dilma carrega.

Elite



A polêmica toda em relação ao uso do termo “elite” por Marina Silva para se referir a Chico Mendes me parece conversa de surdos, coisa de gente  que realmente não faz questão de ouvir o que o outro tem para dizer.

Marina claramente fez uma desconstrução do termo “elite”, tal qual vem sendo empregado especialmente pelos setores ligados ao PT e à dita esquerda tradicional.

“Elite” não se restringe á elite econômica, tal qual sempre quiseram tanto os banqueiros da avenida paulista, quanto os sindicalistas do ABC que o combatem.

O termo elite é mais amplo e basta uma espiada no dicionário para constatar tal coisa. Lenin não nos fala sobre a construção de uma “elite revolucionária”?

Elite é também sinônimo de vanguarda. São aqueles que vão à frente, pelo destemor aos perigos e amor as ideias que os conduzem.

Elite é também um qualificante. E qualidade aí não se restringe ao conceito burguês de eficiência perante o “mercado”. É possível ser elite “apesar” do mercado. É possível ser elite sem um tostão no bolso. E assim são as centenas ou talvez milhares de professores brasileiros que não são reconhecidos pelo “mercado”. Aliás, na sociedade industrial o mercado prefere o mainstream, o pasteurizado, o igual, porque vende mais.

Elite são as parteiras do Alto Juruá. É a dona Maria que cura dor de barriga com erva e reza. É o seu “Zeca Diabo” do bairro do cruzeirinho que levanta uma casa e muda ela de lugar. É a dona Tereza que decora uma casa com palha e talo de buriti. É o seu João do Miritizal que faz canoa na mata e a dona Francisca, que quando a canoa não serve mais pra navegar, produz verdura em cima dela.

Meu velho pajé Yawaraní de mais de 100 anos, erudito remanescente de uma cultura ameaçada pelos mirabolantes projetos de desenvolvimento na Amazônia, é parte da “elite” que nem o Brasil do 
Mercado e nem o Brasil do Estado foram capazes de enxergar.


Marina vai enxergá-los? Não sei. É mais uma dúvida, mas uma dúvida ainda é bem melhor que as certezas de Dilma. 

* Na foto Chico Mendes sorri ao lado de sua bela esposa Ilzamar Mendes. Ilzamar recentemente concedeu entrevista sobre Marina Silva

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Arimatéia: "O negro não veio aprender a trabalhar no Brasil, ele veio ensinar"

Em entrevista no Programa Juruá Notícias, o professor José de Arimatéia deu uma verdadeira aula sobre a importância da cultura afro no Brasil.

Em Cruzeiro do Sul para organização do I Encontro de Cultura Afro, José de Arimatéia, representante da CERNEGRO (CENTRO de Referência da Cultura Afro no ACRE) e da Secretaria estadual de Direitos Humanos falou sobre os objetivos do encontro.  

“Nossa intensão é pegar as sementes do que existe de cultura afro no Juruá e fortalecer.
Entendemos que a cultura afro tem que deixar de ser apenas folclore e lembrar apenas nos dias 13 de maio e 20 de novembro. Queremos que esta cultura seja constante, e isso tem que ser fomentado pelo poder público. Saúde e educação, segurança e obras públicas são papel do estado, mas cultura também é um preceito constitucional. Isso só é válido quando é local, não queremos importar nada, por isso somos parceiros de entidades que já existem aqui.”

JN

- Hoje se fala muito da violência contra o negro. No Brasil, os maiores índices de violência atinge principalmente jovens negros, moradores das periferias.  E a cultura negra também sofre violência simbólica?

“Sim, até porque o dominado não conta sua historia.
O negro que veio escravizado dentro do navio era produto de guerra. Ali haviam nobres, generais, médicos. Haviam cristãos inclusive, porque cristãos foram sim escravizados. Na África foi construída a primeira catedral cristã.
Julga-se que eram pessoas que não sabiam nada. Vieram para o trabalho braçal. No entanto a cultura econômica brasileira veio naqueles navios negreiros. O problema é pensar a cultura negra somente como folclore.
A criação de gado, por exemplo. Quem trouxe o sistema de criação extensiva de gado foram os negros, já que na Europa, havia a criação intensiva, em pequenos espaços.
Boi-bumbá, Sinhazinha, negrinho do pastoreio, são elementos que estão no folclore, mas que vieram desta cultura econômica trazida da África. Desta cultura afro de cuidar de gado.
O negro não veio aprender a cuidar do gado, ele veio ensinar. O negro veio para o Brasil para trabalhar na mineração, mas ele não veio aprendera tirar ouro, ele veio ensinar, porque já existia esta cultura da mineração na África. A fundição brasileira, também veio de lá.
O negro não veio aprender, veio ensinar.
Mas quando se fala de negro, se pensa logo em feijoada, capoeira e samba. Estes são elementos essenciais na nossa cultura, na África, também tínhamos festas. Agora folclorizar e reduzir, isso é o problema. É não entender a cultura brasileira e tirar dele elementos essenciais.
Saúde
Há dez anos o SUS veio falar de acolhimento. Na cultura Banto, isso existe há dez mil anos. Porque algumas doenças não são somente do corpo, mas da mente. Quando se chega numa casa de santo, num terreiro onde uma mãe de santo, um pai de santo, vai fazer o papel de psicólogo, doutor, alguém que lhe escuta. Muitas doenças de hoje, é só falta de alguém para te ouvir.
Ubuntu
Empoderamento é uma palavra nova, mas na cultura Banto o conceito já existe. Vem através da palavra Ubuntu que significa “eu sou o que eu sou porque nós somos”. Então você tem poder igual a mim. Tenho que dar para você a mesma chance que eu dou pra mim. Quem dá importância dá poder.  
O preconceito neste país é a redução. Reduzir o negro ao canto à dança.
Muitos inventores foram negros*, mas isso não é interessante dizer que este povo escravizado o negro contribui com algo mais do que a sua força braçal
O negro até pouco tempo era retratado só do pescoço pra baixo: futebol, samba e bunda.
Nós temos cabeça também, a contribuição negra é intelectual."


*Vale a pena conferir a lista de inventores negros no arquivo Geledés

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Amazônia: Território do Colonialismo e do Imperialismo Verde-Amarelo


Leandro Altheman

O simpósio promovido pela Fundação Maurício Grabóis durante o segundo dia da 66ª SBPC, em Rio Branco Acre debateu o tema do desenvolvimento na Amazônia sob diferentes pontos de vista. Participaram do simpósio Aldo Arantes, diretor-presidente do INMA;   Ênio Candotti presidente de honra da SBPC e Otávio Alves Velho, antropólogo e cientista político e social, ex-vice-presidente da SBPC.

Colonialismo 

Ênio Candotti foi crítico em relação aos megaprojetos de desenvolvimento na Amazônia. Para o cientista, a falta de pesquisa compromete o resultado. Citando mineração e hidrelétricas, Candotti questionou o fato de que estes projetos geram energia e riqueza para uma parte do país, sem que isso, contudo, se reflita em uma significativa melhora no IDH das populações regionais da Amazônia.
“Além da discussão sobre a real necessidade das hidrelétricas, existe uma relação entre poder central e periferia que são típicas de uma relação colonial. A Amazônia é tratada como fonte de matéria-prima para o desenvolvimento do resto do país.” 

BRICS

Aldo Arantes tratou do tema da cobiça internacional sobre a Amazônia e da necessidade de um projeto integrado de desenvolvimento que servisse como um elemento de defesa e permita aos brasileiros se apropriarem da riqueza. Aldo citou a carência em pesquisa como um dos obstáculos a serem vencidos. Outro obstáculo seria o capitalismo regional predatório do agronegócio, a quem ,segundo Aldo, não interessaria este desenvolvimento integrado.
Aldo defendeu a retomada do Programa Amazônia Sustentável, do Governo Lula, mas com metas mais claras. Para ele, o novo banco dos BRICS poderia financiar um projeto integrado de desenvolvimento na Amazônia, não apenas no Brasil, mas nos oito países que fazem parte da região.
“A SBPC poderia tomar a frente às negociações com o governo federal para isto”, sugeriu Aldo. 

O índio e a esquerda brasileira

O terceiro palestrante foi Otávio Guilherme Alves Velho, Cientista político e Antropólogo.
Otávio chamou a atenção para o fato de que a esquerda brasileira ainda não formulou uma base de pensamento consistente em que as questões indígena e ambiental estejam contempladas. Segundo o antropólogo, nos países vizinhos da América do Sul, há pensadores de esquerda que já avançaram mais nesta discussão e citou o sociólogo peruano Aníbal Quijano. Quijano é um crítico daquilo que chama de visão eurocêntrica da esquerda latino-americana.
“A existência do índio e da questão ambiental podem ter um caráter revolucionário nas bases do nosso pensamento. É um valor que nos obriga a mexer com a nossa visão e a nossa mentalidade.”
Em sua fala, Otávio ampliou o conceito tradicional de soberania, dizendo que o mesmo aplica-se aos direitos dos povos indígenas e tradicionais, em questões como a soberania alimentar, por exemplo.

Imperialismo Verde-Amarelo

O antropólogo chamou a atenção para aquilo que vem sendo chamado de “imperialismo verde-amarelo” em que empresas com base no Brasil reproduzem uma relação imperialista com países e povos da América Latina e da África.
“É preciso ter uma solidariedade com estes povos. Uma noção de solidariedade além da nacional.”

Jornalista lança livro sobre experiência com planta sagrada para indígenas

O jornalista acreano Leandro Altheman lançou, na última quarta-feira, 23, no Memorial dos Autonomistas, em Rio branco, o livro “Muká- A Raiz de um Sonho”.
A obra surgiu de uma experiência que o autor teve com a raiz muká, planta sagrada para o povo Yawanawá, de uso extremamente restrito até mesmo entre os membros da aldeia, sendo reservada para processo de aprendizagem, formação e maturação das lideranças espirituais, os pajés.
“Tive a experiência com o muká durante quatro anos, tempo em que fiz minha formação espiritual na aldeia. Desse período passei três meses isolado. A raiz é mascada e você consome o sumo. Você sonha com muita clareza e a capacidade de concentração aumenta. O efeito é progressivo, vem com o tempo, por isso é importante o isolamento para fazer uma dieta”, explica Leandro Altheman.
O jornalista diz que durante o tempo em que ficou isolado ele fez um diário com as experiências que teve. “O livro surgiu das anotações que eu fazia durante o período em que fiquei na aldeia. Relatei nesse diário os sonhos que eu tive. Daí surgiu a ideia de fazer o livro”.
A obra “Muká- A Raiz de um Sonho” é encontrada nas livrarias Paim, Formato e Nobel, na capital, por de R$ 40. Em Cruzeiro do Sul, também na livraria Paim, o preço é R$35.

sábado, 12 de julho de 2014

A culpa é de Abrãao ?

Um amigo meu, judeu não-praticante, quando perguntado sobre quem seria de fato o culpado pela crise na Palestina, apontou não para os mísseis do Hamas, mas em uma direção bem mais improvável.

- A culpa é de Abraão!  

Perplexos, perguntamos porque o patriarca que quase imolou vivo seu filho para a honra de seu Deus, seria o culpado da atual crise.

- Ele comeu a empregada e fez um filho com ela, Ismael, da qual descendem todos os árabes. Se ele não tivesse feito isso, não existiriam nem árabes e nem palestinos e todos estariam em paz no oriente.

Para aqueles que gostam de tirar lições morais da bíblia esta seria certamente uma bastante explícita: não coma sua empregada, ou se comer, use camisinha.

Rir é uma forma de tirar o poder aparente das coisas. É exatamente o contrário do que o medo faz: dá poder às ilusões.

Se fosse possível  deixar de lado o tema religioso e fazer um esboço meramente geopolítico da situação minha análise seria simples: O Estado de Israel é a parte mais importante da política do ocidente para obter hegemonia no oriente médio. Uma colônia européia e estadunidense no oriente. É assim que os árabes a encaram.

Mais do que isso, o Estado de Israel tal como se propõe é uma impossibilidade lógica que só pode ser mantida pelas forças das armas e da ajuda externa (exatamente o caráter de uma colônia). Como estado democrático, Israel estaria fadado ao fracasso, uma vez que desde sua criação, a população judaica é minoritária. À força de uma política de estado capaz de deixar  saudades do regime de apartheid na África, os judeus vem conseguindo, artificialmente, manter uma falsa maioria sobre o estado. Para isto, os expedientes utilizados incluem a expulsão de palestinos de suas casas, a proibição de retornarem para suas residências quando se ausentam, a proibição, inclusive, da captação de água da chuva para irrigação. 

Enquanto isso, com o apoio da comunidade judaica internacional, mais e mais colônias vão sendo criadas ao redor de Jerusalém Oriental (Palestina) e na Cisjordânia e Faixa de Gaza ocupada, em claro desrespeito às resoluções da ONU.

O Estado de Israel só pode sobreviver desta maneira: como uma colônia apoiada externamente e com um regime igualmente fundamentalista.

O maior temor dos israelitas é de que uma Israel “democrática” seria progressivamente assediada e fatalmente varrida pela onda do fundamentalismo islâmico.

Esta é justamente uma das razões pela qual o tema religioso não pode ser colocado de lado na questão. E com isso voltamos a Abrãao, “pai” das três maiores religiões do planeta: judaísmo, cristianismo e islamismo.

O judaísmo é a mais antiga, a raiz das outras duas. O Torah Hebraico e o Pentateuco cristão são praticamente coincidentes.

Os hebreus continuam até hoje esperando a vinda do messias que iria restaurar a glória da antiga Israel dos tempos de Davi e Salomão. É exatamente em cima desta promessa que se constrói o sonho do Estado de Israel, portanto a questão religiosa é de fato, indissociável da geopolítica.  
Jesus disse que viria trazer o reino dos céus e recusou a disputa política necessária para a restauração do “Reino de Israel” e exatamente por esse motivo teria sido rejeitado pelos judeus.

Para um judeu, Jesus não passa de um mentiroso. Se ele não veio restaurar Israel, ele não é o filho de Deus e por isso, só pode estar mentindo. A grosso modo é isso.

Quando, séculos mais tarde surge Maomé, o mesmo declara a santidade de todos os profetas do passado, inclusive de Jesus. Neste ponto, a doutrina de Maomé é mais inclusiva que a dos judeus: aceitam Jesus não como Deus, mas como um profeta, um anunciador da palavra. Para os judeus ele não é uma coisa nem outra, se não, apenas um mentiroso.

Os judeus continuam seguindo sua fé monoteísta. Passaram por muitos percalços ao longo da história, o que certamente é uma prova de resistência e lealdade para com sua fé. Mas como eles já são o povo escolhido, significa também que o resto do mundo pouco importa. É uma fé excludente por definição.

Talvez por isso, a frase dita em tom de brincadeira pelo meu amigo judeu, reflita de fato, um pensamento comum entre os judeus mais radicais: os árabes não passam de uma escória que descende de uma “pulada de cerca de Abrãao”. E como filhos ilegítimos não teriam direito à herança alguma, seja ela qual for.  

Já os islâmicos não rejeitam as anteriores doutrinas abraâmicas (judaísmo e cristianismo), mas para eles, o Islã, a verdade revelada pelo profeta, seria uma espécie de “cereja do bolo”, o supra-sumo da revelação divina.

Convenhamos que, se a verdade única repousa em um único Deus, a doutrina islâmica é mais coerente e mais simples que a cristã. Nada de Pai, Filho e Espírito Santo. Um Deus só único e pronto. Santos, profetas, Jesus e a Virgem Maria, todos são dignos de respeito, mas só Alá é Deus. Para eles, tornar-se islâmico significaria retornar ao estado primordial do homem, de submissão à vontade divina. Por isso não falam em conversão, mas em reversão ao Islã. É portanto, inclusiva.
Talvez por isso que seja justamente o islamismo, a fé que mais cresce no mundo.  

Mas o que eu acho realmente incrível nisso tudo é o papel desempenhado pelo cristianismo.

Trata-se de uma fé basicamente grega e latina, ocidental portanto. Para um bom cristão, Jesus teria abolido completamente o caráter racial excludente original do judaísmo. A ideia de um Reino de Israel para escolhidos é substituída pela ideia (mais inclusiva) de um Reino dos Céus, para todos (que o aceitarem). Mas apesar disso, as referências culturais e civilizatórias continuam sendo provenientes daquela parte do mundo.
É por isso, que para um cristão, o senhor é seu "pastor" e não seu "agricultor", ou seu "minerador", ou seu "pescador", ou seu "caçador". É uma questão de referência civilizatória. É por isso que mesmo na megadiversa Amazônia estamos ainda sujeitos e atrelados a referenciais que surgiram na estéril e desértica Palestina. É por isso que dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo quando algum cristão menos esclarecido vem me dizer que "na bíblia não fala nada sobre a ayahuasca" E que portanto, ela só poderia ser "coisa do diabo". 
Bem, também não fala sobre mandioca, açaí ou guaraná, mas conta uma história bem interessante de Moisés conversando com uma planta.

Em outro momento, falarei mais da potencialidade genocida que é tomar referenciais culturais locais por universais e de como isso, entre outras coisas, está de fato, nos levando ao "fim do mundo".   

Ao contrário de árabes e judeus não há para o cristão qualquer tipo de ligação étnica com o patriarca Abrãao. Contudo, seus sacerdotes continuam a proferir que o fiel, na vida após a morte, encontrará paz no “seio de Abrãao”.

Com tanto lugar no universo, querem te mandar logo para o colo do sujeito que começou com essa confusão toda. Muito consolador.

Fico imaginando, Abrãao, como um sujeito normal, honesto, trabalhador, mas que deu uma escorregada com a empregada, como muitos o fazem até hoje e acabam tendo problema com a paternidade ilegítima.
Em algum lugar do universo vão chegando as almas de judeus e palestinos mortos,e Abraão vai ter que dar um jeito de acolher tanto a ismaelitas quanto israelitas.

Homem, ponha-se no lugar de Abrãao.
E além destes, ainda vão chegando as almas dos cristãos, gregos, latinos, ibéricos, germânicos, anglicanos... Talvez comecem a chegar também negros da África e índios das Américas ... todos terão também de ser acolhidos agora no "seio de Abrãao"

Vendo aquele monte de gente procurando o "Seio de Abrãao", sua mulher, Sara, o olha desconfiada imaginando quão longe pode ter ido a infidelidade do marido. Abrãao advinha o seu pensamento e diz:

- Estes não Sarinha, estes não fui eu...eu juro.

Mulher, ponha-se no lugar de Sara. O que ela diria? Eu imagino que seria algo assim:

-E eles não tem pai, não? Vão procurar o pai de vocês!

(Me diz, se não daria uma bela comédia?)

Mas eles não podem encontrar o pai deles, porque os obrigaram a esquecer seus próprios ancestrais e adotar uma ancestralidade alheia.

Seio de Abrãao!

Se realmente existe vida após a morte, o “seio de Abraão” seria o último lugar que eu gostaria de ir.  

Mais tarde eu continuo falando sobre o assunto... em: O Apocalipse nosso de cada dia... 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sacrifícios Humanos de Maias e Astecas: mais uma mentira da Igreja Católica?

Para antropólogo mexicano, sacrifícios humanos de maias e astecas foram inventados para justificar invasão das Américas.

Seria a primeira vez que a Igreja Católica teria mentido?

Frank Díaz

O MITO dos sacrifícios humanos na Mesoamérica

Antes de cair Tenochtitlan, os espanhóis viveram por dois anos com o povo de Anahuac.
Nenhum espanhol testemunhou sequer um único sacrifício humano neste período.
Todas as referências e desenhos de sacrifícios que aparecem nas crônicas do período provem de relatos anteriores.

Pelas leis espanholas só se podem colonizar outras terras, se os seus habitantes cometerem atos de desumanidade ou considerados anti-naturais, como o canibalismo, o sacrifício humano ou sodomia institucional. Portanto, os colonos deveriam inventar ou exagerar para justificar tais atos, se necessário.

Quando os informantes nativos já cristianizados descobriram que os espanhóis precisavam dessa justificativa, houve uma verdadeira avalanche de relatos de sacrifícios humanos que foram incorporados nas crônicas da segunda metade do século 16.
Assim, os informantes puderam manter uma distância a respeito de sua religião ancestral, mesmo à custa de caluniar os seus próprios avós.

A religião anahuaca era muito simbólica e com base nos princípios do mérito e sacrifício, que são exemplificadas por imagens de morte (como a tradicional imagem cristã da crucificação).
Se alguém está inclinado a obter esta informação, é muito fácil de tomar estes emblemas como literais.

Todas as sociedades tiveram formas para se livrar de criminosos e inimigos militares ou políticos, bem como o combate de gladiadores e ritual de auto-imolação. Nenhum criminoso é "sacrificado" ao escalar uma pirâmide para dar alguma dignidade à sua morte. De modo similar, hoje um infrator "frita" em uma cadeira elétrica ou um morre com cocktail químico.

O que poucas sociedades tiveram é uma instituição projetada especificamente para torturar quem discordou da doutrina oficial: a Inquisição. Além disso, seria impossível encontrar outra empresa além do  próprio cristianismo de um caso de sacrifícios humanos tão maciço e sistemático como foram as fogueiras inquisitoriais.

Dois exemplos nos contam a verdade sobre o sacrifício humano na Mesoamérica:

1. Haviam  afirmações de que os maias sacrificavam donzelas no cenote (espécie de laguna subterrânea) em Chichen Itza (México). Quando este foi dragado no início do século 20, foram encontrados os restos mortais de 200 pessoas de todas as idades e sexo. Se considerarmos que o local foi habitado pelo menos 10.000 anos atrás, significariam DOIS AFOGAMENTOS POR SÉCULO, o que parece normal para um bem que cota de tamanho.

2. Alguns pesquisadores respeitáveis ainda repetem o mito de que o jogador de bola mesoamericano era sacrificado após a partida. Eles tiram por literais as imagens de decapitados que aparecem em relevos astecas e maias. Os espanhóis muitas vezes frequentaram esse jogo e o descreveram em detalhes, mas nunca registraram um sacrifício.

O tema do sacrifício humano no México antigo é um exagero de antropólogos e um exemplo da hipocrisia da nossa cultura, pronto para destruir cada último vestígio de uma antiga civilização apenas para encobrir a crueldade chocante e ilegalidade da invasão da América.

Frank Diaz
antropólogo
http://diazfrank.blogspot.mx/