segunda-feira, 20 de março de 2017

Não é ‘nacionalismo’ defender setores que nos mantém na condição de colônia

Fato curioso tem sido o ‘súbito nacionalismo’ que tomou de assalto setores da esquerda brasileira. Não foram poucos os que partiram em defesa do “ogronegócio” após a operação da PF + MPF + JF, com o argumento de que a operação traria prejuízos ao setor.

Bem, a verdade é que trará mesmo, e que bom. Assim talvez falte dinheiro para financiar o desmatamento da Amazônia e o Genocídio Indígena. Ainda que isso possa ser compensado sempre, com trabalho escravo no campo ou mais carne estragada (e maquiada) na mesa. 
Engana-se quem pensa que esses senhores percam alguma coisa. O consumidor está aí para isso: absorver os prejuízos.

O que parece chocante, ainda que nem tanto, é que setores da esquerda, especialmente do PT e do PCdoB têm assumido a defesa do ‘ogronegócio’ como parte de um estratégia de defesa da economia nacional em um cenário globalizado. E aí começam nossas diferenças.
O sistema agro-exportador brasileiro, cantado em verso e prosa em uníssono pela grande imprensa nacional (e também  por setores da esquerda) nada mais é que a continuidade da relação de colônia iniciada no Brasil desde o ciclo da cana. É ‘Plantation’ – Monocultural, 
Escravocrata e Exportador.

Tenho dito que a defesa de setores que nos mantém na condição de colônia não é ‘nacionalismo’ de verdade. Isso porque o ‘plantation’ agroexportador não é e nem nunca foi, um projeto de nação. É apenas um projeto de colônia, defendido com unhas e dentes, por quem deveria almejar a sua superação.

Ouso dizer que se quisermos de fato um dia, nos tornarmos uma nação, digna desse nome, teremos de olhar para além de um projeto engendrado pela coroa portuguesa. Teremos que olhar primeiro para as nações que já existiam antes nessa terra, e que sobrevivem após reiterados apocalipses. Se ‘nosso’ projeto de nação não inclui também ‘eles’,  já nasce aleijado.

A Imprensa Subserviente e a política travestida de anti-política

Dizer isso não equivale a tecer louvores à operação da PF (+MPF + JF). Trata-se de mais uma operação midiática, que tem por objetivo ‘manter a opinião pública em estado de permanente exasperação e mobilização rancorosa’, para tomar palavras emprestadas de Reinaldo Azevedo.

Aliás, não custa perguntar: se a PF tinha conhecimento das denúncias há sete anos atrás, porque não tomou atitude antes? O que ficou fazendo esse tempo? Enchendo linguiça?

Nunca imaginei que viveria um dia para concordar com Reinaldo Azevedo. Mas em seu mais recente artigo, o colunista apenas confirma antigas suspeitas:
  • Setores do Judiciário, MPF e PF, a pretexto de 'punir a política 'corrupta' do país', não fazem outra coisa senão POLÍTICA. Ou seja fazem política travestida de anti-política.
  • Ao contrário do que transparece ao senso comum, o esquema de delações premiadas promove na verdade, a IMPUNIDADE que diz combater, afinal, qual é o que da delação se não a impunidade do delator?
  • Setores da imprensa tem agido de forma SUBORDINADA a estes órgãos - aquilo que em meus textos tenho chamado de 'agir como assessoria de imprensa de PF, MPF e JF'
Azevedo toma essa posição em defesa de seus próprios interesses, agora tão claramente contra os órgãos que antes louvava quando voltavam-se contra seus adversários, é justamente porque tem amigos e aliados no setor hora ameaçado.

A PF (+MPF + JF) deseja ardentemente que a sociedade se coloque sob sua égide protetora, e a imprensa parece aplaudir o protagonismo que é incapaz de exercer.

Mas, passada a ‘febre’, a mesma grande imprensa que com facilidade se curvou à narrativa da PF, agora curva-se aos seus maiores anunciantes: o ‘ogronegócio’.

Questionar a atuação desses órgãos cada vez mais ‘fora da casinha’, é facilmente confundido com ‘defesa do orgronegócio’. Pode ser para muitos, mas para outros tantos trata-se do necessário resguardo de quem não deseja criar os corvos do autoritarismo.

Fosse uma partida de futebol com um time representado pela PF e outro pelo ‘Ogronegócio’, o melhor resultado possível seria que ambos quebrassem as pernas.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Ninguém Liga ...

... para os animais que morrem atropelados na BR 364 

Meu fim de semana foi marcado por um incrível vai e vem entre Cruzeiro do Sul e o Rio Cigana, onde o afundamento da cabeceira da ponte, causou uma interdição temporária na BR 364. Foram umas oitos viagens ao todo. Não reclamo, até gosto, principalmente por passar por aquele trecho incrivelmente bonito coberto de mata nativa entre o rio Juruá que se estende até o Croa e termina pelo Lagoinha. A parte triste é se deparar com animais silvestres mortos na pista por atropelamento.

Em geral são as cobras, especialmente jiboias e sucuris, que são atropeladas naquela área, na maioria das vezes, propositalmente por motoristas que acham ‘estar fazendo um bem’, ao tirar a vida de uma cobra.

Sempre há também as mucuras. Mas quem se importa com aquele bicho feio e fedido, ladrão de galinhas? O marsupial que é considerado um fóssil vivo dos primeiros mamíferos pode ter sobrevivido ao meteoro que dizimou os dinossauros. Mas será páreo para as rodas? Também já vi mambiras (um tipo de tamanduá, para quem não conhece) e bichos preguiça, para citar outros mamíferos. Em tempos de alagação, jacarés cruzam a pista em busca de abrigo e muitas vezes acabam esmagados pelas rodas de carros e caminhões oferecendo um triste espetáculo para quem passa em seguida.

Se as pessoas não param sequer para gatos e cachorros, animais com que a raça humana compartilha experiências há milênios, o que se dirá cobras, lagartos, mucuras e preguiças?
Mas com tanta coisa para se preocupar, como as mercadorias que poderiam estragar na estrada, causando alta dos preços, porque esse jornalista(zinho, segundo alguns), vai se preocupar logo com os bichos.

O problema é que minha empatia não se encerra na humanidade. É claro que as agruras dos humanos me comovem. Mas os bichos também contam com a minha empatia. Deve ser porque sou de Oxóssi que sinto o pulsar do coração de um enorme lagarto jacaré que agoniza na estrada. Inteiro ele deve ter algo perto de um metro e meio, mas sua cauda está separada do corpo. E ainda se mexe. Não deixo de me admirar da beleza de suas cores que vão do verde ao vermelho em escamas que fazem lembrar os lendários dragões. Sua cabeça triangular traz uma boca larga. Parece até esboçar um sorriso que me leva a entender o que João Ubaldo Ribeiro quis dizer com ‘O Sorriso do Lagarto’.   

Vão passar décadas falando sobre a BR, sua trafegabilidade e sua importância, recursos investidos, aplicados e segundo alguns, desviados. Vão falar sobre a dificuldade de fazer uma rodovia em solo amazônico, das chuvas que não deixam as máquinas trabalharem, dos rios e igarapés que transbordam e acabam com a pista, da necessidade de se importar pedra e que a mesma pedra trazida para fazê-la, ajuda a destruir o que já foi feito. Vão falar sobre substiuí-la por uma ferrovia e apontar dedos um na direção do outro sobre porque ela está do jeito que está.

Mas os bichos não falam e então eu falo por eles. Falo que a rodovia foi embargada porque passa em uma região amazônica de alta biodiversidade, e que foi liberada mediante o compromisso de que haveriam passagens para os bichos, mas as passagens não foram feitas porque custariam caro, mas a rodovia custou caro mesmo assim. E mesmo assim, quem liga?

Já que não posso salvá-lo, decido que vou ao menos retirar seu corpo da pista. Colocá-lo na terra. Da terra à terra. Não quero ver aquela beleza esmagada continuamente pelas rodas dos carros e caminhões. Quisera eu poder retirar todos os bichos da estrada. Quisera eu que nenhum sequer morresse assim.   

Levo alguns minutos observando aquelas escamas perfeitas que parecem ter saído de um filme de ficção, mas obra nenhuma feita pela mão do homem terá a perfeição das escamas do rei lagarto.

...

Vestindo a roupa de gente de novo, digo: já que a rodovia será reconstruída que tal fazer as passagens para os bichos agora? Já que Cruzeiro do Sul almeja tornar-se polo turístico, tais passagens ajudarão a preservar o valor biológico de nossa região. Quanto dinheiro um gringo estaria disposto a pagar para ter uma fotografia como daquele lagarto morto na estrada.  

*Fotos retiradas da internet. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Morre Emiliano Dias Linhares, o Xamã ‘Gideon dos Lakotas’

Uma nota divulgada na página do facebook oficial do Céu de Nossa Senhora da Conceição confirma o falecimento de Emiliano Dias Linhares, conhecido como Gideon dos Lakotas.

O site oficial não traz maiores informações, apenas que a passagem se deu durante a madrugada, e que seu corpo seria cremado. Segundo a página, as homenagens serão prestadas durante o próximo sábado durante o retiro de carnaval no Céu Nossa Senhora da Conceição, onde Gideon era padrinho, em Cananéia São Paulo.

Até o momento não há informações públicas sobre a causa do óbito de Gideon, que tinha 53 anos.

A atuação de Gideon como líder religioso foi marcada por diversas polêmicas, a começar pelo uso do nome ‘Lakota’, que foi contestada pelos indígenas norte-americanos. Gideon também deu início a uma série de acusações contra o CEFLURIS, uma das principais linhas do Santo Daime, através do seu livro “Santo Daime Revelado”. 

Chegou a ser investigado pela morte da esposa, assassinada por criminosos em uma rodovia do estado de São Paulo. A investigação foi arquivada por falta de provas.

O blog Terra Náuas deixa registrada suas condolências aos familiares, amigos e discípulos de Gideon. 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Apu Auzangate e a dimensão material do sagrado

Auzangate: 6384 mts de altitude
É a segunda vez que cruzo os Andes naquela altura. Na primeira em 2009, realizei a façanha em uma moto 125 cilindradas. Acima de 4 mil metros de altura ela mais fazia barulho do que andava. Poderia ter escrito um artigo sobre como cruzar os andes em um barbeador elétrico, já que era o que sugeria o som do motor: um barbeador elétrico. O pouco oxigênio das alturas afeta drasticamente o rendimento dos motores. 
Aliás, não apenas os motores, mas de toda a vida. Naquela ocasião tive de fazer a subida em duas etapas. Uma parada em Marcapata, onde me assombrei com a história de condores atados nas costas de touros: costume andino que desconhecia e que estava representado em uma estátua de bronze de bronze na praça da cidade.

Recordo-me do clima aconchegante de uma pensão, onde moradores locais conversam animadamente em quétchua. Um deles, um jovem médico, tenta me fazer entender a formação das cadeias de montanha. É inútil. Meus conhecimentos geográficos não são suficientes para compreender as cadeias de montanhas, seus meandros e sobretudo, o significado para aquela gente.

Mas eles também ficam surpresos e estupefatos quando lhes digo que tanto o Madre de Dios, que corre pela face ocidental da montanha, inicialmente com o nome de Iñambari, quanto o Vilcambamba, que nasce na mesma cadeira de montanhas e corre no sentido contrário pela face oriental, unem-se novamente a quilômetros dali, quando o rio Madeira encontra o Amazonas. Olham-me com uma certa perplexidade. Era como se para aquele povo a proeza das águas contornarem o incontornável Auzangate fosse impossível. Ali a geografia era uma questão de sentir na pele da face, nos músculos das pernas e no ar dos pulmões, e em seus corpos eram marcados pela grandeza do Auzangate. Os rios serpenteantes das infindáveis planícies da Amazônia não fazem parte desta realidade.

A vantagem de subir em duas etapas, foi o tempo necessário para uma adaptação à altitude. Quando cheguei à Abra Piurani, a 4237 mts, não senti absolutamente nada além do frio, com a proverbial ajuda, é claro, das folhas de coca.

À minha frente, este ele, o Auzangate: um trono celestial que se ergue em direção ao firmamento, impondo à geografia, sua condição divina. Talvez por isso, haja tantas oferendas na margem da estrada. A maioria são montículos de pedra em que são depositadas folhas de coca, mas há também algumas de bebida e retalhos de lã colorida.

Intuitivamente, faço o mesmo, e oferto ao Auzangate um punhado de folhas de coca, arrumadas em um montículo de pedras. Uma singela homenagem ao gigante cujo olhar das alturas, é inescapável.

Desta vez estou com um equipamento melhor. Minha moto tem 250 cc e injeção eletrônica, o que significa uma capacidade de auto regulagem. Com isso, a moto perde pouca potência e a subida acontece de uma única vez. Mas, desta vez quem sentiu fui eu. Faltando alguns quilômetros para o ‘abra’, sou tomado de uma vertigem, como quem olha para baixo do alto de um arranha céu. 
Concentro-me, e depois de serpentear cuidadosamente, e sem nenhuma pressa pela estrada, finalmente consigo chegar ao ‘abra’, já totalmente consciente que é o poder do Auzangate que rege minha sorte.

Desço da moto e apesar da belíssima paisagem, nem sequer penso em selfie. Quero mesmo é me por de joelhos aos pés do Auzangate, agradecer por ter chegado até ali, e pedir proteção para o seguimento da viagem. Me vem a memória um velho amigo, o acreano de origem libanesa Gamal Murad. Tão apaixonado quanto eu por aquela montanhas, Gamal sofreu um acidente fatal naquelas altitudes, no final do último ano. A lembrança de que era um responsável motorista e experiente naquelas estradas, somente reforça meu temor de percorrê-las.

Dou poucos passos e a vertigem me domina por completo. Faço uma pequena oferenda de folhas de coca, pedindo ao Auzangate que me permita ir e voltar daquela viagem. Substituo a coca já mascada por um novo chumaço e quando vou subir na moto, sinto um quase desmaio. Aí para frente vem a descida, o que torna este trecho especialmente mais perigoso. A moto morre e não consigo dar na partida novamente. Sou obrigado a deixar que pegue um embalo na descida.

Olho par os lados. Nenhum caminhão. E deixo que a montanha faça o trabalho que minhas pernas, naquelas condições, jamais poderiam. Felizmente, não é preciso muita descida e ela logo pega no tranco.

Vou serpenteando montanha abaixo com atenção redobrada. Se a face ocidental dos andes estava relativamente quente e seca, a face oriental incrivelmente está fria. O degelo dos andes parecem acentuar a sensação térmica do frio. Mas o frio intenso também permite sentir a radiação solar das paredes das montanhas. Aquele SENTIR me traz algo de devoção, análogo talvez ao que um fiel sinta durante um culto em sua igreja. Ali está a maior de todas as catedrais, com paredes de rochas, vitrais de gelo e fontes de cristalina, aquecidas e iluminadas pelo Sol no firmamento.

Penso que estou tendo ali, um vislumbre do que possa ser a cosmovisão andina: um sentido de devoção não voltado ao abstrato, mas às coisas materiais e concretas que determinam nossas vidas. Por isso talvez, o epíteto APU Auzangate – Senhor Auzangate. São senhores absolutos da vida ali afinal, a montanha, e o Sol.

E como vivem afinal, naquelas altitudes, aquele povo de face rosada, queimada pelo Sol, pastoreando suas lhamas, em casas feitas de rocha e adobe. Sabem melhor que ninguém quem são os senhores que ensinam a viver em condições tão extremas.

A indicação de uma pequena parada ‘caldo de cordeiro’, parece promissora. E de fato é. O caldo e um chá de coca e um pouco de maca me põem de pé novamente. Mas eu, o garoto tropical, cometo a burrice de deixar o capacete no espelho da moto. Ao vesti-lo novamente me dou conta da burrada: havia se convertido em um bloco de gelo. O resultado do frio agudo sobre as têmporas é uma persistente dor de cabeça. Mais à frente vem chuva. ‘É só um sereno’, penso eu, mas o ‘sereno’ ainda que não se compare com as chuvas torrenciais com que me acostumei na Amazônia, traz um frio que penetra até os ossos. As luvas já não adiantam de muita coisa e minhas mãos estão dormentes. Nas pernas, anuncio de câimbras. E na alma o medo de que a falta de sensibilidade me leve a um acidente.

Paro a moto e urino sobre minhas mãos: um jeito estranho, mas eficaz de trazer de volta a sensibilidade perdida com o frio.

Serpenteio a estrada até o seu fim em Urcos e depois em uma quase reta até Cuzco.
Já depois de um banho e aquecido sob cobertores, as redes sociais trazem notícias sobre minha cidade, Cruzeiro do Sul, enfrentando uma alagação sem precedentes históricos.

“O Juruá é nosso APU’, penso eu, em uma improvável adaptação amazônica da cosmovisão andina. 
rio Juruá


Mas aqui é ele afinal, quem determina nossa vida. Suas infindáveis curvas, serpenteando amazônia adentro é que dizem como devemos viver por estas bandas. Se há terra para habitar, é por que o rio assim permite. Se a serpente se mexe -e ela se mexe - águas e terras cambiam seus lugares e somos nós, e não Ele, o APU Juruá, que tem de se adaptar.

“Não faz sentido essa divisão entre material e espiritual. Essa é uma divisão da mente do homem branco, do europeu, do dito civilizado, que precisa voltar sua devoção ao abstrato, para se livrar do sentimento de culpa de quem profana o mundo que habita”.


Tais palavras me foram ditas por um ‘Amauta’ (sábio) andino, anos atrás e encontram eco, nas palavras de Ailton Krenak: “O sagrado está no olhar de quem vê, e quem vê uma montanha apenas como uma pilha de minérios a serem transformados em quinquilharias, certamente não pode, ou não consegue, ver a dimensão sagrada de tudo que nos cerca.”  

domingo, 12 de fevereiro de 2017

‘Ah, Kambô Kambô Ho!’: Uma cerimônia de ayahuasca me mostrou os possíveis riscos da medicina

Há anos era a mesma coisa: durante as cerimônias de ayahuasca, sentia uma forte impaciência, que me levava a cantar, balançar o maracá, ou me agitar de qualquer maneira, antes mesmo da manifestação plena da miração.

No dia-a-dia, uma coisa me perturbava imensamente: ao por exemplo procurar uma chave, um isqueiro ou um documento que fosse, meu coração começava a se agitar e era tomado de um desconforto muito grande. ‘Bem, isso sou eu, mas é também algo mais’, pensava.

Minha intuição me levou a buscar, do outro lado da fronteira, o conhecimento do povo Shipibo. Com população estimada em mais 20 mil pessoas (alguns relatórios falam em até 35 mil), em cerca de 140 comunidades é o grupo Pano mais numeroso. Em muito sua cultura se assemelha com os grupos pano do Acre, mas por terem se estabelecidos nas margens de um grande rio como o Ucayalli, ao invés de zonas interfluviais como os grupos Pano no Acre, sua cultura ganhou os contornos de uma cultura difundida por uma extensa zona.

Na verdade, ao visitar os Shipibo, tenho a sensação de que deve ter havido no passado algo como uma civilização Pano a qual pertenceram povos dos lados da fronteira, criada séculos depois, pelo homem branco. Inclusive consta em um mapa etnográfico do padre Tastevin a identificação de grupos Shipibo na região do Juruá no século XIX. Com diferenças mas também muitos elementos culturais em comum, esses povos por vezes tiveram também seus conflitos, talvez de modo análogo com que guerreavam as cidade-estados da Grécia Antiga, mas ainda assim, compartilhando suas crenças e visões de mundo, mitologias e sistemas de conhecimento.

Acredito ser por conta de sua predominância numérica ou talvez mais ainda pelo intenso contato com outros povos, que o sistema de conhecimentos tradicionais dos Shipibo tenha se desenvolvido a um nível prático ao ponto de seus curandeiros não serem vistos pela população local apenas como um exotismo. Trata-se de medicina popular, a qual recorrem pessoas de Pucallpa, Lima e Cusco, por exemplo. Quiçá os curandeiros Chipináguas, descritos pelos cronistas incaicos, já não percorriam as altitudes realizando atendimentos ainda durante o Império Inca. Se do lado brasileiro, a colonização branca forçou os povos indígenas a um isolamento entre si, o fluxo de conhecimento entre diferentes culturas e pisos ecológicos parece ter sido uma constante dentro da lógica do Tawantinsuyo.

Esses sistema utiliza um sem-número de plantas medicinais. Mas o kambô, medicina de origem animal, não é uma delas.

Meu contato foi com um jovem Xamã, ou nas palavras dele, Curandeiro. Diego tem apenas 31 anos, mas nasceu imerso dentro da cultura do curandeirismo vegetalista, e tem se dedicado ao aprendizado há doze anos.

Diego dizia-me que eu não necessitava de longas dietas, que eu já as tinha e que seria apenas caso de ‘arreglar-las’ e ‘endereçá-las’, pois estavam como que emaranhadas em um ‘bolão’.
Sendo assim, dirigi-me à comunidade Vista Alegre no rio Paichitea, afluente do Ucaially, para uma curta dieta de dez dias.

Deu início ao tratamento com o ‘Chumpá’ (não confundir com o chumpê – floripôndio). Trata-se  um cipó de odor semelhante ao cravo . Nos dias subsequentes, foi administrado o ‘Ajo Sacha’ (‘Alho em folha’, em uma tradução aproximada) e a Guayusa (também uma folha perfumada, de limpeza). A cada dieta, na noite seguinte, Diego conduzia uma cerimônia de ayahuasca, onde as plantas são ‘icaradas’, ou seja, canta-se para que suas propriedades manifestem-se como medicina no corpo do paciente.

Na terceira cerimônia, senti muito fortemente, uma palpitação no coração que foi se intensificando até o ponto em que mal conseguia respirar. Foi quando me dei conta, de que aquele efeito não era da ayahuasca que havia tomado, mas reproduzia ou emulava o efeito do kambô.

Aquilo deveras me surpreendeu. A última vez que tomara Kambô fora há cerca de três anos, com um pajé katukina. Contudo, a miração não me conduzia a esta ocasião, mas há cerca de 18 anos atrás, tempo de minha chegada à Amazônia, quando fiz um uso bastante frequente da medicina, por cerca de um ano. A miração mostrava-me que o uso continuado, sem as adequadas dietas e resguardos, resultaram em um efeito descontrolado, que permanecia em níveis muito internos do corpo.

Tive a sensação de que alguma das válvulas de meu coração estava dilatada em relação às demais, o que causava uma sensação de coração inchado e trazia uma sufocamento. Em alguns momentos parecia que o coração iria explodir. O que assustava era que aquele efeito não se dava durante uma aplicação de kambô, mas em uma cerimônia de ayahuasca, muitos anos depois. Ou seja, havia um efeito residual, que permanecia no corpo.   

Comuniquei a sensação a Diego que passou a ‘icarar’ o kambô. Dizia-me que estava como veneno, e que estava a convertendo para medicina.

Na mesma hora, me veio aquele velho postulado de que a diferença entre um veneno e o remédio é a dose. Mais do que apenas a dosagem, as dietas e resguardos subsequentes são essenciais para que uma substância possa ter efeito positivo e não negativo, no corpo. Mais ainda quando se trata de uma substância da potência do kambô. Dentro de sistema de conhecimento Shipibo, uma substância só torna-se medicina quando ‘icarada’, ou seja, quando se canta para essa medicina, e simultaneamente também para o corpo do paciente. Dentro dessa visão somente assim é desperto seu potencial curativo e pode trazer benefício. 

Não por acaso, o pajé katukina que me aplicou a medicina cantou o equivalente 'ícaro' do Kambô: 'Ah!, Kambô, Kambô Ho...' 

Pensei também, ser muito improvável que a própria substância em si, pudesse ainda estar em meu corpo 18 anos depois. Ou mesmo três. Mas isso somente testes poderiam identificar. O que a miração mostrava-me era se tratar muito mais de uma memória específica do efeito, guardado em receptores neurais no corpo, que sob condições específicas poderiam ser acionados e se manifestar, ainda que em níveis internos estivesse sempre presente. Pensei também que nem tudo poderia ser atribuído ao kambô, mas à minha própria estrutura psíquica, com o kambô atuando sobre ela.

Não quero com esse texto contribuir para uma ‘negativação‘ do kambô. Centenas de pessoas relatam melhoras em suas condições de saúde que variam desde gastrites até dores crônicas.

Destaco também que o que foi apontado pela miração foi que minha própria imprudência, por ter tomado kambô seguidamente e segundo minha própria vontade por pessoas talvez tenha sido a causa desse efeito. Tampouco cumpri resguardos que considero necessários. Isento de qualquer responsabilidade as pessoas que me aplicaram o kambô nesse período e a assumo completamente.

Outro ponto que vale mencionar também é que a vida de um índio na floresta já é, em si, uma ‘formação’. Longas caminhadas na mata, sol e atividades físicas intensas desde a mais tenra idade, mudanças bruscas de temperatura e mais uma série de outras especificidades da vida indígena que suponho, tenham efeito sobre questões como pressão sanguínea, pulsação e a ‘calibragem’ das veias.

Vejo-me compelido a escrever este relato pessoal, movido principalmente pelo senso de responsabilidade. Meu TCC de graduação em jornalismo foi sobre a expansão do uso do kambô nos centros urbanos do país, que naquele tempo vinha começando a ser popularizado  entre a população não-indígena. Então de certo modo, fui também um dos responsáveis pela sua difusão. Somente por esta razão que considero meu dever compartilhar essa experiência pessoal como forma de alerta.

Hoje, com a medicina difundida não apenas no Brasil, mas já em todo continente, EUA e Europa, e com o relato de pelo menos duas mortes por efeito direto ou indireto do uso de kambô, acho prudente, e necessário, apontar possíveis riscos para o seu uso indiscriminado.

Pesquisas científicas sugerem a eficácia do kambô para o fortalecimento do sistema imunológico, entre outras coisas, o que significa que vale a pena continuar os estudos. Para quem busca a medicina em sua forma tradicional, vale também saber de possíveis resguardos e restrições, quantidade, frequência e etc. Sobretudo, respeitar os próprios limites do corpo, muitas vezes acostumado à vida mais ou menos sedentária das cidades.

O Kambô, é uma medicina forte e sagrada que pode inclusive, sem dúvida, salvar vidas, e justamente por essa razão deve ser tratada com o respeito que merece.

PS: Quanto ao trabalho dentro do conhecimento Shipibo com a ayahuasca, deu resultado: na cerimônia seguinte, não tive mais aquele efeito, e posteriormente não senti mais a impaciência e palpitação descontrolada de antes.


Imagem: site Herpetofauna

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Agronegócio não sobreviveria sem produtos de origem indígena

Contextualizando: a apresentadora do programa ‘Sucesso no Campo’, Fabélia Oliveira afirma que se os índios querem preservar sua cultura deveriam parar de usar geladeira e morrerem de malária e tétano. A declaração polêmica faz parte de uma série de reações do setor do agronegócio ao samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense  que neste ano, homenageia a resistência dos xinguanos à usina de Belo Monte e ao agronegócio.
Se a opinião externada pela apresentadora fosse algo restrito ao setor do agronegócio, não seria tão preocupante, mas essa é certamente a opinião de boa parte da sociedade brasileira, que infelizmente, desconhece os processos históricos que levaram a sua própria formação.

Remédio da Malária: descoberta indígena

A tese da apresentadora é de que o remédio para a malária seria uma descoberta ‘do homem branco’ e portanto de uso exclusivo destes e daqueles que, não sendo brancos, submetem-se  às vontades e desejos do colonizador para ter direito a tais benefícios. Aos demais estaria reservada uma honrosa morte.
Nada mais equivocado. A malária não existia nas Américas.Foi introduzida pelos colonizadores. Credita-se ao povo Napo Runa e aos seus métodos tradicionais de diagnósticoe profilaxia de doenças a descoberta do uso do quinino presente em cascas e cipós como a quina-quina para o tratamento da malária.

O Napo Runa descobriram mais de mil plantas medicinais, algumas em combinações complexas, e descobriram a maioria deles em um tempo muito curto, em apenas um século ou mais de a introdução de doenças europeias. Na verdade, embora o mundo já tenha conhecido a malária há milhares de anos (foi descrito na China em 2700 aC), e não tinha remédio para ele, dentro de 25 anos da introdução da malária na Amazônia, o primeiro medicamento para a malária, o quinino, extraído de uma planta, foi descoberto pelos povos indígenas no Equador.’ Gayle Higpine, etnobotânica
O atual tratamento: cloroquina, primaquina, mefloquina, foi um aperfeiçoamento de laboratório de um tratamento tradicional. Também não são poucos os medicamentos que hoje fazem parte da farmacopéia  ocidental que tiveram origem no conhecimento tradicional.
Dito isso, vamos agora aos produtos utilizados pelo agronegócio que foram antes domesticados pelos povos indígenas das américas.

Milho, Batata, Tomate e Cacau

A lista de plantas conhecidas e domesticadas por povos indígenas e que hoje fazem parte de nossa alimentação diária é tão grande, que sobraria pouca coisa se fossemos aplicar a ‘regra de ouro’ da apresentadora.

O milho, tão importante para o agronegócio certamente encabeçaria a lista. Presente em centenas de produtos industrializados, o milho cuja safra supera as 200 mil toneladas é um produto de origem 100% indígena, cultivado em dezenas de diferentes espécies nas três Américas.
Segue na lista, a batata. Cultivada nos Andes por milênios, salvou milhões de europeus de crises famélicas e é hoje importante produto não apenas para o agronegócio, mas para a alimentação praticamente no mundo todo.

Podemos lembrar ainda da brasileiríssima mandioca, domesticada pelos povos indígenas e presente seja in natura ou através dos derivados: farinha e a goma (fécula), com que se fazem biscoitos e tapioca.

Do mesmo modo, o tomate, outro importante produto do nosso dia-a-dia, é também um produto de origem ameríndia. Ou seja, para fazer valer sua regra, Fabíola pode dar adeus ao molho de tomate na pizza e na macarronada.

O chocolate foi uma invenção europeia ao acrescentar leite à massa de cacau, que já era cultivado, processado e consumido milenarmente por povos indígenas da Amazônia e da América central.
À essa lista acrescentaria ainda o mate, tão utilizado pelo ‘homem do campo’ do Brasil Central como estimulante seja na forma de tereré gelado ou do chimarrão quente. O mate é indígena também.  
Entre as frutas temos o abacaxi, o maracujá, o cupuaçu, o açaí, a goiaba e outras dezenas de produtos que importantes ao setor agrícola nacional.

Há ainda o guaraná, estimulante conhecido originalmente dos índios da amazônia, e poderíamos acrescentar na lista até a coca-cola, já que que a coca é de origem ameríndia. E o pequi, fruto símbolo de Goiás, terra do agronegócio, advinha quem já o conhecia a ensinou aos recém-chegados na terra?

Até mesmo o adoçante Stevia, presente em refrigerantes diet, é também um legado do conhecimento indígena sobre a terra que ocupam, habitam, vivem e produzem há pelo menos cinco mil anos.  

sábado, 17 de dezembro de 2016

Multiculturalismo é civilizatório, Etnocentrismo é tribal

Somos híbridos. E isso é um fato. Ao tentar delimitar as fronteiras do que seria a ‘civilização ocidental’ nos deparamos com inúmeros e insolventes problemas. Podemos começar traçando a origem de nossa civilização ocidental na Grécia Antiga. Mas como negar nesta, por exemplo, a influência da primordial, e africana, civilização egípcia?
Quantos amálgamas foram necessários, para que os antigos gregos, absorvessem, via mediterrâneo, influências egípcias, cretenses, fenícias, mesopotâmicas?
Imaginem nosso ‘civilização ocidental’ sem os números indo-arábicos? Teríamos avançado tanto no campo da engenharia, sem a contribuição dos árabes? Que mais? Medicina. O que seria da medicina sem Avicena. O que seria da filosofia ‘ocidental’, sem Averróis e os tradutores moçárabes?
Como ibéricos, deveríamos compreender melhor do que ninguém o sentido de sermos híbridos: celtas, ibéricos, romanos, germânicos (visigodos e suevos), iranianos (alanos), moçárabes do norte da África, judeus, ciganos. A mais ocidental das penínsulas europeias é também a mais mestiça. Já chegamos à América bastante misturados, e continuamos nos misturando. Seria possível definir a cultura, ou a ‘civilização’ em que estamos inseridos descartando estas contribuições?
Somos uma civilização ocidental fundamentada em cima de uma religião oriental. O Cristianismo é sobretudo oriental, latinizou-se, é verdade, mas é possível pensar o cristianismo sem a influência decisiva do Zoroastrismo. A antiga religião persa foi quem nos legou o maniqueísmo de um mundo dividido entre bem e mal. Ainda que se questione se tal legado é antes benção, ou maldição, o fato é que a concepção surgiu na Pérsia, atual Irã. Antes a ética era fundamentalmente tribal e as noções de bem e mal estavam associadas ao ethos local.
O Judaísmo, esse sim, o supra-sumo do etnocentrismo elevado à condição divina. Ocidental? Talvez. Mas esse sem dúvida é um traço excludente que permeia nossa civilização. Nós, e os outros.
Judaíco-Cristã, greco-romano. É o que define ‘civilização ocidental’, ainda que seus pilares tenham surgido no oriente, próximo, médio ou até distante. Há quem alegue a influência do budismo, por exemplo, em concepções filosóficas ‘ocidentais’ posteriores.
Mas quem somos ‘nós’ e quem são os ‘outros’? A divisão parece ser muito mais fruto de nossa própria vontade de nos diferenciar do que de algum dado real ou concreto. O expediente vem de longa data. Os gregos se diferenciavam dos ‘bárbaros’: todos aqueles que não falam grego (os romanos eram a princípio ‘bárbaros’ para os gregos). Os judeus falam dos ‘gentios’, a ‘gentalha’ que não foi escolhida para ser salva.
Recentemente, li no face, uma postagem que juntava índios, negros e islâmicos numa mesma panela. Eram os ‘outros’, capazes de aberrações inomináveis como por exemplo, a mutilação genital. Contra eles, deveríamos estar vigilantes, a fim de manter nossa civilização a salvo.
A mutilação genital acontece em mulheres em algumas tribos da África, e definitivamente, não é um ‘valor’ que parece ter a capacidade de ser absorvido, ou adquirido, pela nossa civilização.
O apelo de vigilância contra o multiculturalismo parte de Olavo de Carvalho, o mesmo que tem procurado relativizar as torturas e mortes da inquisição. Para Olavo, teria sido apenas um ‘complô’ dos protestantes a fim de desacreditar a igreja católica. Segundo Olavo, as mortes na fogueira foram bem menos cruéis do que se imagina, já que as vítimas morriam asfixiadas e não queimadas. Que alivio!
O que será que Olavo diria das teses do antropólogo mexicano Frank Díaz, de que na verdade, os relatos de sacrifícios humanos na América seriam apenas invenções da igreja católica para justificar a tomada de terras?
O que pode ser mais etnocêntrico do que justificar as atrocidades de sua própria ‘civilização’? Um comportamento bastante ‘tribal’ eu diria.
Ao fim, o que define ‘nós’ dos ‘outros’, parece muito mais ser explicável em termos de medos irracionais do que por parâmetros objetivos.

Somos híbridos, e quando for pensar no assunto das chamadas ‘trocas culturais’ que tanto assustam a Olavo e seus seguidores, prefiro pensar não nas mutilações genitais, mas por exemplo, em uma técnica ancestral de tecidos de povos andinos na Bolívia que estão sendo utilizadas para reparar danos cardíacos.