quarta-feira, 26 de setembro de 2018

É pior do que parece


Em seu texto na Folha de São Paulo, o jornalista Pablo Ortellado afirma que o fenômeno do bolsonarismo não é fascismo, pois estariam ausentes os traços do nacionalismo que o caracterizariam.

Para quem não o conhece, Pablo Ortellado tornou-se um crítico da chamada ‘narrativa do golpe’. Sua crítica, fundamental aliás, é produzida a partir de um lugar de análise que se coloca fora do campo das militâncias políticas. Digo fundamental, pois a contaminação ideológica produz corpos de análise comprometidos em seu resultado e nesse sentido, nada melhor que um ‘isentão’, frio e distante do campo de embate imediato, para tentar lançar alguma luz e produzir compreensão sobre temas onde a cacofonia ideológica tomou de conta. Nesse sentido, as posições de Pablo Ortelllado sobre a ‘narrativa do golpe’ têm produzido um ambiente de análise dos fatos mais arejado do que o que é oferecido pelo discurso partidário e ideologizado.

Em seu artigo sobre o bolsonarismo, o autor busca um lugar analítico análogo, o que lhe concede o poder de uma posição crítica em relação ao seu objeto de análise, o bolsonarismo.

Sustento que definir se o bolsonarismo é ou não fascismo, é em realidade, um falso problema.

O ponto de partida: 'não é fascismo porque não é nacionalismo' faz tratar duas ideologias com distintos graus de rigor. Enquanto ao fascismo é exigida uma filiação a um conjunto rigoroso de preceitos, ao nacionalismo bastaria a defesa da indústria, empregos e cultura nacional para caracterizá-lo. Sem uma desambiguação do sentido de nacionalismo em um contexto europeu para um contexto latino americano ou terceiro mundista, não é possível compreender de que nacionalismo está de fato se falando.
   
Mas é fato que Bolsonaro não seria nacionalista em nenhum sentido, exceto talvez, alguém poderia dizer, por uma xenofobia não muito marcada em relação aos imigrantes, o que o ligaria muito mais à extrema direita europeia.   

Não se trata apenas da ‘falta de pautas nacionalistas concretas’, mas de uma política anunciada de alinhamento sem sentido pleno à política dos EUA. Este é um traço que liga o bolsonarismo muito mais ao regime de 64, rendido à lógica da guerra fria, do que ao fascismo italiano propriamente dito.

A referência portanto deveria ser antes o regime de 64 ao invés do fascismo de Mussolini.  

O golpe que instaurou o regime militar foi em sua maior medida contra o grupo político dos nacionalistas representados pelo então PTB de Jango, da qual fez parte Leonel Brizola e cuja ascendência política remonta a Getúlio Vargas. 

Ora, se o próprio Bolsonaro se coloca em filiação política aos militares do regime, ele não é apenas deixa de ser nacionalista, como é em verdade, anti-nacionalista. 

Mais central para entender o bolsonarismo, é o papel da doutrina de segurança nacional. Os militares anti-nacionalistas de 64 aderiram à ideologia que transformou nossas Forças Armadas em agentes de segurança interna em busca do 'inimigo interno'.  

Se no regime de 64, o ‘inimigo interno’ era o ‘comunista’, ou o ‘subversivo’, desta vez a categoria se amplia para além da esfera imediata de participação política, para abarcar o comportamento sexual, minorias étnicas, classe artística, grupos religiosos, e etc.

É preciso não apenas compreender, mas repetir sobre como os ecos da doutrina de segurança nacional estão sendo utilizados para criar uma nova categoria de inimigo interno, mais abrangente do que a anterior.

Nesse sentido, o bolsonarismo é ainda pior do que o fascismo. O nazismo produziu mais claramente essa categoria de inimigo interno especialmente na figura do judeu. Aqui, esta categoria é maleável de acordo com a percepção do que é normativo para um setor dominante da sociedade.

Dizer que ele é um ‘soldado das guerras culturais’ não define por exemplo, em que campo se dá essa guerra e menos ainda a respeito do que pode ser considerado válido nessa guerra cultural. 

Defesa à tortura, por exemplo, é um argumento válido e aceitável nas atuais guerras culturais em nossa sociedade?

Isso é que está de fato em jogo e não tanto a definição precisa do termo fascista. Por rigor analítico, o III Reich, o anunciado ‘império de mil anos’ da Alemanha Nazista também não foi um Reich, nem mesmo nos cerca de 12 anos que durou.   

O problema real aqui não é de definição rigorosa de termos, mas sim, do que pode ser considerado tolerável em uma sociedade democrática.

Aqui caímos novamente no já tão evocado paradoxo de Popper, sobre o custo de ser tolerante com a intolerância.

Afirmar que ‘não é o que parece’ e que Bolsonaro é um ‘soldado das guerras culturais’ revela que o autor, ao menos por hora, se coloca entre aqueles que consideram que devemos ser tolerantes com a intolerância, ou, por talvez considerar que as posições levadas em conta na ‘guerra cultural’ travada pelo ‘soldado Bolsonaro’ possam ser consideradas válidas e toleráveis em um ambiente democrático.

Aqui caímos em outro problema: o que pode ser considerado tolerável, varia muito, principalmente em função do lugar que cada pessoa ocupa em uma sociedade. É absolutamente tolerável ao senhor de engenho que haja escravidão, assim como é até certo ponto tolerável, ao cidadão de classe média alemã, que os judeus sejam segregados em campos de concentração. 

Para um homem branco heterossexual de classe média, pode não haver nada de muito intolerável no discurso de Bolsonaro. Ainda que pessoas fora dessa marca, possam também considerá-lo, o grau de tolerância costuma a diminuir na medida em que se afasta dela. Ao menos é o que sugerem as pesquisas de intenção de voto. É preciso alertar, mais uma vez, sobre a forma como o conceito de inimigo interno vem sendo evocado. Como afirmei antes, a categoria tem se alargado cada vez mais.

Imaginar o que acontecerão a essas pessoas, em um eventual governo Bolsonaro não se trata de futurologia ou profetização, mas exercício analítico. Mesmo descartada a hipótese de campos de concentração, teríamos algo como uma cidadania de segunda classe legitimada pelo discurso do líder da nação. Seriam legitimados também, o cometimento de atos civis de violência. Na ausência de instrumentos institucionais para levar a cabo, a tortura, a segregação e o assassinato, estes poderiam vir praticado por pessoas comuns inspiradas pelo novo ideário.

Este quadro que não coincide com o fascismo italiano ou o nazismo alemão, ou mesmo da extrema direita que rói o calcanhar das democracias europeias, mas certamente, é ainda pior do que parece.  

* Foto postada nesta quarta-feira no perfil do Instagram de Carlos Bolsonaro. Trata-se, sim, de uma simulação, retirada de um perfil de um artista. Mas não deve fugir ao bom analista, que a mesma imagem pode comunicar mensagens muito diferentes, opostas até. Se no perfil do artista tem caráter de denúncia da tortura, no perfil de um Bolsonaro, adquire caráter oposto, de apologia poderia-se dizer, especialmente quando há um histórico de declarações nesse sentido.      

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O desconforto de um (ex) marinista


Escrevo esse texto após muita relutância. Não tenho nenhuma satisfação em dirigir críticas à candidata Marina Silva, e se o faço, não é por desrespeito à própria, mas muito mais pelo respeito aos seus eleitores e simpatizantes, entre os quais eu próprio me identifico. 

Antes, faça-se a ressalva que continuo a admirar e respeitar a figura púbica de Marina Silva, bem como de considerá-la uma das pessoas mais capacitadas do país em temas contemporâneos como sustentabilidade, mudanças climáticas, matriz energética e outras.  Marina ainda é uma das raras figuras políticas do país que enxerga potencial civilizatório na diversidade bio-cultural do Brasil, e só por essa razão, já deveria estar à frente de um programa de governo.

Absolutamente repudio a desconstrução de sua imagem, tal qual foi feita pelo PT em 2014. Marina segue sendo muio melhor de que a maioria que a critica.

Contudo, como ex-eleitor me sinto no dever de apontar as razões pela qual não o farei, ao menos nesse ano. O desconforto inicia quando a mesma passa a adotar um discurso juriquista como ‘solução’ para o Brasil. Ora, é preciso ter coragem e encarar, e encarnar o projeto que representa. O ‘juriquismo lava-jatino’ de Marina é um aceno para um perfil de eleitor de classe média que já a abandonou há pelo menos três anos. É uma proposta que se constrói pelo negativo: 'não sou corrupta'. Sim, mas e daí, quer saber o eleitor.

Esse perfil de eleitor hoje segue e firme forte com Bolsonaro, e não está nem um pouco preocupado se ele contrata uma vendedora de açaí para seu gabinete ou se usa dinheiro do auxilio moradia para 'comer gente'. Marina ou sua equipe parecem não ter percebido isso, ou perceberam tarde demais.

Marina ter um lugar cativo no coração de muita gente, mas seus atos demonstram que ela não quer ocupar esse lugar. Seu eleitor de perfil progressista é hoje um órfão que enxerga em Marina, a mãe que ela não quer ser.

Marina tem conseguido a proeza de cair na preferência do eleitorado ao mesmo tempo em que aumenta sua rejeição. De segundo lugar nas pesquisas, hoje está em quarto e terá de se esforçar para não cair abaixo dos 6% de intenções de voto que hoje possui.

Isso tudo é muito lamentável na verdade. Marina representa um ideal de Brasil contemporâneo, mas ela própria não foi capaz de fazer disso um sentimento. Quem perde não é ela, é uma ideia de Brasil.

Nem tudo é culpa dela, é verdade. As circunstâncias não ajudam.

Mas o fato é que Marina adotou um perfil político que se opõe ao perfil de seus eleitores mais fiéis.
Gostaríamos nós, eleitores de Marina, que ela fosse uma daimista ou ayahuasqueira, que fizesse yoga, que brincasse o mariri na aldeia, que se pintasse de jenipapo, que dançasse com as bruxas à luz do fogo. Mas Marina não é nada disso. Marina é na verdade uma calvinista cinzenta que manda esconder a carranca do São Francisco por que é ‘coisa do diabo’. Precisamos encarar essa realidade. E tentar tecer, em nosso meio, uma proposta política em que essas possibilidades civilizatórias estejam contempladas.

Tenho dito que a noção de sustentabilidade deve ser defendida dentro de um programa nacional de desenvolvimento, e não fora dele. Mas isso é tema para outra conversa.

Falta comando, ordem e disciplina na campanha de Bolsonaro


O episódio Paulo Guedes revelou para o país, um aspecto da campanha de Bolsonaro que para muitos já era evidente: falta comando em sua campanha.

Tendo em vista que parte significativa de seus eleitores busca justamente em sua candidatura um sentido de ordem e disciplina, é importante pontuar, que são justamente nestes aspectos onde Bolsonaro é mais fraco.

Que não existe um programa claro de governo, é lugar comum, mas o que vemos agora é que não existe tampouco uma cadeia de comando de decisões e que as mesmas estão sujeitas a avanços e recuos ao sabor dos ventos.

A escalada/desescalada de Mourão é outro exemplo. Como não existe um programa mínimo pactuado internamente, as decisões dependem inteiramente do desejo imediato de Bolsonaro e de seu carisma pessoal. Não é preciso argumentar muito para provar que isto é receita certa para o fracasso.

Associado muitas vezes à Trump, faltaria a Bolsonaro o essencial para ser ao menos assemelhado ao governo Trump: uma proposta econômica minimamente clara. Trump adota um modelo que é protecionista, ou seja, taxa produtos importados como forma de preservar a capacidade de concorrência da indústria dos EUA. Em que pese todo retrocesso que significa o governo Trump, medidas como essa tendem a surtir efeito positivo na geração interna de emprego, ao menos em determinado período.

Esse modelo contudo, é o oposto ao liberalismo defendido por Paulo Guedes. Para gerar um efeito de recuperação do emprego, no Brasil, as medidas tem de ser outras, mas precisaríamos crescer em setores estratégicos, precisamos reverter a desindustrialização e conseguir transferência de tecnologia para produzir, ao menos uma fatia maior, dos bens de que hoje consumimos. O modelo Paulo Guedes irá acentuar nossos problemas mais graves: desindustrialização, desemprego, concentração de renda.

Tudo isso, quem tem um pouco de noção já sabe. O que ficou evidente contudo, é o grau de desorganização interna da campanha de Bolsonaro: num primeiro momento Paulo Guedes tem a ‘carta branca’ para dirigir a economia, mas bastou se pronunciar para que fosse desautorizado em sua fala. Bolsonaro precisaria saber o mínimo de economia, até para dar ordem em Paulo Guedes.

Aqui, do lado de fora do quartel, a autoridade não é dada por patentes, mas é algo que se constrói ou com conhecimento técnico-científico dos temas, ou com legitimidade popular.

A pequena frente partidária que apoia a campanha de Bolsonaro é justamente a antítese do que desejam seus eleitores: uma farândola desordenada, sem comando, ordem ou disciplina, sem estatuto ou regimento interno, cujo sentido de autoridade tem muito de arte teatral e dramática e pouca eficácia além do espetáculo.

Este não será o principal motivo de sua derrota. Mas será um deles. Isso já parece tão auto-evidente entre seus apoiadores que desde já alegam 'fraude nas urnas' para justificar a 'fraquejada' que seu candidato está construindo.

*Imagem: Cartaz do filme 'O Incrível Exército Brancaleone', simboliza a desordem e a falta de disciplina e de metas claras. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Pautas ambientais e indígenas: onde estão no debate?

Já seria de se esperar que as pautas ambientais e indígenas estariam no rodapé de qualquer discussão presidencial.

O que ocorre contudo, é muito mais grave.

De um lado há, a ameaça real de um candidato que declara-se frontalmente contra as pautas ambientais e indígenas.

Do outro, temos, ao lado de Ciro Gomes, Katia Abreu, que dispensa apresentações. Ao lado de Haddad, Manoela D’Ávila, que ainda que pese seu perfil progressista em tantas questões, no que se refere a estas pautas, permanece atrelada a uma visão de que tais assuntos seriam contrários aos interesses nacionais. Não é demais lembrar o papel que o PCdoB teve na aprovação do novo código florestal, para satisfazer interesses justamente do grupo representado por Kátia Abreu.
Nesse sentido, as duas chapas compartilham da mesma miopia do nacional desenvolvimentismo, que ainda não soube olhar com a devida atenção para o potencial destas pautas para a nação.

Marina Silva, por seu turno, parece ter essa visão. Ao menos é o que sugerem declarações a respeito do potencial ambiental e humano do país. Contudo Marina Silva, parece sempre estar sempre um passo atrás no debate político e ainda empenha-se em cativar eleitores de uma parcela de classe média que já aderiu a Bolsonaro. Sua insistência no tema da corrupção e no seu juridiquismo quando estes já foram dragados pela espiral dos debates só mostra sua falta de ‘feeling’.

No outro polo temos Sônia Guajajara, onde estas pautas assumem tons mais ligados às demandas das comunidades afetadas diretamente pelo nacional-desenvolvimentismo do que aos gabinetes do Ibama e ICMBio.
A chapa Boulos-Guajajara contudo, não decolou minimamente e amarga pífios 0,7%. Ainda assim, mesmo nessa chapa, tais pautas sequer ocuparam o rodapé das discussões.

O máximo que poderemos ter para estas eleições, seria uma pactuação no segundo turno através da condicionante de apoio mediante compromissos de agenda.

É o que temos para hoje.

Para amanhã, quem sabe rediscutir e aprofundar o papel destas pautas em um programa de desenvolvimento, e mais do que isso, repactuar mesmo o sentido de (pluri)nação.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Nacionalismo X Patriotismo


A disputa entre Ciro e Bolsonaro é também uma disputa ideológica entre duas formas: de um lado o nacionalismo de Ciro, pensado como modelo que busca o desenvolvimento e a soberania nacional e do outro, o dito 'patriotismo', um movimento um tanto confuso de suas bases, mas que na prática é mais uma ação simbólica sem discutir as condições materiais, humanas e históricas de produção d o ideal de soberania nacional. Historicamente, o patriotismo na América Latina, tem sido uma evocação do símbolos pátrios, em um contexto político, econômico, social centrado dos EUA. 


Existe lugar para o nacionalismo no século XXI? Começando com essa pergunta, talvez antes deva lembrar de outro fato, que tenho certeza, a maioria de meus leitores não sabem, e outros tantos, provavelmente o esqueceram: de que o golpe de 64 não foi contra o comunismo como bem querem nos fazer crer determinados setores ditos patrióticos, mas contra o nacionalismo.
João Goulart era representante do PTB, partido que seguia a linha deixada por Getúlio Vargas e retomada  por Juscelino, Marechal Lott, Brizola e o próprio Goulart. Tratava-se  exatamente dos setores nacionalistas, que pelas inconveniências históricas que se atribiu ao nome, teve de ser renegociado em termos de trabalhismo, desenvolvimentismo e social-democracia.
As atribuições negativas do termo se devem sobretudo ao caráter que teve a denominação nacionalismo face aos movimentos totalitários da Europa.

Contudo, ninguém que tenha minimente lido um pouco de história saberá que o nacionalismo foi, fora da Europa o principal instrumento de descolonização do Terceiro Mundo. Basta olhar África e Ásia para ter clareza do papel do nacionalismo como elemento de descolonização.
Aí entram as rupturas entre concepções de direita e de esquerda, que acabam por fazer pender a balança para um lado ou outro.

Mas o fato é que se nos remetermos a teoria do choque entre civilizações de Huntington, logo percebamos o quanto a guerra fria penetrou nossas fronteiras para nos fazer mais fracos.
É onde entra o ‘patriotismo’.

O patriotismo é uma ideologia pensada de modo mimetizar um valor fundamental de qualquer nação que é o APREÇO POR SI MESMA. Na América Latina, regimes democráticos que defendiam a soberania popular perante Washington foram derrubados e seguidos de regimes ditatoriais alinhados aos interesses da civilização estadunidense (mais uma vez, Huntington).

É onde entra o papel da DOUTRINA DE SEGURANÇA NACIONAL, que na prática transformou nossas FAs em uma espécie de polícia ideológica interna, eternamente a buscar um inimigo interno dentro de suas fronteiras.   

Não nos esqueçamos também de que setores integrantes das Forças Armadas resistentes à tal doutrina, foram igualmente perseguidos pelo regime militar. Basta lembrar que, em 1960, Marechal Lott, um militar de alta patente portanto, evitou um golpe militar contra Juscelino Kubitcheck. O mesmo Marechal Lott acabou derrotado por Jânio Quadros, protagonizando o arquétipo do aventureiro político que depois se repetiu em Colllor e agora, em Bolsonaro.
Fato é que o nacionalismo, pensado em base de fato nacionais, foi perseguida mesmo dentro das FAs. Vale lembrar o nome do Nelson Werneck Sodré, historiador militar que chegou a comandar a Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Sua defesa da soberania do petróleo, o colocou em choque com os setores ‘patrióticos’ que justamente eram contra o modelo soberano de exploração pela Petrobrás.
Bem verdade que Werneck Sodré se converteu ao comunismo, como é bem verdade que os comunistas no Brasil tem sido os defensores históricos desse modelo de soberania e desenvolvimento nacional.

O resto da história sabemos, Getúlio Vargas deu-se um tiro no peito que adiou ali, o golpe que viria contra o modelo de soberania nacional.
Entre a soberania e o golpe, estiveram ainda, além de nomes como GV, JK, os menos conhecidos Marechal Lott e Nelson Werneck Sodré, e é claro Brizola e João Goulart.

Não resta dúvida de que é esse o segmento político representado por Ciro Gomes, nessas eleições. O PTB que após o regime militar voltou como o PDT de Brizola é exatamente o representante do nacionalismo, e aí, é preciso que se insira a insígnia terceiro mundista, para mais uma vez assinalar a distância entre o nacionalismo europeu que esteve na base do fascismo e do nazismo, do nacionalismo do terceiro-mundo, que esteve na base dos fenômenos de independência e de descolonização, na África, Ásia e Américas.       

Mas ainda não respondi a pergunta sobre se haveria um lugar para o nacionalismo hoje. Se olharmos a nossa volta, a resposta parece ser sim. Quando até mesmo os EUA evocam a ideia de pátria e nação para redefinir-se em função não apenas de um protecionismo econômico e como de um maior fechamento de suas fronteiras. Não resta dúvida que essa é a política que pauta os EUA hoje. Mas mesmo se olharmos para o outro lado, a Rússia também hoje pauta sua política em um ‘nacional-bolchevismo’ para definir seu lugar de civilização no mundo. Mais uma vez é muito mais Huntingon, do que Marx que está operando nessas dinâmicas da política internacional do século XXI.

Haveria mais ainda a dizer sobre a China, que sob o comando do Partido Comunista conduz uma política que vem sendo chamada de socialismo de mercado, o que poderia ser resumido em termos de altos investimentos do estado em áreas estratégicas para o país seguidos de dezenas ou até centenas de empresas privadas que se beneficiam das oportunidades oferecidas pelas ações do governo. Fato é que a China opera seus negócios a partir da escala de nação, pouco a pouco redefinindo suas fronteiras como império. Enquanto o gigante capitalista se fecha sobre si mesmo, a China socialista estica seus longos braços pelas redes de mercados do mundo capitalista. O quanto tais movimentos irão durar desse modo é coisa que não ouso dizer, mas não é preciso sequer esforço intelectual para perceber o que ocorre hoje.

Isso significa dizer que estivermos onde estivermos como nação, teremos de estabelecer uma relação com a China. A questão passa a ser portanto que papel iremos ocupar nesse cenário. Um modelo soberano de desenvolvimento nos coloca como ‘sócios do clube’ dos BRICS, uma posição central neste novo bloco. Fora dos BRICS seremos suplicantes a bater nas fronteiras fechadas de uma nação imperial em processo de encolhimento sobre si.
Inevitável portanto, abordar a questão do agronegócio. Este já é, querendo ou não, parte do que nos une a esse novo arranjo econômico mundial com a China à frente.

O convite de Ciro à Katia Abreu tem sido um espinho duro de engolir para muitos setores que antes desse anúncio, talvez votassem de bom grado em Ciro. A importância dada ao agronegócio, contudo, não pode ser negada. A diferença está em Ciro ter tanto insistido no problema da desindustrialização do país. Parece óbvio que qualquer tentativa de estímulo à reindustrialização do país deve começar a partir daquilo que produzimos hoje como comodities. É o mesmo que dizer que as novas tecnologias de energia alternativa devam ser financiadas justamente pelo petróleo.

Começo a tangenciar aquilo que justamente ficou fora da noção de nacionalismo, ou mais propriamente nacional-desenvolvimentismo: as questões indígena e ambiental. Nesse sentido, percebo que Marina Silva, ao afirmar o valor potencial soberano e civilizatório de nossas riquezas perante o passivo mundial, parece ter justamente captado um valor que o nacional desenvolvimentismo deixou escapar. Bem, Marina tem se revelado pouco competitiva por outros fatores, alguns intrínsecos à sua personalidade, outros ao modelo de desenvolvimento sustentável, que seja por pouca explicação, seja por pouca recepção do eleitor, tem se revelado pouco sustentável do ponto de vista eleitoral. Ainda assim, a capacidade de mobilizar setores importantes e criativos, deve ser olhado com atenção. O pedaço que falta ao nosso nacionalismo talvez seja justamente esse olhar focado para quem de fato somos, nos sentidos: humano, geográfico, histórico, social, cultural. Quais desses potenciais possam ser vistos como mais do que comoditties, mas como os valores intrínsecos de nossa civilização brasileira.

Não resta dúvida que há rupturas. Casa Grande e Senzala não podem mais nos definir como nação. Fato é que se quisermos uma Nação, é preciso nos Descolonizar e redefinir o pacto nacional sobre quem de fato somos.

Conclusão

Muita tarefa à frente, com o fantasma do ‘patriotismo’ aparelhado com as piores das intenções batendo à nossa porta, é importante lembrar e evocar  o sentido de Nação mais alto do que estes que batem continência aos EUA.
Vale dizer, e lembrar sempre, o papel que o nacionalismo teve na descolonização, o golpe movido contra ele e que papel pode ocupar ainda hoje, e lembrando, que na crise civilizatória e de identidade em que vivemos, poderemos encontrar valores em nós mesmos: enquanto país megadiverso em nossa humana geografia, que tanto podem nos ajudar a nos redefinir como sociedade, quanto nos inserem em posição de destaque no cenário mundial.       

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Nem todo mundo é 'txai' e nem todo mundo é 'genocida'


Aproveito uma breve brecha em meu extenso calendário de leituras para dar um pitaco aqui de longe, nas paradas que acontecem noutras bandas da floresta. É como se diz: posso até sair do Acre, mas o Acre não sai mais de mim, e assim, antes que possamos adentrar em assuntos mais amargos e espinhosos, deixa eu fazer aqui meu cumprimento: a floresta que habita em mim, saúda a floresta que habita em você.

Me obrigo a escrever sobretudo por um incômodo, ou algum acúmulo de incômodos do tipo que vão causando indigestões mentais e congestionando os pensamentos.

O primeiro deles, se refere a um termo, que francamente, nunca tinha ouvido falar, o tal ‘txaísmo’, se isso é de comer ou de beber, ou seja lá a fonte de onde isso surgiu (duvido que tenha partido do Acre) tão prontamente aparece, ou mais prontamente ainda, aparece alguém querendo ‘botar ordem no galinheiro’, e tome esculacho indiscriminado, do jeito de quem joga a merda no ventilador giratório, e pronto, sai satisfeito como alguém que se livrou de uma constipação.

Pronto, dito isso, vamos lá: porque tem tanta gente que se incomoda com as relações geradas entre índios e não-índios a partir do xamanismo - venham lá me dizer que não existe xamanismo, porque é uma generalidade e que cada povo tem sua cultura e etc, etc.. o que é tudo verdade, mas se não tivermos uma mínima base comum de entendimento, não poderíamos se querer ter qualquer conversa -. Fato que é que nos últimos anos não param de surgir críticos à relação entre indígenas e não-indígenas, por meio deste campo comum criado pela comunhão da ayahuasca.

É sempre gente mui bem intencionada, a defender seus purismos, como o ‘caboco’ lá da França que evocou o mais trevoso evolucionismo para recomendar, como quem recomenda bula de remédio, de que os ‘brancos’ deveriam se afastar do ‘xamanismo’. Segundo ele haveria um fosso intransponível ‘de milênios’ que impediriam a nós, brancos de aprender algo que preste com os índios. Deveríamos, dizia ele, devotar nossas almas ao bom e velho Javé genocida do velho mundo, quase como quem diz ‘só eu sou seu deus’.

E aqui, é claro, nossa gente tão prestativamente colonizada aplaudiu de pé, reproduzindo nos quatro cantos a conversa, essa sim ultrapassada, de que os índios vivem em ‘outro tempo’.

O segundo incômodo foi ver ter surgido a palavra ‘genocida’ no documento final do primeiro encontro da ayahuasca. Isso porque, dos três dias que participei, confesso que não ouvi tal palavra. E ela apareceu, assim, meio que de contrabando, como quem fala com mineradores e pecuaristas, apontando sua metralhadora giratória para os brancos malvados que ousam comungar ayahuasca.

O tiro à queima roupa só pega justamente naqueles que estão mais próximos das comunidades indígenas. Justamente aqueles que tem buscado desenvolver diferentes formas de parceria, voltam para casa com o carimbaço nas costas: genocida.

O incômodo de ser colocado no balaio genocida, só não supera o incomodo de presenciar o próprio genocídio, ou para ser mais claro, epistemicídio, a que assisto desde as primeiras peias. Trata-se do termo comum a que algumas religiões ayahuasqueiras, ao se referirem as suas cosmologias, desconsideram completamente a questão indígena. Aparecerão figuras tão díspares quanto o lendário rei de Israel Salomão ou então um mítico Inca, mas nada de mencionar os indígenas. Isos sempre me incomodou e tem sido um dos mais fortes motivos para que busque compreender os usos da bebida em seus contextos mais original possível.

Pois bem, enquanto estas cosmologias permanecem encerradas no campo do mito, não há muito o que dizer. Salomão representa Conhecimento e Inca representa Ordem. Não há nada de 'errado' nisso.

O problema passa a ser quando, atribuindo-se grau de verdade histórica a estes mitos, passa-se a evocá-lo para negar direitos aos indígenas, como por exemplo para excluí-los do debate sobre a ayahuasca, como inclusive, aconteceu de fato.

Bem, mas nem todos estão desse lado da história, tem gente trabalhando ombro a ombro com os povos indígenas, em sentido de parceria, o que se torna muito mais concreto e viável, quando as lideranças e a comunidade também tem uma visão clara do que querem. Não faltam aliados. A esses, o termo Txai vem sendo cunhado (o trocadilho foi involuntário), desde os tempos da Aliança dos 
Povos da Floresta**, um empréstimo de um termo nativo, para criação de um sentido mais amplo de pertença que possa congregar gente de dentro e de fora das aldeias em busca de um sentido comum. 

Não vou me deter aqui no sentido original da palavra, que certamente não é amigo e muito menos irmão, estaria mais para um cunhado em potencial*, mas é fato que pela própria definição, nem todo mundo na aldeia é ‘txai.

No sentido novo, criado a partir da presença do Txai Terry e Txai Macedo e imortalizado na canção de Milton Nascimento, a palavra evoca uma aliança, uma confiança mesmo naquele que é diferente. Por isso mesmo gosto da palavra e mais ainda dela reinventada para seu uso político, que convenhamos é de uma engenhosidade e criatividade de tirar o chapéu.

Talvez isso incomode gente desacostumada aos rios e barrancos e às alianças que evoca. Preferem antes evocar a ‘Fucô’. A tal ‘problematização’, como um miojo, pode ser evocada sem grandes cerimônias, e fica pronta em cinco minutos. Ao gosto do freguês, ela pode vir acompanhada de diferentes sabores, que no fundo tem o mesmo gosto algum que serve para todas as discussões e debates.

É por essas e outras razões que nem todo mundo do lado do branco é ‘txai’, e que também não dá para ser ‘txai’ de todo mundo. Do mesmo modo, nem todo mundo também é genocida.

Em tempos de 'hashtag', poderia dizer que tanto uma #somostodostxais, quanto uma #somostodosgenocidas, seriam igualmente falsas.

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* Txai: o uso da palavra é bastante complexo e tem relação com as cosmologias indígenas. Um txai, originalmente é uma pessoa que não pertence ao mesmo grupo de consaguinidade, ou seja, em tese, faz parte do grupo com que se pode casar, e portanto, formar alianças.

**Alianças dos Povos da Floresta: Me lembro claramente de uma conversa com um agente da ABIN que criticava o termo. Para ele estariam juntando duas categorias: índios e ribeirinhos, em uma terceira categoria que na verdade 'não existe', para uma finalidade política. Achei razoável. E recentemente tenho visto por exemplo, setores do movimento negro comemorarem a adesão de indígenas e caboclos (estes estão desaparecendo e não por 'branqueamento', mas por razões políticas) à categoria de identidade 'negra'. Se isso não for criação política de identidade e pertencimento, Não sei mais o que pode ser. A diferença fundamental me parece ser o caráter periférico da criação simbólica acreana. Fato também é que a 'aliança' soçobrou, a não ser talvez no imaginário. Prova maior disso e o avanço da pecuária e das igrejas pentecostais nas RESEX. Mas talvez possa ser reinventada em outros termos, quem sabe justamente nos termos das alianças que vem sendo tecidas por meio dos diferentes xamanismos.

Já a invenção política de chamar índios, caboclos e afrodescendentes de 'negros' é muito recente para saber se irá perdurar por muito mais tempo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Sense 8: Multiculturalismo e Universalismo

Este breve e despretensioso ensaio tem por objetivo analisar aspectos presentes na popular série de TV ‘Sense 8’ para buscar compreender o ideal de pessoa que a série articula junto ao seu público.

Sobre a série:
Oito pessoas em diferentes partes do mundo, pertencendo a diferentes culturas e condições sociais descobrem-se compartilhando sensações e vivenciando parcialmente, uns as vidas dos outros.
O aspecto mais explorado da série tem sido a questão da ‘diversidade’ presente entre os protagonistas. ‘Diversidade’ esta que se dá pelo aspecto cultural/nacional – um policial de Chicago, uma DJ Islandesa usuária de drogas, um motorista de van queiniano, uma escritora transexual de San Francisco, uma bioquímica indiana, um arrombador de cofres de Berlim, uma empresária e lutadora sul-coreana e um galã homossexual mexicano.

O ideal de pessoa ‘multicultural’ e ‘universal’ contemporânea
O apelo mais evidente a este compartilhar de experiências sensoriais, é de um ‘abrir-se para o mundo’ experiencial, em que tudo é possível. A série explora à exaustação o recurso de que quando ocorrem as relações sexuais entre dois parceiros, por exemplo, a excitação, o prazer e o êxtase são compartilhados por todos, sugerindo algo como um ritual orgiástico em que as definições sobre hétero e homossexualidade se tornam difusas.
O compartilhar de experiências e habilidades entre os protagonistas ‘sensates’ permite à narrativa da série testar uma hipótese para além do já ‘tradicional’ postulado fundamental do multiculturalismo de tolerância à diversidade. Trata-se aqui de um ‘organismo sensorial múltiplo’ em que estas diversidades e habilidades combinam-se mutuamente apesar de suas diferenças.
Não é de modo algum estranho que este seja um dos argumentos centrais utilizados pelas grandes corporações do Vale do Silício. A combinação de habilidades e a abertura para o novo são os pilares do modelo de capitalismo empregado em empresas de última geração como Google, Microsoft e Facebook. A série reflete de modo inequívoco, os apelos e a ideologia desta fase avançada do modelo de produção capitalista.

Duas cenas da série tornam a conexão bastante evidente. Em uma delas, a habilidade dos ‘sensate’ de compartilhar percepções é comparada de modo explícito por um dos personagens (que não por acaso, são também, hackers) à própria rede mundial de computadores, os fluxos de informação que podem conectar pessoas distantes.

Em uma segunda cena, um palestrante discursa dentro de uma mesquita para um público eclético formado por membros de diferentes religiões e ateus, justamente sobre a necessidade da tolerância para agregar habilidades de pessoas diferentes como forma de ‘alcançar novos progressos’, sejam eles tecnológicos ou produtivos.

Outra cena é esclarecedora sobre a hipótese que a série pretende testar. Um professor cita para estudantes universitários, o poder estruturante da linguagem nas maneiras de pensar e na formação das culturas, levantando a hipótese de uma humanidade universalista unida pela percepção pura compartilhada, sem a barreira da língua.
Mais uma vez aí está pautada a ‘comunidade universal’, sem as barreiras da língua.

Sem Segredos
Um aspecto não tão evidente, mas ainda assim, perceptível, é de que a possibilidade de uma comunicação/percepção direta sem a mediação da linguagem traria uma empatia para além das lealdades familiares, comunais, nacionais, etc.
Essa hipótese é explorada pela série como uma espécie humana distinta dos Homo sapiens, unida justamente pela empatia das percepções compartilhadas. Em última análise, a capacidade de distinguir entre eu e o outro é o fundamento da razão. O apelo da série portanto, é à emoção, a percepção e à empatia como substituto triunfante da razão que ‘segrega’.
O antagonista da série, em dado momento, cita justamente a capacidade desta distinção entre eu e o outro, como a possibilidade de mentir. Sem esta barreira, haveria portanto essa impossibilidade, que, articula a série, estaria no cerne da civilização, do estado, etc.
Essa ‘impossibilidade de mentir’ revela outro aspecto importante da ‘ideologia do vale do silício’: a de que a tecnologia tornará impossível a ocultação de segredos.

‘Noção de Pessoa’
Pensando a partir da categorização de Marcel Mauss sobre a ‘noção de pessoa’, é possível situar o ideal de ‘noção de pessoa’ articulado pela série em um contexto pós-moderno, ou, até mesmo, na falta de termo melhor, pós-pós-moderno.

Se uma das características mais marcadas do indivíduo moderno é a de um sujeito de direitos com seus âmbitos público e o privado bem demarcados, no sujeito pós-moderno essa barreira passa gradualmente a se desfazer, para acabar por completo no indivíduo ‘pós-pós-moderno’ da era da interconectividade das redes sociais: uma suruba cósmica e quântica que de modo muito eficaz, liberta-nos de nosso muros a fim de recrutar nossa mão-de-obra terceiro-mundista para trabalhar no Google e empresas afins.    

PS: Dito isso, que venha a terceira temporada! 

quarta-feira, 28 de março de 2018

Yawá - a voz que continua a ecoar


Pela manhã, sou surpreendido pela notícia da morte do Velho Vicente Yawarani. Quem me dá a notícia é Joaquim Taska. Conta que Yawá despertou naquela manhã, na aldeia que leva seu nome, e que ainda contou uma história antes de morrer.

A surpresa de sua morte não supera a tristeza maior de não ter podido me despedir dele, não ter podia ouvir cantá-lo mais uma vez no terreiro, e sobretudo, pela distância em que me encontro – fazendo um mestrado em Curitiba – não poder ir até a aldeia para as últimas homenagens.

Encontrar palavras para descrever Yawá é uma busca vã. Só quem o ouviu cantar, quem ao menos conheceu seu sorriso e jeito de menino em um homem centenário, pode ter alguma medida de quem ele foi.

Dos desafios que fazia no terreiro, ao resistir cantando pelas madrugadas e despertar a todos pela manhã com sua luz, sua alegria jovial.

Resistir talvez seja um bom verbo, para descrever o homem que atravessou a história do contato, dos seringais, dos missionários que tentaram desaparecer com sua cultura e sua fé. Do homem que mesmo diante das agressões, resistiu ao desejo de vingança para cantar, na voz que nunca irá calar, a alegria da vida, a celebração da natureza, de uma cultura que como ele, resistem.

Muitas vezes referi-me a ele como um sábio, mas também um erudito que guardava as formas mais arcaicas e cultas de sua língua, que conhecia cada tom, cada voz que compõe o conhecimento shuintia, como ele a próprio se referia: um rezador.

Cheguei a compará-lo a Camões ou Shakespeare de sua própria língua, ou ainda, a uma biblioteca viva de conhecimentos, adquirido nos longos anos de vida na floresta, por vezes na solidão da mata. Uma maneira de talvez simplória, de tentar dimensionar para outros brancos, como eu, a importância de Yawá.

É uma biblioteca que se vai. Mas que também deixa seguidores, continuadores, o que me faz pensar na responsabilidade que aumenta enormemente para a geração que fica, o que me faz pensar qual pode ser meu próprio lugar nisso tudo.

Meu pouco conhecimento da língua me permitiu aprender pouco através das palavras de Yawá, mas muito, através de seus gestos. Gestos generosos, espontâneos, despretensiosos, mas que marcaram cada segundo de convivência que tive com ele. Do ir buscar lenha de madrugada, do montar e desmontar a engenhoca de moer milho, do eterno consertar da canoa, do rir-se fácil diante das dificuldades, da leveza, da alegria. Do cantar, do cantar, do cantar.

Mas talvez a imagem mais forte, seja de lembrar dele rezando no pote. De como aquele pote retumbava como um coração vivo, de como sua palavra de fogo em brasa enchia o pote com seu poder e conhecimento, capaz de me colocar diante de mim mesmo de uma maneira nova, ao mesmo tempo antiga, naquela voz, naquele retumbar que vibrava o nosso pequeno peshei, a casinha de palha e paxiúba que abrigou a mim e a seu filho Tawaho durante a dieta, no já distante ano de 2010.

De uma daquelas noites de reza, sua voz ecoou por mim dias seguintes e meu fluxo de pensamento, ritmado por sua voz, saiu assim:

'Podia deslindar os meandros do DNA das estrelas. Olhar por trás do pensamento, analisar padrões de comportamento, desmontar a função mecânica do cérebro como faz um relojoeiro. Estudar a física quântica, conhecer a intimidade da matéria. Esmiuçar as tripas do conhecimento e saber o que ele comeu no jantar. Poderia fazer tudo isso numa prosa analítica tão extensa e complicada, e com o encanto das palavras, manter por horas a fio, uma plateia mesmerizada, sem nunca parar de falar.
Mas eu prefiro ouvir o som que sai do pote, da reza do Yawá.'