quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Dilma, a "Ambidestra"

Em entrevista para a a jornalista Eleonora de Lucena, da Folha de S.Paulo, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha diz que o governo de Dilma joga "entre a inclusão e o trator"
 
"Um governo em que a mão direita e a mão esquerda não parecem pertencer a um mesmo corpo". Assim a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha define o governo Dilma Rousseff: a gestão tem uma "face boa", que promove inclusão social, e outra "desenvolvimentista", que "não se importa em atropelar direitos fundamentais e convenções internacionais".
Pioneira na discussão contemporânea da questão indígena e liderança no debate ambiental, Manuela, 69, acha o novo Código Florestal "um tiro no pé": "A proteção ambiental é crucial para a sustentabilidade do agronegócio".
A professora emérita da Universidade de Chicago está relançando seu clássico de 1985, "Negros, Estrangeiros: Os Escravos Libertos e Sua Volta à África" [Companhia das Letras, 272 págs., R$ 49], sobre escravidão e liberdade no Atlântico Sul.
Nesta entrevista, concedida por e-mail, ela constata vestígios de realidade escravocrata no Brasil de hoje: "Olhe com atenção cenas de rua. São muitas as que parecem saídas de fotografias dos anos 1870 ou até de aquarelas de Debret, da década de 1820".


Folha - Como a sra. avalia o desempenho do governo Dilma?

Manuela C. da Cunha - Há pelo menos duas faces no governo Dilma que não são simplesmente resultado de composições políticas. Há a face boa, que promove uma política de inclusão social e de diminuição das desigualdades. E há uma face desenvolvimentista, um trator que não se importa em atropelar direitos fundamentais e convenções internacionais.
Exemplos disso são a portaria nº 303, de 16/7, da Advocacia Geral da União, sobre terras indígenas, que tenta tornar fato consumado matéria que ainda está em discussão no Supremo Tribunal Federal, além de outras iniciativas recentes do Executivo, como a redução de áreas de unidades de conservação para viabilizar hidrelétricas.
Somam-se a essas duas faces do Executivo as concessões absurdas, destinadas a garantir a sua base parlamentar.
O resultado é um governo em que a mão direita e a mão esquerda não parecem pertencer a um mesmo corpo. Corre, por exemplo, o boato de que a senadora Kátia Abreu (PSD-TO), que chefia a bancada ruralista, poderia ser promovida a ministra da Agricultura!

Quem está vencendo o embate entre o agronegócio e os que defendem a preservação ambiental?

Ninguém venceu: com o novo Código Florestal, todos perdem, inclusive os que se entendem como vencedores. O Brasil perdeu.
Agrônomos, biólogos e climatólogos de grande reputação foram solicitados pela SBPC e pela Academia Brasileira de Ciências a se pronunciarem sobre o novo Código. Esse grupo, do qual tive a honra de ser uma escrevinhadora, publicou análises e documentos ao longo dos dois anos que durou o processo de discussão no Legislativo. As recomendações fundamentais do mais importante colegiado de cientistas reunidos para examinar as implicações do Código Florestal não foram acatadas.
Como declarou Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor titular da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), o Brasil perdeu a oportunidade de mostrar ao mundo que é possível conciliar crescimento da produção de alimentos com sustentabilidade ambiental. Para aumentar a produção, não é preciso mais espaço, e sim maior produtividade.
Foi com ganhos de produtividade que a agricultura cresceu nas últimas décadas. Diminuir a proteção ambiental, como faz o novo Código Florestal, é miopia, é dar um tiro no pé e privar as gerações futuras do que as gerações passadas nos legaram. Pois a proteção ambiental é crucial para a sustentabilidade do agronegócio.
É constrangedor ainda que, para favorecer a miopia dos setores mais atrasados do agronegócio, se tenha usado uma retórica de proteção à agricultura familiar. O que se isentou de reposição de reserva legal no novo Código não foi exclusivamente a agricultura familiar e sim um universo muito maior, a saber quaisquer proprietários de até quatro módulos fiscais.
A agricultura familiar está sendo na realidade diretamente prejudicada pela brutal redução que vinha sendo feita das matas ciliares. No Nordeste e no Norte de Minas, vários rios secaram. Com o antigo Código, ainda se tinha amparo da lei para protestar. Hoje, o fato consumado tornou-se legal. Isso se chama desregulamentação.

Por que o movimento de intelectuais não conseguiu êxito?

O movimento "A Floresta Faz a Diferença" não pode ser caracterizado como um movimento de intelectuais. Não só 200 entidades da sociedade civil se uniram no protesto, mas a população em geral se manifestou maciçamente.
Lembro que duas cartas de protesto, no final de 2011, somaram mais de 2 milhões de assinaturas. Já na pesquisa de opinião do Datafolha, realizada entre 3 e 7 de junho de 2011, em ambiente urbano e rural, 85% se manifestaram contra a desregulamentação que é o novo Código Florestal. E prometeram se lembrar nas urnas do desempenho dos parlamentares.
E o pior foi que congressistas de partidos que se dizem de esquerda, dos quais se esperava outro comportamento, tiveram atuação particularmente lamentável. Faltou uma sintonia entre o Congresso e o povo: cada vez mais os políticos não prestam contas a seus eleitores e à opinião pública.

Há quem aponte interesses externos no discurso da preservação de áreas ambientais e de reservas. Qual sua visão?

A acusação de que ambientalistas e defensores de direitos humanos servem interesses externos é primária, além de velhíssima: teve largo uso desde a ditadura e na Constituinte. Sai do armário quando não há bons argumentos.

Como a questão indígena está sendo tratada? Como devia ser tratada?

Hoje a questão indígena está sob fogo cerrado. Muitos parlamentares estão tentando solapar os direitos indígenas consagrados na Constituição de 1988. Querem, por exemplo, permitir mineração em áreas indígenas e decidir sobre demarcações. E a recente investida da Advocacia Geral da União de que já falei levanta dúvidas sobre as disposições do Poder Executivo.

Em "Negros, Estrangeiros" a sra. afirma: "Tentou-se controlar a passagem da escravidão à liberdade com o projeto de ver formada uma classe de libertos dependentes. Formas de sujeição ideológica, em que o paternalismo desempenhou um papel essencial, e formas de coerção política foram postas em uso". Essa realidade persiste?

Comento no livro que um dos mecanismos do projeto de criar uma classe de libertos dependentes foi a separação mantida até 1872 entre o direito costumeiro e o direito positivo. Alforriarem-se escravos que oferecessem seu valor em dinheiro era um costume, mas não era um direito, contrariamente ao que se apregoou.
A alforria, mesmo paga, era sempre considerada como uma concessão do senhor, e implicava um dever de gratidão para o liberto: tanto assim que, desta vez por lei, podia ser revogada se o liberto se mostrasse ingrato. Hoje a lei avançou e o conhecimento das leis também. A dependência não é mais a mesma. Mas o clientelismo, do qual o paternalismo é uma forma até mais simpática, não desapareceu. As ligações e lealdades pessoais, a proteção, as conivências são flagrantes na esfera política.
Mas você me pergunta de vestígios da realidade escravocrata no Brasil. Olhe com atenção cenas de rua. São muitas as que parecem saídas de fotografias dos anos 1870 ou até de aquarelas de [Jean-Baptiste] Debret, da década de 1820. As babás escravas cujos retratos aparecem no livro são muito parecidas com as que, mais malvestidas e todas de branco, levam as crianças aos parques no Rio de Janeiro. Os carregadores de ontem e de hoje pouco diferem...

Como a sra. explica a escravidão moderna? Por que ela persiste?

A escravidão moderna, nisso semelhante à escravidão legal que desapareceu, é uma das múltiplas formas de uma questão sempre atual, a do fornecimento e do controle de mão de obra.

Trabalhadores em regime análogo à escravidão em fazendas; em São Paulo, imigrantes bolivianos e paraguaios enfrentam condições desumanas em confecções. Qual relação há entre essa realidade e a história brasileira de escravidão?

As formas contemporâneas de opressão de trabalhadores, sobretudo urbanos, não são específicas ao Brasil: por toda parte, elas afligem populações de migrantes sem documentos, que, mantidos na ilegalidade e sempre sujeitos a serem expulsos, não conseguem se defender das condições degradantes. A propalada globalização permitiu livre trânsito a mercadorias e capitais, mas não se estendeu (a não ser no âmbito da União Europeia) às pessoas.
No campo, os regimes análogos à escravidão usam a força para restringir a liberdade, e não a chantagem, já que em geral se trata de brasileiros recrutados em outros Estados que, teoricamente, poderiam recorrer às autoridades. Mas o isolamento físico e a distância dos seus lugares de origem permitem que impunemente se use a força contra eles.

Manoela Carneiro é co-autora  da "Enciclópedia da Floresta do Alto Juruá", com Mauro Almeida e contribuições de autores regionais que agregaram o saber tradicional ao conmhecimento científico. O livro foi uma espécie de "ensaio" do que viria a ser o conceito central da Universidade da Floresta.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Nem tudo está perdido


Jovens Cruzeirenses da Escola Professor Flodoardo Cabral executam Mr. Crowley - Black Sabath, no Teatro dos Náuas durante o PFC Fest Rock.

sábado, 25 de agosto de 2012

Onde o vento faz a curva III


Travessia
- Como você pode querer ir comigo, ao menos sabe para aonde estou indo?
- Não me importa, desde que me leve com você. Mas a propósito para aonde está indo?
- Para a guerra

A mulher-cuco olhou fixamente para um ponto além de mim, e ficou em silêncio.

- O que foi? Perguntei, enquanto olhava para trás.

- Nada, agora eu entendi o sonho. Beijava um rapaz e ele estava fardado. Era você.

- E o que acontecia?

- Não me lembro.

- Isso não é bom!

- O que não é bom? Beijar um rapaz fardado?

- Não. O fato de você não se lembrar. Significa que terá que ver com os próprios olhos e vivenciar. Se tivesse se lembrado, não precisaria mais da experiência e estaria livre dela. E por falar nisso, eu me lembro exatamente do que eu vim fazer e já está na minha hora. Vou partir.

- Um beijo?

Disse de modo tão meigo e delicado que tive vontade apenas de abraçá-la. Abracei seu corpo pequeno. Senti seu coração batendo compulsivamente como se quisesse pular fora do peito. Era o seu desejo de menina. Partir.

O mesmo desejo pulsava em mim, mas meu coração aprendera a esperar pacientemente, ainda que às vezes fosse dolorido saber que ainda não era a hora.

- Como é o seu nome?

- Atah Ïsis

Uma sacerdotisa de Isis, pensei. Que interessante! E também o nome de uma acompanhante de guerra.

- Bem, Ata Ïsis, minha palavra final é não. Terei de passar pelo Vale das Sombras, e com este coraçãozinho medroso, minha filha, você será uma presa suculenta e atrairá um bocado daquelas hienas para cima de mim. Obrigado, já tenho problemas de mais.

Sai andando e ela ainda veio atrás de mim, aos prantos.

- O fato de você chorar, não me comove. Pelo contrário, apenas me dá a certeza de que não está pronta para esta viagem. Já tenho problemas demais.

Ela agora soluçava e convulsionava aos choros. Não saía uma palavra de sua boca, ainda que eu esperasse por isso. Abraçou-me, como se quisesse me impedir de sair. Suas lágrimas eram quentes e molharam minha roupa.

Senti uma imensa dor por deixá-la, o Cuco. Suas lágrimas, seu choro convulsionado, transformaram-se em uma canção. Uma canção antiga que como um grito de desespero atingiu o meu coração. Tentei lembrar da canção. Travessia era o seu nome.   

- V-v-v- você tem que me levar ! Finalmente falou

- Eu não tenho nada! Não sou nada seu. Não tenho obrigações para com você ou sua casa...

Neste momento parei de falar. Lembrei-me de que ela era um cuco e a sua casa poderia ser qualquer uma. De tantas ordens celestiais das galáxias, uma certamente era a sua. Quiçá uma das quais tinha obrigação e compromisso firmado. Seria ela um presente? Ou quem sabe uma encomenda? Como membro da ordem dos Chasquis não poderia recusar levá-la. Mas ainda assim, não havia clareza do destino. Assim sendo, não me cabia afinal, obrigação nenhuma com ela.

- Uma pena deixar este Cuco para trás. Pensava enquanto embarcava em minha nave em direção à Lua de Korou- Há. – Mas ia pesar demais na cabine da minha pequena nave. 

***

Viagem a Korou-Há

- Korou-Há, hawê hanhewê ! Saudaram-me os simpáticos nativos da lua assim que desci da nave no espaço-porto.

- Seja bem vindo vós que chega a Korou-Há!  Traduziu o intriguento administrador da lua, Couro-de-Cervo.
- Conheço o idioma nativo, Couro-de-Cervo. Não preciso de jandaianianos para traduzi-lo para mim.

- Mesmo após tantos anos continuas arrogante, sulista. O que trazes para nós?

- Sulista eres tu madre! Pensei, mas disse apenas – Para você nada. Nada além da minha amizade sincera, caso precise da minha voz no conselho quando me perguntarem se você ainda continua traficando água-da-vida e esmeraldina. A propósito, o que seriam naqueles tambores?

- As leis da galáxia são severas para quem leva a palavra-da-floresta aos quatro cantos do universo, irmão.

-Bem, estes sãos os seus problemas. Eu cuido dos meus. Vou surcar o rio até Pedestal. 

- Veio visitar a bruxa tawantinsuiana de novo?

- Isso não é da sua conta. O rio é livre e você é apenas o administrador, não o dono da lua.

-Quatro pedras na mão. Típico sulista. Perguntei apenas para lhe oferecer a generosa ajuda de um guia e alguns de meus seguranças particulares. Seria terrível se caísse nas garras das Ovelhas Radicais.

- Agradeço e dispenso a ajuda de seus guias cegos e seguranças ‘aluados’*. Seriam os primeiros a caírem de joelhos aos ovelhas para fugirem das sombras quando eles evocarem os  pesadelos-vivos.

- Bem que assim seja. Lhe desejo sorte, amigo.

- Olhamos um no olho do outro. Um olhar malicioso, mas ao mesmo tempo de cumplicidade. Couro-de-Cervo era um escroto e ele provavelmente achava o mesmo de mim. Mas sabíamos que estávamos do mesmo lado da batalha.

- Grato amigo, a propósito, como estão a mulher e os filhos?

- Bem, graças a Deus. Ana está forte depois de ter dado a luz. Tem muito leite, apesar de ser uma sulista de sangue fraco como o seu.

- Bem, parece que você gosta das sulistas de sangue fraco. Talvez porque não agüente as nativas de sangue forte de Nova Constelação.

-Por falar nisso, tem notícias de Hon-Zá e seus filhos?

- Meus filhos estão bem no centro-sul galático. Quanto a Hon-Zá, bem, não tenho notícias dela desde a última vez que tentou me matar em uma tocaia em Buritis.

- Hahaha! Depois sou eu quem não agüento as nativas!

- As leis galácticas são severas quantos aos homens, e frouxas em relação às mulheres.Culpa da sua raça de jandaianianos que tratam as mulheres como bichos. Se tratasse do assunto à maneira tradicional, Hon-Zá não teria mais dentes na boca, e eu estaria no cárcere em Hipotomaia.

- Bem, estes parece que são os seus problemas, não é mesmo?

- Mas deixemos de lado nossas farpas etnocêntricas.Tenho mais o que fazer do que discutir nossas diferenças culturais.

- Quando pretende voltar?

-Ainda não tenho previsão.

- Mais uma vez, boa sorte na viagem!

-Grato amigo, felicidades. Mande lembranças à patroa e nas crianças.

Caminhava entre o emaranhado de cipós que separavam o espaço-porto do porto fluvial quando reparei em um som de passos atrás de mim.

Quando se caminha só. O único som que se houve são os ecos de seus próprios passos. Lembrei-me do ensinamento do Mestre Javali.

Virei-me e vi o vulto se escondendo atrás de uma árvore. Uma árvore fina que me deixou ver os panos avermelhados que arrastavam-se no chão.

- Ata-Ïsis!   

A pequena se atirou ao chão, aos prantos.

-Eu tive que vir com você... Não agüentava mais. Aqueles olhares...

- Bem, você ao menos conseguiu se esconder no bagageiro. Talvez não seja tão medrosa e inútil como imaginei.

Mas que diabo, pensei. Como ela está aqui. É o MEU sonho e eu o estou escrevendo. Isso não estava escrito. Foi quando eu ouvi a Velha Voz.

-Você pensa que é o único sonhador? O único que está escrevendo esta história?
Não lhe dei atenção. Caminhamos cerca de uma hora pela mata, sem trocarmos uma palavra. Ela vinha logo atrás de mim, tropeçando em tocos de paus e pedaços de barro seco no caminho.
Chegamos à travessia. Deveria cruzar o rio em um pequeno bote de madeira, todo rachado.

- Que bote pequeno! , reparou Ata-Ïsis. Só dá para um.

- É, só tem lugar para um. E esse um sou eu. Você não devia estar aqui. Esta a viagem da minha libertação. Você é uma intrusa, uma viajante clandestina. Devia te deixar aqui.  

- Calma, é só fazer duas viagens.

- Não há tempo para duas viagens. Vamos embarcar os dois.

- Eu tenho medo de me afogar. Não sei nadar.

- Nossa, que apropriado! Uma ribeirinha que não sabe nadar. O que mais você NÃO sabe fazer?

Tentamos embarcar os dois, mas o bote não saia do lugar, pedi a Ata-Ïsis que empurrasse com os pés mas o bote não se movia. Pulei então na água e o empurrei mas quando tentei novamente embarcar o bote fez água e quase virou, caí na água molhando minhas roupas. Foi quando notei que havia molhado também meu comunicador.

Nesta altura, meu corpo sentiu uma distonia. A parte de cima do corpo, quente e seca, estava nervosa, irritada, furiosa. Enquanto isso, da cintura para baixo do corpo, onde estava molhado, encontrava-me relaxado e feliz. Estranhamente confiante tive vontade de mergulhar no rio, apesar das expressas advertências de feras que habitavam as profundas águas negras do rio.

Atirei o comunicador, no meio do rio e mergulhei. Senti-me feliz, liberto de tudo. Nadei até a outra margem sem dificuldade.

- O seu comunicador ! Disse  surpresa Ata –Ïsis. Sei que você pode conseguir outro, mas e os seus contatos?
- A maioria políticos e periguetes. Não vou precisar de nenhum deles para onde vou.

Mas na verdade sentia-me um idiota por ter atirado o comunicador no meio do rio. Por ter me enfurecido. Sentia-me ainda mais idiota por estar levando, contra a minha vontade, um Cuco, que não sabia sequer para aonde queria ir. Mas era ainda mais insuportável saber que aquela menina havia conseguido embarcar naquela viagem e agora, feito também ela a travessia.  
*Aluado: Que bebeu aluá, bebida alcoólica feita a partir da casaca do abacaxi. Embriagado, tonto. 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Pinturas Xâmanicas de Inspiração Ayahuasqueira- Escola Nyi de Arte


O acampamento, de propriedade da Comunidade Tawantinsuyu, está localizado no início da Reserva Pacaya Samiria, na junção do Ucayali e Marañón, em que nasce o rio Amazonas.

Em 2003, a Comunidade Tawantinsuyu, começou seu trabalho em educação artística com a criação do primeiro nível da proposta de "Escola da JNI de Arte", destinado a jovens e crianças da comunidade de Puerto Miguel, Gorge Yarapa. A abordagem fundamental da "Nyi Art School", é o desenvolvimento de um sistema de ensino da arte popular em áreas rurais tão intimamente ligados à selva ambiente natural.

Durante este terapias de cura da Experiência de Aprendizagem destinam-se a aplicar em várias disciplinas de arte e artesanato (pintura, criando papel reciclado, cerâmica, escultura em madeira). A filosofia da escola é baseada em três princípios filosóficos:




Munay - O poder do afeto e do amor
Llankay -O poder criativo do trabalho 
Yachay - O Poder do Conhecimento e Sabedoria. 

Estes três conceitos básicos da filosofia andina estão profundamente ligados à conservação da natureza, a preservação da cultura antiga, o corpo de equilíbrio físico e mental - sustentabilidade, qualidade espiritual e de vida melhorada. Comunidade Tawantinsuyu e "Art School JNI" Wanted: * Criar atividades que beneficiam comunidades rurais; * Junte-se artistas cuja arte de resgate os costumes de sua região; * Memória ajudar a reparar a sua Comunidade; * Fortalecer conceitos ecológicos; * Preservar a cultura tradicional através dos mitos e lendas do seu povo; * Criar novas oportunidades económicas. Informações mais detalhadas Veja aqui: www.comunidadtawantinsuyu.org
Nasceu los Janeiro 9, 1980

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Herói dos Perfeitos-Idiotas brasileiros era um informante dos EUA


WikiLeaks revela Diogo Mainardi como fonte para o consulado dos EUA


 

Documento vazado pelo WikiLeaks revela que Diogo Mainardi, colunista da Veja, e Merval Pereira, colunista de O Globo, serviram de fonte política para o cônsul dos EUA no Rio de Janeiro durante as eleições de 2010. 

Divulgação
Diogo Mainardi
De acordo com o documento, Mainardi escreveu uma coluna para a revista propondo a chapa Serra-Marina após almoço com o então pré-candidato à presidência, José Serra (PSDB), no dia 12 de janeiro de 2010. Durante a conversa, o tucano teria dito que Marina Silva seria "a companheira de chapa dos sonhos". À época, ainda se especulava qual seria o candidato à vice-presidência junto com Serra e o nome da candidata do PV e de Aécio Neves (PSDB) eram especulados.

Ainda segundo o documento, intitulado "Telegrama 10RIODEJANEIRO32", o colunista do jornal O Globo se reuniu com o cônsul no dia 21 de janeiro de 2010, quando disse ter tido uma conversa na véspera com Aécio Neves, que disse estar "firmemente comprometido" a ajudar Serra, inclusive integrando sua chapa.

Segundo Rodrigo Vianna em seu blog Escrivinhador, o documento foi enviado com exclusividade para um grupo de blogs.  
Trechos do documento vazado pelo WikiLeaks

24) CABLEGATE DE HEARNE
246840/ 2/2/2010 19:13/ 10RIODEJANEIRO32/ Consulate Rio De Janeiro/ NCLASSIFIED//FOR OFFICIAL USE ONLY
Excertos dos itens "não classificados/para uso exclusivamente oficial" do telegrama 10RIODEJANEIRO32.

A íntegra do telegrama não está disponível.

ASSUNTO: Ideias sobre possíveis candidatos a vice-presidente para José Serra

RESUMO. 1. (SBU) Observadores políticos e atores do PSDB no país entendem que há possibilidade de candidato do PSDB à presidência (na dianteira, nas pesquisas de intenção de voto) convidar a candidata Marina Silva, do Partido Verde, para sua chapa, como vice-presidente. Embora pareça pouco provável, nesse ponto, que Marina Silva aceite esse papel, muitos creem que, pelo menos, ela apoiará Serra num eventual segundo turno contra a candidata do PT Dilma Rousseff. Apesar de a hipótese Marina não estar descartada, analistas do PSDB veem, como cenário mais provável, que o governador de Minas Gerais, Aecio Neves (PSDB) venha a completar a chapa com Serra, como candidato à vice-presidência, apesar de Neves já ter declarado publicamente que concorrerá ao Senado. Mas, com a vantagem de Serra encolhendo nas pesquisas recentes, ressurge a especulação de que Serra possa renunciar a favor de Neves como candidato do PSDB. Até aqui, Serra é o candidato mais provável, e muitos dos nossos interlocutores declararam que uma chapa Serra-Neves seria o melhor caminho para Serra enfrentar com chances de sucesso os esforços do presidente para traduzir sua popularidade pessoal em votos para Dilma Rousseff, na sucessão. FIM DO RESUMO.

NO RIO, ANALISTAS DISCUTEM ALTERNATIVAS PARA A VICE-PRESIDÊNCIA

2. (SBU) Em almoço privado dia 12 de janeiro, o importante colunista político da revista Veja Diogo Mainardi disse ao cônsul dos EUA no Rio de Janeiro que a recente coluna [de Mainardi] na qual propõe o nome de Marina Silva como vice-presidente na chapa de Serra foi baseada em conversa entre Serra e Mainardi, na qual Serra dissera que Marina Silva seria a "companheira de chapa de seus sonhos".

Naquela conversa com Mainardi, Serra expôs as mesmas vantagens que, depois, Mainardi listou em sua coluna: a história de vida de Marina e as impecáveis credenciais de militante da esquerda, que contrabalançariam a atração pessoal que Lula exerce sobre os pobres no Brasil, e poriam Dilma Rouseff (PT) em desvantagem na esquerda, ao mesmo tempo em que ajudariam Serra a superar o peso da associação com o governo de Fernando Henrique Cardoso que Dilma espera usar como ponto de lança de ataque em sua campanha. Apesar disso, Mainardi não acredita que Marina associe-se a Serra, porque está interessada em fixar sua própria credibilidade, concorrendo, ela mesma, à presidência. Mas Mainardi disse que crê - como também Serra - que Marina Silva pode bem vir a apoiar Serra num eventual segundo turno contra Dilma.

3. (SBU) Em plano mais realista, Mainardi disse ao cônsul que o governador de Minas Gerais Aecio Neves dissera a Mainardi, no início desse mês, que Neves permanecia "completamente aberto" à possibilidade de concorrer como candidato a vice, na chapa de José Serra. (Nota: Dia 17/12/2009, Neves declarou oficialmente encerrada a discussão sobre sua pré-candidatura à presidência e mostrou interessem em concorrer como vice-presidente [referido em outro telegrama. FIM DA NOTA).

Apesar das declarações públicas de que concorrerá ao Senado, Mainardi disse que Neves planeja esperar um cenário no qual o PSDB, talvez à altura do mês de março, convide Neves para compor a chapa, com vistas a aumentar a chance do partido contra Dilma. As ambições pessoais de Neves e seu desejo, intimamente ligado àquelas ambições, de não atrapalhar o PSDB nas próximas eleições, levariam Neves a compor a chapa, ao lado de Serra - na opinião de Mainardi.

É a mesma opinião de Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, o maior do Rio de Janeiro, que se reuniu com o Cônsul dia 21/1. Pereira disse ao cônsul que tivera uma conversa com Neves na véspera, na qual Neves dissera estar "firmemente comprometido" a ajudar Serra fosse como fosse, inclusive como vice-presidente, na mesma chapa.

Na opinião de Merval Pereira, uma chapa Serra-Neves venceria. Pereira disse também acreditar que não só Neves aceitará a vice-presidente de Serra, mas, também, que Marina Silva também apoiaria Serra num eventual segundo turno (...).

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Caboclo do pé rachado

Sandra Braz* 

Eu já postei aqui sobre a visão atrofiada que algumas pessoas do centro-sul do país nutrem a respeito do Norte. Compreensível até certo ponto, já que crescem imersas em uma cultura diferente, num ambiente com mais abundância de tecnologia e vida apressada. A Amazônia para estas é sinônimo de mato e bichos silvestres, em síntese: um lugar inóspito. Eu já me irritei com essa concepção porque temos floresta com farta biodiversidade, embora esteja sendo degradada em nome do progresso, mas temos cidades “funcionais” como qualquer estado do Brasil. Infelizmente, tratando de Rondônia, há parco investimento público, no entanto, a iniciativa privada o esteja fazendo com louvor. A questão é que eu noto certa obsessão de muitos nortistas em querer provar por A + B que são “gente civilizada”, sim senhor e pensar no Norte como selva e populações tradicionais é uma bobagem, mas tenho que discordar, pensar no espaço amazônico apenas dessa forma é um engano, mas não tem o menor cabimento nos compararmos com centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, etc que gozam de características próprias pois se organizaram no tempo e no espaço de acordo com o desenrolar histórico. Sim, somos bicho e floresta em essência! Recentemente circulava numa rede social (o termômetro para verificar o grau cultural de muitas pessoas, além do bom senso) uma gravura do aeroporto de Cruzeiro do Sul – AC (minha terra de coração) reformado pela gestão federal passada e que em minha opinião é LINDO. Duas fotos do aeroporto podem ser vistas logo abaixo. A proposta foi imitar ocas em homenagem aos indígenas, o suficiente para gerar polêmica. Os ignorantes pseudo-metropolitanos argumentaram que a arquitetura da obra contribui para reforçar a crença que o resto do país tem que no Acre só habitam índios e botos que engravidam moças. Paralelo a isso postavam fotos dos prédios e pontes iluminadas tentando esfregar na cara da sociedade que aqui residem citadinos e blá blá blá. Integramos a Amazônia e isso não fere nossa dignidade ou nos tira o direito de sermos brasileiros, pelo contrário. Por esta Amazônia, Chico Mendes, reconhecido internacionalmente, morreu lutando; daqui também é Marina Silva com trajetórias pessoal e política célebres. Do Acre também são a tele-dramaturga Glória Perez, o jogador da seleção brasileira de vôlei, Carlão, a banda Los Porongas com sua música cheia de poesia, Benki Pianko, líder ambientalista do povo ashaninka e tantos outros notáveis ou anônimos que nos dão orgulho. Tão infelizes quanto aqueles que julgam o Norte como região brenhosa apinhada de aborígines, são os nativos tentando evidenciar que aqui há shopping com Mc Donalds, renegando suas almas caboclas. Nasci aqui, embora confesso que adoraria morar numa cidade maior porque sou inquieta e desejo explorar espaços mais complexos, se é que você entente, mas amo a Amazônia composta de cenários exclusivos com rios majestosos, fauna e flora ricas, culinária, crenças, costumes e cultura beradeiros valiosíssimos; encanto-me com rostos como o meu, redondos com olhos puxados e cabelos escorridos, herança genética dos primeiros habitantes desta Terra de Vera CruzO bobo que se esquiva de suas origens sequer percebe o quanto a Amazônia é venerada por todo o mundo, que é um dos destinos turísticos  mais requisitados, sem contar nossos frutos e pratos exóticos que conquistaram o resto do Brasil e diversos países; é o sujeito que sonha em comer sanduíche "sofisticado" (não que seja crime, eu também gosto) e falta-lhe sensibilidade para se encantar com a floresta e a beleza presente na cultura cabocla. 



E tenho dito!

* Sandra Braz é cruzeirense formada em Administração e vive há 10 anos em Rondônia. 
Sandra, assim como eu acredita que para usufruir dos benefícios da civilização não é necessário renegar suas origens

domingo, 19 de agosto de 2012

Onde o Vento faz a Curva (II)

Parte II

O Cuco

Tomei o lápis em minhas mãos e comecei a escrever. Pouca gente sabe como é dificil segurar o lápis quando se está sonhando. Mas é como escrever com a mão esquerda. E vão saíndo aqueles garranchos quase inintelíveis, exigindo uma atenção e concetração inusual.

Desta vez tive o cuidado de se escrever a lápis, pois assim poderia apagá-lo e reescrever quando fosse conveniente. Escrever qualquer coisas que seja, no mundo desperto é apenas escrever, mas quando se escreve no mundo dos sonhos, está se determinando a realidade. Bem sei.

Por essa razão foi que quando chegeui no segundo parágrafo, minha tenda se encheu de heróis, cavaleiros, piratas e navegantes. Eles sentaram-se ao chão ao redor da toalha que nos servia de mesa na tenda em que escrevia.

Não me supreendi. Ao meu lado pulsava o Livro Dourado dos Tawantisuianos, com sua chacana boradada a ouro na capa. Uma forte fivela em uma cinta de couro prendia O Livro, evitando que ele abrisse por sua própria vontade. Com isso ele agitava-se, pulsando a emoção de saber que a tinta do genipapo com que fora escrito corria em minhas veias e que cada palavra escrita por mim agora, era na verdade, mais uma página do Próprio Livro. por isso o cuidado de escrever a lápis.; Era apenas um ensaio.

Um dos capitulos mais excitantes d' O Livro era uma compilação completa da geografia íntima do universo. A verdade por trás da verdade. A ordem por trás do aparente caos que dirigia nossas vidas. O Livro era tão preciso que mesmo tendo sido escrito milhares de anos antes do início da corrida espacial, ainda poderia servir de guia aos navegantes que cruzavam hoje as galáxias.

Nos últimos sete dias andei examinando o capítulo sobre as "Ilhas do Universo Consciente". E como estamos falando d' O Livro Dourado significa mergulhei nas mesmas "Ilhas do Universo Consciente" e vivi por um período de sete anos nas Ilhas. Meu cabelo crescera, e fora amarrado em uma trança quando eu me casei, e quando tive meu primeiro filho, foi atado à trança uma pena de águia, ao costume daquele povo. Era feliz ao lado de minha esposa e de meu filho. Minha pele tornara-se mais morena devido ao intenso sol das ilhas. Meu corpo não era mais franzino de quando saíra de Nova Constelação, mas as longas caminhadas, caçadas, plantios e colheitas, fizeram-me forte nas Ihas.


Mas tivera de voltar e agora vivia novamente em Nova Constelação, onde não se respira outra coisa além de política. Agora diziam de asfaltar a beira do barranco, como forma de ganhar o apoio dos ribeirinhos.

E em minha tenda suava em bicas pelo calor que se abatia sobre um corpo castigado pela malária.

Havia muito pouco a fazer se não aguardar as próximas ordens e os panos que faziam as paredes e teto em minha tenda já se deprimiam com a falta de vento, tornado o ambiente ainda mais abafado e opressivo.

Foi quando ela entrou em minha tenda. Não deixei de notar uma lufada de ar que a acompanhou para dentro da tenda e fez com que paredes e teto empanados fossem enfunados pela brisa suave.

Não me surprendi, pois era eu mesmo que escrevia a história com a tinta azul do genipapo em meu sangue.

Ela vinha coberta de panos mas mesmo assim, cobriu meus olhos com uma venda e começou a contar-lhe a sua história.

- Não sei de onde eu venho. Não sei quem eu sou. A história que me contam ao meu respeito não me convence.  As pessoas me olham com descoinfiança, pois não pareço nada com o povo daqui. Minha pele, minha fala, meus pensamentos e até meus sonhos são diferentes. Ninguém me entende. Meu pai e minha mãe de criação dizem que eu fui trazida ainda criança para cá. Que seja. O que eu não suporto é o jeito como as pessoas me olham, como se eu fosse um alienígena.Ninguém me entende.

Um Cuco, pensei eu. Já tinha ouvido contar histórias sobre "Cucos". Crianças especiais que eram dadas para serem criadas por pessoas comuns, agricultores, pescadores. O problema era quando estes Cucos atingiam a maturidade. Tornavam-se maiores que seus pais adotivos e um peso para os mesmos. Muitos corriam de casa para evitarem ser chacinados pelos próprios pais adotivos. Outros eram salvos por mestres e mestras que pela providência divina chegavam na hora certa. Será que era esse meu papel? Mas eu ainda não era um Mestre e depois de quase dois anos sozinho em Nova Constelação meus pensamentos não eram dos mais puros.  


- E por que me vendou os olhos? Perguntei

- Para que preste a atenção às minhas palavras e não a minha aparência

Pobrezinha, pensei. Eu posso vê-la ainda assim, não com os olhos, mas com o corpo todo. Mesmo sob os panos eu a vejo. Mesmo antes de entrar eu já a via. Ainda que incompleto meu treinamento com os mestres da constelação da Grande Javali, me davam esta visão.

- E o que você quer?  

- Quero que me leve para bem longe daqui. Para longe deste povo fofoqueiro e maledicente...

A venda não me impediu de ver quando ela tirou os seus panos e intriguei-me ao peerceber que aquilo me excitava. Mas se eu já a via por baixo dos panos, por que ficaria excitado agora? Foi quando a Velha Voz  respondeu  em meus pensamentos:

- Uma coisa é ver uma mulher nua. Outra, bem diferente é ver uma mulher que se despe para você!

Seu corpo era bonito e delicado. Sua pela era entre o branco e o pardo-claro coberta de uma penugem de pele de pêssego. Seus seios pequenos e perfeitos pareciam duas pequenas pêras. Sua boca e nariz eram bem proncunciados, mas graciosos. Lábios carnudos e vermelhos enfeitavam seu lindo sorriso de dentes perfeitos.,


Ela então sentou-se sobre meu colo e em um susurro doce passou a me excitar balançando levemente seu corpo sobre o meu.

Foi quando vi (e nessa hora amaldiçoei a visão) os homens que já haviam estado com ela e que por mais que negasse, o eco do prazer que sentira com eles era um grito em meus ouvidos.

Uma vez mais tive pena e pensei: pobrezinha.

Mas a visão foi além e vi de fato o que acontecera com ela. Qunado atingiu a maturidade sexual seus instintos não puderam ser contidos pelos pais adotivos. Fora uma presa fácil para o rebanho dos homens-ovelhas. Esta raça odiosa era conhecida em todas galáxias pela sua proverbial hipocrisia.

Enquanto baliam atrás de seus pastores, com seus ares piedosos, tratavam de estigatizar todos aqueles que não tinham a marca do rebanho. Mas eles próprios também tem seus instintos, que normalmente satisfazem com as cabras e ovelhas que os acompanham. Mas um bichinho raro, como aquele Cuco, não poderia ser desperdiçado.

Ninguém sabe tosquiar tão bem como os homens-ovelha. Satisfeitos seus instintos, eles voltam a balir diante de seus pastores, pedindo perdão pelos seus pecados. O Cuco então é largado pelo meio do caminhos pois ela não tem a "marca da promessa": nome que davam ao ferro quente que deixava em suas peles a marca de seu dono.

E agora aquele Cuco queiram seguir viagem comigo adiante. Bem seria agradável uma compania feminina quando estiver sob a chuva de meteoros em Cacéter. Por outro lado, no deserto negro de Farahan, teria de dividir minha sopa com ela. Me preocupavam serveramente os Pesadelos-Vivos que costumam usar almas medrosas e choronas para se materializarem no meio da noite e atacar.

Mas acima de tudoa maior dúvida certamente não eram os perigos da viagem, mas o final dela. O que seríamos quando cada qual tivesse de seguir o seu caminho? Ter em minhas mãos o poder de escrever a própria história não dimunuia este peso. Pelo contrário, uma dupla e uma tripla responsabilidade, de, caso aceitasse levá-la, escrever agora não mais apenas uma história, mas duas.

Pulsava ao meu lado, O Livro Dourado dos Tawantisuyanos.
   
  


 

sábado, 18 de agosto de 2012

Carta do Senador Jorge Viana sobre a "Distopia"

Caro  Leandro Altheman

Não preciso dizer do respeito e carinho que sempre tive e tenho por você, como um acreano que o Acre ganhou. Tomei conhecimento de sua postagem em que faz referência sobre a rápida conversa que tivemos, quando dava entrevista para o Nelson Liano na TV Juruá.
Lamento que teu texto tenha confundido o que eu falei com algumas idéias e convicções que legitimamente você tem. Não posso deixar dúvidas, entretanto, quanto ao fato de que sou a favor de um dos mais importantes projetos do nosso governo que é o "Ruas do Povo".
Em relação à floresta também não pode haver duvida: sempre defendi o manejo e a transformação desta em ativo econômico. E misturar a história da Frente Popular com o Bocalom, o Márcio Bittar e outros, dessa oposição desastrosa que o Acre tem, é um pouco demais. Fazer acertos e repactuar nossos compromissos para trazer de volta o sonho, a utopia é um desafio diário para quem vive a política. O nosso projeto tem feito do Acre uma referencia para o Brasil e para que siga sendo, precisa ser cuidado e sempre atualizado.
Depois de 20 anos é claro que é necessário reencontrar nossos sonhos e aclarar nosso projeto para o futuro. Esse é o nosso permanente desafio, por isso achei importante alguns comentários que você fez, porque isso nos ajuda a não viver uma distopia.

Abs,
Jorge Viana


***

Sou grato pela consideração e por responder democraticamente aos meus questionamentos. E o que afirmei continua de pé: "se for para vencer a distopia, o povo acreano pode contar comigo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Jorge Viana: "Precisamos superar a Distopia"

Minutos antes de entrar para ser entrevistado por Nelson Liano no programa Juruá Notícias, conversávamos informalmente com o senador Jorge Viana (PT-AC).

Dizíamos sobretudo que fazer jornalismo no Acre, perdeu o charme de quem o fazia consciente de que estava ajudando a construir um projeto, um modelo de desenvolvimento que levasse em conta a história do estado, as particularidades de sua geografia física e humana. Um modelo, que quem sabe pudesse até servir de referência para a civilização cansada e sem esperança do terceiro milênio.

Dizíamos o quanto estávamos desanimados com o que se transformou o projeto da FPA para o Acre: uma farra de asfalto, madeira e proselitismo religioso regado a verbas públicas.

Foi quando para minha surpresa Jorge Viana virou-se e disse:

"Também estamos sentindo isso. Estamos vivendo uma distopia, uma ausência de sonho. Isso não é bom. Sem sonho não há motivação. Distopia é o oposto da Utopia."

Jorge Viana ainda disse: "O Pro-Acre foi um aprofundamento do nosso projeto durante o governo Binho Marques. Temos que retomá-lo, precisamos superar a distopia"

***

Não deixa de ser ao mesmo tempo confortador e perturbador ouvir isso do senador Jorge Viana. Confortador pois naturalmente vemos nossos sentimentos são compartilhados pela pessoa que liderou o processo de construção da FPA. Perturbador porque quem está à frente do processo hoje, é o seu irmão Tião Viana.

Jorge Viana é suficientemente inteligente para saber que o atual "estado de coisas" não surgiu hoje. Apenas colhe-se o fruto de uma semente plantada lá em 1998, ou talvez ainda antes. Se hoje o estado vive esta "distopia" é apenas para que o mesmo grupo político da FPA permaneça no poder, ainda que para isso tenha que sacrificar o projeto original e adotar o projeto econômico de seus adversários. Foi o próprio Tião Bocalon (PSDB) que afirmou certa ocasião, em OFF "parece que o Tião Viana pegou o meu projeto e o está executando."  

"Desenvolvimento" a qualquer custo e a toque de caixa, asfalto sendo vomitado sobre as ruas sem nenhum planejamento, grandes projetos habitacionais, o esvaziamento dos órgãos ambientais. Tudo para alimentar uma elite pseudo e pré-capitalista da capital, totalmente dependente de verbas públicas e de quebra aquela média fanfarrona com as denominações evangélicas (Parque Gospel), que juntamente com os pseudo-empresários são os verdadeiros donos do  poder na capital. É a "Rondonização" do Acre, pesadelo tornado realidade não por Bocalom, mas por aqueles que se opuseram a ela. Na verdade o Acre não precisa mais de Bocalom ou de Márcio Bittar, a FPA já se pôs a fazer este serviço.

Se Jorge Viana pensa em "refundar" a FPA é bom que o faça logo, e de maneira convincente, já que a perda de identidade do projeto parece que não irá mesmo garantir a eleição do sucessor na capital, e se o fizer trará grandes custos políticos.


Segundo a Wikipédia: 

Distopia ou antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma "utopia negativa". As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismoautoritarismo, por opressivo controle da sociedade. Nelas, caem as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. A tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, seja de instituições ou mesmo de corporações.
 

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Acre e sua "guerra (nada) santa"

Fico preocupado com a questão religiosa ocupando cada vez mais o centro do debate político no estado. Será que faltam problemas municipais para serem discutidos? Ou de repente a orientação religiosa passou a ser mais importante do que as propostas dos candidatos?

Na "gospelândia" que se tornou a capital do estado, a guerra já é declarada. Depois de toda polêmica a respeito de quem teria o tal vice  "evangélico", um colega jornalista Willamis França provoca um acirramento com a declaração de que o fato de:

"...  o Brasil estar quase destruído moralmente, isto também se deve à igreja católica, a principal comunidade eclesiástica de apoio ao projeto do PT.”

A declaração veio em apoio ao Major Rocha, depois que o Padre Mássimo Lombardi se solidarizou publicamente com  Tião Viana após Rocha ter o chamado de "Mariquinha".

Não vou aqui entrar no mérito da questão política. Rocha é tão truculento quanto se poderia esperar e Tião Viana, demonstra a mesma falta de habilidade para lidar com adversários políticos que demonstrou desde o primeiro dia. No fundo, os dois se merecem.

Mas o que chama a atenção é a declaração do assessor de Rocha que sai em sua defesa, atacando não apenas ao padre, mas a igreja católica que segundo ele, apóia o projeto político do PT e é responsável pela decadência moral brasileira.

Para mim, a maior prova da decadência moral brasileira e acreana é a proliferação de inúmeras denominações evangélicas, algumas das quais com princípios obscuros que somente servem para ocultar o único desejo de seus líderes "prosperar". O cenário na capital acreana muito me lembra aquele que é descrito por Gibbons em seu brilhante Decadência e Queda do Império Romano". Gibbons descreve cidades e instituições romanas corrompidas em seus valores mais íntimos, sendo absorvidas avidamente pelos chamados "primeiros cristãos".

Os métodos utilizados pelos "primeiros cristãos" para dominarem as diferentes esferas do poder público na decadente Roma, em muito se assemelham aos utilizados por denominações evangélicas, para alcançarem o poder político no Acre.


Não é raro que candidatos à cargos eletivos apresentem como um qualificante de seu mandato o fato de serem "evangélicos". É o suficiente para que um bom número de "picaretas" recém-convertidos  caiam nas graças de um eleitorado inculto e amorfo, quase sempre nada esclarecido dos deveres e funções de governantes e legisladores, mas que rapidamente se agrupam sobre a incerta bandeira israelita, tornada símbolo maior da idolatria não apenas tolerada, mas incentivada pelo "movimento Gospel".

Dizer que são políticos se aproveitando da inocência religiosa do rebanho, tornou-se lugar comum e recebe já o repúdio dos setores mais esclarecidos do meio evangélico.

Contudo, a tese a que pouca gente se arrisca é a de que o fenômeno é uma via de mão dupla. Ou seja, não tratam apenas políticos inescrupulosos fazendo uso da religião, mas também de religiosos que habilmente estão usando o campo político com a arena onde ampliam-se o seu poder de influência sobre a sociedade.

O Pastor Evangélico Ricardo Gondim em seu brilhante, inspitrado e sinecro texto : "Deus nos livre de um Brasil evangélico" expõe a nu o projeto político de setores importantes do movimento evangélico de tornar o Brasil um país moldado pelos valores evangélicos.

Selecionei aqui alguns trechos:

"...o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar “crente”, com a cara dos evangélicos."
 
Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos. "

Leia texto completo aqui.

 O Acre tornou-se palco de uma "Guerra Nada Santa" e francamente, não vejo em nenhum dos grupos políticos a capacidade moral de fazer frente a etse avanço. Situação e oposição fatalmente irão rifar cargos e salários em troca de assessar a uma fatia cada vez maior do eleitorado.


A questão toda não se resume a ser "evangélico" mas ao "way of life" que é trazido no bojo de um calvinismo protestante interpretado a lá USA, para quem a natureza tem pouca ou nenhuma importância e para quem a miséria e a pobreza humana são frutos de uma "maldição" daqueles que não estão "predestinados".

Uma "filosofia" que cai como uma luva para aqueles que querem se apropriar da natureza para o seu enriquecimento próprio sem qualquer escrúpulo do mal que possa estar causando. Os crimes resultados de uma sociedade desigual serão vistos como "sinal dos tempos", lavando as consciências de qualquer responsabilidade social. De modo ainda mais hediondo, se faz a defesa da destruição da natureza, porque em seu íntimo desejam que se apresse o "fim do mundo" pois nela vem "embutida" a esperada volta de Jesus.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Queimadas ao longo da BR 364

Elas estão proibidas, mas como é época de campanha o governo prefere prevaricar do que arriscar cumprir o seu papel e perder votos.

Mais fotos no blog do Franciney Almeida

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

A Última Pantera

Bem que o seu Jurubeba disse: "lá se vai a última pantera".
Dayana Maia era a última remanescente da formação original do adorável grupo que carinhosamente apelidei de "As três panteras", da qual faziam parte  Jaqueline Teles e Vanísia Nery.

Costumo dizer que a dinâmica de uma profissão com tão pouca estabilidade como o jornalismo, não é muito diferente das carreiras dos jogadores de futebol. Começamos jogando pelada no time do bairro, depois passamos para segunda divisão, às vezes nos destacamos e jogamos no Corinthians, para logo alí mais adiante, o Palmeiras comprar nosso passe e então sermos amados pela torcida que antes nos odiava.
É assim mesmo. Não nos resta nada a fazer além do que jogar o melhor futebol em campo e esperar que nosso passe valorizado pelos clubes. Quem sabe um dia ainda jogo no Barcelona?

Dayana Maia bate um bolão. É por isso que o seu passe interessa a qualquer um dos dois times que irão conduzir as campanha eleitorais deste ano. O time de camisa azul comprou o seu passe e ela agora irá integrar a (competente) equipe de campanha de Vagner Sales à prefeitura. E já que estamos falando de profissionais e não de simpatias políticas ou ideologias, nada mais justo do que respeitar estas pessoas pelo que elas são: profissionais.

O fato de que nossa equipe luta por todos os meios para manter uma linha editorial o mais equilibrada possível nestas eleições, é auto-explicativo de porque Dayana não pôde permanecer na função em que estava. Zelo necessário neste tempos, para que as cores da campanha não tinjam nossos camisas.

Ganham eles, perdemos nós. Mas o jornalismo e o futebol são mesmo esta "caixinha de surpresas" e esta dinâmica, no final das contas, favorece a todos: talentos consagrados conseguem o seu reconhecimento e novos talentos surgem.

Não consigo imaginar que benefício traria a esta profissão a tão decantada "estabilidade" viciante e estagnadora do funcionalismo público. Já imaginaram como seria se no futebol houvesse "estabilidade"? Quão maçantes e enfadonhas seriam as partidas? Se agitariam as bandeiras da torcida? Ou dormiriam todos na frente da TV, vendo apenas jogadores "cumprindo tabela"?

Antes vale esta dinâmica que proporciona uma carreira emocionante e vibrante que nos faz a cada manhã despertar com um desejo ainda maior de desvelar um pouco da realidade que nos cerca. Trazer os problemas à apreciação do público para que como a "Hidra de Hércules" possam ser vencidos pela luz da verdade e do conhecimento.

Minha amiga, colega e eterna "pantera" Dayana Maia. Continue batendo este bolão, não desanime nunca, não se deixe vencer pela estagnação. Aproveite cada oportunidade para se tornar uma "craque" cada vez mais experiente e oferecer ao público, o melhor de você, onde estiver.